terça-feira, 16 de novembro de 2010

Geração stand-up

Uma jovem prima me levou a uma festa neste último ferido. Numa casa na praia de Juquehy com muitas árvores e bosques. Quando cheguei notei que as pessoas eram muito bonitas, bonitas mesmo.

Depois reparei que eu era o mais velho do lugar. Lá pelas cinco e meia da manhã resolvi que não incomodaria nem a prima nem outras amigas que acabei encontrando na baladinha e iria voltar a pé mesmo pela praia vendo o sol nascer.

Nem mesmo dei dez passos um desses carros grandes importados parou ao meu lado e baixou o tatinho que as janelas blindadas baixam.

“Você quer carona?”

No início achei que a menina queria alguma informação.

“Pra onde vocês tão indo?”

“Pra onde você quiser”.

Entrei no carro. Havia três meninas de vinte anos. Perguntei quem eram.

“As da faap levantem a mão”. Disse a de trás que junto com a do banco de passageiro levantaram a mão.

“As da puc levantem a mão”.

Dessa vez a do volante levantou a mão.

Pensei comigo. Esse é o primeiro trauma que essas jovens vão levar pra vida. Nada de usp. Porque um universitário da usp não tem teatro pra dizer que é da usp. Ele diz assim meio que jogando fora:

“Faço usp”. Baixinho, como se não tivesse importância.

Depois de alguns “conhece?” Descobri que era amigo de um primo de uma delas e que meus pais conheciam a família da outra.

Mesmo eu e aquelas três meninas não sendo da mesma geração éramos da mesma tal Zelite paulistana. Mas como elas me vendo de havaianas, calça jeans rasgada e camiseta sabiam disso?

O que será que elas pensaram? “Vamos dar carona pra esse menino, porque ele é um dos nossos? É um eleitor do Serra. Conhece Paris, tem também um irmão que vive em Nova York, freqüenta um clube tradicional como nosso talvez até o mesmo clube. Tem caseiro, é neto de imigrantes, ou bis neto no caso delas. Enfim ele tem pedigree como nós, logo vamos ajudar a classe”.

Ou será: “Veja esse tiozinho! Parece um naufrago, vamos levar ele tadinho”. E se fossem aquele grupo de meninos da paulista me espancariam achando que estavam sendo homofônicos?

Olha, diz o historiador Jacques Le Goff que o termo geração foi inventado pela geração dos anos sessenta. Anteriormente alguém que nasceu 12 anos antes de você ou doze anos depois não necessariamente compartilhava das mesmas vivencias.

Digo tudo isso porque não senti naquelas três, algo de afinidade real. Confesso que somos ou temos a mesma origem e procedência. E que apesar do meu fraco por lolitas nem todas as jovens me provocam a alma.

O que me atrai, é uma coisa de menina e mulher ainda em formação. Como se fosse uma obra em processo. Quando enxergo que aquele ser tem potencial. Que não se ensina nada a essa pessoa, apenas se mostra o que ela já sabe, mas não via.

“Você nasceu em 1974?!?!”

“Nasci”.

Vendo a satisfação delas de imaginarem que terão ainda 16 anos pelo menos de curtição pela frente, me dá vontade de dizer e aconselhar alguns pontos:

Primeiro não confiem no seu dna. Larguem os carboidratos e comecem uma academia já.

Segundo amem, amem muito, sofram. Mas dêem bastante também, porque uma coisa não exclui a outra.

Terceiro não acreditem que as gerações passadas foram melhores. Vocês são a geração “stand-up”, algo pós a geração “veio”. E por mais que os babacas nostálgicos torçam o nariz pela total liberdade de expressão que vocês têm, dizendo que vocês são alienadas, não acreditem.

Porque no fundo stand-up incômoda porque pode tudo, até ser alienado. Porque só existe na democracia. Porque faz parte da natureza do jovem ser preguiçoso e alienado.

Poderia fazer também listas de filmes que elas devem ver. De livros que devam ler.

“É nesse portão aí”.

