segunda-feira, 11 de julho de 2011

16 Capítulo 3.

O leitor deve antes ler os capítulos anteriores 1 e 2. Valeu.

  A música logo na entrada era muito agradável. Agradável, que palavreado é este Victor? O restaurante Constantinopla era bem iluminado e com muita vegetação. Uma linda garçonete, Catarina, veio me receber. Havia só mais duas mesas. Um jovem casal bem vestido e na outra, duas senhora e um senhor. Comi uma massa ao dente maravilhosa. Surfe da muita fome. Um vinho italiano acompanhando.
 Perguntei a Catarina se ela conhecia Foguinho. Este era o nome do menino.
 “O que é que você quer com ele? Coisa boa não pode ser.”
 “Disseram-me que ele da aula de surfe. Confere?”
 “Olha se ele não estiver ocupado assaltando nenhuma casa de turista pode até ser, porque ele é bom surfista. Mas todo cuidado é pouco.”
 Tentei mudar de assunto.
 “Por acaso Catarina você sabe de casas para alugar por aqui?”
 “Claro que sei. O meu amigo tem uma imobiliária, a Sun Time. Procure pelo Juca e diga que a Catarina é que te mandou.” Pegou a bandeja e se mandou.
 Quantos anos esta linda mulata poderia ter? Com certeza menos de vinte. A sobremesa uma deliciosa torta de limão.
 Voltei para o hotel e mal entrei uma mulher de uns quarenta anos e muito em forma me chamou:
 “Hei não quer me acompanhar num espumante?” Ricardinho estava atrás do balcão do bar da pousada e ria meio como piscando para mim. Meu Deus só podia ser a tal Verônica, e agora? Se eu disser a ela que sou gay terei um Ricardinho em cima se achando íntimo para sempre. Se continuar a bancar o heterossexual fazendo turismo, eu vou ter de pegar esta... Nossa que mulher vulgar!!!
 Tentei simular um mal estar e corri para o quarto. Mas Verônica bateu na porta junto com Ricardinho e me ofereceram remédios. Não teve jeito, tive de voltar ao bar e vencê-la no álcool. Pensei que uma mulher de 40, já alta não agüentaria muito. Ilusão, eu acordei numa resseca. Pelo menos acordei sozinho. Já era meio dia.
 O café da pousada já tinha sido tirado. Encontrei uma padaria e foi lá mesmo que tentei me informar sobre Foguinho, o menino de 16 anos.
 “O senhor está atrás de aula de surfe?” Me perguntou um rapaz de uns 25 anos que me atendia.
 “Isso”.
 “Sinto muito moço, o Foguinho faleceu ontem à noite. Hoje é o enterro dele.”
 “Como? Morreu ontem, de que?”
 “Provavelmente ou foi droga ou foi alguma coisa que ele roubou. O Foguinho mais uns por aqui vivem roubando as casas dos turistas. Trabalhar ninguém quer, uma hora daria nisso.”
 Minha única pista havia desaparecido. Pelo que eu soube depois com Ricardinho, Foguinho tinha levado umas facadas num beco que tem acesso à praia. Resolvi então visitar uma imobiliária. Ricardinho me sugeriu a mesma que Catarina. Sun Time, Juca.
 “O Juca é um cara sensacional. Se você quer uma casa boa ele te arruma.”.
 Conclui que o Juca era um cara bonito. Mas não imaginava que fosse tão bonito. Recebeu-me com um lindo sorriso. Tinha quase a minha altura, uns 35 anos. Cara de bem sucedido e de esportista. Um lindo corpo. Nossa comecei a me apaixonar.
 Com certeza Luana ficaria mexida com um tipo desses, apenas um detalhe ela não iria gostar, Juca era simpático, lindo mas sem conteúdo nenhum.
 Levou-me ver algumas casas para alugar. Eu disse que queria comprar um terreno também.
 “Juca eu ouvi dizer que para construir é muito difícil aprovar a planta na prefeitura?”
 “Rui, eu nunca soube de nenhuma casa que não teve a planta aprovada pela prefeitura, para tudo se dá um jeito.”
 Depois me disse que o governo vai duplicar a estrada e com isso os imóveis vão duplicar o valor.
 “Aqui o único problema é o transito nos feriados. Mas com a estrada nova, isso aqui não vai mais ter preço.”
 “Achei que estávamos na bolha.” Eu disse.
 “Rui a dez anos que eu escuto que o litoral norte chegou ao máximo, e por mais incrível que pareça todo ano os imóveis se valorizam”.
 Incrível, achei eu, porque se ele estava já há tantos anos como não havia ficado rico? Ele não me parecia muito feliz em morar lá. Era um tipo que se daria muito bem em São Paulo, no Itaim. Mas me contou que havia se casado com uma local e já tinha um filho de dois anos.
 Perguntei sobre a violência, e ele disse que tinha diminuído muito. Falei do assassinato de Foguinho.
 “Quer saber? Ainda bem que o mataram. Aquele garoto era um marginal.”
 Realmente Luana não teria gostado deste Joca, Juca sei lá.
 O que Luana tinha feito com Foguinho? Será que duas mortes não fariam a policia suspeitar de uma conexão? Será que Ricardinho não tinha contado a policia sobre os encontros de Foguinho e Luana?
 Fui até a delegacia, que ficava em outra praia. Na praia do Piabú. Qual foi não foi a minha surpresa ao reconhecer o Delegado. Era o bonitinho que estava ontem final de tarde surfando e havia sorrido para mim.
 E qual não foi uma surpresa ainda maior ao ouvir:
 “Queira sentar-se senhor Victor Montale, eu o estava esperando.”.


