sábado, 20 de novembro de 2010

Os Irmãos Chavez- Capítulo 3

Advertência: Se o leitor ainda não leu o capitulo um e dois, textos anteriores a esse, não entenderá o capítulo 3. Pois trata-se de uma continuação.

 O bar ficava próximo da praça onde uma catedral barroca era iluminada. Um quarteirão cinqüenta por cento rural e metade urbano continha os três bares de Lucrécia; a cor predominante eram o branco e o amarelo da nave e torres do templo. Já o “Beco do Sucesso” era edificado em madeira. O vento penetrava com facilidade tanto quanto os clientes, que circulavam também pelos outros dois botecos.


Era meia-noite e o lugar já estava cheio. Em uma das mesas Gabriela em um vestidinho de estampas vivas observava Caio conversando com uma garota no balcão, enquanto bebia whisky com Cris e os outros.

Ela notou que a menina pouco olhava para Caio e estava começando a dar sinais de retirada. Foi então que Gabriela perguntou a si mesma: “Como eu fui transar com esse feinho e baixinho?” “Se com ele tinha sido bom com outro poderia ser até melhor.” Olhou então em volta, mas não viu ninguém que a interessasse, e acabou dando de cara com Cris que vestia uma camiseta preta. Começou a tocar um CD dos Rolling Stones. Cris era realmente lindo, mas que droga! Além de lindo ele tinha um sorriso que com certeza desconcertaria qualquer mulher casada.

— Cris, se você precisar eu trouxe camisinha!

— Para cima de mim, sua punkinha virgem!

— Nem de signo, Cris!

— Então passa para cá que eu vou precisar.

Levantou-se e foi atrás de uma das muitas neo-hippies do lugar.

Caio agora a olhava, mas ela já ocupara os olhos tentando ver aonde o irmão fora.

— Pronto, o Cris deu uma folga! — disse Caio, que viera sentar ao seu lado. Mas ela nem lhe escutou e o álcool agora a fazia rir à toa só de olhar para Guga e Jaime. (É muito nome eu sei).

— Vamos dar role? — propôs Pedro que dizia ter arrumado um beque. Foram.

Subiram para uma colina mais afastada, não para se esconderem com medo de serem pegos por uma autoridade local, mas sim para ficarem mais à vontade e terem uma vista do mar. Era lua cheia e duas garotas vieram se juntar. A brisa morna levantava o cabelo de todos que em formação de roda passavam o baseado de mão em mão, um ou outro apesar da boca seca introduzia com o dedo umas porções de saliva para a seda não descolar. Quando Cris ensinou essa manha para Gabriela ela achou um tanto não higiênica, mas agora nem se dava conta e também o fazia automaticamente.

Caio puxou Gabriela pelo braço até a praia; ficou nítido ao vocalista apesar de estar “doidão” e um tanto alcoolizado, que a menina não estava mais apaixonada e isso reverteu o jogo, ainda mais depois de Gabriela se esquivar das tentativas do vilão em tentar roubar-lhes alguns beijos.

— Você ficou mais doce agora à noite. Disse a mocinha.

— Que calcinha mais linda essa sua Gabi, que você abre as perninhas... Sem querer eu vi lá no bar, com esse vestidinho.

— É me enganei. Você não ta mais doce e sim amargo.

— E você não está mais a fim de mim, não é?

De repente Caio largou seu braço e se afastou. Mal Gabriela teve tempo de virar as costas e Cris surgiu com uma menina.

— Essa é minha irmã e esse é o meu amigo Caio que você conhece bem, ele está tomando conta dela para que nenhum malandro se aproveite da sua falta de experiência.

— Nossa você é linda! — cumprimentou a menina.

—E malandra! — concluiu Caio.

— Ai, como vocês dois estão chatinhos, ninguém precisa tomar conta de mim! Já de vocês...

Cris contou que sua amiga, se é que era só amiga, daria uma festa no dia seguinte na casa onde ela e outras meninas de Ribeirão Preto estavam.

— Vem, vamos dançar forró. — propôs Cris. A irmã aceitou, então os dois desceram a colina em direção ao bar, deixando a menina e Caio atrás, ao luar.

Dançaram algumas músicas e todos ficaram admirados de ver um casal tão apaixonado, e eram lindos diziam alguns. “Tão bonitos que até parecem irmãos.”