Vi nos olhos delas que aquele passeio com o garoto-homem fora muito rápido. Um menino que ainda está em formação, em processo. Tão diferente delas, que já estudam e fazem estagio e só estão na pilha porque é feriado.

Mas vocês queriam o que? Que eu as convidasse para entrar? Fazer duas duplas de pôquer?

“Vocês jogam cartas?”

“Tipo cigana?”

“Não tipo baralho?”

“As que jogam levantem a mão”.

Chaplin dizia que o sol nasce todo dia e sem platéia. Ele era geração stand-up na veia.

sábado, 13 de novembro de 2010

Dóris

O GLADIADOR E A LEOA.




Gladiador entra em cena. Está perturbado. Anda de um lado para o outro.



 Gladiador- Para o público. Não vou mais botar o pé no Coliseo, nunca mais. Eu particularmente não me sinto velho. Um cabelo branco aqui outro ali. Tudo ia muito bem até este negócio de super interpretação, de vivenciar as lutas. Na minha vã opinião, um gladiador deve lutar e vencer seus oponentes. Se a platéia não acha as lutas cênicas interessante o suficiente que vá ao teatro. Foi exatamente isso que eu disse ao meu chefe o produtor de lutas. Ele olhou bem nos meus olhos e deu um sorriso.

 Produtor. "Mas é isso mesmo que ia agora te propor".

Gladiador sem entender. "Propor?"

"Propor. Acho que tem tudo a ver".

"Tudo a ver o que?"

"Teatro".

"Mas eu nunca nem fui ao teatro, quer dizer, nunca fui com freqüência. Prefiro o circo. O que é que você quer dize com tudo isso?"

"Meu querido há anos você entra na arena encara os leões e os mata"

"Mas eu não sou pago pra isso?"

"Claro que não. Se eu quisesse que alguém só matasse os leões eu contrataria um açougueiro. As pessoas vêm ao Coliseo para ver espetáculos e não leões cansados e amedrontados. E sim as terríveis feras da áfrica"

"Só que se eu demonstrar medo corro o risco é dos leões é ficarem muito valentes. E você sabe como esse meio é fofoqueiro se um leão percebe algo já conta pra leãozada toda"

" Só estou dizendo que arrumei um professor de teatro que vai te ajudar a sentir medo dos leões".

 Eu bem da verdade até aquele momento nunca havia é sentido nada pelos leões. Nem dó, nem medo, nem amizade. Eu nunca fui muito de me relacionar com eles não. Afinal no fundo eu tinha é de matá-los e eles, os leões, sabiam disso. Mas depois de uns meses tendo aula com um ator eis que volto ao Coliseo em um domingo de casa cheia..



Para a minha surpresa neste dia aconteceu algo de extraordinário. Já na arena depois de terem aberto as portas dos leões, o sol batia nos meus olhos e vi uma criatura ao longe. Eu podia ver só o contorno do leão a platéia estava calada e havia um jeito diferente desta leão andar... Um andar lânguido sensual foi quando percebi que não era um leão e sim uma leoa. Mas isto não era ético! Nunca haviam me posto pra lutar contra uma fêmea. O programa dizia que eu enfrentaria uma perigosa criatura. Bem o programa não mentira aquela leoa me deu uma olhada e a minha espada caiu. Era um olhar assim meigo, daquela leoa que nem adulta era então, uma quase adulta uma adolescente. Então eu de repente... Eu me... Apaixonei como nunca havia me apaixonado antes. São coisas que nós não planejemos na vida. Quando eu imaginei que nesta altura da vida eu ia me apaixonar por uma colega de trabalho. A desgraçada naquele dia parecia ter também se apaixonado, combinamos ali mesmo para desespero da platéia um jantar naquela mesma noite numa churrascaria cristã.



