sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Você não queria se esconder, queria me achar

Este texto nasceu de uma encomenda. Um produtor de teatro me pediu um texto com uma hora de duração e com no máximo 4 atores. Um texto ainda que falasse de política para os jovens. Já que seria apresentado em colégios e faculdades. Pensei então numa trama policial em que o didatismo surgisse sem que a platéia percebesse.



Quando ele leu o texto pronto, disse-me que as meninas iriam adorar, mas que lamentavelmente ele me chamara na expectativa de uma comédia. Acho que não é o caso. Aqui eu fujo do meu estilo. Enfim eu amo essas duas meninas (personagens), espero que o leitor também. A verdade é que elas são os meus dois lados: O racional intelectual, Marina. E o visceral agressivo, Juliana. Com vocês em algum lugar do século vinte: Abrem-se as cortinas.

 A é, quase esqueci, serão 5 capítulos. Feliz Natal e boa leitura.


PERSONAGENS


JULIANA                 MENINA  REVOLUCIONÁRIA.

MARINA                  FILÓSOFA  PASCIFISTA.

FRED                     JORNALISTA  EXILADO.

ATO 1.



PRIMEIRO QUADRO: (sala da casa de Marina. Entram Marina e Juliana).



MARINA- Entra. Pode sentar onde quiser. Juliana, né?



JULIANA- Isso. (senta-se em uma poltrona).



MARINA- Quem mesmo que você disse que me indicou?



JULIANA- É... A prima de uma amiga: Joana. Agora não me lembro bem o sobrenome , ela é uma loirinha de olho verde.



MARINA- (Que também se senta). Joana? (Pausa). Você disse pelo telefone ,que está ansiosa para aprender francês.



JULIANA- Eu leio muito. Tenho autores franceses que eu quero ler no original.



MARINA- Joana! Claro lembrei.



JULIANA- Marina, eu te chamo de professora ou pelo nome mesmo?



MARINA- Juliana, pode me chamar de Marina ou Má se preferir. Posso saber o que você estuda? Trabalha?



JULIANA- Arquitetura.



MARINA- Você não é de São Paulo?



JULIANA- Não de Recife. Sou de Recife. (Juliana começa a ficar , um tanto impaciente, não encara Marina, seus olhos buscam conhecer toda a sala).



MARINA- Quer um copo de água? Alguma coisa?



JULIANA- (Que percebe sua auto euforia se controla e sorri). Não obrigado, Má.



MARINA- Que autores?



JULIANA- (Ainda sorrindo). Os que eu gosto?



MARINA- É.



JULIANA- Balzac. Sou apaixonada por Balzac. Mas também por Sartre. Sartre.



MARINA- Com quem você mora aqui em São Paulo, Juliana?



JULIANA- Numa república.



MARINA- Aqui perto?



JULIANA- Mais ou menos. Eu estudo na Fau. Mas moro por aqui em Higienópolis.



MARINA- Mas sua família está toda no Recife?



JULIANA- Sim. E a sua?



MARINA- São daqui mesmo de São Paulo eu nasci aqui. Não quer mesmo um copo de água?



JULIANA- Por que é que você fica me olhando com tanta desconfiança? E perguntando tanto da minha vida?



MARINA- (Que se assusta). Desculpe , mas é que...



JULIANA- Eu sei. Me desculpe eu. Você mora sozinha. Uma louca liga e diz que quer urgentemente aprender francês. Desculpe é natural que a gente se conheça, se apresente. Má, acho que vou aceitar sim, o copo de água.



MARINA- Você está bem? Quero dizer, está tudo bem?



JULIANA- (Sorri). Foi um dia ruim, muito ruim. Mas vai acabar bem. Agora que eu te conheci.



MARINA- Claro. (Se levanta). Vou buscar a água. (Marina sai. Juliana, para de sorrir, põe as mãos no rosto. Depois quando têm certeza de não estar sendo observada, abre a casaco e passa um pano dentro da blusa, tira o pano ele está todo ensangüentado, Marina volta trazendo uma água que dá para Juliana que segura o copo mas não bebe). Eu te disse que morava sozinha?



JULIANA- Você não mora?



MARINA- (Pensando antes de responder). Mais ou menos.



JULIANA- Como assim , mais ou menos?



MARINA- Você não vai beber a água? (Pausa, as duas se encaram, Juliana Sorri, mas não toma, põe a água em cima da mesa).



JULIANA- Vamos começar.



MARINA- Sim.



JULIANA- Onde você aprendeu Francês?



MARINA- Morei em Paris.



JULIANA- Que romântico. (Irônica). Conheceu alguém por lá?



MARINA- (Desconfiada). Por que está pergunta?



JULIANA- Má, você é sempre assim reservada?



MARINA- Desculpe. (Olha para Juliana e sorri). Você é mais bonita do que eu imaginava.



JULIANA- Como assim? Obrigado, pelo bonita, mas que papo é esse bicho?



MARINA- Desculpe.



JULIANA- Você falou como se nós já nos conhecêssemos, quero dizer...



MARINA- Me enganei? Juliana há cinco anos dou aula de francês. Eu arrisco dizer que você não quer aprender francês.



JULIANA- Como?



MARINA- O que te trouxe aqui? (Pausa).



JULIANA- Você é bem esperta, ou sou eu é que sou tonta?



MARINA- Ainda não sei, mas podem ser as duas coisas. O que te trouxe aqui?



JULIANA- Não sei ainda. (Olha para o chão, pausa, Marina vai falar algo, mas Juliana atropela).



MARINA- Pode...



JULIANA- É isso a gente se conhece , mas não se conhecia. Nem uma das duas tem certeza de nada ou têm?



MARINA- (Bem nervosa se levanta). Vai embora da minha casa!



JULIANA- Eu não tenho para onde ir! Eles estão atrás de mim. Pra matar.



MARINA- Eles quem? A polícia?



JULIANA- Eles está corja de canalhas covardes, traidores!



MARINA- Mas eu não posso te esconder aqui, lamento. Mas afinal quem é você? Porque eu deveria ajudar alguém que eu nem sei quem é?



JULIANA- Você sabe muito bem quem eu sou. Você mesmo disse a pouco que não imaginava que eu era bonita. Pois temos isto em comum: eu também não imaginava que você fosse tão linda.



MARINA- O que houve, cadê ele?



JULIANA- Eu só vi eles o levando. Eu não pude fazer nada. Eu estava chegando no aparelho, quando a polícia o estava levando.



MARINA- Quando foi isso?



JULIANA- Horas atrás. Fiquei desesperada. Então te liguei e marquei esta aula, foi um disfarce.



MARINA- Mas por que eu?



JULIANA- Eu não tenho ninguém em São Paulo. Ele sempre me disse, que se algo acontecesse para eu te ligar, que você me esconderia.



MARINA- Menina, por que cargas da água eu ajudaria meu pior pesadelo?



JULIANA- Porque ele disse que você é a pessoa mais boa que ele já conheceu.



MARINA- Que mais ele falou?



JULIANA- Que você tinha fraquejado, mas que um dia você voltaria para a luta, ainda mais forte do que no início.



MARINA- Então você sabe toda a minha história. Mas como você é ingênua, nunca imaginou que eu também tenho um lado, uma versão. E esta é a minha versão: Eu amei um homem, como talvez nem um outro foi amado por uma mulher e este homem era tudo na minha vida. Eu queria me casar e ter filhos com ele e se isto tivesse acontecido eu hoje seria a mulher mais feliz do mundo. Mas não uma menina apareceu. Uma alienada, burra desgraçada, que agora vem que nem um papagaio falar em Sartre. E esta cretina, que arruinou a minha vida, agora quer ajuda.



JULIANA- Eu não vou implorar nem me humilhar. Não sou covarde e nem tenho medo que me torturem. Se eu estou sofrendo é por ele. Só temo por ele. É pelo que vão fazer com ele. Ao contrário de você que nem se preocupa, nem com ele nem com ninguém. Gente que nem você termina só mesmo. (Marina chora, mais calma). Me desculpe. Me desculpe, hoje é o pior dia da minha vida. Marina me perdoe.



MARINA- Agora sai da minha casa!



JULIANA- Não sem antes esclarecer umas coisas. Posso não ser brilhante como você, mal entendo filosofia, mas sei o mínimo. Não entrei nesta luta ao contrário do que você imagina, por causa do Pedro. Foi algo que eu refleti muito. Me apaixonei por ele porque temos coisas em comum.



