Fiúza fora quem marcara naquele restaurante. Ele almoçava umas duas, às vezes três vezes por semana lá. Estava em casa por assim dizer. Sabia os nomes dos garçons. Cumprimentava os clientes assíduos. Talvez por isso e também por ele, Fiúza ser um policial, percebeu que Rubens já tinha uma história. E que os fatos que ele ia contando não modificavam em nada a conclusão de Rubens. Só temperavam, como um molho. Por isso resolveu guardar munição e saber o que aquele sociólogo tinha para lhe falar.
-Escute Rubens antes de continuar eu quero lhe dizer que estudei muito esse caso. Por tratar de pessoas bem relacionadas e poderosas, pode parecer um clichê, mas foi por isso que me colocaram no caso. Desculpe-me a prepotência, mas eu sou um dos melhores. As coisas não podiam vazar.
-Mas você mesmo disse agora a pouco delegado, lá se vão dez anos.
-Rubens, na época eu calculei distancias. Fiz mapas, perfis psicológicos. Investiguei álibis. Procurei motivos... A verdade é que nunca desconfiei de nenhum irmão da vítima.
Fiúza disse ainda acreditar que o assassino fosse alguém de fino trato. Alguém, aliás, da convivência dos Chavez. Um tipo de assassino que poderia estar num período de silencio, mas poderia como um vulcão ser acionado rapidamente. É uma pessoa comum, finalizou.
-Esse assassino, poderia estar quieto por conta de um evento como um casamento? Ou nascimento de um filho?
-Ou um emprego novo. Sim exatamente. –Disse o delegado. Ele o assassino pode ser acordado em qualquer instante. Rubens o que eu vou lhe dizer pode ser estranho, mas lembre-se é o meu trabalho. O delegado esperou um momento, repirou e falou:
-Você foi um grande suspeito.
Rubens abriu os olhos. Não podia acreditar no que ouvira. Ele um suspeito?
-Sim. Num depoimento, Guilherme Chavez me contou que você certa vez o procurou em uma pousada em Paraty. E lhe disse estar loucamente apaixonado por Gabriela e que faria uma besteira do tipo se matar, se ela não correspondesse.
Aquilo era verdade. E Giovanni confirmou a história ao ver uma foto de Rubens.
-Eu sempre amei minha esposa. Mas qual mortal não se apaixonaria por Gabriela? Eu sei, ela não era para mim. Queria me usar e depois jogar fora.
-Ela te usou Rubens e te jogou fora, mas você não desistiu. O próprio Guilherme Chavez te viu certa vez num posto de gasolina seguindo Gabriela.
-Mas ele também a estava seguindo.
-Na verdade não.
Foi ai a revelação. Guilherme já não mais namorava Giovanni. Aquele era o posto em que a família Chavez tinha conta. Por isso tudo não passou de uma coincidência. Guilherme e Gabriela no mesmo lugar.
Giovanni já não mais entusiasmava Guilherme que na verdade havia começado um romance com a sua grande paixão, seu companheiro até hoje. Um ministro do Supremo, que na época já era um ministro do supremo. Para um rapaz clássico como Guilherme aquele homem representava poder, cultura e sei lá mais o que. O fato é que Giovannis se acham em qualquer balada, ministros não.
Rubens entendeu então o que o delegado queria dizer com cair a republica. Um ministro Gay? Há dez anos atrás? Seria um assunto maior do que o próprio crime. Foi quando o celular de Fiúza tocou e ele levantou-se e foi atender num lugar em pé em que Rubens não pode ouvi-lo. Ao retornar se desculpou, mas disse que era chamado com urgência em uma operação policial.
-Rubens eu ainda quero terminar nossa conversa. Falta esclarecer muita coisa a você. Adianto-te algo que lhe disse. Gabriela era adotada. Cris sabia. Não sei com certeza se Gabriela sabia. Mas devia imaginar três irmãos e pais altos e morenos e ela loira de olhos verde e era baixa...
-Delegado antes de você ir, me responda: Você nunca cogitou de o assassino ser ela e não ele?
-Ser uma mulher você diz?
-Sim o porteiro pode ter se enganado. Algumas mulheres são altas e tem cabelos curtos.
-Eu sei. Sua esposa, Carla Tornemberg tem a mesma altura que você, um metro e oitenta.
Rubens tomou um susto. Aquilo o atravessou. Era talvez uma confirmação?
-Sociólogo, não se esqueça, eu sou um dos melhores, talvez o melhor.
Despediram-se e prometeram continuar a conversa. Ainda naquela semana. Rubens permaneceu sentado no restaurante.
Fiúza se dirigiu a Rua Gabriel Monteiro da Silva, tinha estacionado dois quarteirões para baixo. Pegou o celular e discou para Jair seu investigador há doze anos.
-Jair sou eu escute. Acho que fizemos uma burrada há dez anos atrás. Gabriela Chavez. Você tinha razão. Espera aí to atravessando a rua.
O investigador Jair pode ainda ouvir o celular cair no chão.
-Fiúza! Fiúza!
Mas ninguém respondeu e o carro não parou seguiu em frente. A rua tranqüila a garoa caindo e molhando o corpo do delegado.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Capítulo 14- Os irmãos Chavez
Fúria!
Fiúza quis organizar as coisas.
-Vamos falar de um irmão por vez.
Disse que Duda poderia ser sim um homicida em potencial. Foram necessários na época 5 policiais para imobilizá-lo. Mas seu álibi começou bem antes. Meses antes, em Paraty mesmo. Em um outro final de semana. Em que desta vez só Gabriela e os amigos encontravam-se na Ilha. Rubens mesmo estava lá.
A caseira abriu a porta do quarto aos berros. Eram sete da manhã e foi depois de muito custo que Gabriela, que ainda nem acordara direito, entendeu. Seu irmão recebera um telefonema que o deixara tão transtornado que o fez quebrar o aparelho, dizendo “Eu mato!” Com os olhos bem vermelhos correu até a lancha e seguiu para o continente.
Gabriela não acordou nenhum hóspede. Reuniu os empregados e perguntou se alguém sabia para onde poderia ter ido seu irmão. Nercito, o caseiro, respondeu-lhe que com certeza era coisa relacionada com a “neguinha”, que era como ele se referia a Jéssica, namorada de Duda.
Gabriela foi rápida, colocou um segurança e Nercito em outra lancha e partiu junto com eles para socorrer seu irmão, fosse qual fosse à encrenca na qual ele se metera.
Jéssica tinha uma amiga que a ajudava a enganar a mãe para que ela pudesse se encontrar com Eduardo. Ambas diziam a mãe de Jéssica que ela tomava conta de Laurinha, filha de Bianca, sua amiga, quando essa ia a um restaurante trabalhar como garçonete.
Quando a mãe descobriu a tramóia armada para que sua filha saísse por aí para “galinhar”, como ela se referia ao namoro com o jovem apaixonado Eduardo, jurou dar uma surra que deixaria a filha de cama.
Jéssica, ao saber através dos vizinhos da promessa da mãe, correu para a casa de Bianca e permaneceu lá por três dias na esperança da mãe se acalmar. Como Bianca morava embaixo do morro e a mãe de Jéssica não ir até lá há muito tempo, e também por não saber com exatidão o endereço de Bianca, foram três calmos dias, durante os quais a linda menina descobriu-se grávida.
Doce ilusão das amigas, pois a fuga, em vez de acalmar a mãe, só fez com que ela se tornasse ainda mais furiosa. Abandonou o tanque quando viu ao longe sua filha que chegava com cautela, mostrando os lindos dentes com um sorriso. Bianca, que também era mãe, entrou na frente e por não ser mais adolescente disse à outra que era crime bater em menor, o que daria cadeia, na certa.
Não foi a argumentação de Bianca que brecou a mãe de Jéssica, mas sim o tamanho e a confiança da amiga da filha. Só que por mais coragem que as amigas tivessem, ainda assim eram mulheres e quando o terrível padrasto de Jéssica, com seus noventa e cinco quilos, puxou-a pelos cabelos, a mãe não teve maiores dificuldades em espancá-la e humilhá-la na frente de toda a rua. Nem mesmo os histéricos avisos de Bianca de que a amiga estava grávida, detiveram o religioso casal. E uma não caridosa, porém bem paga vizinha, que ganhava muitos presentes de Duda, não vacilou e telefonou-lhe.