Ela se chamava Dóris. Tinha lá suas manias, que logo descobri, pois ela foi morar na minha casa. Adorava compras principalmente bolsas e artes plásticas. Dóris me convenceu em fazer um curso com ela de história das artes plásticas, um curso de dez aulas desde do Egito antigo até as pinturas modernas romanas. Eu como estava disponível mesmo, havia sido mandado embora do Coliseo, também depois daquele vexame eu e Dóris nos beijando e o público jogando tomates. Dez anos de uma carreira de gladiador encerrados por alguns instantes. Acho que tudo começou com as aulas de teatro, acho que fui me tornando mais sensível. Como eu estava apaixonado não me importava mais com nada deixei de freqüentar os eventos e as rodas sociais dos gladiadores e cada vez mais Dóris me levava para o mundo das artes, dos descolados. As pessoas em geral se chocavam muito quando nos viam juntos, não tanto por Dóris ser uma Leoa, afinal nós estamos em Roma, mas pela diferença de idade. Mas não a galera das artes. Nossa turma. Nunca me senti tão à vontade junto dos artistas. Só que alguns meses depois ela começou a agir estranhamente, havia se tornado vegetariana e dava desculpas para não transarmos mais, eu comecei a imaginar que havia outro na história, e eu tinha razão havia, uma outra, uma Leoa.



Dóris me abandonou, veio com aquela velha história o problema é comigo, você é legal e tal. Passei a beber e a sair todas as noites, até fiz um papel no teatro, uma ponta numa comédia eu fazia um gladiador, não tinha fala, mas adorava. Um dia um produtor amigo meu disse que Dóris estava namorando uma Leoa que trabalhava no Coliseo, era uma campeã invíquita. Pedi a ele que me colocasse pra lutar com ela, e ele colocou.



Outra tarde de domingo o Coliseo lotado. Minha cabeça doía, a cachaça dava voltas no meu estomago e quase morri de medo ao ver o tamanho da leoa que entrou. Foi outro vexame tentei me agüentar ao máximo, mas ela me derrubou e nocauteou em instantes, quando pedi água e abri os olhos foi que vi Dóris na platéia. Ela ria e abraçava o produtor lhe dando beijinhos. Canalha ele a havia roubado da Leoa. Essa Leoa gigantesca e eu, ambos abandonados por Dóris, saímos para tomar umas cervejas. Trocamos confissões e ambos falamos mal de Dóris, depois resolvemos montar uma dupla e nos apresentar juntos, em teatro talvez. Essa dupla nunca aconteceu.



Agora estou aqui e me decidi, não volto mais ao Coliseo. Vou fazer teatro. Ser um ator trágico, daqueles que vive com os olhos vermelhos e fazem personagens que tem um conflito misterioso e estão sempre amargurados e são irresistivelmente sensuais. Aí não vai ter Dóris resista. A verdade é que as fêmeas não gostam de bufões, nem de gladiadores. Elas se apaixonam por atores trágicos, de olhos vermelhos, amargurados, dopados e de falas gritadas. E os Bufões e gladiadores por sua vez se apaixonam por feras perigosas, lindíssimas e com cérebros de Leoas.

domingo, 7 de novembro de 2010

A menina espera na esquina


“Poio (Pollo).” Eu digo.

O garçom me pergunta qual parte. Ao mesmo tempo em que coloca a mão no próprio peito e na própria perna. Quase desisto de pedir o prato só de pensar na perna humana do senhor e gordinho chileno. A fome falou mais alto e mostro a foto da coxa de frango no cardápio.

Ele se afasta e eu olho pela janela às duas horas da tarde de um sábado quente em Santiago. As pessoas fechando as lojas, indo almoçar. Os turistas, estudantes indo ver a Praça das Armas. Todos se movimentam como numa 25 de Marco, como num 31 de dezembro.

Então a vejo pela janela. Todos passam e ela lá. Parada, aflita procurando alguém naquela multidão. Alguém que não chega. A menina é linda seus pés estão grudados no chão para tentar enxergar por cima da multidão.

Imagino como será o menino que não chega. Se fosse comigo, eu moveria o mundo para não fazer aquela menina esperar. Talvez por isso ela não esteja me esperando e sim ele, que não chega. Descubro que talvez a idade tenha me trazido o desejo de ser um alcoviteiro, um cupido.