Gabriela quis ir dormir e Cris a levou de volta para a pousada. Os dois estavam altos por causa do whisky, mas o sistema neurológico dos dois ainda estava bem coordenado, ainda mais depois da dança. A irmã quis saber se Cris estava beijando a menina de Ribeirão Preto ao que ele bobamente respondeu ser só dela. Estavam agora na porta do chalé que estava trancado.

— Cadê as chaves, Gabriela?

— Onde está Cris, Chaves?

Cris tirou um molho de chaves que caiu no chão. Os dois se abaixaram para pegá-lo e um rápido beijo na boca foi trocado, mas logo interrompido. Cris se apressou em abrir a porta e os dois não se encararam mais. Não fora um beijo de irmãos como já acontecera sempre na presença de testemunhas, apenas o chamado selinho.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Capítulo 2

Os irmãos Chavez

Advertência: Se o leitor ainda não leu o capitulo um, o texto anterior a esse, não entenderá o capítulo 2. Pois trata-se de uma continuação.


Bahia Bucólica



O ônibus vinha lotado de Salvador em direção ao sul, à praia de Lucrécia. Das quatro horas do percurso, mais de três já haviam transcorrido, sem ar condicionado nem cd para ouvir, apenas uma revista feminina era a distração de Gabriela que estava ansiosa para encontrar com Cris, o qual há mais de um mês não via. Pelo telefone ele disse à irmãzinha ser o local o mais belo que conhecera.

Cris era compositor, se considerava guitarrista, mas cada vez eram mais óbvias suas limitações como intérprete e o seu avanço nas composições e arranjos, segundo ele mesmo analisava. Sua banda que se formara na adolescência tinha chegado aos vinte anos não de estrada, mas de idade dos integrantes, esses no rastro do rock clássico.

Estavam eles, todos os cinco, em Lucrécia esperando ansiosos pela ainda adolescente Gabriela que viajava sozinha, do que não fora fácil convencerem os pais a deixarem-na ir ao encontro do irmão.

Enfim o ônibus parou. Gabriela se animou tanto que acordou por completo. Ela vestia shorts verde escuro estilo safári com bolsos dos lados e uma blusinha branca. Suas pernas e costas praticamente tinham grudado no assento; desceu, pegou sua mala, tirou o papel com as indicações de como chegar até a pousada em que Cris estava e começou a caminhar em uma rua de terra.

Três senhores aposentados que importunavam um quarto que estava no banco de cimento do ponto de ônibus cochilando cheirando a pinga lhe indicaram a direção.

Como não eram confiáveis, ainda se certificou com uma mulher gorda. Gabriela nem percebeu, mas já uma meia dúzia de homens e garotos preparava-se para ajudá-la com a mala ou informações, mas a beleza da menina era tanta que os intimidou.

Começou a andar pela estrada de terra, que, aliás, era a única via da encruzilhada com o asfalto.

Ela deveria andar uns mil e trezentos metros, talvez menos, nem se preocupou em encontrar um táxi, também tão pouco passou por sua cabeça a existência de um ali na Bahia.

 A cada duzentos metros uma construção, casinhas e janelas coloridas e muitas roupas nos varais. Era fim de tarde e algumas galinhas faziam happy hour, ciscando milho, para variar apareceu um cachorro que veio ao seu encontro, teve medo a princípio, mas uma criança disse que ele não mordia.

— Todo dono fala isso!

— É verdade que de vez em quando ele morde quem eu não gosto, mas só quem eu não gosto, que não é o seu caso, moça!

Gabriela sorriu. Depois veio uma curva e a estrada se alargou; era uma enorme reta. Foi então que viu pessoas lá no fundo do quadro. Uma delas com os braços levantados ela reconheceu ser Cris.

Ele estava com uma bermuda azul escuro que passava a altura dos joelhos, com seu quase um metro e noventa, pois na verdade exceto Gabriela, os outros Chavez eram todos altos, mas ela tinha só um metro e sessenta.

 Os dois eram os únicos que pareciam irmãos, apesar de Gabriela ter olhos verdes e os cabelos de anjo loiros, já o músico era castanho claro de olhos e cabelos, mas esses eram compridos e lembravam os da irmã. Ele vinha sem camiseta, descalço e com a barba crescida. Com colares nativos do artesanato local, tal quais os amigos que o acompanhavam. O que a caçula dos Chavez não imaginava é que eles tinham tirado o dia todo para recebê-la, mas se confundiram no horário do ônibus e não puderam ir recebê-la no ponto.

— Boa tarde, mademoisele Gabriela!

Jaime, o baterista, colocou um dos joelhos na terra e chocalhou a mão de cima até o meio da altura da menina e essa lhe estendeu a mão para que ele lhe desse um beijo, como num cumprimento barroco.