MARINA- Quer parar com esta baboseira vazia. Que se apaixonou o que garota. Pra você tudo isso é uma aventura, depois cresce se arrepende e volta pra Recife , pro colo da mãe. Este é teu pior dia? O meu foi quando eu vi o Pedro te beijando. Eu não acreditei, me senti traída, parecia que tinham tirado o chão dos meus pés.



JULIANA- E agora quer me matar?



MARINA- Eu não quero matar ninguém só quero que você vá embora!



JULIANA- E não é a mesma coisa? Me expulsar daqui é o mesmo que me matar!



MARINA- Você devia pensar nisso antes de entrar pra luta armada.



JULIANA- Eu não escolhi entrar pra luta armada. Eu não tive outra opção.



MARINA- (Irônica). Não teve?



JULIANA- Você mais do que ninguém sabe que se manter neutro é o mesmo que colaborar com os militares, com a repressão. Não existe posição neutra. Não tomar posição é o mesmo que tomar, me por pra fora é o mesmo que me matar. Se fosse o contrário eu te salvaria.



MARINA- Me diga menininha, qual é o problema em querer ser mãe. Ter filhos uma família. Eu não tenho o resto da vida pra ser mãe!



JULIANA- Então é este o seu sonho? Ser mãe? (Marina não responde). Como o Pedro te mistificou. Só ele não, já vi tantos companheiros dizerem o quanto você é brilhante. Que desperdício : brilhante porém covarde. Ser mãe.



MARINA- Me diz uma coisa oh, Juliana ou seja lá qual for o seu nome. Se todas mulheres pensassem como você, o que aconteceria com a população do mundo?



JULIANA- Como você pode pensar em botar alguém num mundo deste.



MARINA- E até hoje estava ruim o seu mundo? Vivendo com um homem que você diz que ama? Se não o tivessem levado...



JULIANA- Mas o levaram. Aí. (Cai no chão).



MARINA- (Que se comove). O que houve, você está bem? (Vê o sangue em Juliana).



JULIANA- Acho que...



MARINA- Oh! Eles atiraram em você.



JULIANA- É eu estava lá. Ele me salvou. Ele ficou enfrentando os Gorilas pra que eu fugisse. (Marina chora). O que, o Iceberg está se derretendo! É isso mesmo demoiselle filósofa. O Pedro enfrentou os gorilas, pra nós fugirmos.



MARINA- Nós?



JULIANA- Eu estava grávida. Mas... (Sente dores). Aí. (suspira). Qual hospital eu poderia ir? (Marina vai ajudar Juliana). Para aí.



MARINA- Estou querendo ajudar.



JULIANA- Eu posso ir embora sozinha.



MARINA- Você não tomou a água, porque achou que estaria envenenada? Você acha que eu quero te matar?



JULIANA- Não é isso que você está fazendo, me mandando embora? Assinando minha sentença?



MARINA- Eu não sabia. Como eu podia saber?



JULIANA- Se comoveu por causa da criança? Como você pode saber que não é um truque? E mesmo se não for, você vai me dizer que nunca fez um aborto?



MARINA- Não fale assim. Eu já disse que não sabia.



JULIANA- E como você poderia saber? (Pausa). Quanto tempo você não vê o Pedro?



MARINA- Então me condena o sonho, mas estava vivendo ele. Que eu saiba a organização proíbe casamentos. (Juliana, ainda no chão piora, Marina a pega e a ajuda sentar na poltrona). Tome beba não seja paranóica. (Juliana toma a água). Mas você tem de ir embora. Se eles pegaram o Pedro devem estar atrás de você, vão vir aqui.



JULIANA- Este é o último lugar que eles viriam é o mais seguro. Se eles já pegaram o Pedro.



MARINA- Mas vão querer você. Vão sondar os amigos de vocês.



JULIANA- Você é uma amiga?(Campainha, as duas se olham, pausa, novamente a campainha).



MARINA- (Vai até a janela). São eles a polícia. (Juliana serra os olhos e os aperta e mal se ouve a sua voz).



JULIANA- Então termina assim. Se você não responder talvez pensem que não há ninguém.



MARINA- Eles já viram a luz acesa. Arrombariam a porta seria pior.



JULIANA- Por favor, me ajude.



MARINA- Pensei que você não iria implorar. (Campainha) É melhor eu ir até a porta.



JULIANA- Espere tem algo que eu quero te dizer. (Campainha).



MARINA- Não se mexa. Vou despista-los. (Marina sai de cena, Juliana fica, ouvem-se vozes em off).



POLICIAL- Boa noite, desculpe o transtorno.



MARINA- Boa noite.



POLICIAL- Mas estamos perseguindo subversivos. A senhora por um caso não notou nada de anormal hoje?



MARINA- Anormal, não.



POLICIAL- Nem viu nenhum estranho, suspeito.



MARINA- Não senhor. Não vi.



POLICIAL- Então tenha uma boa noite e desculpe. Tchau.



MARINA- (Voltando). Pronto foram embora.



JULIANA- Você me salvou!



MARINA- Mas isto não quer dize que você vai continuar aqui.



JULIANA- Mas porque você fez isto? Por que me salvou?



MARINA- Eu não sou uma assassina.



JULIANA- Não é?



MARINA- O que você queria me dizer?



JULIANA- Não tenho mais certeza. É melhor esquecer.



MARINA- Temos que arrumar um médico para você.



JULIANA- Pensei que você não quisesse se envolver.



MARINA- É mas já estou envolvida. Depois não sabia que você estava grávida. (Pega a agenda e folheia). Talvez eu tenha algum conhecido que não vai nos denunciar.



JULIANA- Como é que você está se sentindo? É bom não é? Voltar para a luta.



MARINA- Já disse menina que não sou uma assassina, mas daí a gostar de você são outros 500.



JULIANA- Você está dizendo que me ajudou, como quem ajuda uma cachorra ferida.



MARINA- Você é realmente certeira em metáforas. (Juliana tira um revolver do casaco).



JULIANA- Veja se isso parece uma metáfora!



MARINA- Não entendo?



JULIANA- Mas eu já entendi. Nosso aparelho era novo, ninguém caiu, ninguém foi preso, então me diga como é que a polícia chegou até nós?



MARINA- Como eu posso saber.



JULIANA- Fala mais alto. Não te ouvi.



MARINA- Juliana. Você está enxergando as coisas de uma maneira torta. Eu posso não gostar de você, mas isso não significa que mudei de lado.



JULIANA- Pensei que você tinha largado a revolução? (Continua apontando a arma na direção de Marina).



MARINA- Uma revolução não é feita só de armas.



JULIANA- Ah, é! E do que é feita a sua revolução companheira?



MARINA- De idéias. Juliana você está agindo que nem eles. Por que você acha que eu denunciei vocês?



JULIANA- Você estava se encontrando com ele? Com o Pedro?



MARINA- Mas já faz um mês que eu não o vejo. Eu confesso nos vimos algumas vezes este ano sem você saber. Ele queria me contar coisas, conselhos.



JULIANA- E porque eu iria acreditar em você?



MARINA- E por que você acha que estou mentindo?



JULIANA- Você disse que eu sou mais bonita do que você imaginava, mas depois disse que me viu beijando o Pedro.



MARINA- O que isso quer dizer?



JULIANA- Que você tentou fingir que não sabia que a polícia já tinha agido.



MARINA- Que absurdo!



JULIANA- Confesse.



MARINA- Talvez tenha sido sim um ato falho. Eu vi na época uma mulher beijando ele. Nem sabia quem era você. Não reparei mas você tem razão. Eu sabia que era você quando você entrou, logo reconheci que não era uma aluna. Mas eu não sabia que o Pedro tinha sido pego. Imaginei que você tivesse descoberto nossos encontros.



JULIANA- Eu suspeitei.



MARINA- Pois saiba que ele me viu algumas vezes. Foi péssimo, porque da minha parte eu já estava quase curada, mas daí tudo voltou. Não sei que dúvida ele teve, mas a última vez que nos vimos ele me disse que te amava. Mas quer saber se vai atirar atira logo.



JULIANA- Não acredito em você e você só faz isso para eu ter pena de você.



MARINA- Pena de mim. Garota , você tomou um tiro, o amor da sua vida, como você o diz foi pego. Você estava grávida e têm pena de mim? Você não veio aqui se esconder! Veio me achar ?



JULIANA- Vou te matar! (Marina realmente se apavora). Como que você ta gritando assim?



MARINA- Menina você precisa de um médico! Eu tenho um amigo médico na organização, vou ligar. Ele é de confiança. Vai ajudar. (Tenta ir à direção de Juliana).