De tentar achar um garoto pra ela. Bonito como ela, aflito, apaixonado, fiel. Será que é um menino da idade dela que ela espera? Um estudante? Um amor colegial? Será que por ser jovem e belo ele não perceba a sorte que tem de ter uma mulher tão, tão... Meu Deus ela linda!

Virou o rosto. Viu-me aqui dentro do restaurante. Será que ainda sou um rapaz em condições de flertar com essa estudante? Voltou a olhar pra frente, acho que nem me viu, talvez imaginasse que ele o belo e jovem rapaz estivesse aqui dentro. Ou me viu por um instante e achou que eu era ele, e depois viu o engano. “É só um tiozinho me olhando”. Deve ter pensado. Ou ainda nem me viu como se eu fosse transparente, sei lá. Como vou saber se ela não esboçou nada? Reação nenhuma.

Agora ela vê o celular, se mexe um pouco e volta a olhar pra frente, aflita. Será que é um rapaz igual um que eu vi outro dia, sábado a noite no Pão de Açúcar com uma flor e um pote de sorvete? Aquele rapaz me comoveu, com dois objetos na mão e ele dizia tudo. Que combinação. Um artista.

Quem será que come as mulheres lindas? Sim porque essa não fica atrás da Helena de Tróia. quem são eles? Eu sempre me pergunto isso quando vejo uma bonita cantora, uma bailarina maravilhosa, uma extraordinária Hostess de um elegante restaurante. Quem será o felizardo por quem essa mulher linda se entrega?

Por Helena aconteceu uma guerra. E como por essa aí fora de igual beleza, ninguém se move? Eu vou levantar e ir ajudá-la. Saber onde está esse louco desse menino.

Perca o emprego menino, mate alguém se necessário, roube um banco, mas não deixe uma mulher dessas esperando.

Meu prato chega. Começo a cortar aquela coxa de frango. Levanto os olhos e ela se foi. Como numa novelle Vague. Olho ainda um instante. Procuro. Sim se foi.

Aonde será que ele a levará? Ao parque tomar sol no gramado e trocar beijos de baixo das árvores, como num pic -nic? Ao cinema? A um show de jazz ou ainda almoçar num bistrô?

Horas depois sozinho no museu de Belas Artes, comecei a imaginar que talvez eu encontrasse o casal ali. Mas espere. Que casal? Afinal a menina simplesmente parou na frente do boteco em que você Leo almoçava, olhou para você, esperou (talvez uma reação sua) e seguiu desiludida, talvez sozinha e talvez pensando:

“Quem será que os bonitões comem?” “Por quem eles se apaixonam?”.

Mas não Leo, a sua mente criativa e seu caráter pouco prático, prefiriram uma coxa de frango.

E você leitor prefere o que? Um constrangimento ou uma bela fantasia?

Amanha vou almoçar lá de novo. Agora sou eu quem espera. Será que ela virá?

O tigrão (eu) espera na esquina. Aflito...




quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lobinha

Eu queria ir nadar no Rio Tiete, ela no Rio Pinheiros. O consenso foi o lago do Ibirapuera.


Querem saber o que me atrai de verdade numa mulher? Pois eu também quero.

“Vamos tomar um café?”

“Vamos.”

“Quando?”

“Daqui... Meia hora?”

“Conjunto Nacional?”

“Livraria Cultura?”

“Ok.”

Excelente pista.

Nenhum:

“Nossa! Que atirado! Não sei calma aí. Talvez no meio da semana. Quer dizer, se você quiser amanhã, mas eu sair assim sem fazer um tipo... Café, mas é só um café viu. Não vai achar que vai rolar mais coisa não. Que roupa eu visto? Você vem me pegar? Mas é só um café viu? Que saidinho! Eu nunca aceito assim, nem te conheço. Acho melhor não. Já está vindo? Mas é só um café viu?”