Já era tarde quando as buzinas da camionete que vinha subindo o morro como um trovão foram ouvidas. Jéssica, no colo de Bianca, já estava desmaiada na frente da humilde casa.
- Foi o padrasto e a mãe. Mas ela ficará boa, não foi à primeira vez. — disse Bianca para Duda.
- Mas foi à última vez. — ele emendou.
Chutou a porta e entrou. Duda vestia uma macia camiseta azul e calças bem leves, na cor cáqui ou creme. De resto, o que o casal de pedagogos viu foi Átila e eles nem conseguiam se mexer. Duda agarrou o pescoço do pai de Jéssica e levantou-o do chão, depois lhe deu um empurrão e mandou que ele fosse embora de Paraty e nunca mais voltasse, caso contrário o jovem Chavez prometeu matá-lo. O homem obedeceu e ao que consta nunca mais foi visto na cidade. Nunca mais foi visto em lugar nenhum.
Gabriela, avisada por Nercito de que a menina no chão com a amiga, que agora recobrava os sentidos e chorava, era sua cunhada, abaixou-se para ajudá-la e disse à Jéssica:
- Eu sou Gabi, sua cunhada.
Bianca disse à Gabriela que a menina delirava e estava grávida. Gabriela colocou-as no jipe em que viera e junto com o segurança seguiu para o pronto socorro. Deixou Nercito com Duda para que viessem atrás.
-Foi esse o começo de muitas encrencas Rubens. Jéssica é uma jovem extrovertida, gentil, linda e muito charmosa. Duda não foi o único playboy a se interessar por ela. Um amigo dele, Ricardo Freitas, tentou assediar a moça. No dia do assassinato de Gabriela, Duda foi preso em flagrante. Foi na porta do prédio de Ricardo. Duda quase o matou com uma surra. Dezenas de testemunhas. Não sei como a imprensa não soube. Acho que foi o pai de Ricardo que conseguiu abafar o caso. Quer um conselho? Nunca se aproxime de Jéssica.
Rubens quis então saber sobre Guilherme. Afinal esse sim tinha um motivo: Giovanini.
-Sociólogo, segure-se. O álibi de Guilherme Chavez na época poderia ter abalado a república do Brasil. Foi o ponto mais delicado da investigação. Toda a minha carreira esteve por um triz. Mas hoje, dez anos depois, um governo de oito anos de outro presidente, quem se importa.
Com essa revelação Rubens não contava. Realmente dissera que estava escrevendo um livro ao delegado, pura balela. Mas agora, não é que talvez desse algo grandioso.
Fiúza quis organizar as coisas.
-Vamos falar de um irmão por vez.
Disse que Duda poderia ser sim um homicida em potencial. Foram necessários na época 5 policiais para imobilizá-lo. Mas seu álibi começou bem antes. Meses antes, em Paraty mesmo. Em um outro final de semana. Em que desta vez só Gabriela e os amigos encontravam-se na Ilha. Rubens mesmo estava lá.
A caseira abriu a porta do quarto aos berros. Eram sete da manhã e foi depois de muito custo que Gabriela, que ainda nem acordara direito, entendeu. Seu irmão recebera um telefonema que o deixara tão transtornado que o fez quebrar o aparelho, dizendo “Eu mato!” Com os olhos bem vermelhos correu até a lancha e seguiu para o continente.
Gabriela não acordou nenhum hóspede. Reuniu os empregados e perguntou se alguém sabia para onde poderia ter ido seu irmão. Nercito, o caseiro, respondeu-lhe que com certeza era coisa relacionada com a “neguinha”, que era como ele se referia a Jéssica, namorada de Duda.
Gabriela foi rápida, colocou um segurança e Nercito em outra lancha e partiu junto com eles para socorrer seu irmão, fosse qual fosse à encrenca na qual ele se metera.
Jéssica tinha uma amiga que a ajudava a enganar a mãe para que ela pudesse se encontrar com Eduardo. Ambas diziam a mãe de Jéssica que ela tomava conta de Laurinha, filha de Bianca, sua amiga, quando essa ia a um restaurante trabalhar como garçonete.
Quando a mãe descobriu a tramóia armada para que sua filha saísse por aí para “galinhar”, como ela se referia ao namoro com o jovem apaixonado Eduardo, jurou dar uma surra que deixaria a filha de cama.
Jéssica, ao saber através dos vizinhos da promessa da mãe, correu para a casa de Bianca e permaneceu lá por três dias na esperança da mãe se acalmar. Como Bianca morava embaixo do morro e a mãe de Jéssica não ir até lá há muito tempo, e também por não saber com exatidão o endereço de Bianca, foram três calmos dias, durante os quais a linda menina descobriu-se grávida.
Doce ilusão das amigas, pois a fuga, em vez de acalmar a mãe, só fez com que ela se tornasse ainda mais furiosa. Abandonou o tanque quando viu ao longe sua filha que chegava com cautela, mostrando os lindos dentes com um sorriso. Bianca, que também era mãe, entrou na frente e por não ser mais adolescente disse à outra que era crime bater em menor, o que daria cadeia, na certa.
Não foi a argumentação de Bianca que brecou a mãe de Jéssica, mas sim o tamanho e a confiança da amiga da filha. Só que por mais coragem que as amigas tivessem, ainda assim eram mulheres e quando o terrível padrasto de Jéssica, com seus noventa e cinco quilos, puxou-a pelos cabelos, a mãe não teve maiores dificuldades em espancá-la e humilhá-la na frente de toda a rua. Nem mesmo os histéricos avisos de Bianca de que a amiga estava grávida, detiveram o religioso casal. E uma não caridosa, porém bem paga vizinha, que ganhava muitos presentes de Duda, não vacilou e telefonou-lhe.
Já era tarde quando as buzinas da camionete que vinha subindo o morro como um trovão foram ouvidas. Jéssica, no colo de Bianca, já estava desmaiada na frente da humilde casa.
- Foi o padrasto e a mãe. Mas ela ficará boa, não foi à primeira vez. — disse Bianca para Duda.
- Mas foi à última vez. — ele emendou.
Chutou a porta e entrou. Duda vestia uma macia camiseta azul e calças bem leves, na cor cáqui ou creme. De resto, o que o casal de pedagogos viu foi Átila e eles nem conseguiam se mexer. Duda agarrou o pescoço do pai de Jéssica e levantou-o do chão, depois lhe deu um empurrão e mandou que ele fosse embora de Paraty e nunca mais voltasse, caso contrário o jovem Chavez prometeu matá-lo. O homem obedeceu e ao que consta nunca mais foi visto na cidade. Nunca mais foi visto em lugar nenhum.
Gabriela, avisada por Nercito de que a menina no chão com a amiga, que agora recobrava os sentidos e chorava, era sua cunhada, abaixou-se para ajudá-la e disse à Jéssica:
- Eu sou Gabi, sua cunhada.
Bianca disse à Gabriela que a menina delirava e estava grávida. Gabriela colocou-as no jipe em que viera e junto com o segurança seguiu para o pronto socorro. Deixou Nercito com Duda para que viessem atrás.
-Foi esse o começo de muitas encrencas Rubens. Jéssica é uma jovem extrovertida, gentil, linda e muito charmosa. Duda não foi o único playboy a se interessar por ela. Um amigo dele, Ricardo Freitas, tentou assediar a moça. No dia do assassinato de Gabriela, Duda foi preso em flagrante. Foi na porta do prédio de Ricardo. Duda quase o matou com uma surra. Dezenas de testemunhas. Não sei como a imprensa não soube. Acho que foi o pai de Ricardo que conseguiu abafar o caso. Quer um conselho? Nunca se aproxime de Jéssica.
Rubens quis então saber sobre Guilherme. Afinal esse sim tinha um motivo: Giovanini.
-Sociólogo, segure-se. O álibi de Guilherme Chavez na época poderia ter abalado a república do Brasil. Foi o ponto mais delicado da investigação. Toda a minha carreira esteve por um triz. Mas hoje, dez anos depois, um governo de oito anos de outro presidente, quem se importa.