Depois o irmão a abraçou e a rodopiou duas vezes, recolocando-a no lugar para ficar admirando-a.

Os outros dois Guga e Pedrinho que já haviam pegado a mala da moça, agora faziam fila para ganhar um beijo.

— Me desculpem não ter conseguido trazer nem uma amiga, mas foi tão rápido que eu decidi vir, que nenhuma pôde se programar. Apesar de não faltar fãs de vocês, mas essas não são minhas amigas!

— Cara Gabriela, saiba que apesar de guardarmos esperança de algum dia, um de nós vir a ser cunhado de Cris, pois milagres acontecem todos os dias, estamos nos dando muito bem nessas férias com as locais e as turistas também.

Foi aí que Gabriela percebeu a falta de Caio, o vocalista. Ele não fora junto recebê-la. A verdade é que ela estava acostumada a grandes recepções masculinas, afinal era linda e a caçula de três irmãos. Mas Caio era diferente, era um segredo, ninguém sabia pelo menos ela não havia dito a ninguém. Exceto à sua melhor amiga: o vocalista a cantara, e a fez deixar de ser donzela.

Seguiram em direção a pousada e a menina não perguntou por Caio, pensava ela que nem passava pela cabeça de Cris tal traição ou até passava, quem sabe, e afinal Cris era seu irmão e não namorado.

A banda alugara um chalé com duas salas, suítes, e ainda uma pequena copa, e tudo cercado por uma varanda com redes. Era um dos quinze chalés do complexo da pousada. Três estavam em uma suíte e dois em outra. Agora, com a chegada de Gabriela ela ficaria com Cris em um dos quartos e os outros quatro ficariam juntos, pois Lucrécia estava sem nenhuma cama sobrando em toda a vila.

Depois de ter arrumado as roupas no armário foi ter com a banda; sentaram-se em uma mesa e disseram que a levariam à noite até a vila, onde compareciam quase todas as noites a um bar para dançar e beber.

— Toca forró?

— Depois das duas e meia até nascer o dia é o Brasil real na pista! — respondeu-lhe Guga.

— Mas se você está com a idéia de dançar é melhor ir dormir um pouco. — Concluiu Pedro, enquanto Jaime lhe mostrava ainda um lanche o qual, ele ia colocando sobre a mesa.

Em cinco minutos adormeceu. Cris levou-a para o quarto.

Já era noite quando acordou meio sem se lembrar onde estava e até entender o espaço, onde era a porta, a janela e o banheiro.

 Viu que alguém estava sentado na outra cama, observando-a no breu. Ela concluiu que era Cris e depois de se espreguiçar lançou os braços em direção à figura, pois achando ser o irmão, este a levantaria e lhe daria um beijo.

— Oi, é macia a minha cama?

— Essa era a sua cama?

Como o rapaz veio para a frente beijá-la, acabou entrando no raio de luz que vinha da porta aberta para a sala. Foi quando Gabriela viu a enorme boca vermelha e reconheceu Caio.

O vocalista era parecido com uma daquelas estátuas da Ilha de Páscoa, com lábios bem vermelhos e uma pele escura. Caio não contrastava nas plantações de cacau. Não tinha uma beleza clássica, nem tão pouco exótica, mas era charmoso para as adolescentes.

 O que Cris tinha de inseguro Caio tinha de seguro, ou seja, ele era um babaca que não sabe que o é e se considera o tal. Pior é que temos a propensão de nos apaixonar por pessoas assim.

— Oh, grosseria, por que você não foi me buscar também? Estava ocupado com o quê?

Ele não respondeu, continuou a encará-la, riu e ia deixando o quarto quando Gabriela disse:

— Te trouxe um presente!

Mas ele nem se virou e saiu.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os irmãos Chavez- capítulo 1

Prólogo


 O texto: “Os irmãos Chavez” foi escrito há dez anos. Trata-se de uma novela ou ainda um pequeno romance canastrão.


Numa época em que eu vivia entre o clube Paulistano, Vila Madalena e a praia de Juquehy, aqui transformada na fictícia praia de Lucrecia, na Bahia e uma ilha em Paraty.


A trama mostra algumas facetas sexuais dos jovens de classe alta, de vinte anos no final dos anos 90. Retratados nos Chavez, seus amigos e amantes.


Gabriela, a caçula, é linda, desejada por todos os homens da história e invejada pelas mulheres, porém namora um menino feio e inexpressivo.