A principal coisa que me faz desencantar de alguém num encontro é ter de ouvir conselhos:

“Posso te falar uma coisa? Você não vai se irritar?”

Com 36 anos de idade eu já tive centenas de encontros.

“Menina se conselho fosse bom ninguém dava de graça.”

“Nossa! Que grosso! Posso dar outro conselho?”

“Pode?”

“Seja assim mesmo. Não facilite a vida delas (nossa).”

Uma vez uma amiga me disse que louco atrai louco.

Em apenas cinco minutos. Em cinco minutos, às vezes em segundos e você já sabe o que você quer de uma mulher.

Tipo de mulher que só elogia:

“Grande assim será que essa camisinha vai entrar?”

“Que casa linda!”

“Nossa! Uuuuuh! Alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou?”

Tipo grosseira:

“Ninguém limpa a sua casa?”

“Você tem teste de aids?”

“E você tem?”

“Me leva embora já! Seu imbecil!”

“Mas você nem tomou a o copo de água? Você num subiu por isso?”

“É mesmo cadê a água?”

Há ainda aquelas que ficam olhando para os lados, para o chão e para cima e vez ou outra, te encaram como quem diz:

“E aí cadê a deixa?”

Eu faço cara de que não estou entendendo e elas ficam de mau-humor. Mas eu não estou entendendo mesmo.

“Você não entende nada mesmo?”

“Claro entendo sim. Você é uma cretina que não sabe se comunicar e vai fazer um discurso. Vai dizer que a culpa é minha, não sou o cavalheiro que eu deveria ser. Que não me ensinaram, às tontas até podem gostar, mas você que é uma mulher superior...”.

“Não Leo, é que eu ainda não tinha gozado e você nem esperou!”

“Opa! Que gafe!”

Agora quando tem os olhos nos olhos. Quando eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo. Quando eu escuto de verdade o que ela está dizendo (independente da idade dela) e aprendo com aquilo que ouço. Quando eu sinto que aquele ser me faz sentir a mesma paixão que eu tenho pela arte, pela vida.

Quando eu percebo que tenho ciúmes dessa pessoa, que eu quero cuidar e ser cuidado. Aí eu paro por aqui leitor. Porque daí esse assunto não é só mais meu é dela também.

Concluindo são um humor chique, contravenção, talento e cara de pau.

“Pra mim um cosmopolitan.”

“E o café?”

Pergunto eu. Ela se aproxima me encara e sorrindo diz:

“E o café Leo?”

Por um minuto me sinto um carneiro na frente de uma Lobinha de ray ban.

“Como matar um playboy”

Ontem sonhei acreditem que eu havia morrido. Antes de chegar ao inferno um anjo intercedeu por mim e disse ao demoniozinho que eu por ter feito teatro em vida, poderia levar cinco coisas brasileiras para o inferno.


“Mas escolhe logo”. Disse o demoniozinho e apontou pra Kombi já lotada e sem ar condicionado que já ia sair.

Acabei que pedi logo o que veio na minha cabeça:

“Uma baianinha, negra, jovenzinha e com os peitinhos duros”.

“Vamos, vamos, vamos logo”. Apressava-me o demoniozinho.

“Uma rede do ceará, uma cozinheira mineira, um disco de samba e um computador”.

Bom, nos apertamos na Kombi lá fomos nós.

Depois de 18 horas de viagem chegamos num planalto com prédios parecidos com o do Niemeyer.

Ao meu lado na fila, um americano trazia o Elvis, um hambúrguer, um saxofone, um chapéu de vaqueiro e uma coca-cola. Disse-me que era ator de teatro e perguntou-me se era a minha primeira vez no México.

“México?”

Depois de mais de 12 horas na fila chegou a minha vez. Um sujeito, que acredito era o Collor de Melo, me perguntou em inglês se era a primeira vez que eu tirava visto para os EUA?

Por sorte acordei desse sonho pesadelo por conta de um alarme de carro.

Lembrei-me de uma coisa que uma amiga minha sempre me diz:

“Leo você precisa aprender a desentralhar-se.”