Com essa revelação Rubens não contava. Realmente dissera que estava escrevendo um livro ao delegado, pura balela. Mas agora, não é que talvez desse algo grandioso.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Capítulo 13- Os irmãos Chavez
Dez anos depois, tudo fica tão óbvio.
Rubens já estava na mesa sozinho esperando há uns quinze minutos. Quando viu o Delegado Fiúza entrar. Era hora do almoço e o lugar estava cheio. Fiúza não teve dificuldade em identificar Rubens. O delegado era um homem forte não muito alto por volta de cinqüenta anos. Ele não era nem muito simpático, nem muito agressivo. Mas passava a imagem de um policial, ou engenheiro, ou até quem sabe um comerciante. Vestia jeans, sapato e camisa social.
-Então o que você quer saber? Você falou sobre um livro?
Rubens explicou então que se demitira do excelente emprego que tinha em uma grande empresa. Disse ao delegado que a família da sua esposa Carla era muito rica e a sua própria também. Logo ele ainda dispunha de algum tempo livre para um livro. Um intervalo até decidir o que iria fazer no futuro.
-Sociólogo.
O delegado confessou que chegou a cogitar uma faculdade de sociologia. Enfim, há muitos anos ninguém o procurava para falar do caso Gabriela Chavez. Fora o caso em que ele mais se empenhara e nunca mais seu nome saiu tanto na mídia depois daquilo. Seu maior desejo na época era resolver o mistério. Empenhou-se ao máximo. Lembrou até de Rubens e Carla. Mas a vida continua novos casos vieram e esse fora arquivado.
Depois de muito falarem Rubens chegou ao ponto:
-Delegado, é verdade que os três irmãos mais velhos de Gabriela eram os maiores suspeitos?
Para a surpresa de Rubens, Fiúza disse que nunca suspeitou de nenhum dos irmãos. Mas Rubens insistiu e perguntou o que na época rondava todos os ouvidos. Gabriela tinha um caso com o namorado de seu irmão Guilherme. Sabia que Jéssica, namorada de Duda esperava um filho e que Duda não queria que isso viesse a público. Sendo que a única pessoa que sabia da gravidez fora Duda era Gabriela.
Fiúza interropeu. Disse que aqueles fatos não caracterizavam motivo nenhum.
-Essa menina foi uma vítima, mas ela era um demônio libidinoso. Seduziu quem quis homens e mulheres.
-Até o irmão o senhor diz?
-Se você Rubens se refere ao caso entre os jovens Cristiano Chavez e Gabriela Chavez, saiba que eles nunca foram irmãos.
Aquilo assustou Rubens. A revelação o pegou de surpresa. Por outro lado sua teoria agora ganhava mais força.
-E sobre os álibis? Nenhum dos irmãos tinha um álibi.
-Rubens, na época segredos não foram expostos publicamente. Cristiano estava no quarto dormindo. Um quarto no mesmo apartamento em que Gabriela foi assassinada. Na mesma noite.
Rubens olhou pela janela a garoa fina lá fora. Fiúza cortava o bife. Rubens não teve mais dúvidas se ele cruzasse as informações com o delegado Fiúza o mistério estaria desvendado. Provavelmente naquela mesma tarde. E aquilo não o deixava feliz, muito pelo contrário.
Rubens já estava na mesa sozinho esperando há uns quinze minutos. Quando viu o Delegado Fiúza entrar. Era hora do almoço e o lugar estava cheio. Fiúza não teve dificuldade em identificar Rubens. O delegado era um homem forte não muito alto por volta de cinqüenta anos. Ele não era nem muito simpático, nem muito agressivo. Mas passava a imagem de um policial, ou engenheiro, ou até quem sabe um comerciante. Vestia jeans, sapato e camisa social.
-Então o que você quer saber? Você falou sobre um livro?
Rubens explicou então que se demitira do excelente emprego que tinha em uma grande empresa. Disse ao delegado que a família da sua esposa Carla era muito rica e a sua própria também. Logo ele ainda dispunha de algum tempo livre para um livro. Um intervalo até decidir o que iria fazer no futuro.
-Sociólogo.
O delegado confessou que chegou a cogitar uma faculdade de sociologia. Enfim, há muitos anos ninguém o procurava para falar do caso Gabriela Chavez. Fora o caso em que ele mais se empenhara e nunca mais seu nome saiu tanto na mídia depois daquilo. Seu maior desejo na época era resolver o mistério. Empenhou-se ao máximo. Lembrou até de Rubens e Carla. Mas a vida continua novos casos vieram e esse fora arquivado.
Depois de muito falarem Rubens chegou ao ponto:
-Delegado, é verdade que os três irmãos mais velhos de Gabriela eram os maiores suspeitos?
Para a surpresa de Rubens, Fiúza disse que nunca suspeitou de nenhum dos irmãos. Mas Rubens insistiu e perguntou o que na época rondava todos os ouvidos. Gabriela tinha um caso com o namorado de seu irmão Guilherme. Sabia que Jéssica, namorada de Duda esperava um filho e que Duda não queria que isso viesse a público. Sendo que a única pessoa que sabia da gravidez fora Duda era Gabriela.
Fiúza interropeu. Disse que aqueles fatos não caracterizavam motivo nenhum.
-Essa menina foi uma vítima, mas ela era um demônio libidinoso. Seduziu quem quis homens e mulheres.
-Até o irmão o senhor diz?
-Se você Rubens se refere ao caso entre os jovens Cristiano Chavez e Gabriela Chavez, saiba que eles nunca foram irmãos.
Aquilo assustou Rubens. A revelação o pegou de surpresa. Por outro lado sua teoria agora ganhava mais força.
-E sobre os álibis? Nenhum dos irmãos tinha um álibi.
-Rubens, na época segredos não foram expostos publicamente. Cristiano estava no quarto dormindo. Um quarto no mesmo apartamento em que Gabriela foi assassinada. Na mesma noite.
Rubens olhou pela janela a garoa fina lá fora. Fiúza cortava o bife. Rubens não teve mais dúvidas se ele cruzasse as informações com o delegado Fiúza o mistério estaria desvendado. Provavelmente naquela mesma tarde. E aquilo não o deixava feliz, muito pelo contrário.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Capítulo 12- Os irmãos Chavez
Aventura
De dia o local é um sacolão e à noite se transforma em um enorme e interessante restaurante japonês que mais lembra o bairro da Liberdade e o Mercado Municipal, misturados à essência boemia da Vila Madalena.
Rubens e Beto foram para o tudo ou nada.
— Você não faz PUC? — perguntou Beto, e como ele nem sabia direito para qual das três se dirigir, as três não souberam tão pouco para quem era a pergunta.
— Eu faço.
Foi o que respondeu a terceira.
— Então é de lá.
— De lá o que?
As três que antes fizeram cara feia por serem interrompidas no papo onde resolveriam o que fariam no próximo feriado, agora depois do “então é de lá”, tiveram crise de risos, o que as deixou muito antipáticas.
Os dois deram sorte, pois a mais feinha das três consentiu que os dois sentassem. Logo o trio e a dupla tornou-se uma agradável mesa de cinco.
Beto disparou a falar. Rubens estava um tanto inseguro e constrangido, só observando calado. Beto quis saber o que elas faziam, mas antes que as meninas entre goles de saquê respondessem, ele já declarou em bom tom que o amigo era sociólogo da USP, veja bem: USP, com maiúscula. As três se impressionaram com o tímido. Talvez ele realmente fosse um intelectual e as estava desprezando, quem sabe?
Na empolgação Beto não escondeu seu entusiasmo por Freud e soltou:
— Já leram o mal estar na civilização? Novamente Beto errou feio. As três eram estudantes de psico e o que alguém acharia pedante e cômico como Rubens achou, para elas soou ofensivo. Como se ele estivesse brincando com algo sagrado sem ritual ou iniciação. Bola fora! Tudo bem, fora uma vitória, ao menos conseguiram sentar-se à mesa das três.
Rubens percebeu que o amigo ia afundar e tentou impedir o nocaute.