JULIANA- Pra trás! O Pedro disse que você é mandona, está tentando me controlar e depois me entrega para polícia.



MARINA- Se eu quisesse já tinha te entregado.



JULIANA- Mas você quer que eu morra sem contar a ninguém meu segredo: Que foi você que entregou o aparelho, que por sua vaidade e egoísmo Pedro vai morrer. Sua malvada. Você diz que ele te largou mas na época ele disse que foi você que o abandonou antes. Com sua indiferença, com seu egoísmo, você só quer seus livros, só eles e que o resto do mundo se dane. Que pretensão achar que ficando em uma biblioteca, irá entender o mundo. Você Marina na verdade é uma pessimista, mesquinha. Você não se deixou ser amada. Eu amo o Pedro, eu amo a causa.



MARINA- Ama? Então porque deixou ele lá com os gorilas e fugiu? É fácil acusar apontando uma arma. Não Juliana, não sou covarde, nem pessimista. Sou realista as vezes eu penso que o motivo deles baterem na gente é porque têm gente que não larga as armas. Eu to aqui não vou fugir. Eu sou democrata se você quiser conversar? Divergir não é brigar. Me fale é preciso coragem pra segurar esta arma, Juliana?



JULIANA- Palavras, palavras, palavras, sem ação o mundo não vai a lugar nenhum. Se eu ficasse e morre-se com ele, de que ia adiantar. Ainda posso salva-lo.



MARINA- (rindo). Pode?



JULIANA- Cala a boca! (Juliana aponta a arma, vai atirar, mas cai, Marina corre para socorre-la). Ta doendo! Ai! Ah! Pedro cadê você? Pedro me tira daqui eu não quero morrer.



MARINA- Calma ta tudo bem , vou chamar um amigo médico. Calma. (Marina com a cabeça de Juliana no colo). Juliana não fui eu, não fui eu.



JULIANA- Meu filho! Pedro me tira daqui!

(black- out).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dois cegos e dois detetives

Uma praça de uma grande cidade.


Personagens:



Primeiro cego

Segundo cego

Turista

Chofer do primeiro cego

Apresentador Chicão

Detetive Sir Ernest

Detetive Ted





(Os dois cegos entram em cena, um de cada lado do palco. Ambos estão com óculos escuros e bengalas, vão caminhando para o centro do palco. Em alguns momentos triangulam com a platéia. Até que uma hora os dois cegos se chocam um com outro e caem no chão. As bengalas caem e é um tombo dolorido, na tentativa de se levantarem um xinga o outro.)



PRIMEIRO CEGO- Você não me viu seu cretino?



SEGUNDO CEGO- E você também não me viu, babaca?



PRIMEIRO- (Já de pé, mas falando para uma direção oposta de onde ficou o outro cego.) Isso não vai ficar assim. Minha honra foi ferida.



SEGUNDO- (Respondendo também numa direção oposta.) Hora! Não é para tanto. É só você se desculpar comigo e está tudo bem.



PRIMEIRO- Eu me desculpar?! Isto é a gota de água. Volto daqui a quinze minutos, para um duelo. Passar bem, até já. (Vai saindo.)



SEGUNDO- Eu lá vou duelar com você seu maluco. (O primeiro cego deixa o palco, sem escutar.) O que é ficou surdo? (Entra um turista com um mapa.)



TURISTA- O senhor poderia me dizer se essa é a praça Mário de Andrade?



SEGUNDO CEGO- Onde é o que?



TURISTA- A praça Mário de Andrade.



SEGUNDO CEGO- E agora finge que não aconteceu nada? (Dá uma bengalada no turista.)



TURISTA- O que é isso seu cretino?



SEGUNDO CEGO- Para você aprender a respeitar os deficientes visuais. (Dá outra bengalada na cabeça do turista e vai saindo de cena.)



TURISTA- (Sem entender.) Que é que eu fiz?



SEGUNDO CEGO- Tome! (Joga spray de pimenta em cima do turista.)



TURISTA- Nossa! Fiquei meio tonto. Melhor eu sentar aqui no banco e descansar um pouco, está tudo escuro. (Senta. O primeiro cego retorna com seu motorista.)



PRIMEIRO CEGO- Você está vendo ele?



CHOFER- (Que vê o turista com uma cara de bobo.) Já vi o valentão, ele está sentado ali no banco.



CEGO- (Falando baixo para o chofer.) Agora se lembre de que a arma descarregada é para ele e a carregada para mim. Você é o Juiz. (Os dois se aproximam do turista.)



CHOFER- Senhor tenha a bondade de escolher as armas. Mostra as duas pistolas para o turista.



TURISTA- Mas a cidade é toda maluca!



CHOFER- Trata-se de um duelo por você ter ofendido a honra do meu patrão, o senhor Valdir.



TURISTA- Um duelo?



CHOFER- Sim e eu serei o juiz.



TURISTA- Do lugar de onde eu venho às coisas não são assim. (Turista que pensa que o primeiro cego, tratar-se do segundo cego.) Afinal é ele que me deve desculpas pelas grosserias. Vamos resolver de outra maneira.



CHOFER- Hora cale-se e escolha uma pistola.



TURISTA- (Para o Chofer.) Esse babaca é realmente cego?



CEGO- Cego sim, mas não sou surdo.



TURISTA- (À parte.) Então não tem como ele me acertar. (Pega uma das pistolas, o chofer coloca munição na outra e entrega ao cego sem que o turista perceba.)



CHOFER- (Para o turista.) Você vai ter de dar uns gritinhos a todo instante para que o meu patrão saiba onde você está.



TURISTA- Gritinhos?



CHOFER- Assim. (Dá uns gritinhos como um alarme de rádio relógio, turista imita.) Isso mesmo. Vocês contam até dez virem-se e atirem. Ok?



TURISTA- Ok.



CEGO- Ok. (Um fica de costas para o outro e o chofer recua um pouco, começam a andar, o cego cada hora aponta para um lugar e o turista começa a dar os gritinhos até que se viram e o turista aperta o gatilho nada acontece. De repente a luz cai ouvimos um tiro e a luz volta, o turista cai morto.)




CHOFER- Excelente pontaria senhor Valdir. Vamos embora?



CEGO- Claro. Rápido. (Chofer guia cego para fora do palco, turista permanece morto com a arma na mão. Entra um apresentador, uma espécie de mestre de cerimônia.)



APRESENTADOR- Senhoras e senhores bem vindos a mais um campeonato de detetives. Vamos agora chamar o representante do estilo inglês de investigação: Sir Ernest Scroll. (Entra um detetive de chapéu e cachimbo Sherlock Holmes, ele também veste um casaco quadriculado.) Bem vindo Sir Ernest.



ERNEST- (O olha de cima abaixo.) Me diga senhor...



APRESENTADOR- Chicão.



ERNEST- Senhor Chicão, qual era a sua relação com a vítima?



CHICÃO- Eu sou o apresentador do campeonato. Nem conheço a vítima.



ERNEST- Sei. (Anota em um caderno.) E como você acha que a vítima morreu? (Vai até o cadáver e continua anotando as coisas em um caderninho.)



CHICÃO- (Para de sorrir.) Acho que levou um tiro.



ERNEST- (Encarando o apresentador.) E o que o leva a crer nisso?



CHICÃO- Já voltaremos com o senhor Ernest, mas antes vamos dar as boas vindas ao detetive Ted. (Entra um detetive de, sobretudo capa e um chapéu. Ted acende um cigarro.) Ted senhoras e senhores segue a escola americana de investigação. Enquanto Sir Ernest é mais observador da perícia e da psicologia da vítima, Ted é daqueles detetives que saem da biblioteca e vão para a rua investigar. Vão até o submundo se necessário.



TED- Isso mesmo quem me ver na Augusta saiba que é investigação.



ERNEST- (Para Ted.) O que você acha que aconteceu com a vítima?



TED-Veremos. (Vai até o cadáver do Turista e tira a carteira dele do bolso, sem que Sir Ernest perceba pega o dinheiro que está dentro.) Talvez tenha sido suicídio.



ERNEST- Impossível. E me diga senhor Ted, onde você estava quando o assassinato ocorreu?



TED- Isso é absurdo eu estava no camarim com você.



ERNEST- Mas em determinado horário você saiu por alguns instantes do camarim.



TED- Eu fui ao banheiro.



ERNEST- Mas nesta ida ao banheiro você teve tempo suficiente de vir até aqui e atirar na vítima pelos bastidores do palco.



TED- Ok eu confesso.



ERNEST- Viram ele confessa.