Duda é masculino, violento, esportista, visceral e ama as meninas negras.


Cris é feminino, músico, meigo, e é também apaixonado pela irmã Gabriela.


Gui, o mais velho, é clássico, gay e namora um menino sarado.


Nenhum deles, da família dos Chavez é baseado na minha família. Fora a minha própria exceção. Creio que eu mesmo sou metade Duda e metade Cris, os filhos do meio.


Publicarei pedaço por pedaço dessa história. Espero imensamente que os leitores se identifiquem e acreditem se tratar de pessoas reais.
Também não tenho certeza se continuarei a publicar as crônicas durante esse período, tudo depende da audiência.


Então vamos lá, o terceiro sinal foi dado. Abrem-se as cortinas.


Com vocês:


OS IRMÃOS CHAVEZ




Choque



Ela saiu da loja de roupas em que trabalha, atravessou o Shopping Iguatemi, cumprimentou três ou ainda dois conhecidos na multidão. Era uma sexta-feira de fim de ano, seguiu para casa e no outro dia amanheceu morta. Fora assassinada com facadas ou talvez com tesouradas na barriga.

O porteiro do prédio afirmou tê-la visto entrar com seu carro em companhia de um homem sentado no assento do passageiro, para dentro da garagem. O mesmo funcionário do condomínio disse ainda a polícia não ter visto o tal homem sair.

A vítima se chama Gabriela Chavez e beleza igual nunca se viu. Era filha do mais bem sucedido cirurgião plástico do Brasil de então, doutor Américo Chavez.

Gabriela havia a pouco deixado à casa dos pais para ir morar com seu namorado Ícaro, um artista de circo que nesse dia estava visitando a família em Londrina, tendo mais de trinta pessoas como álibi.

 Já os irmãos mais velhos da caçula Gabriela, Duda, Cris e Gui, nenhum deles tinha estado com testemunhas ou evento que servisse de álibi. Mas não vamos ser ansiosos e já no início do livro lançar suspeitas, ainda mais essas que com a repercussão da tragédia em toda a sociedade da capital paulista nem foram notadas no começo. Exceto por alguns mais curiosos por desvendar mistérios do que chorar por uma desconhecida ou mesmo afirmar que foi obra de um monstro. Humano ou não, é difícil saber, mas, contudo a população concordava em um aspecto: existia um criminoso e aquilo não fora um suicídio.

Às quatro horas da madrugada de sexta para sábado Ícaro recebeu um telefonema de Gabriela:

— Desculpe, acho que fiz... Uma burrada.

Depois desta frase ela ou alguém teria desligado o telefone. Ícaro tentou umas quatro ou cinco vezes chamá-la de volta em vão, conforme ele relatou em seu depoimento. Tendo fracassado, ligou imediatamente para a mãe de Gabriela, dona Anita Chavez, esposa do Dr. Américo.

O casal não tardou em acionar a polícia e às cinco da manhã, eles já se encontravam no apartamento de Gabriela com mais uma equipe de vinte pessoas que dobrava de número a cada cinco minutos.

A menina semiviva foi posta em uma ambulância. O dia amanhecia enquanto a sirene cruzava a cidade. Um anjo sangrava genes que foram se encontrar em uma loteria cósmica de quase infinitas probabilidades, que nem matematicamente seguida de uma explicação em português seriam suficientes para tentativa de descrição desta Afrodite, uma deusa mortal que agora sumia.

Não poucas vezes pensamos: não é a pessoa ideal que eu queria como filho, ou como irmão, mas já que o são eu os amo. Gabriela era realmente amada pelos familiares que quando tentavam imaginar um outro ser que não ela para irmã ou filha, essa figura criada era sempre inferior à sombra de Gabriela Chavez.

Mas de todos os Chavez, talvez Cristiano, o segundo filho, era o que mais demonstrava seu amor. Tinha a irmã como um objeto sagrado a ser posto em altar para ser reverenciado.

Voltemos então ao tempo para melhor entendermos a relação de Cris e Gabriela, prometo depois retornar e descrever o velório e o que se passou dali em diante.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Geração stand-up

Uma jovem prima me levou a uma festa neste último ferido. Numa casa na praia de Juquehy com muitas árvores e bosques. Quando cheguei notei que as pessoas eram muito bonitas, bonitas mesmo.

Depois reparei que eu era o mais velho do lugar. Lá pelas cinco e meia da manhã resolvi que não incomodaria nem a prima nem outras amigas que acabei encontrando na baladinha e iria voltar a pé mesmo pela praia vendo o sol nascer.