— Vocês estavam combinando o feriado? Faz um ano nesse feriado que eu e o Beto preparamos uma super festa com vinho, fondue, queijos. Foi à gente mesmo que fez. Convidamos uma turminha e várias gatas. O resultado do investimento foi que as gatas levaram os cachorros e nós dois sobramos tomando vinho e vendo os outros se beijarem.
As três agora se arrependiam muito de tê-los chamado para a mesma mesa. Não há mal nenhum em bater papo sem compromisso, porém as estudantes de psico não se entusiasmavam com o drama dos dois perdedores. Mas qual não foi o espanto dos cinco ao ouvirem:
— Rubens! Venha sentar com a gente.
Era com certeza a menina mais linda que elas já haviam visto. Seu nome? Gabriela Chavez. Lógico!
Neste momento a cotação dos dois subiu a mil por cento e as três psico, quer dizer, estudantes, permaneciam com os queixos caídos.
Beto mal pode crer que não era sonho. De uma mesa com três meras desconhecidas e sem importância fora agora sentar-se com a famosa Gabriela Chavez, a gata mais cobiçada de São Paulo.
Quando o amigo lhe contou que havia estado na ilha dos Chavez, ele desconfiou, porém sentia orgulho de Rubens e se esbaldava em ver as três psico tentando disfarçar a curiosidade do que agora rolava ali naquela mesa de celebridades formadas por Flavinha, Pedro Paulo, a Chavez e Rubens.
Enquanto Pedro Paulo expunha seus comentários sobre o lugar, Rubens se indagava onde estariam Carla e Ícaro.
— São tempos de esquerda, esses nossos. Este lugar é a própria tradução do militantismo descolado paulistano. Que apesar de não me fascinar tanto, posso dizer que é realmente um ambiente genuinamente latino-americano.
— Como assim? Desenvolva. — Pediu Beto.
— Ora, até os lugares ditos GLS são colonizados. Ainda não se firmou a figura do bissexual latino-americano. Hoje os gays têm hábitos nórdicos.
— Talvez exista uma necessidade de a comunidade gay mundial ser uma unidade e tornar a minoria mais forte. — Foi o que Gabriela disse.
— Onde está Ícaro? — Perguntou Rubens à Gabi.
— Saiu com a gelara do circo.
---E a Carla, onde foi?
Rubens percebeu que algo não cheirava bem e por isso desviou o assunto.
Despediam-se os cinco e Gabriela disse a Pedro Paulo que levaria Flavinha em casa. Beto assustou-se quando num surto, ao caminharem em direção ao carro Rubens lhe pedisse que fosse rápido. Deram três reais ao guardador de carro.
— Vai logo, vamos segui-la.
— Quem?
— Gabriela Chavez.
— Por quê?
— No caminho eu te falo. Olha lá o valet entregando a Cherokee preta e elas entrando. Vai!
Rubens estranhou a calma de Gabriela em relação ao seu namorado sumir e a sua melhor amiga também. Percebeu que Gabriela recebera uma ligação e quando Flavinha e Pedro Paulo que viram a amiga sorrir e falar baixinho, indagaram-na de quem era e ela disse: “Meu irmão”, sem explicar qual deles. O nosso detetive pensou: “tem coisa errada aí”. Fora Gabriela quem pedira a conta e estava ansiosa para quem disse que iria dormir. Não dizer o que levou Rubens a essa excitação; se realmente a curiosidade de saber o que uma deusa como Gabriela apronta por aí, o que aliás milhões de seres têm, vide os paparazzi, ou a relação que talvez isso tivesse com a sua amada Carla.
Gabriela deixou Flavinha em sua casa, naquele prédio na Cidade Jardim onde teve a festa de Flavinha no início da história, o primeiro beijo de Ícaro e coisa e tal. Seguiu pela Augusta e o carro sempre atrás da Cherokee.
— Tem certeza que ela não virou na Brasil?
— Absoluta!
Os dois estranharam muito que Gabriela permanecesse na Rua Augusta. Então, quando ela cruzou a Paulista os dois se deliciaram. “Vamos realmente ter aventura hoje à noite”, foi o quem pensaram.
A Cherokee passou pelo Anhangabaú, contornou a Praça da Sé e foi estacionar em um banco financeiro no largo de São Bento.
Eu sei leitor, que não é horário comercial, logo, o que ela estaria fazendo lá? É que agora é costume fazer festas no centro de São Paulo. Os dois pararam na própria rua. A música que vinha de um pequeno prédio de cinco andares no calçadão era animada. A Chavez misturou-se com um grupo que estava chegando e subiu as escadas com outras meninas que se vestiam no estilo dito “retro”.
O prédio com certeza era da década de quarenta e possuía um elevador desses de grade que se fecha manualmente.
Permaneceram em um local mais escuro observando a Chavez que dançava com alguns meninos. Ela dirigiu-se até a outra extremidade do andar onde havia um bar com as antigas enormes janelas abertas para o centro da metrópole e as estrelas. Enquanto pegavam cervejas Gabriela passou bem perto deles muito apressada, mas por sorte não os viu. Correram para o carro e puderam ver a Cherokee saindo. Dessa vez não era Gabriela que dirigia e sim um homem com um gorrinho azul.
A Cherokee deu muitas voltas até parar em um posto de gasolina com loja de conveniência vinte e quatro horas. Os dois desligaram o farol e estacionaram o carro na outra extremidade do posto fingindo verificar os pneus. Gabriela permaneceu no carro e a pessoa que dirigia desceu para comprar cigarros, agora sem o gorro; era um menino muito bonito, de cabelos loiros lisos e brilhantes.
Foi tudo muito rápido e quando Giovanni e Gabriela iam saindo Rubens e Beto... Sim, leitor, com certeza era Giovanni.
Rubens ia fechar a porta do carro, mas sentiu uma mão em seu ombro e viu um homem com olhos sofridos fingindo sorrir:
— Você por aqui, Rubens?
Pronto, não dava mais tempo. A Cherokee sumira e os dois detetives foram tomar uma cerveja com Guilherme Chavez na loja de conveniência. Nenhum dos três mencionou a Cherokee e seus ocupantes e eles fingiram ser apenas uma coincidência. Um encontro casual nessa enorme cidade. E foi só conversa jogada fora. Depois de se despedirem, Beto, que conduzia o amigo para casa, não dormiu aquela noite depois do nosso detetive lhe revelar o escândalo da irmã ser amante do namorado do irmão.
Para Beto que nunca teve amante e único risco sexual que já tivera fora o de ir à Love Story, aquela informação equivaleu à ida do homem à lua ou ao início da terceira guerra mundial.
Na cama, olhando para o teto ele se lamentava: “Por que não acontece nada na minha vida?” E Rubens que a todo instante era acordado pelo telefone, desistiu de atender na terceira vez:
— Não acredito! Dizia Beto do outro lado. — Não acredito!
— Pois então creia. Como diz o filósofo francês, aposte que é verdade, que existe, porque se apostar que não existe, existe mesmo de qualquer jeito. Boa noite... Quer dizer.
Rubens vê a rua iluminada através da janela.
--- Bom dia! E desliga.
De dia o local é um sacolão e à noite se transforma em um enorme e interessante restaurante japonês que mais lembra o bairro da Liberdade e o Mercado Municipal, misturados à essência boemia da Vila Madalena.
Rubens e Beto foram para o tudo ou nada.
— Você não faz PUC? — perguntou Beto, e como ele nem sabia direito para qual das três se dirigir, as três não souberam tão pouco para quem era a pergunta.
— Eu faço.
Foi o que respondeu a terceira.
— Então é de lá.
— De lá o que?
As três que antes fizeram cara feia por serem interrompidas no papo onde resolveriam o que fariam no próximo feriado, agora depois do “então é de lá”, tiveram crise de risos, o que as deixou muito antipáticas.
Os dois deram sorte, pois a mais feinha das três consentiu que os dois sentassem. Logo o trio e a dupla tornou-se uma agradável mesa de cinco.