TED- Mas eu estou debochando. Qual seria o motivo de eu matar este sujeito que eu nem conheço?



ERNEST- Simples você é um serial killer.



TED- É verdade eu não fui ao banheiro. Eu vim até aqui no palco, mas não fui eu quem matou a vítima.



ERNEST- Então quem foi?



TED- Foi ele. (A ponta para a platéia, a luz ilumina o segundo cego, que agora está sentado na platéia e parece não perceber a luz em cima dele.)



ERNEST- Impossível este senhor é cego. Como ele acertaria o tiro?



TED- Muito simples, a vítima dava gritinhos. (Imita os gritinhos do turista.) Logo era só seguir o som.



ERNEST- E qual seria o motivo?



TED- Não sei. Maldade? Talvez ele nem seja cego. (Cego começa a se sentir desconfortável com a situação.) Talvez ele ande assim para fazer uns trocos.



ERNEST- Assim como?



TEDE- De cego. Quis se vingar do outro cego, o cego rico que também estava presente. Eu o vi fugir com o chofer.



ERNEST- Você quer incriminar um inocente no seu lugar. Foi você quem o matou eu tenho certeza disso.



APRESENTADOR- Ok. Agora vamos voltar à fita e descobrir quem realmente matou a vítima. (A luz volta, mas o cadáver continua imóvel.) Vamos fazer a reconstituição. (O turista não se mexe. O apresentador vai até ele e da umas mexidas nele com o pé. Apresentador para o turista.) Ei rapaz levanta vamos fazer a reconstituição. (Como nada acontece apresentador da um sorriso e emenda.) Mais um caso de morte envolvendo drogas, um traficante é morto não se sabe se por brigas de quadrilha ou ainda executado pela polícia. As investigações continuam e a polícia diz que vai revelar detalhes da morte assim que tiver um. Mais um crime sem solução, nem com a ajuda americana, aponta Ted, nem com a colaboração inglesa chegamos a um desfecho.



SIR ERNEST- O criminoso deixou cair o rg. É o teu Ted.



TED- Você está plantando provas.



ERNEST- Como eram mesmo os gritinhos que a vítima fazia. (Ted imita os gritinhos.) Bom faz de novo. (Ted começa a fazer de novo, barulho de tiro. Ted cai morto. Luz no canto do palco, primeiro cego com a arma na mão.)



PRIMEIRO CEGO- Oh, cara difícil de morrer.

(Pano.)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Museu de armas

Personagens:

Jovem Alexandre o grande

Aristóteles

Um ator magro

Um ator gordo



Cena:



Antiguidade, escritório do jovem Alexandre da Macedônia, manhã.



Cenário:



Uma mesa, a qual debaixo de um dos seus quatro pés há um livro de calço. Algumas cadeiras.



(Alexandre e Aristóteles discutem durante a aula.)



ARISTÓTELES- Mas que idéia Alexandre, um museu de armas?



ALEXANDRE- É isso mesmo professor Aristóteles. Quero investir em marketing.



ARISTÓTELES- Então construa bibliotecas, centros esportivos, teatro, dança para juventude. Mas não posso concordar com um museu de armas.



ALEXANDRE- Blá,blá,blá... Além do mais já construí uma biblioteca em Alexandria.



ARISTÓTELES- Sim mas essa fica no meio do deserto.



ALEXANDRE- Tanto melhor assim ninguém lê aqueles livros.



ARISTÓTELES- Não entendi? Para que fazer uma biblioteca onde ninguém lê os livros?



ALEXANDRE- Porque passa a imagem de um bom governante preocupado com o social. Depois se as pessoas começam a ler vão ficar instruídas e se ficarem instruídas irão querer derrubar o meu governo.



ARISTÓTELES- Isso é censura!



ALEXANDRE- Eu sou o dono do mundo, faço o que eu quiser. E além do que nenhum daqueles livros fui eu que escrevi, não levo os méritos e sim os autores, já um museu de armas.... (Suspira). A glória é só minha, pois sou um guerreiro. O maior do mundo e chega de teoria Aristóteles.



ARISTÓTELES- Não permito.



ALEXANDRE- Você acha que sempre tem razão não é? Pois saiba que descobri furos em suas teorias.



ARISTÓTELES- Furos? Impossível!



ALEXANDRE- Achei.



ARISTÓTELES- Furos?



ALEXANDRE- Furos.



ARISTÓTELES- Furos?



ALEXANDRE- SIM! E testei. E comprovei.



ARISTÓTELES- Em qual delas por exemplo?



ALEXANDRE- Na da gravidade. (Pega a apostila e lê.) Aqui você diz que objetos mais pesados caem mais rápidos do que os objetos leves.



ARISTÓTELES- E está correto.



ALEXANDRE- Não. Não está e vou te provar. (Vai até a porta e grita para fora.) Mandem entrar os dois voluntários. (Entram o ator gordo comendo um saco de pipoca e ator magro, o gordo encontra-se feliz e não percebe a gravidade do que vai acontecer já o magro está distante um tanto quanto melancólico.) Estes são os voluntários, já testei em outros e vou agora te provar.



ARISTÓTELES- Mas afinal o que você vai fazer com estes homens Alexandre?



ALEXANDRE- Como assim? O que eu vou fazer? Vou jogá-los.



ARISTÓTELES- Jogá-los aonde?



ALEXANDRE- Pela janela, vou jogá-los exatamente juntos para vermos quem chega primeiro ao solo, se é o mais pesado (Aponta para o gordo) ou se é o mais leve? (Aponta para o magro, nisso o ator gordo fica desesperado e para de sorrir e comer pipocas.)



GORDO- (Olha para o magro, mas este está olhando para o infinito e não muda a expressão, depois diz para Alexandre.) Mas não vai machucar a gente?



ALEXANDRE- Qual nada.



GORDO- (Vai até a janela e olha para baixo.) Mas é muito alto, não estou treinado. (Volta a olhar para o magro, que continua imóvel.) Você não acha? (O magro dá de ombros).



ALEXANDRE- Você que é mais fortinho não dá nada.



GORDO- Não quero.



ALEXANDRE- Cala a boca é pela ciência. (Empurra os dois, o gordo e magro, em direção a janela. No que o magro ao ver o livro de Aristóteles calçando a mesa corre até ele e o retira.)



MAGRO- Mas este livro sobre existencialismo é ótimo. Fez-me sentir tão leve.



ARISTÓTELES- (Bravo, tira o livro da mão do magro.) Não acredito Alexandre! Você colocou o meu livro calçando o pé da mesa?



ALEXANDRE- Eu dei uma utilidade a ele. Ou a mesa ia ficar bamba?



ARISTÓTELES- Vou me embora daqui.



ALEXANDRE- Mas não é para tanto!



ARISTÓTELES- Vou para o Brasil, aceitar o cargo de reitor numa universidade federal, com cartão corporativo e tudo. (Sai.)



ALEXANDRE- (Corre até a porta e fala para o lado de fora do palco.) Espera ainda nem jogamos os caras. É divertido, precisa ver o jeito que eles gritam. (Ninguém responde ele volta e encara o magro.) E você precisava mostrar que o livro era o dele? Eu nem tinha reparado.



GORDO- Estamos liberados Seu Alexandre?



ALEXANDRE- Estão nada, pode pular é já. (Tira uma faca o gordo sai correndo de cena como se pulasse uma janela, ouvimos os gritos e depois uns gemidos.)



GORDO- Estou vivo! Ai! Ai! Estou vivo. Escapei! Consegui! Não acredito! Uhuh! (Barulho de caminhão buzinando que atropela o gordo.)



ALEXANDRE- (Para o magro.) Bonito, agora quem vai resolver o meu problema? Se meu filósofo, ministro de assuntos especiais foi embora?



MAGRO- (Olha em volta e depois confiante.) Eu?



ALEXANDRE- (Irônico.) Claro, você um peão qualquer, vai me dizer como construir um museu de armas sem tirar dinheiro do estado, porque a oposição vai dizer que eu estou gastando dinheiro público em benefício próprio e sem tirar da minha fortuna pessoal porque eu não sou bobo nem nada. Como então? Você tem um minuto para me dizer. (Mostra a faca ao magro.)



MAGRO- (Depois de refletir um pouco.) Essa é fácil.



ALEXANDRE- Fácil?



MAGRO- Faça como eu e minha patroa fazemos todo mês.



ALEXANDRE- E o que vocês fazem?



MAGRO- Reservamos quatro por cento do nosso ganho para atividades culturais.