Nem mesmo dei dez passos um desses carros grandes importados parou ao meu lado e baixou o tatinho que as janelas blindadas baixam.

“Você quer carona?”

No início achei que a menina queria alguma informação.

“Pra onde vocês tão indo?”

“Pra onde você quiser”.

Entrei no carro. Havia três meninas de vinte anos. Perguntei quem eram.

“As da faap levantem a mão”. Disse a de trás que junto com a do banco de passageiro levantaram a mão.

“As da puc levantem a mão”.

Dessa vez a do volante levantou a mão.

Pensei comigo. Esse é o primeiro trauma que essas jovens vão levar pra vida. Nada de usp. Porque um universitário da usp não tem teatro pra dizer que é da usp. Ele diz assim meio que jogando fora:

“Faço usp”. Baixinho, como se não tivesse importância.

Depois de alguns “conhece?” Descobri que era amigo de um primo de uma delas e que meus pais conheciam a família da outra.

Mesmo eu e aquelas três meninas não sendo da mesma geração éramos da mesma tal Zelite paulistana. Mas como elas me vendo de havaianas, calça jeans rasgada e camiseta sabiam disso?

O que será que elas pensaram? “Vamos dar carona pra esse menino, porque ele é um dos nossos? É um eleitor do Serra. Conhece Paris, tem também um irmão que vive em Nova York, freqüenta um clube tradicional como nosso talvez até o mesmo clube. Tem caseiro, é neto de imigrantes, ou bis neto no caso delas. Enfim ele tem pedigree como nós, logo vamos ajudar a classe”.

Ou será: “Veja esse tiozinho! Parece um naufrago, vamos levar ele tadinho”. E se fossem aquele grupo de meninos da paulista me espancariam achando que estavam sendo homofônicos?

Olha, diz o historiador Jacques Le Goff que o termo geração foi inventado pela geração dos anos sessenta. Anteriormente alguém que nasceu 12 anos antes de você ou doze anos depois não necessariamente compartilhava das mesmas vivencias.

Digo tudo isso porque não senti naquelas três, algo de afinidade real. Confesso que somos ou temos a mesma origem e procedência. E que apesar do meu fraco por lolitas nem todas as jovens me provocam a alma.

O que me atrai, é uma coisa de menina e mulher ainda em formação. Como se fosse uma obra em processo. Quando enxergo que aquele ser tem potencial. Que não se ensina nada a essa pessoa, apenas se mostra o que ela já sabe, mas não via.

“Você nasceu em 1974?!?!”

“Nasci”.

Vendo a satisfação delas de imaginarem que terão ainda 16 anos pelo menos de curtição pela frente, me dá vontade de dizer e aconselhar alguns pontos:

Primeiro não confiem no seu dna. Larguem os carboidratos e comecem uma academia já.

Segundo amem, amem muito, sofram. Mas dêem bastante também, porque uma coisa não exclui a outra.

Terceiro não acreditem que as gerações passadas foram melhores. Vocês são a geração “stand-up”, algo pós a geração “veio”. E por mais que os babacas nostálgicos torçam o nariz pela total liberdade de expressão que vocês têm, dizendo que vocês são alienadas, não acreditem.

Porque no fundo stand-up incômoda porque pode tudo, até ser alienado. Porque só existe na democracia. Porque faz parte da natureza do jovem ser preguiçoso e alienado.

Poderia fazer também listas de filmes que elas devem ver. De livros que devam ler.

“É nesse portão aí”.

Vi nos olhos delas que aquele passeio com o garoto-homem fora muito rápido. Um menino que ainda está em formação, em processo. Tão diferente delas, que já estudam e fazem estagio e só estão na pilha porque é feriado.

Mas vocês queriam o que? Que eu as convidasse para entrar? Fazer duas duplas de pôquer?

“Vocês jogam cartas?”

“Tipo cigana?”

“Não tipo baralho?”

“As que jogam levantem a mão”.

Chaplin dizia que o sol nasce todo dia e sem platéia. Ele era geração stand-up na veia.

sábado, 13 de novembro de 2010

Dóris

O GLADIADOR E A LEOA.




Gladiador entra em cena. Está perturbado. Anda de um lado para o outro.