Beto disparou a falar. Rubens estava um tanto inseguro e constrangido, só observando calado. Beto quis saber o que elas faziam, mas antes que as meninas entre goles de saquê respondessem, ele já declarou em bom tom que o amigo era sociólogo da USP, veja bem: USP, com maiúscula. As três se impressionaram com o tímido. Talvez ele realmente fosse um intelectual e as estava desprezando, quem sabe?
Na empolgação Beto não escondeu seu entusiasmo por Freud e soltou:
— Já leram o mal estar na civilização? Novamente Beto errou feio. As três eram estudantes de psico e o que alguém acharia pedante e cômico como Rubens achou, para elas soou ofensivo. Como se ele estivesse brincando com algo sagrado sem ritual ou iniciação. Bola fora! Tudo bem, fora uma vitória, ao menos conseguiram sentar-se à mesa das três.
Rubens percebeu que o amigo ia afundar e tentou impedir o nocaute.
— Vocês estavam combinando o feriado? Faz um ano nesse feriado que eu e o Beto preparamos uma super festa com vinho, fondue, queijos. Foi à gente mesmo que fez. Convidamos uma turminha e várias gatas. O resultado do investimento foi que as gatas levaram os cachorros e nós dois sobramos tomando vinho e vendo os outros se beijarem.
As três agora se arrependiam muito de tê-los chamado para a mesma mesa. Não há mal nenhum em bater papo sem compromisso, porém as estudantes de psico não se entusiasmavam com o drama dos dois perdedores. Mas qual não foi o espanto dos cinco ao ouvirem:
— Rubens! Venha sentar com a gente.
Era com certeza a menina mais linda que elas já haviam visto. Seu nome? Gabriela Chavez. Lógico!
Neste momento a cotação dos dois subiu a mil por cento e as três psico, quer dizer, estudantes, permaneciam com os queixos caídos.
Beto mal pode crer que não era sonho. De uma mesa com três meras desconhecidas e sem importância fora agora sentar-se com a famosa Gabriela Chavez, a gata mais cobiçada de São Paulo.
Quando o amigo lhe contou que havia estado na ilha dos Chavez, ele desconfiou, porém sentia orgulho de Rubens e se esbaldava em ver as três psico tentando disfarçar a curiosidade do que agora rolava ali naquela mesa de celebridades formadas por Flavinha, Pedro Paulo, a Chavez e Rubens.
Enquanto Pedro Paulo expunha seus comentários sobre o lugar, Rubens se indagava onde estariam Carla e Ícaro.
— São tempos de esquerda, esses nossos. Este lugar é a própria tradução do militantismo descolado paulistano. Que apesar de não me fascinar tanto, posso dizer que é realmente um ambiente genuinamente latino-americano.
— Como assim? Desenvolva. — Pediu Beto.
— Ora, até os lugares ditos GLS são colonizados. Ainda não se firmou a figura do bissexual latino-americano. Hoje os gays têm hábitos nórdicos.
— Talvez exista uma necessidade de a comunidade gay mundial ser uma unidade e tornar a minoria mais forte. — Foi o que Gabriela disse.
— Onde está Ícaro? — Perguntou Rubens à Gabi.
— Saiu com a gelara do circo.
---E a Carla, onde foi?
Rubens percebeu que algo não cheirava bem e por isso desviou o assunto.
Despediam-se os cinco e Gabriela disse a Pedro Paulo que levaria Flavinha em casa. Beto assustou-se quando num surto, ao caminharem em direção ao carro Rubens lhe pedisse que fosse rápido. Deram três reais ao guardador de carro.
— Vai logo, vamos segui-la.
— Quem?
— Gabriela Chavez.
— Por quê?
— No caminho eu te falo. Olha lá o valet entregando a Cherokee preta e elas entrando. Vai!
Rubens estranhou a calma de Gabriela em relação ao seu namorado sumir e a sua melhor amiga também. Percebeu que Gabriela recebera uma ligação e quando Flavinha e Pedro Paulo que viram a amiga sorrir e falar baixinho, indagaram-na de quem era e ela disse: “Meu irmão”, sem explicar qual deles. O nosso detetive pensou: “tem coisa errada aí”. Fora Gabriela quem pedira a conta e estava ansiosa para quem disse que iria dormir. Não dizer o que levou Rubens a essa excitação; se realmente a curiosidade de saber o que uma deusa como Gabriela apronta por aí, o que aliás milhões de seres têm, vide os paparazzi, ou a relação que talvez isso tivesse com a sua amada Carla.
Gabriela deixou Flavinha em sua casa, naquele prédio na Cidade Jardim onde teve a festa de Flavinha no início da história, o primeiro beijo de Ícaro e coisa e tal. Seguiu pela Augusta e o carro sempre atrás da Cherokee.
— Tem certeza que ela não virou na Brasil?
— Absoluta!
Os dois estranharam muito que Gabriela permanecesse na Rua Augusta. Então, quando ela cruzou a Paulista os dois se deliciaram. “Vamos realmente ter aventura hoje à noite”, foi o quem pensaram.
A Cherokee passou pelo Anhangabaú, contornou a Praça da Sé e foi estacionar em um banco financeiro no largo de São Bento.
Eu sei leitor, que não é horário comercial, logo, o que ela estaria fazendo lá? É que agora é costume fazer festas no centro de São Paulo. Os dois pararam na própria rua. A música que vinha de um pequeno prédio de cinco andares no calçadão era animada. A Chavez misturou-se com um grupo que estava chegando e subiu as escadas com outras meninas que se vestiam no estilo dito “retro”.
O prédio com certeza era da década de quarenta e possuía um elevador desses de grade que se fecha manualmente.
Permaneceram em um local mais escuro observando a Chavez que dançava com alguns meninos. Ela dirigiu-se até a outra extremidade do andar onde havia um bar com as antigas enormes janelas abertas para o centro da metrópole e as estrelas. Enquanto pegavam cervejas Gabriela passou bem perto deles muito apressada, mas por sorte não os viu. Correram para o carro e puderam ver a Cherokee saindo. Dessa vez não era Gabriela que dirigia e sim um homem com um gorrinho azul.
A Cherokee deu muitas voltas até parar em um posto de gasolina com loja de conveniência vinte e quatro horas. Os dois desligaram o farol e estacionaram o carro na outra extremidade do posto fingindo verificar os pneus. Gabriela permaneceu no carro e a pessoa que dirigia desceu para comprar cigarros, agora sem o gorro; era um menino muito bonito, de cabelos loiros lisos e brilhantes.
Foi tudo muito rápido e quando Giovanni e Gabriela iam saindo Rubens e Beto... Sim, leitor, com certeza era Giovanni.
Rubens ia fechar a porta do carro, mas sentiu uma mão em seu ombro e viu um homem com olhos sofridos fingindo sorrir:
— Você por aqui, Rubens?
Pronto, não dava mais tempo. A Cherokee sumira e os dois detetives foram tomar uma cerveja com Guilherme Chavez na loja de conveniência. Nenhum dos três mencionou a Cherokee e seus ocupantes e eles fingiram ser apenas uma coincidência. Um encontro casual nessa enorme cidade. E foi só conversa jogada fora. Depois de se despedirem, Beto, que conduzia o amigo para casa, não dormiu aquela noite depois do nosso detetive lhe revelar o escândalo da irmã ser amante do namorado do irmão.
Para Beto que nunca teve amante e único risco sexual que já tivera fora o de ir à Love Story, aquela informação equivaleu à ida do homem à lua ou ao início da terceira guerra mundial.
Na cama, olhando para o teto ele se lamentava: “Por que não acontece nada na minha vida?” E Rubens que a todo instante era acordado pelo telefone, desistiu de atender na terceira vez:
— Não acredito! Dizia Beto do outro lado. — Não acredito!
— Pois então creia. Como diz o filósofo francês, aposte que é verdade, que existe, porque se apostar que não existe, existe mesmo de qualquer jeito. Boa noite... Quer dizer.
Rubens vê a rua iluminada através da janela.
--- Bom dia! E desliga.