ALEXANDRE- Não entendi qual a relação?



MAGRO- Museu não é cultura?



ALEXANDRE- Sim e daí?



MAGRO- Então faça os comerciantes e grandes banqueiros tirarem todo mês quatro por cento... Digamos do imposto de renda deles, seria assim uma isenção fiscal, o contribuinte ou a empresa contribuinte ficaria isenta desses quatro por cento e se tornaria um mecenas.



ALEXANDRE- (Fazendo as contas.) Taí gostei. A lei do mecenato. Todo mundo fica feliz e meu museu sai.



MAGRO- Já que gostou, que tal uma bolsa de estudos para mim em Atenas?



ALEXANDRE- Farei melhor que isso.



MAGRO- Melhor?



ALEXANDRE- Qual o seu nome?



MAGRO- Rouanet.



ALEXANDRE- Darei o seu nome a lei. Agora suma. (Magro sai correndo.)

(Pano.)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Aeroporto internacional de Salvador

5 ou 4 atores.

Personagens:


Funcionário 1

Funcionário 2

Dom Quixote

Sancho Pança

Jesus

Rei da Espanha

Turista Alemão



(Guichê de alfândega do aeroporto, um funcionário graduado conversa com seu inferior.)



SUPERENTENDENTE- Com toda a opinião pública em cima, temos de usar a lei de reciprocidade. Está me entendendo?



FUNCIONÁRIO- Sim senhor.



SUPERENTENDENTE- Qualquer vôo vindo da Espanha os passageiros têm de estar com todos os requisitos básicos necessários para adentrar no Brasil: Passagem de volta, cartões de crédito, quatrocentos reais por dia, documentos que provem laços fortes com o país de origem, no caso a Espanha.



FUNCIONÁRIO- Sim senhor. Mas se me permite chefe tenho de ser assim tão rigoroso? Afinal aqui é Salvador.



SUPERENTENDENTE- É para barrar mesmo. Não interessa! E digo mais, se gringo fazer barulho, achar injusto leva para salinha e mete o braço. (Olha para o público.) É ou não é? Não é assim eles fazem com a gente?



FUNCIONÁRIO- O senhor mandou ta mandado. Pode levar para salinha mesmo?



SUPERENTENDENTE- Pode não, é para levar. Fez barulho mete a mão. (Sai, voz em off.)



AUTO FALANTE- Vôo vindo do aeroporto de Barrados em Madri acaba de pousar. (O funcionário do guichê mimetiza estar vendo uma fila.)



FUNCIONÁRIO- Próximo! (Eis que Dom Quixote e Sancho Pança se aproximam, Dom Quixote age como se aquilo fosse algo trivial, como que acostumado a viagens internacionais. Já Sancho vem bem nervoso com a situação nada casual, ele sabe que o funcionário percebe sua origem humilde, os dois param em frente ao funcionário que aguarda os documentos, porém nada acontece.) E então?



DOM QUIXOTE- Pois não?



FUNCIONÁRIO- Passaportes e documentos! Vamos! Vamos! Que gente lerda.



DOM QUIXOTE- (Dá um passo atrás e começa uma falação descritiva.) Meu caro servidor do estado. Eu sou o fidalgo Dom Quixote, proveniente de La Mancha. Este, que aqui vos encontra, é Sancho Pança, meu fiel escudeiro...



FUNCIONÁRIO- Sei. Sei! Mas não está faltando alguma coisa?



SANCHO- Ah! O Rocinante, o cavalo do patrão, como não. Nós despachamos em Madri.



FUNCIONÁRIO- O que diabos é isso? Cadê os documentos?



SANCHO- (Pegando o passaporte.) É esse doutor?



FUNCIONÁRIO- E o do velho?



SANCHO- Ele é um cavaleiro andante..



DOM QUIXOTE- Sou o Fidalgo...



FUNCIONÁRIO- Lamento, mas assim não será possível a sua entrada. Que hotel vão ficar?



SANCHO- Bem o senhor conhece alguma boa pousada?



FUNCIONÁRIO- Cartão de crédito, passagem de volta? (Se irrita com a demora de Sancho.) Vamos é para hoje! (Sancho procurando numa sacolinha.) Dêem licença à fila é grande aguardem no canto aí ao lado. (Os dois vão para o lado.) Próximo! (Surge um travesti espanhol.) Documentos, por favor?



TRAVESTI- (Colocando tudo sobre o balcão.) Passapoerte, cartones, dineiro, documentos, reserva de hotele... (Funcionário checa tudo.) Me poedo ir?



FUNCIONÁRIO- Motivo da viagem?



TRAVESTI- Me voi a uno congresso de travestis em Salvador e depois sigo para Gay parede em San Paolo.



FUNCIONÁRIO- (Olhando o travesti de cima a baixo.) Como eu posso acreditar que você é realmente um profissional?



TRAVESTI- Tieno cá a carta de meu cafeton assinada, fotos... (Dá um álbum com fotos que o funcionário começa a ver.)



FUNCIONÁRIO- Há quanto tempo você está com este cafetão?



TRAVESTI- No copreendi?



FUNCIONÁRIO- Entendeu sim. Quanto tempo? É ponto próprio ou paga aluguel?



TRAVESTI- No, a mas de oitcho anhos que trabarro em lá mesma avevida.



FUNCIONÁRIO- Sinto muito, mas a senhora não vai poder entrar no Brasil, deve retornar a Espanha?



TRAVESTI- Piero, por que no? Tieno toda la documentacion, o dinheiro, soi una profissional...



FUNCIONÁRIO- Insuficiência de provas que atestem o seu vinculo com seu país de origem.



TRAVESTI- Mas ta piensando o que? Los travecos brasilenhos é que van a Espanha.



FUNCIONÁRIO- Quanto o senhor cobra pelo mixe?



TRAVESTI- Pelo programa? Mas isto é uma cosa particular, donde está la dignidade humana?



FUNCIONÁRIO- Abaixa a voz!



TRAVESTI- Exijo ver um funcionário do consulado imediatamente.



FUNCIONÁRIO- Não vai ver.



TRAVESTI- (Levantando a voz.) Diga-me por que razion no me poedo adentrar?



FUNCIONÁRIO- Não interessa! (Dom Quixote intervem.)



DOM QUIXOTE- (Para o travesti.) Donzela o que este infame lhe disse?



TRAVESTI- (Se assusta.) Es uno covarde. Faltou-me com o respeito!



DOM QUIXOTE- Vais ver seu mouro, como respeitar uma donzela ingênua.



SANCHO- Calma meu senhor.



DOM QUIXOTE- Calma porra nenhum.



TRAVESTI- Joi soi castelhana tieno sangue caliente.



FUNCIONÁRIO- Com uma enorme chave. Vai tudo para salinha. Vão já! (Vai empurrando eles para fora do palco e dá uns cascudos em Dom Quixote.)



TRAVESTI- Donde está o consulado de Espanha. Joi no soi de Costa Rica ou Bolívia cabron! Joi soi espanhola! Uma potencia européia.



FUNCIONÁRIO- (Sancho em pânico, travesti e Dom Quixote tentando argumentar.) Para salinha. (Saem, ouvem-se gritos, funcionário volta.) Próximo! (Surge Jesus cristo.)



JESUS- Salve irmão!



FUNCIONÁRIO- Bom dia, passaporte?



JESUS- Perdi.



FUNCIONÁRIO- Nacionalidade?



JESUA- Cidadão Romano.



FUNCIONÁRIO- Idade?



JESUS- Não me reconhece? (Funcionário olha para Jesus sem mostrar reação amigável). Eu sou Jesus.



FUNCIONÁRIO- Ah me desculpe, é que a gente fica atordoado e temos ordens de pedir identificação mesmo para celebridades, o senhor me entende não é?



JESUS- (Feliz, se divertindo.) Mas eu sou eu. Sou Jesus.



FUNCIONÁRIOS- Mas não tem aí nada que prove que você é você? Uma carteirinha da igreja?Um milagre?



JESUS- (Pensando.) Não. A cruz eu despachei.



FUNCIONÁRIO- Cartões? Reserva em hotel?



JESUS- Não tenho posses, não me preocupei com o hotel.



FUNCIONÁRIO- Sinto muito, vai ter de voltar para Espanha.



JESUS- Mas eu cansei de lá, quero pegar uma praia aqui.



FUNCIONÁRIO- Sinto muito, relaxa e goza. Além do que o antigo dono aqui da Bahia não gostava de você o Toninho Malvadeza.