Que seria a capacidade de jogar as coisas velhas fora. Tipo ex-namoradas, documentos da década passada (sem valor histórico nenhum), roupas, cenários e figurinos de espetáculos antigos, móveis, textos, computadores, remédios, cosméticos, jornais velhos, romances sem paixão, cds, vídeos... Enfim uma infinidade de coisas.

Porque quando morremos deve ser tudo novo, mesmo a cultura, crenças, ideologias, não dá pra ser uma múmia e querer levar tudo.

E o título?

É uma peça do João Bethencourt, dos anos sessenta. A menina quer se livrar do “sofisticado” namorado do Leblon e pede ao pai. Esse contrata dois cangaceiros para o serviço. Mas ela doente como eu resolve que não deveria mais desentralhar-se do namorado-marido. E volta atrás.

Alguém tem um telefone de um carreto? De um sebo? De um “família vende tudo?”

Até o porquinho do espetáculo de 2008 está aqui me olhando. Vai embora!

As memórias também, pra que tantas? Vão embora. “Como matar tudo isso?”

Não vou trazer absolutamente nada da Índia! Nem memórias! Nem fotos!

E olhe que nada já é muito!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Paulista da capital

Estava eu, com uma carioca e um mineiro no prestigiado Santo Grão, uma espécie de café-bistrot da Rua Oscar Freire.


“E o senhor vai pedir o que?”

Perguntou-me o garçom.

E eu quase respondo.

“Seis pãezinhos, 250 gramas de queijo e 250 gramas de presunto e aqui estão os vasilhames”.

Antes de o leitor me chamar de encrenqueiro explico. O lugar onde está o Santo Grão hoje, ficava a antiga padaria Domani, a qual minha mãe me mandava comprar pão.

Na época em que a loja Side Walk se chamava sorveteria Caramba e que a sorveteria Soto Zero era a loja de brinquedos Piá.

Ao ler a revista Veja São Paulo dessa semana sobre os marcos e pessoas importantes, para a consolidação da metrópole me fez pensar na minha vila.

Na doceira Duomo com suas tortinhas de morango, seu lustre colorido que minha mãe e minha avó me levavam e de onde eu via os ônibus elétricos da Rua Augusta.

O Pão de Açúcar chamava-se Casa da Banha. Meus amigos eram do Dante e do São Luiz, mas nós estudávamos num colégio descolado lá pros lados de Pinheiros. Acho que meus pais achavam o Dante em desacordo com a redemocratização ou coisa que o valha.

Ainda havia a La Baguette na Rua Padre João Manoel em que os clientes devolviam a embalagem de papel para levar o pão tal quais os Parisienses. O clube Paulistano já não era mais só dos Prados e ensaiava sua conversão ao cosmopolitismo conservador atual.

A loja de departamento Sandis na também Rua Augusta a livraria Argumento e a ótica Elegante, vizinhas na Oscar Freire e eu moleque trocava dizendo: Ótica Argumento e livraria Elegante.

Mais tarde quando cresci fui descobrindo alem dos “jardins” os bairros da Liberdade, Itaim, Morumbi, Vila Madalena, Bixiga, Mooca, Perdizes o lindo bairro de Higienópolis e o inquietante centro.

Mas vendo a Veja nada me emociona. Antigos industriais Italianos existem na Itália na Argentina e nos EUA. Comerciantes árabes aos milhões no oriente médio e pelo mundo. Sushis, pizzas idem. Intelectuais como os Andrades pelo Brasil todo. Futebol então...

Eis que vejo um dos vinte e cinco marcos da reportagem e começo a chorar descabidamente. Chorar mesmo. Ali está o homem que falava a língua que eu falo uma espécie de português. O único ser humano que já me fez ter vontade de cantar. O único marco que é genuinamente paulistano.

O encontro da África com a Itália, com o caipira, com o circo.

Ali está Adoniran Barbosa.

Nunca entendi porque existem tão poucos bares de Samba em São Paulo. Por que não existem casas de Samba no meu bairro? Nenhuma.