Capítulo 11- Os irmãos Chavez
Herói
Era a primeira vez que esse trapezista viajava de avião. Não havia tempo. Sua namorada estava morrendo no hospital em São Paulo e ele fora passar o natal em Londrina. Sentiu certo começo de pânico misturado com prazer quando a aeronave acelerou na pista para a decolagem. Depois olhou no bolso do assento à sua frente e achou graça no nome da revista. Era o mesmo que o seu. “Pois então não sabem que este nome é ruim para voar e bom para sonhar e acidentar-se”.
Já lá em cima, no silêncio, lembrou-se de Gabriela. Como ela estava? Há alguns meses viviam juntos, dormindo todos os dias na mesma cama. E a paixão continuava a mesma. Pelo menos para ele. De repente o céu se abriu e veio o sol. Essa seria uma manhã quente. Tão quente quanto aquela em que Gabriela e Carla foram visitar a sua antiga pensão. Uma espécie de república estudantil de jovens provenientes da província.
Uma vila de casas que se localiza na fronteira de Pinheiros e Vila Madalena.
Gabriela achou as paredes e o chão um tanto abandonados em umas partes onde se encontravam buracos, às vezes preenchidos por uma massa sem pintura que já pulavam para fora como fruta madura. Apesar disso gostou da liberdade e do colorido criativo que os estudantes iam decorando o espaço.
Era uma comuna e todos na verdade, uns vinte moradores e mais alguns agregados em um terreno com três pequenas casas pareciam tão diferentes, nenhum foi arisco, aliás todos que passavam se cumprimentavam com um “oi” e falavam de suas vidas como em um documentário. Será que eles tratavam bem de Ícaro lá? Foi o que Gabi pensou.
— Você sente falta da sua família? Da sua mãe?
— Lógico!
Ele respondeu, depois mostrou sua cama e a menina se assustou quando viu o banheiro e pensou: “Tadinho, com esse chuveirinho elétrico e esse espelhinho que embaça, parece uma maloquinha”.
Do resto adorou e prometeu a si mesma de trabalhar no restaurante onde começara e com isso ganhar independência e morar por sua conta, como Ícaro.
A aeromoça serviu-lhe um suco de laranja.
Meu Deus, como ela estaria? Mas no final tudo daria certo. E não fora tão grave, lhe disseram por telefone. Passariam o natal junto.
Mas ele não entendeu bem: foi um assalto? Uma tentativa de estupro? O que houve com Gabi? Será que ela está bem? Ela precisa de mim.
E o sono veio. Só que ele não podia dormir.
As duas amigas sentaram-se na cama de Ícaro e ele deitou em uma rede que estava do outro lado da janela. “Por que será que Carla está de tão mau humor?” — ele se indagou.
— Tem um filme aí, vocês querem ver?
— Acende um, depois a gente assiste. — respondeu Gabi.
Então os três foram para uma salinha com um sofazinho, que na verdade era mais uma cama improvisada do que um sofá propriamente dito e um pufe. Dois moradores vieram se juntar ao grupo. Shakespeare in love era o nome da fita.
— Esse filme é irado. Já assisti, mas vou adorar ver de novo. — disse a Chavez, e depois se encostou a Ícaro que estava entre ela e Carla.
— Pode colocar a cabeça no meu ombro, Gabi.
Logo que o filme terminou abriram à porta da cozinha e dois estudantes prepararam um cheiroso macarrão com salsichas, e eles, ao verem Gabi não tiveram dúvida em insistir num convite para que todos jantassem juntos naquele começo de noite. A larica era forte e aceitaram.
Era o começo do começo do início do namoro do trapezista e a garota, mas por um descuido de amizade Ícaro beijou a boca das duas amigas muitas vezes, com o que Gabi parecia não se importar.
Carla não estava muito sorridente, mas sorriu na hora das duas irem embora e disse baixinho no ouvido de Ícaro:
— Você acha que vai ter essa princesinha, mas ela ama outro.
— O que é que você está falando aí, Carla?
— Nada não, Gabizinha.
— Se fica doidona... Ah! Me abraça amiga e promete que nunca vai me roubar namorado.
— E como? Mesmo que eu quisesse amiga, todos os homens do mundo são loucos por você. Até os feinhos! Olha aí esse aí.
Carla se referia a Ícaro que achava muita graça em tudo. Mas agora a ficha caíra. Carla realmente devia ser apaixonada por ele como ela mesma em segredo já lhe insinuara.
Teria Carla alguma coisa a ver com o acidente de Gabriela? Era o que Ícaro se indagava enquanto a aeronave se preparava para pousar em São Paulo.
Era a primeira vez que esse trapezista viajava de avião. Não havia tempo. Sua namorada estava morrendo no hospital em São Paulo e ele fora passar o natal em Londrina. Sentiu certo começo de pânico misturado com prazer quando a aeronave acelerou na pista para a decolagem. Depois olhou no bolso do assento à sua frente e achou graça no nome da revista. Era o mesmo que o seu. “Pois então não sabem que este nome é ruim para voar e bom para sonhar e acidentar-se”.
Já lá em cima, no silêncio, lembrou-se de Gabriela. Como ela estava? Há alguns meses viviam juntos, dormindo todos os dias na mesma cama. E a paixão continuava a mesma. Pelo menos para ele. De repente o céu se abriu e veio o sol. Essa seria uma manhã quente. Tão quente quanto aquela em que Gabriela e Carla foram visitar a sua antiga pensão. Uma espécie de república estudantil de jovens provenientes da província.
Uma vila de casas que se localiza na fronteira de Pinheiros e Vila Madalena.
Gabriela achou as paredes e o chão um tanto abandonados em umas partes onde se encontravam buracos, às vezes preenchidos por uma massa sem pintura que já pulavam para fora como fruta madura. Apesar disso gostou da liberdade e do colorido criativo que os estudantes iam decorando o espaço.
Era uma comuna e todos na verdade, uns vinte moradores e mais alguns agregados em um terreno com três pequenas casas pareciam tão diferentes, nenhum foi arisco, aliás todos que passavam se cumprimentavam com um “oi” e falavam de suas vidas como em um documentário. Será que eles tratavam bem de Ícaro lá? Foi o que Gabi pensou.
— Você sente falta da sua família? Da sua mãe?
— Lógico!
Ele respondeu, depois mostrou sua cama e a menina se assustou quando viu o banheiro e pensou: “Tadinho, com esse chuveirinho elétrico e esse espelhinho que embaça, parece uma maloquinha”.
Do resto adorou e prometeu a si mesma de trabalhar no restaurante onde começara e com isso ganhar independência e morar por sua conta, como Ícaro.
A aeromoça serviu-lhe um suco de laranja.
Meu Deus, como ela estaria? Mas no final tudo daria certo. E não fora tão grave, lhe disseram por telefone. Passariam o natal junto.
Mas ele não entendeu bem: foi um assalto? Uma tentativa de estupro? O que houve com Gabi? Será que ela está bem? Ela precisa de mim.
E o sono veio. Só que ele não podia dormir.
As duas amigas sentaram-se na cama de Ícaro e ele deitou em uma rede que estava do outro lado da janela. “Por que será que Carla está de tão mau humor?” — ele se indagou.
— Tem um filme aí, vocês querem ver?
— Acende um, depois a gente assiste. — respondeu Gabi.
Então os três foram para uma salinha com um sofazinho, que na verdade era mais uma cama improvisada do que um sofá propriamente dito e um pufe. Dois moradores vieram se juntar ao grupo. Shakespeare in love era o nome da fita.
— Esse filme é irado. Já assisti, mas vou adorar ver de novo. — disse a Chavez, e depois se encostou a Ícaro que estava entre ela e Carla.
— Pode colocar a cabeça no meu ombro, Gabi.
Logo que o filme terminou abriram à porta da cozinha e dois estudantes prepararam um cheiroso macarrão com salsichas, e eles, ao verem Gabi não tiveram dúvida em insistir num convite para que todos jantassem juntos naquele começo de noite. A larica era forte e aceitaram.
Era o começo do começo do início do namoro do trapezista e a garota, mas por um descuido de amizade Ícaro beijou a boca das duas amigas muitas vezes, com o que Gabi parecia não se importar.
Carla não estava muito sorridente, mas sorriu na hora das duas irem embora e disse baixinho no ouvido de Ícaro:
— Você acha que vai ter essa princesinha, mas ela ama outro.