JESUS- Ah ta bom então. Eu volto para Espanha. (Vai saindo depois para.) Mas tem de ser de primeira? (Sai.)



FUNCIONÁRIO- Próximo! (Entra Juan Carlo, rei da Espanha.) Passaporte, documentos, passagem de volta, cartões, dinheiro, reserva em hotel, vamos ligeiro.



REI- Joi soi rei de Espanha, tonto?



FUNCIONÁRIO- Sei, mas aqui é o Brasil.



REI- Es mui petulante em dirigir la palavra a minha persona!



FUNCIONÁRIO- Olha Seu rei, ou mostra os requisitos necessários, prove que não vai ficar ilegal no Brasil, ou de volta para a aeronave!



REI- Posso lhe fazer una pegunta?



FUNCIONÁRIO- Sim, claro.



REI- Piero, por que no te calas!



FUNCIONÁRIO- (Para a platéia.) Tão achando que é fácil trabalhar em aeroporto? (Para o Rei.) Para a salinha já. (Leva o Rei que é pego desprevenido, pois não esperava este desfecho, funcionário voltando.) Próximo! (Aparece um alemão.) Passaporte? (O alemão mostra o passaporte alemão.) Está liberado senhor, boas férias.



ALEMÃO- Eu vir fazer turismo sexual em salvador! Pedofilia!



FUNCIONÁRIO- Ótimo seja bem vindo a salvador. Permite-me uma pergunta?



ALEMÃO- Clara?



FUNCIONÁRIO- Menininhos ou menininhas?



ALEMÃO- Eu gosta menininhos!



FUNCIONÁRIO- Então leva esse cartão. Meu cunhado o Mauro, trabalha com isso, tem uns meninos lindos, diz que foi o Maciel que indicou. (Alemão pegando o cartão.)



ALEMÃO- Poda deixar, Maciel. E cunhado Maura trabalha pedofilia?



FUNCIONÁRIO- Isso. Isso até logo e boas férias! . (Alemão sai.)

(Pano.)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Vinte e cinco de março

Cena: Passa-se na rua vinte cinco de março


Tempo: manhã.



Personagens: 3 atores



Comerciante

Funcionário

Fiscal



(Loja de rua, bem cedo de manhã. O funcionário já esta trabalhando quando surge o patrão.)



COMERCIANTE- Bom dia! Tudo tranqüilo, já abriu a loja?



FUNCIONÁRIO- Parece que hoje vai ser calmo patrão.



COMERCIANTE- Que nada esses urubus da fiscalização tão tudo rondando. (Sente a perna). Aí que dor. (Comerciante leva a mão até o joelho.)



FUNCIONÁRIO- Nossa! Que é que houve?



COMERCIANTE- Acho que foi ontem jogando bola, recebi uma entrada de um babaca.



FUNCIONÁRIO- Acho melhor ir ao médico.



COMERCIANTE- Não é para tanto mas eu vou dar uma passada na farmácia e comprar alguma coisa para dor. Você fica de olho na loja?



FUNCIONÁRIO- Oh! Patrão não precisa nem perguntar.



COMERCIANTE- (Já saindo.) Mas olha lá. Nada de conversas, chega de histórias com as pessoas.



FUNCIONÁRIO- Pode deixar comigo patrão não se preocupe! (Comerciante sai, logo depois entra um fiscal que vem sorrindo com maldade no olhar.)



FISCAL- (Gritando.) Fiscal! Fiscal! (Bate palmas.) Fiscal!



FUNCIONÁRIO- (Tranquilo). Já ouvi.



FISCAL- Você quem é?



FUNCIONÁRIO- Funcionário.



FISCAL- Cadê o patrão?



FUNCIONÁRIO- Não está.



FISCAL- Eu espero. (Vai se sentando, ainda eufórico.)



FUNCIONÁRIO- Eu se fosse você não esperava.



FISCAL- (Espantado.) Como é que é rapaz?



FUNCIONÁRIO- Disse que se fosse você saia correndo sem olhar para trás.



FISCAL- Do que é que você ta falando?



FUNCIONÁRIO- Disso que você ouviu. Quem avisa amigo é.



FISCAL- (Imitando a passividade do funcionário.) Quem avisa amigo é. Ora bolas quem deve ter medo é o seu patrão. Eu não devo nada ao estado. Já o seu patrão... (Olha ao redor da loja.) Aí, aí, aí. Está feia a coisa para o lado dele. (Cai na gargalhada.)



FUNCIONÁRIO- (Sem modificar a expressão.) Se você quer acreditar nisso. (Dá de ombros.) Quem sou eu para dizer o contrário.



FISCAL- Mas afinal do que se trata tanto rodeio?



FUNCIONÁRIO- Estou só dizendo que o último fiscal esteve aqui não teve muita sorte.



FISCAL- O que vai dizer que ele teve uma parada cardíaca aqui mesmo na loja. (Ri.) Eu não sou supersticioso.



FUNCIONÁRIO- Se você chama apanhar até morrer de superstição. (Dá de ombros novamente.)



FISCAL- (Fecha a cara.) Logo de manhã a gente recebe umas amolações dessas.



FUNCIONÁRIO- O senhor aceita um copo de água, um café?



FISCAL- Não.



FUNCIONÁRIO- Um bolinho?



FISCAL- Olha rapaz essa sua brincadeira não vai ficar assim vou relatar isso para o seu patrão.



FUNCIONÁRIO- (Sorrindo.) O senhor não esta acreditando mesmo em mim? (Fiscal permanece mudo.) O cara levou tanto chute na cabeça que acabou morrendo.



FISCAL- Há! Há! Há! Até parece. Chega de conversa.



FUNCIONÁRIO- Faz o que seis anos que estou aqui? É isso seis sete anos. No começo achei o patrão até simpático. Calmo conversa direito, mas faz alguma coisa para irrita-lo? Ele se transforma, fica descontrolado e é muito violento. Bom, cada um com sua índole. (Olha para o fiscal que parece não estar prestando atenção. Fiscal pega um jornal e finge ler assobiando.) Coitado deste último, chamava até pela mãe o senhor acredita? Ele gritava: “Mamãe! Mamãe! Eu quero minha mãe!” E o meu patrão chutando a cabeça dele. (Para o fiscal.) Como é que não quebra o pé chutando alguém assim? Bom deixa eu ir trabalhar.



FISCAL- (Fecha o jornal, está um tanto quanto preocupado, ameaça falar alguma coisa, faz um não com a cabeça, vai voltar a ler o jornal, mas desiste, levanta e diz.) Olha eu tenho outros lugares para ir depois eu volto. (vai sair.)



FUNCIONÁRIO- Por que? Logo, logo o patrão está de volta. Espere só um pouquinho.



FISCAL- (Olhando o relógio.) Não poss. Preciso ir.



FUNCIONÁRIO- Tranqüilize-se. Também não é assim. O patrão está de bom humor, depois que chutou tanto a cabeça do outro relaxou está mais calmo.



FISCAL- Nem é nada disso. Você acha que eu não escuto essas estórias todo dia? Eu preciso realmente ir.



FUNCIONÁRIO- Olha o patrão aí. (Comerciante entra na loja mancando.) Oh, patrão este doutor quer falar com o senhor.



COMERCIANTE- Pois não.



FISCAL- Imagina, outra hora eu falo. Já estou indo.



FUNCIONÁRIO- Disse que é fiscal...



COMERCIANTE- Ah claro vamos para o meu escritório. (Fiscal vai se afastando e comerciante o segue pela loja mancando.) Desculpe é que eu chutei tanto ontem que meu pé doi.



FISCAL- Chutou?



COMERCIANTE- Eu devia ter parado, mas estava com uma raiva do filha da puta e continuei chutando.



FISCAL- Espero que tenha valido a pena.



COMERCIANTE- Ah sempre vale, depois que eu vi o estado que ele ficou, me alegrei.



FISCAL- Bem daqui dois anos eu volto. Quer dizer? Quem sabe nem volto.



COMERCIANTE- Como preferir.



FISCAL- Adeus. (Sai correndo.)



COMERCIANTE- Quanto louco. (Para funcionário.) Não tinha nada na farmácia, vou seguir o seu conselho e vou ao médico. Olha tudo até eu voltar, o médico é aqui do lado.



FUNCIONÁRIO- Pode deixar.



COMERCIANTE- (Vai saindo, depois para, tira um chaveiro do bolso.) Ah, quase me esqueço, vai passar o Ricardo para lavar o meu carro. (Baixo.) Manda ele tirar bem o cheiro sangue do porta-malas que ficou daquele babaca do outro fiscal. Manda esfregar bastante, cretino aquele cara ainda deixou cheiro ruim no meu Vectra. (Dá a chave ao funcionário.) E uma última coisa.