 Gladiador- Para o público. Não vou mais botar o pé no Coliseo, nunca mais. Eu particularmente não me sinto velho. Um cabelo branco aqui outro ali. Tudo ia muito bem até este negócio de super interpretação, de vivenciar as lutas. Na minha vã opinião, um gladiador deve lutar e vencer seus oponentes. Se a platéia não acha as lutas cênicas interessante o suficiente que vá ao teatro. Foi exatamente isso que eu disse ao meu chefe o produtor de lutas. Ele olhou bem nos meus olhos e deu um sorriso.

 Produtor. "Mas é isso mesmo que ia agora te propor".

Gladiador sem entender. "Propor?"

"Propor. Acho que tem tudo a ver".

"Tudo a ver o que?"

"Teatro".

"Mas eu nunca nem fui ao teatro, quer dizer, nunca fui com freqüência. Prefiro o circo. O que é que você quer dize com tudo isso?"

"Meu querido há anos você entra na arena encara os leões e os mata"

"Mas eu não sou pago pra isso?"

"Claro que não. Se eu quisesse que alguém só matasse os leões eu contrataria um açougueiro. As pessoas vêm ao Coliseo para ver espetáculos e não leões cansados e amedrontados. E sim as terríveis feras da áfrica"

"Só que se eu demonstrar medo corro o risco é dos leões é ficarem muito valentes. E você sabe como esse meio é fofoqueiro se um leão percebe algo já conta pra leãozada toda"

" Só estou dizendo que arrumei um professor de teatro que vai te ajudar a sentir medo dos leões".

 Eu bem da verdade até aquele momento nunca havia é sentido nada pelos leões. Nem dó, nem medo, nem amizade. Eu nunca fui muito de me relacionar com eles não. Afinal no fundo eu tinha é de matá-los e eles, os leões, sabiam disso. Mas depois de uns meses tendo aula com um ator eis que volto ao Coliseo em um domingo de casa cheia..



Para a minha surpresa neste dia aconteceu algo de extraordinário. Já na arena depois de terem aberto as portas dos leões, o sol batia nos meus olhos e vi uma criatura ao longe. Eu podia ver só o contorno do leão a platéia estava calada e havia um jeito diferente desta leão andar... Um andar lânguido sensual foi quando percebi que não era um leão e sim uma leoa. Mas isto não era ético! Nunca haviam me posto pra lutar contra uma fêmea. O programa dizia que eu enfrentaria uma perigosa criatura. Bem o programa não mentira aquela leoa me deu uma olhada e a minha espada caiu. Era um olhar assim meigo, daquela leoa que nem adulta era então, uma quase adulta uma adolescente. Então eu de repente... Eu me... Apaixonei como nunca havia me apaixonado antes. São coisas que nós não planejemos na vida. Quando eu imaginei que nesta altura da vida eu ia me apaixonar por uma colega de trabalho. A desgraçada naquele dia parecia ter também se apaixonado, combinamos ali mesmo para desespero da platéia um jantar naquela mesma noite numa churrascaria cristã.



Ela se chamava Dóris. Tinha lá suas manias, que logo descobri, pois ela foi morar na minha casa. Adorava compras principalmente bolsas e artes plásticas. Dóris me convenceu em fazer um curso com ela de história das artes plásticas, um curso de dez aulas desde do Egito antigo até as pinturas modernas romanas. Eu como estava disponível mesmo, havia sido mandado embora do Coliseo, também depois daquele vexame eu e Dóris nos beijando e o público jogando tomates. Dez anos de uma carreira de gladiador encerrados por alguns instantes. Acho que tudo começou com as aulas de teatro, acho que fui me tornando mais sensível. Como eu estava apaixonado não me importava mais com nada deixei de freqüentar os eventos e as rodas sociais dos gladiadores e cada vez mais Dóris me levava para o mundo das artes, dos descolados. As pessoas em geral se chocavam muito quando nos viam juntos, não tanto por Dóris ser uma Leoa, afinal nós estamos em Roma, mas pela diferença de idade. Mas não a galera das artes. Nossa turma. Nunca me senti tão à vontade junto dos artistas. Só que alguns meses depois ela começou a agir estranhamente, havia se tornado vegetariana e dava desculpas para não transarmos mais, eu comecei a imaginar que havia outro na história, e eu tinha razão havia, uma outra, uma Leoa.



Dóris me abandonou, veio com aquela velha história o problema é comigo, você é legal e tal. Passei a beber e a sair todas as noites, até fiz um papel no teatro, uma ponta numa comédia eu fazia um gladiador, não tinha fala, mas adorava. Um dia um produtor amigo meu disse que Dóris estava namorando uma Leoa que trabalhava no Coliseo, era uma campeã invíquita. Pedi a ele que me colocasse pra lutar com ela, e ele colocou.