— O que é que você está falando aí, Carla?
— Nada não, Gabizinha.
— Se fica doidona... Ah! Me abraça amiga e promete que nunca vai me roubar namorado.
— E como? Mesmo que eu quisesse amiga, todos os homens do mundo são loucos por você. Até os feinhos! Olha aí esse aí.
Carla se referia a Ícaro que achava muita graça em tudo. Mas agora a ficha caíra. Carla realmente devia ser apaixonada por ele como ela mesma em segredo já lhe insinuara.
Teria Carla alguma coisa a ver com o acidente de Gabriela? Era o que Ícaro se indagava enquanto a aeronave se preparava para pousar em São Paulo.
Capítulo 10- Os irmãos Chavez
Barroco
Se me perguntassem por que os cabelos de Gabriela Chavez, loiros eram tão bonitos, eu não saberia dizer. Esses pêlos eram diferentes e o jeito que ela gingava ao andar e o barulho de sua respiração que podia ser ouvida por Cris em uma noite tão quieta e que nós sabemos também tão agitada. Às vezes tenho a sensação de que os opostos realmente se atraem como diz o ditado, que erroneamente é creditado aos amantes. Mas o pequeno segue o grande, o comprido só o é na presença do curto. Noite segue o dia, e o dia a noite, a vigília segue o sono e o sono a vigília. E a vida segue a morte.
Mas o preto virará branco e o branco virará preto, e o tempo passa e o tempo passa e o jovem torna-se velho e o velho, criança. O barroco, antigo e o rock, moderno.
— Eles desistiram, todo mundo desistiu, Gabriela! Não tem mais banda, eu acho ótimo. Sabe por quê? Eu quero aprender flauta barroca.
E a menina resolveu se sentar em um pequeno muro onde Cris colocou o pé e deu um gole na cerveja, olhou para cima e viram estrelas, as mesmas que estavam lá desde o século XVII. Depois viu a cruz na torre da catedral, essa que já foi testemunha de muitos beijos naquela praça que dava para o mar, onde a uns cinqüenta metros existia um píer de onde os marinheiros viriam para buscá-los e conduzi-los de volta à ilha dos Chavez.
— Você está me dizendo que quer mudar de estilo musical, Cris? Por que a galerinha não quer mais tocar?
— A gente tem que ser algo na vida, não tem?
— Mas o começo é sempre difícil!
— Não estou falando só disso.
Cris se irritou, mas Gabi permanecia ali, linda, com os joelhos indo e voltando, batendo-se, ora abriam-se. A boquinha aberta e os olhinhos encarando, mas com a testinha apontada. Apesar de Cris ser seu irmão... Bem, uma saia, uma garota bebendo cerveja, o barulho do mar, as estrelas, a igreja, o vento, que eram espíritos boêmios que passavam e subiam, e os irmãos.
— Gabi, eu quero ser amado!
— Eu te amo, Cris!
— E eu estou cansando.
— Cris, nós não fomos os primeiros nem os últimos a... Fazer... A literatura está cheia disto. Um monte de gente é que nem eu e você, mas ninguém fica sabendo. E esse é o jeito que eu te amo e é sincero. Vem cá!
Gabriela tentava explicar a Cris enquanto ao mesmo tempo lhe fazia um cafuné, que não era a intensidade do amor dela, que era pouca, o problema real é que Cris quer outra coisa.
— Concordo carinha, eu não te conheci num bar. Nós não temos um roteiro juntos. Você não me viu atravessando a rua e se apaixonou. Qual é? Eu nunca vou te perder. A gente vai se amar sempre! Então qual é o grilo? Você não é careta, eu menos ainda. Só que o que pega é que eu conheço cada pedacinho seu essa mãozinha, esse narizinho, essa boca que eu adoro beijar, esse cabelo!
Gabriela tentou mudar de assunto e passava os dedos pelos cabelos de Cris. De repente ele se levantou e foi embora para dentro da escuridão da noite. Ela não foi atrás dele porque era óbvio que ele voltaria. Talvez só tivesse ido fazer xixi. Nunca que ele a deixaria ali sozinha, a sua irmãzinha amada.
O vento aumentou e as nuvens fecharam-se de novo. Gabriela ouviu um barulho ao longe e começou a chorar. “Cris não faria isso comigo, Duda sim, mas não meu doce irmão”. E agora aquela praça que parecia tão calma tornara-se sinistra. Um terror. A caçula dos Chavez se lembrou da história do estuprador de Paraty, a qual os empregados da ilha vinham contando.
Do outro lado da praça, Gabriela viu a silhueta de um homem. Na verdade era o Puritano que se adiantara do grupo para alcançar Cris e Gabriela e por sorte talvez pegá-la sozinha e declarar o seu amor, pois já estava desesperado. A praça ficou escura; por causa da tempestade a luz acabara no centro histórico todo, por isso quando o Puritano foi em sua direção, Gabriela fugiu. Correu pela escuridão. Já estava cansada e não sabia mais para onde ir. Olhava para trás, mas não tinha certeza se alguém ainda a seguia. Foi quando ouviu uma voz conhecida, parou e reconheceu aquele menino. Sentiu-se salva, porém o menino não sorriu e tinha alguma coisa na mão. Uma faca talvez?
— Tem alguém caído ali! — Duda avistara um contorno na rua deserta, que poderia ser de uma pessoa caída, como também um tronco de árvore trazido pela chuva que agora diminuía de intensidade. Mas era ela e os três altos irmãos pegaram-na e ajudaram-na a levantar.
Gabriela tinha sangue nas roupas, mas nenhum corte. Ela estava desmaiada e acordou assim que os irmãos a levantaram. O dia amanhecia. E uma chuva agora caia.
Nosso detetive Rubens foi o primeiro a ver os quatro Chavez, molhados, chegando a uma padaria do centro histórico. Carla, Pedro Paulo e o resto das pessoas admirarem-se com aquela cena dos quatro esgotados e o sol nascendo.
Entraram no barco e partiram em direção à ilha no que seria um dia de céu azul e quente. Ninguém se lembrou do casal de Puritanos, que também como Gabriela se perdera durante a tempestade.
Gabriela não contou a ninguém sobre o menino. Quando Carla disse achar ter visto Caio no centro, ela se fingiu de esgotada e fez que nem ouviu. E o barco seguia em direção a ilha, ela adormeceu, mas Cris pode ouvi-la ainda dizer: ---Ícaro.
Se me perguntassem por que os cabelos de Gabriela Chavez, loiros eram tão bonitos, eu não saberia dizer. Esses pêlos eram diferentes e o jeito que ela gingava ao andar e o barulho de sua respiração que podia ser ouvida por Cris em uma noite tão quieta e que nós sabemos também tão agitada. Às vezes tenho a sensação de que os opostos realmente se atraem como diz o ditado, que erroneamente é creditado aos amantes. Mas o pequeno segue o grande, o comprido só o é na presença do curto. Noite segue o dia, e o dia a noite, a vigília segue o sono e o sono a vigília. E a vida segue a morte.
Mas o preto virará branco e o branco virará preto, e o tempo passa e o tempo passa e o jovem torna-se velho e o velho, criança. O barroco, antigo e o rock, moderno.
— Eles desistiram, todo mundo desistiu, Gabriela! Não tem mais banda, eu acho ótimo. Sabe por quê? Eu quero aprender flauta barroca.
E a menina resolveu se sentar em um pequeno muro onde Cris colocou o pé e deu um gole na cerveja, olhou para cima e viram estrelas, as mesmas que estavam lá desde o século XVII. Depois viu a cruz na torre da catedral, essa que já foi testemunha de muitos beijos naquela praça que dava para o mar, onde a uns cinqüenta metros existia um píer de onde os marinheiros viriam para buscá-los e conduzi-los de volta à ilha dos Chavez.
— Você está me dizendo que quer mudar de estilo musical, Cris? Por que a galerinha não quer mais tocar?
— A gente tem que ser algo na vida, não tem?
— Mas o começo é sempre difícil!
— Não estou falando só disso.