FUNCIONÁRIO- Pois não doutor.



COMERCIANTE- Chega de histórias.



(pano.)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O anel.

Personagens:



Susana

Paulo

Garota que mora com Susana

Sonia, paciente do médico

Doutor Cássio, médico.





(O palco está dividido em duas partes. Uma sala de visitas onde uma garota dorme num sofá, ao som de uma música dançante alta e um consultório médico onde um médico aguarda um paciente. As duas estão com meia luz, ao subir o pano a sala de visitas sobe a luz, entra um rapaz.)



RAPAZ- (Vendo a menina dormindo.) Você desligou o celular? (A garota continua dormindo.) Cheguei! Eu me perdi foi difícil achar sua rua por isso que eu demorei, ta um puta transito. Você está me ouvindo? (Ele chacoalha a menina com as mãos.) Ei? Ta me ouvindo? Acorda Susana! (Vai até o som e desliga, tenta novamente chacoalha-la e acorda-la, mas não obtém nenhum resultado. Começa a ficar desesperado, saca o celular e liga.) Alo Renata, eu vim na casa da menina que eu falei. Acho que ela esta morta que é que eu faço? (Ouve.) Como ir embora eu toquei em tudo, com certeza alguém me viu entrar, meu carro esta na porta, vai ficar parecendo que fui eu que matei ela. (A luz muda para o consultório médico.)



MÉDICO- (Abrindo a porta.) Olá dona Sonia, faça o favor. (Ele dá passagem uma senhora que entra com uma pequena cadela.)



SONIA- Olá doutor Cássio. (Os dois sentam à mesa do médico, a paciente segura a cadela no colo.)



MÉDICO- Você parece ótima, como andam as coisas?



SONIA- Eu não poderia estar melhor.



MÉDICO- Pois então?



SONIA- O problema é com a Monique.



MÉDICO- Monique?



SONIA- Sim. Ela vem sentindo dores e não está comendo direito. Talvez tenha sido por causa do fim de semana que estive fora, pensei que ia passar quando eu voltei, mas na verdade Monique piorou.



MÉDICO- E onde esta ela?



SONIA- Ela quem doutor?



MÉDICO- Monique.



SONIA- O senhor está se sentindo bem?



MÉDICO- Quem eu?



SONIA- Estou achando o senhor meio confuso.



MÉDICO- Desculpe dona Sonia... Não estou realmente me lembrando, Monique é sua filha? Neta?



SONIA- Neta? Como ela poderia ser minha neta.



MÉDICO- Desculpe claro. Agora lembrei a sua filha Monique. (Ri.) Estava brincando, claro a Monique. Onde ela está?



SONIA- (Sem entender.) Aqui no meu colo.



MÉDICO- (Parando de rir.) A cachorrinha é Monique? (A luz troca para a sala de visita.)





RAPAZ- Espere Renata estou ouvindo alguém chegando. Acho que pode ser o assassino. (Ele desliga e se esconde atrás do sofá. A porta se abre e entra uma outra garota.)



GAROTA- (Vendo Susana aparentemente dormindo.) Susana! O que é que você esta fazendo? Não vinha um p.a. hoje aqui? (Vai até Susana e a chacoalha.) Susana acorda? Cadê o tal de Paulo? (O rapaz sai da trás do sofá.)



PAULO- Como você sabe o meu nome?



GAROTA- Que susto. O que é que você está fazendo ai atrás?



PAULO- Me escondendo não sabia quem poderia ser. (Garota vê Susana que continua dormindo.)



GAROTA- Por que a Susana não acorda?



PAULO- Não sei acho que ela morreu.



GAROTA- (Em pânico.) Não me mate por favor, pode me estuprar mas não me mate!



PAULO- Mas não fui eu. Quando eu cheguei, ela já estava morta, achei que você poderia ser o assassino.



GAROTA- Morta? Você já revistou a casa?



PAULO- Você vem comigo, revistar?



GAROTA- Não é melhor chamar a polícia. (Pega o celular.)



PAULO- Não! Espera, eles podem achar que fomos nós.



GAROTA- Tem certeza de que ela está morta?



PAULO- como é que eu posso ter certeza, nunca vi um morto, quer dizer um morto novo. Já vi avó e avô morrerem, menina eu nunca vi.



GAROTA- Tem um consultório médico vizinho, bem aqui do lado, muro com muro poderíamos leva-la até lá. (A luz volta para o consultório do médico.)





MÉDICO- Impossível! Isto não é uma clínica veterinária. Peço para a senhora se retirar.



SONIA- Vou denunciá-lo a sociedade protetora dos bichinhos além do que para mim Monique é gente. (A cachorra começa a se sentir mal, ou melhor a atriz finge que a cachorra esta mal.) Meu deus a Monique não esta bem, o senhor tem de operá-la imediatamente.



MÉDICO- Operá-la? Mas ela nem foi examinada. (Levanta e vai abrir a porta, Sonia puxa um revolver da bolsa.) Mas o que é isso? A senhora é maluca?



SONIA- O senhor é um médico e vai fazer o que eu estou mandando. Vai rasgar a barriga desta cachorra!



MÉDICO- Mas isso vai mata-la?



SONIA- Problema dela, já dei purgante ela não devolve a jóia que comeu. Eu tenho um casamento hoje e pretendo usar este anel na festa à noite. (Dá uma faca ao médico.)



MÉDICO-(Ainda relutante.) Cortar a pobre cachorrinha, que crueldade vamos esperar um pouco mais logo ela vai ao banheiro.



SONIA- Não há tempo, ainda tenho ,de ir ao cabeleireiro me maquiar. Vamos pegue um bisturi ou uma faca.



MÉDICO- Onde eu vou conseguir uma faca?



SONIA- Este abridor de envelopes em cima da mesa deve servir. (Médico pega o abridor de envelopes, Sonia coloca a cadela em cima da mesa. Médico fica parado acreditando que Sonia vá desistir da estupidez.) Vamos eu não estou brincando! (Aponta o revolver. Médico vai cortar a barriga da cadela quando surgem Paulo e a garota carregando Susana.)



GAROTA- Desculpe doutor, mas acho que minha amiga não esta bem. (Paulo vê Sonia armada e solta os pés de Susana.)



PAULO- A assassina!



SONIA- Vocês dois fechem a porta e entrem.



MÉDICO- Meu deus o que houve com sua amiga?



PAULO- Quando eu cheguei, ela já estava assim.



GAROTA- Eu não vou agüentar. (Desmaia.)



MÉDICO- (Para Sonia.) Eu preciso examinar esta garota. (Aponta Susana.)



SONIA- Ache o anel e você cuida dela. (Celular de Sonia toca. Ela atende.) Oi Marquinhos. Eu sei estou no transito, mas estou chegando. (Ouvindo.) Não segura a minha vez, pelo amor de deus. Um beijo. (Para Paulo, apontando a arma.) Vamos era o meu maquiador, não posso me atrasar, você abre a barriga da cachorra e o médico examina a garota.



MÉDICO- Qual das garotas?



SONIA- Sei lá a que já chegou desmaiada. (Médico dá o abridor de correspondência a Paulo e vai examinar Susana.)



PAULO- Mas por que você quer matar a cachorrinha?



SONIA- Chega de pergunta! Vamos logo enfia na barriga da cadela! (Toca o celular de novo. Sonia atende.) Oi Marta, vamos. (Ouve.) Eu sei estou atrasada daqui a pouco era para estar na igreja. (Paulo enfia faca na barriga de Monique que geme.) Deixa eu ir que o marquinhos esta me esperando para maquiar. (Vai guardar o celular na bolsa.) Para tudo. Que é isso. (Tira o anel da bolsa.) Estava aqui o tempo todo. (Olha a cadela toda ensangüentada. Para Paulo.) Isso não vai ficar assim, sabe quanto custa uma cachorra igual à Monique seu cretino? (Levanta guarda a arma e sai correndo. O médico e Paulo trocam olhares.)



MÉDICO- Que louca. (Para Paulo.) Sua amiga não morreu. (Pausa.) Ela abusou de algum entorpecente. (Susana levanta e começa a dançar.)



PAULO- Já a cachorra acho que eu... A matei. Que horror. (Chora.)



MÉDICO- (Tentando recobrar a garota amiga da Susana.)



GAROTA- (Acordando.) Nossa onde eu estou. (Vê o anel que Sonia na correria deixou cair.) Que anel é esse? (Médico pegando o anel.) Que tonta.