Outra tarde de domingo o Coliseo lotado. Minha cabeça doía, a cachaça dava voltas no meu estomago e quase morri de medo ao ver o tamanho da leoa que entrou. Foi outro vexame tentei me agüentar ao máximo, mas ela me derrubou e nocauteou em instantes, quando pedi água e abri os olhos foi que vi Dóris na platéia. Ela ria e abraçava o produtor lhe dando beijinhos. Canalha ele a havia roubado da Leoa. Essa Leoa gigantesca e eu, ambos abandonados por Dóris, saímos para tomar umas cervejas. Trocamos confissões e ambos falamos mal de Dóris, depois resolvemos montar uma dupla e nos apresentar juntos, em teatro talvez. Essa dupla nunca aconteceu.



Agora estou aqui e me decidi, não volto mais ao Coliseo. Vou fazer teatro. Ser um ator trágico, daqueles que vive com os olhos vermelhos e fazem personagens que tem um conflito misterioso e estão sempre amargurados e são irresistivelmente sensuais. Aí não vai ter Dóris resista. A verdade é que as fêmeas não gostam de bufões, nem de gladiadores. Elas se apaixonam por atores trágicos, de olhos vermelhos, amargurados, dopados e de falas gritadas. E os Bufões e gladiadores por sua vez se apaixonam por feras perigosas, lindíssimas e com cérebros de Leoas.

domingo, 7 de novembro de 2010

A menina espera na esquina


“Poio (Pollo).” Eu digo.

O garçom me pergunta qual parte. Ao mesmo tempo em que coloca a mão no próprio peito e na própria perna. Quase desisto de pedir o prato só de pensar na perna humana do senhor e gordinho chileno. A fome falou mais alto e mostro a foto da coxa de frango no cardápio.

Ele se afasta e eu olho pela janela às duas horas da tarde de um sábado quente em Santiago. As pessoas fechando as lojas, indo almoçar. Os turistas, estudantes indo ver a Praça das Armas. Todos se movimentam como numa 25 de Marco, como num 31 de dezembro.

Então a vejo pela janela. Todos passam e ela lá. Parada, aflita procurando alguém naquela multidão. Alguém que não chega. A menina é linda seus pés estão grudados no chão para tentar enxergar por cima da multidão.

Imagino como será o menino que não chega. Se fosse comigo, eu moveria o mundo para não fazer aquela menina esperar. Talvez por isso ela não esteja me esperando e sim ele, que não chega. Descubro que talvez a idade tenha me trazido o desejo de ser um alcoviteiro, um cupido.

De tentar achar um garoto pra ela. Bonito como ela, aflito, apaixonado, fiel. Será que é um menino da idade dela que ela espera? Um estudante? Um amor colegial? Será que por ser jovem e belo ele não perceba a sorte que tem de ter uma mulher tão, tão... Meu Deus ela linda!

Virou o rosto. Viu-me aqui dentro do restaurante. Será que ainda sou um rapaz em condições de flertar com essa estudante? Voltou a olhar pra frente, acho que nem me viu, talvez imaginasse que ele o belo e jovem rapaz estivesse aqui dentro. Ou me viu por um instante e achou que eu era ele, e depois viu o engano. “É só um tiozinho me olhando”. Deve ter pensado. Ou ainda nem me viu como se eu fosse transparente, sei lá. Como vou saber se ela não esboçou nada? Reação nenhuma.

Agora ela vê o celular, se mexe um pouco e volta a olhar pra frente, aflita. Será que é um rapaz igual um que eu vi outro dia, sábado a noite no Pão de Açúcar com uma flor e um pote de sorvete? Aquele rapaz me comoveu, com dois objetos na mão e ele dizia tudo. Que combinação. Um artista.

Quem será que come as mulheres lindas? Sim porque essa não fica atrás da Helena de Tróia. quem são eles? Eu sempre me pergunto isso quando vejo uma bonita cantora, uma bailarina maravilhosa, uma extraordinária Hostess de um elegante restaurante. Quem será o felizardo por quem essa mulher linda se entrega?

Por Helena aconteceu uma guerra. E como por essa aí fora de igual beleza, ninguém se move? Eu vou levantar e ir ajudá-la. Saber onde está esse louco desse menino.

Perca o emprego menino, mate alguém se necessário, roube um banco, mas não deixe uma mulher dessas esperando.

Meu prato chega. Começo a cortar aquela coxa de frango. Levanto os olhos e ela se foi. Como numa novelle Vague. Olho ainda um instante. Procuro. Sim se foi.