Cris se irritou, mas Gabi permanecia ali, linda, com os joelhos indo e voltando, batendo-se, ora abriam-se. A boquinha aberta e os olhinhos encarando, mas com a testinha apontada. Apesar de Cris ser seu irmão... Bem, uma saia, uma garota bebendo cerveja, o barulho do mar, as estrelas, a igreja, o vento, que eram espíritos boêmios que passavam e subiam, e os irmãos.
— Gabi, eu quero ser amado!
— Eu te amo, Cris!
— E eu estou cansando.
— Cris, nós não fomos os primeiros nem os últimos a... Fazer... A literatura está cheia disto. Um monte de gente é que nem eu e você, mas ninguém fica sabendo. E esse é o jeito que eu te amo e é sincero. Vem cá!
Gabriela tentava explicar a Cris enquanto ao mesmo tempo lhe fazia um cafuné, que não era a intensidade do amor dela, que era pouca, o problema real é que Cris quer outra coisa.
— Concordo carinha, eu não te conheci num bar. Nós não temos um roteiro juntos. Você não me viu atravessando a rua e se apaixonou. Qual é? Eu nunca vou te perder. A gente vai se amar sempre! Então qual é o grilo? Você não é careta, eu menos ainda. Só que o que pega é que eu conheço cada pedacinho seu essa mãozinha, esse narizinho, essa boca que eu adoro beijar, esse cabelo!
Gabriela tentou mudar de assunto e passava os dedos pelos cabelos de Cris. De repente ele se levantou e foi embora para dentro da escuridão da noite. Ela não foi atrás dele porque era óbvio que ele voltaria. Talvez só tivesse ido fazer xixi. Nunca que ele a deixaria ali sozinha, a sua irmãzinha amada.
O vento aumentou e as nuvens fecharam-se de novo. Gabriela ouviu um barulho ao longe e começou a chorar. “Cris não faria isso comigo, Duda sim, mas não meu doce irmão”. E agora aquela praça que parecia tão calma tornara-se sinistra. Um terror. A caçula dos Chavez se lembrou da história do estuprador de Paraty, a qual os empregados da ilha vinham contando.
Do outro lado da praça, Gabriela viu a silhueta de um homem. Na verdade era o Puritano que se adiantara do grupo para alcançar Cris e Gabriela e por sorte talvez pegá-la sozinha e declarar o seu amor, pois já estava desesperado. A praça ficou escura; por causa da tempestade a luz acabara no centro histórico todo, por isso quando o Puritano foi em sua direção, Gabriela fugiu. Correu pela escuridão. Já estava cansada e não sabia mais para onde ir. Olhava para trás, mas não tinha certeza se alguém ainda a seguia. Foi quando ouviu uma voz conhecida, parou e reconheceu aquele menino. Sentiu-se salva, porém o menino não sorriu e tinha alguma coisa na mão. Uma faca talvez?
— Tem alguém caído ali! — Duda avistara um contorno na rua deserta, que poderia ser de uma pessoa caída, como também um tronco de árvore trazido pela chuva que agora diminuía de intensidade. Mas era ela e os três altos irmãos pegaram-na e ajudaram-na a levantar.
Gabriela tinha sangue nas roupas, mas nenhum corte. Ela estava desmaiada e acordou assim que os irmãos a levantaram. O dia amanhecia. E uma chuva agora caia.
Nosso detetive Rubens foi o primeiro a ver os quatro Chavez, molhados, chegando a uma padaria do centro histórico. Carla, Pedro Paulo e o resto das pessoas admirarem-se com aquela cena dos quatro esgotados e o sol nascendo.
Entraram no barco e partiram em direção à ilha no que seria um dia de céu azul e quente. Ninguém se lembrou do casal de Puritanos, que também como Gabriela se perdera durante a tempestade.
Gabriela não contou a ninguém sobre o menino. Quando Carla disse achar ter visto Caio no centro, ela se fingiu de esgotada e fez que nem ouviu. E o barco seguia em direção a ilha, ela adormeceu, mas Cris pode ouvi-la ainda dizer: ---Ícaro.
domingo, 28 de novembro de 2010
Capítulo 9- Os irmãos Chavez
Ele abriu a porta do apartamento. Sua jovem esposa estava vendo um seriado americano na televisão. Era domingo à noite. Ele olhou para ela e lembrou de como ele sempre a amara.
Vindo do bar ele pensou nesse passado, de quando eram jovens. De quando ele fazia faculdade de sociologia. Hoje trabalhava em uma grande empresa. Havia se tornado um executivo.
Mas no carro lhe ocorrera algo que nunca havia pensado. Talvez por amar tanto a esposa.
---Eu vi o Ícaro no Genésio agora.
Carla mal tirou os olhos da televisão. Rubens repetiu:
---O Ícaro. Ele está tão diferente. Acho que faz uma década que eu não o via.
---O Ícaro?
Carla agora olhava séria para Rubens. ---Como ele está? Falou com ele?
---Chegou da Europa. Disse que viveu lá por seis anos, fazendo circo. Tomamos alguns chopes.
Carla se levantou e ia dormir. ---Bem estou cansada, amanhã conversamos. Eu estava só te esperando. Boa noite.
Ela ia saindo. Quando Rubens a puxou pelo braço. Ele sentou numa poltrona.
---No carro vindo para cá eu pensei numa coisa Carla.
A esposa disse que era tarde e que não queria conversar. Ainda mais aquele assunto de dez anos atrás, de Paraty, almoço de natal ela não lembrava mais daquilo. Depois que sua amiga fora assassinada ela tentou esquecer de tudo. Nunca pegaram o criminoso, foi horrível. O processo todo, fora dolorido. Pelo menos é o que Rubens achara até então. Até aquele domingo em que ele encontrara Ícaro sem querer num bar da Vila Madalena e ouvira algo quase sem importância. Fato que lhe revelou tudo.
---Estávamos todos em Paraty. Era para um almoço de natal. Um ano antes de Gabriela morrer. O que eu não sabia é que ele também estava lá.
---Ele quem Rubens? Já são duas da manhã.
---Carla eu acho que sei quem matou Gabriela Chavez.
Ela sentou-se no sofá. Deu um olhar para Rubens que ele estranhou. Um olhar que ela nunca dera. Mas ele já tinha certeza.
Vindo do bar ele pensou nesse passado, de quando eram jovens. De quando ele fazia faculdade de sociologia. Hoje trabalhava em uma grande empresa. Havia se tornado um executivo.
Mas no carro lhe ocorrera algo que nunca havia pensado. Talvez por amar tanto a esposa.
---Eu vi o Ícaro no Genésio agora.
Carla mal tirou os olhos da televisão. Rubens repetiu:
---O Ícaro. Ele está tão diferente. Acho que faz uma década que eu não o via.
---O Ícaro?
Carla agora olhava séria para Rubens. ---Como ele está? Falou com ele?
---Chegou da Europa. Disse que viveu lá por seis anos, fazendo circo. Tomamos alguns chopes.
Carla se levantou e ia dormir. ---Bem estou cansada, amanhã conversamos. Eu estava só te esperando. Boa noite.
Ela ia saindo. Quando Rubens a puxou pelo braço. Ele sentou numa poltrona.
---No carro vindo para cá eu pensei numa coisa Carla.
A esposa disse que era tarde e que não queria conversar. Ainda mais aquele assunto de dez anos atrás, de Paraty, almoço de natal ela não lembrava mais daquilo. Depois que sua amiga fora assassinada ela tentou esquecer de tudo. Nunca pegaram o criminoso, foi horrível. O processo todo, fora dolorido. Pelo menos é o que Rubens achara até então. Até aquele domingo em que ele encontrara Ícaro sem querer num bar da Vila Madalena e ouvira algo quase sem importância. Fato que lhe revelou tudo.
---Estávamos todos em Paraty. Era para um almoço de natal. Um ano antes de Gabriela morrer. O que eu não sabia é que ele também estava lá.
---Ele quem Rubens? Já são duas da manhã.
---Carla eu acho que sei quem matou Gabriela Chavez.
Ela sentou-se no sofá. Deu um olhar para Rubens que ele estranhou. Um olhar que ela nunca dera. Mas ele já tinha certeza.
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