PAULO- Doutor, muito obrigado. Acho que nós vamos indo.



GAROTA- Precisa marcar um retorno? Exame?



MÉDICO- Se algum de vocês voltar a ter algum sintoma marque com minha secretária.



PAULO- Acertar?



MÉDICO- Tenha bondade, com a minha secretária.



GAROTA- (Da porta com Paulo e Susana saindo.) Obrigado doutor. (Vozes em off.)



GAROTA- Bonito, o p. a. vem te visitar e você esta doidona Susana?



PAULO- Afinal o que é p. a?



AS DUAS JUNTAS- Pinto amigo. (Risadas.)



MÉDICO- (Pega Monique joga em uma gaveta. Telefone toca.) É... Cobre duas consultas e marque um retorno. Pode mandar entrar o próximo. (Olha para o anel.) Minha mulher vai adorar esse anel.



(Pano.)

São Francisco e a loteria

Personagens:


Amante

Poeta

Empregada

Marido

Esposa



Cenário: Rua, numa noite de inverno.



(Um homem está aguardando uma mulher casada para um encontro. Ele hora sopra as mãos e tampa as orelhas, hora coloca as mãos no bolso da calça.).



AMANTE- Onde está ela? Que gelo! (Se movimenta de um lado para o outro, para tentar passar o frio.) Marcou comigo às dez horas e já são dez e meia. (Tenta fazer uma ligação no celular.) Inútil esta desligado. (Guarda o celular). Vou-me embora. (Faz o movimento de ir, mas logo para.) Ah, não essa mulher vale a pena. Tem uns peitos, uma bunda e depois o melhor de tudo, é casada. Parece que o marido não dá no coro, então eu entro em ação. (Ri.) Até hoje nunca tive um problema com marido corno, acho que eles finalmente estão ficando mansos com a modernidade. Vivemos uma época de ouro, onde se pode realmente sair com mulheres casadas, o que é ótimo, pois não temos o dever de ligar no dia seguinte nem nos preocupar com os maridos cornos. Ainda mais eu que não posso ver sangue que desmaio. Não nasci para agressividade física, só para o amor. (Um vendedor de poesia se aproxima.).



POETA- Gosta de poesia? Quer ver um trabalho meu...



AMANTE- Não odeio, e dá licença que eu estou esperando alguém... (Vê alguém vindo.) Mas quem é essa louca que vem correndo? (Vendedor de poesia se afasta.) Será que é Pauline? (A empregada de Pauline entra correndo e ofegante mal consegue falar).



EMPREGADA- Salve-se meu senhor! O marido da patroa descobriu tudo e esta vindo para cá, logo aí atrás! (Sem parar passa correndo e sai de cena).



AMANTE- O marido? (Empregada sai de cena, o amante olha em volta.) Para onde eu fujo? (Vendedor de poesia dá de ombros.) E agora o que será de mim? (Corre pelo palco.) Onde eu me escondo? (O marido entra correndo no palco e para, respira, pois esta quase sem fôlego, ele é visivelmente mais forte e agressivo do que o amante).



MARIDO- (Se repondo.) Você? (Olha para o amante que agora disfarça).



AMANTE- Pois não?



MARIDO- Quero falar com você, sobre Pauline. (Amante tenta fugir, mas marido o segura pelo ombro).



AMANTE- Não é nada do que o senhor está imaginando, eu na verdade sou um primo distante de Pauline...



MARIDO- Filho da tia Márcia?



AMANTE- Isso filho da tia Márcia.



MARIDO- Eu detesto a tia Márcia.



AMANTE- Eu sou maquiador...



MARIDO- Eu sou engenheiro civil, e daí? A conversa é outra primo.



AMANTE- Lamento, foi bom te conhecer, eu tenho uma cliente agora...



MARIDO- Eu não estou aqui para te agredir, eu sou um corno manso.



AMANTE- Como é que é?



MARIDO- É isso que você ouviu, eu sou um corno manso.



AMANTE- (Mais confiante e menos medroso.) Sei e em que eu posso ajudá-lo?



MARIDO- (Tira umas contas do bolso.) Está aqui oh! (Começa a dar as contas ao amante). Condomínio, seguro saúde, (Amante vai pegando as contas sem entender), cartão de crédito, celular...



AMANTE- Setecentos reais de celular?



MARIDO- Por que achou muito? Mês passado foram novecentos.



AMANTE- Novecentos?



MARIDO- E mês que vem vai ser mais, depois do feriado que vocês vão passar em Buenos Aires.



AMANTE- Mas o que significa tudo isso? De quem é esse celular? Essas contas?



MARIDO- Como de quem? De Pauline, quem mais? Quer dizer agora são suas e dela.



AMANTE- Como assim?



MARIDO- Eu estou caindo fora.



AMANTE- Como assim?



MARIDO- Fique tranqüilo, foi algo que eu refleti muito, não tem nada a ver com vocês. É uma decisão, claro que você vem em boa hora. Facilita, aí nessas contas. (Continua a tirar contas do bolso.) Clube, prestações do carro, (Para e olha o boleto bancário), puta carro caro! To vai pegando.



AMANTE- Mas... Nós só saímos uma vez. Você pode continuar com ela, eu não vou querer essas responsabilidades.



MARIDO- Tente entender, eu e Pauline não combinamos. Ela não vai ao cinema comigo.



AMANTE- Só por causa disso? Vá sozinho.



MARIDO- Mas é essa a idéia. Eu queria tanto ter visto “Tropa de elite 2”.



AMANTE- Eu assisti, gostei.



MARIDO- (Agora sem ouvir, só desabafando.) A exposição do Nuno Ramos que ela não me levou, o show do Geraldo Azevedo. Sem falar em outras coisas.



AMANTE- Ah é. Quais outras coisas?



MARIDO- A verdade é que Pauline é uma pessoa muito materialista. Já eu dou valor a outras coisas, jantares românticos... (Para o amante.) Você cozinha? Gosta de literatura?



AMANTE- Bem... Eu li um livro uma vez, não lembro o nome agora e faço bons sanduíches.



MARIDO- Sanduíches?



AMANTE- Saladinhas vez ou outra.



MARIDO- Sabe, eu tenho um sonho. Você pode até achar bobagem, como Pauline acha também.



AMANTE- E o que é?



MARIDO- (Com água nos olhos.) Eu gostaria de... Sabe aquele sonho de... Como eu posso explicar?



AMANTE- Não se acanhe, pode dizer.



MARIDO- Casar na Igreja. Eu gostaria de casar na igreja e de ter filhos sim senhor. (Entra o vendedor de poesia.)



POETA- Carlos?



MARIDO- Olha se não é o Guilherme.



POETA- (Dando um abraço no marido.) Carlos! Sumiu lá do Sarau, todo mundo ficou sem seu contato.



MARIDO- É que eu casei. Mas agora vou voltar... Descasar.



POETA- Ah que ótimo, anda escrevendo? (Entra Pauline, ela é só sorrisos logo atrás vem a empregada também só sorrisos).



PAULINE- Carlos, eu preciso te dizer algo.



MARIDO- Oh Pauline este é meu amigo Gui do Sarau de poesia.



PAULINE- (Sem ouvir). Nossa vida mudou Carlos, hoje eu descobri...



MARIDO- (Pega a mão do amante e junta com a dá mulher.) Não precisa me explicar nada já me entendi com o seu amante, ele até já assumiu as responsabilidades.



AMANTE- (Tirando sua mão da de Pauline.) Não é bem assim.



MARIDO- É assim sim. (Puxando o poeta.) Vamos Guilherme tomar uma cerveja.



PAULINE- Mas...



MARIDO- (Para todos.) Agora eu sou como São Francisco de Assis, amo o sol, a natureza e a poesia, as cabras... Sou livre... (Vai saindo.)



EMPREGADA- A patroa ganhou na loteria!



MARIDO- (Imediatamente volta.) Como é que é essa estória, Pauline?



PAULINE- É isso mesmo, ganhei sozinha o primeiro prêmio, sou uma milionária! (Pausa, todos se olham).



MARIDO- Vamos já para casa! (Vai puxá-la e o amante a segura).



AMANTE- Vai rodar o mundo, Alberto Caeiro, que esta agora é minha. (Cada um puxa um braço).



MARIDO- Pauline vamos embora! (A luz vai descendo).



PAULINE- Vocês estão me machucando.



MARIDO- É minha.



AMANTE- Você me deu. Junto com as contas. (Pano.)