Aonde será que ele a levará? Ao parque tomar sol no gramado e trocar beijos de baixo das árvores, como num pic -nic? Ao cinema? A um show de jazz ou ainda almoçar num bistrô?

Horas depois sozinho no museu de Belas Artes, comecei a imaginar que talvez eu encontrasse o casal ali. Mas espere. Que casal? Afinal a menina simplesmente parou na frente do boteco em que você Leo almoçava, olhou para você, esperou (talvez uma reação sua) e seguiu desiludida, talvez sozinha e talvez pensando:

“Quem será que os bonitões comem?” “Por quem eles se apaixonam?”.

Mas não Leo, a sua mente criativa e seu caráter pouco prático, prefiriram uma coxa de frango.

E você leitor prefere o que? Um constrangimento ou uma bela fantasia?

Amanha vou almoçar lá de novo. Agora sou eu quem espera. Será que ela virá?

O tigrão (eu) espera na esquina. Aflito...




quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lobinha

Eu queria ir nadar no Rio Tiete, ela no Rio Pinheiros. O consenso foi o lago do Ibirapuera.


Querem saber o que me atrai de verdade numa mulher? Pois eu também quero.

“Vamos tomar um café?”

“Vamos.”

“Quando?”

“Daqui... Meia hora?”

“Conjunto Nacional?”

“Livraria Cultura?”

“Ok.”

Excelente pista.

Nenhum:

“Nossa! Que atirado! Não sei calma aí. Talvez no meio da semana. Quer dizer, se você quiser amanhã, mas eu sair assim sem fazer um tipo... Café, mas é só um café viu. Não vai achar que vai rolar mais coisa não. Que roupa eu visto? Você vem me pegar? Mas é só um café viu? Que saidinho! Eu nunca aceito assim, nem te conheço. Acho melhor não. Já está vindo? Mas é só um café viu?”

A principal coisa que me faz desencantar de alguém num encontro é ter de ouvir conselhos:

“Posso te falar uma coisa? Você não vai se irritar?”

Com 36 anos de idade eu já tive centenas de encontros.

“Menina se conselho fosse bom ninguém dava de graça.”

“Nossa! Que grosso! Posso dar outro conselho?”

“Pode?”

“Seja assim mesmo. Não facilite a vida delas (nossa).”

Uma vez uma amiga me disse que louco atrai louco.

Em apenas cinco minutos. Em cinco minutos, às vezes em segundos e você já sabe o que você quer de uma mulher.

Tipo de mulher que só elogia:

“Grande assim será que essa camisinha vai entrar?”

“Que casa linda!”

“Nossa! Uuuuuh! Alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou?”

Tipo grosseira:

“Ninguém limpa a sua casa?”

“Você tem teste de aids?”

“E você tem?”

“Me leva embora já! Seu imbecil!”

“Mas você nem tomou a o copo de água? Você num subiu por isso?”

“É mesmo cadê a água?”

Há ainda aquelas que ficam olhando para os lados, para o chão e para cima e vez ou outra, te encaram como quem diz:

“E aí cadê a deixa?”

Eu faço cara de que não estou entendendo e elas ficam de mau-humor. Mas eu não estou entendendo mesmo.

“Você não entende nada mesmo?”

“Claro entendo sim. Você é uma cretina que não sabe se comunicar e vai fazer um discurso. Vai dizer que a culpa é minha, não sou o cavalheiro que eu deveria ser. Que não me ensinaram, às tontas até podem gostar, mas você que é uma mulher superior...”.

“Não Leo, é que eu ainda não tinha gozado e você nem esperou!”

“Opa! Que gafe!”

Agora quando tem os olhos nos olhos. Quando eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo. Quando eu escuto de verdade o que ela está dizendo (independente da idade dela) e aprendo com aquilo que ouço. Quando eu sinto que aquele ser me faz sentir a mesma paixão que eu tenho pela arte, pela vida.

Quando eu percebo que tenho ciúmes dessa pessoa, que eu quero cuidar e ser cuidado. Aí eu paro por aqui leitor. Porque daí esse assunto não é só mais meu é dela também.

Concluindo são um humor chique, contravenção, talento e cara de pau.

“Pra mim um cosmopolitan.”

“E o café?”

Pergunto eu. Ela se aproxima me encara e sorrindo diz:

“E o café Leo?”

Por um minuto me sinto um carneiro na frente de uma Lobinha de ray ban.