Não sei por que ele me toca tanto. Do café viemos e ao café voltaremos.

“Um café lati ou latte si vu ple”. É o que eu digo ao garçom do Santo Grão.

Enquanto meus amigos vão conversando sobre Sampa. Palavra que eu nunca entendi. Porque a minha vila se chama São Paulo. E eu sou paulista da capital. Das Alamedas: Lorena, Tiete, Casa Branca, Pamplona, Itu, Jaú, Santos, Franca, Batataes, Caconde, Tatuí, Riberão Preto, Campinas, da Rua Augusta e claro da Avenida 9 de Julho.

Não dei nenhuma googada, mas acredito que não exista rua ou praça com o nome de Adoniran Barbosa.

Fica aqui a minha homenagem. Ele não ergueu prédios, não fez fortuna, não teve jornais, nem nada.

 O que ele fez então?

 Ele? Nos inventou.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A menina da mochila

Bem antigamente, há uns vinte e quatro anos atrás, toda segunda feira, o clube Paulistano fechava seus bares e restaurantes às oito horas da noite. E os vigias eram dispensados mais cedo.


Aproveitando isso, eu e os outros meninos saíamos do treino de pólo aquático e nem tomávamos banho. Corríamos para um telhado próximo ao vestiário feminino, onde deitados de barrigas para baixo, víamos pelas frestas das janelas, as meninas tomarem banho. Nunca soube se elas tinham conhecimento disso ou não. Nessa época eu era fascinado pelas mulheres mais velhas. As de dezesseis anos.

Nessa época a menina da mochila ainda não tinha nascido.

“Leo, você quer uma mochila? Uma que eu não uso mais? Já que você está sem”.

Aceitei. Era uma mochila que ela usou quando estudante. Tem o nome dela escrito dentro à caneta. Sempre imagino, ela pequena abraçando a mochila. Jogando ela longe com raiva. Aflita por tela perdido e depois de encontrá-la dar um sorriso de alívio.

Hoje nadando, eu vi uma bola amarela ali na minha raia. Puxei com o pé direto pra mão. Surpreendi-me. Anos depois e eu ainda tenho os mesmos reflexos de jogador de water pólo. Lancei a bola para a outra piscina.

“Obrigada”.

Disse uma jovenzinha jogadora de water pólo. Bem mais jovem que a moça da mochila.

Ontem vi uma mulher, dessas de capa da vogue, de filmes de hollywood tomar banho. E dessa vez ela sabia que eu a estava vendo. Ela me deu um chocolate e outras coisas mais.

Disse que não entendia como eu tinha uma “mochila” velha e ruim se eu podia ter qualquer “mochila”. Chegou com os olhos junto aos meus e me disse que eu era melhor do que eu achava ser. Bem melhor.

“Você pode tudo”. Ela disse.

Talvez ela tenha razão. Não sou mais aquele menino voyeur.

Só que será que eu melhorei? Talvez eu gostasse mais das aventuras do que a vitória dos jogos.

Adoro levar um fora. Poder sofrer, sonhar, invejar os grandes conquistadores.

Sobre a mochila não é um apego por uma peça de roupa dessas extravagantes que não conseguimos doar.

Não é tão pouco uma maneira de ter algo que ela a menina, hoje mulher, me deu. E que eu a sinta quando abraço a mochila e vendo o seu nominho escrito.

Não leitor, não sou esse tipo de doente. Sou pior.

É uma forma de ter um objeto que represente meu fracasso amoroso. Porque um chocolate é bom, mas dura pouco.

Alice, a menina dona da mochila, não virá buscá-la, pois ela foi para o país das maravilhas.

E eu talvez entre para o Guines, com essa mochila mais batida do mundo. Mais até que a do vendedor de revistas Oca da Vila Madalena.

Melhor seria imprimir esta folha, colocar dentro da mochila e voltar no tempo.

“Leo, você quer uma mochila? Uma que eu não uso mais? Já que você está sem”.

“Não. Não quero a mochila. Quero você.”