16 Capítulo 2

 Se o leitor ainda não leu o capítulo 1, não pode ler o dois. Para tanto é só ler, ele é a postagem anterior a esta. Valeu. 


 A praia estava linda naquele final de tarde. Ela tinha um quilometro e meio de extensão. Bem na frente da pousada é onde ficavam os surfistas. Uma linda coincidência. Se não fosse a dor da perda de Luana, eu estaria muito feliz.
 Não entendo como algumas pessoas se preocupam com a estética das casas na praia. Dentro da água o que se vê são as enormes montanhas verdes da mata atlântica, a praia, o mar e que Deus existe. Existe?
 Havia cinco caras na água, mas só um me cumprimentou. Era um cara bem definido. Passou e me deu um sorriso. Depois ficava me olhando, meio curioso. Acho que vou me dar bem aqui no Cacau.
 Depois do banho, uma bichinha da recepção passou a me perseguir.
 “Senhor Amaral está tudo bem com a sua estada? Precisa alguma coisa?” Rui Amaral, este era o meu disfarce.
 “Oi, você é?” Eu vi o crachá escrito Richard. Mas não queria dar a entender que eu fosse alguém esperto. Quanto mais tonto, mais informações nos dão.
 “Richard, mas pode me chamar de Ricardinho.” Sei... Eu hein! 
 “Ricardinho? Mas Richard é tão bonito. Combina com você.” É as vezes eu sou meio afetado.
 “Olha Ricardinho para falar a verdade sim. Você pode e ajudar.” O jovenzinho magrinho e muito feinho, ficou extremamente contente em ajudar.
 “Um amigo meu me disse de um lugar chamado... Que o nome era um número?”
 “O senhor Amaral quer uma sugestão de um restaurante?”
 “Sim, não existe nenhum lugar aqui com nome de número?” Claro que eu já tinha dado um google com todas as possibilidades possíveis: Cacau imobiliárias 16. Cacau 16, Dezesseis litoral norte. Restaurante 16.... Enfim, era a última tentativa.
 “Aqui no Cacau? Não.”
 “Acho que me confundi. Mas de qualquer maneira onde você me recomenda jantar?”
 “No Constantinopla! Sem dúvida o melhor restaurante da região. Não faz feio em nenhum de São Paulo.”
 “Ótimo, você poderia me reservar uma mesa?”
 “Sim claro.”
 “Me diga uma coisa Ricardinho... Eu estou aqui de férias, atrás de umas gatas, você entende, não é?” O Ricardinho ficou vermelho de vergonha. Parecia desapontado, mas ao mesmo tempo um papo tão direto assim o tirou da mesmice, da monotonia da portaria.
 “Tem uma moça de uns 35 anos acabou de separar, está no quarto 18. É muito bonita e tem um corpão.” Ele dizia isso num sussurro.
 “Sei, mas fora esta recém divorciada...”
 “Verônica, Dona Verônica, um charme e muito simpática.”
 “Sim Verônica, mas muitas outras mulheres sozinhas vêm para a pousada, não?”
 Foi aí que ele deu um suspiro.
 “Seu Amaral... Se o senhor soubesse... Se o senhor soubesse...”
 “Rui, pode me chamar de Rui. Mas então me conte, estou de férias adoro histórias.”
 Foi aí que ele falou de Luana. Não disse o nome, mas a descrição e as datas era ela.    Mas eu não podia acreditar no que eu ouvia. Um garoto de 16 anos vinha visitá-la no quarto? E eles ainda saiam juntos, sempre.
 Ela era a minha melhor amiga, e eu nunca soube que ela gostasse de garotos. Pelo contrário seus grandes amores sempre foram homens mais velhos do que ela. Mesmo assim consegui saber quem era o menino. E o mistério do número 16 estava resolvido.
 Conhecendo minha amiga, este garoto deve ter relação com a investigação imobiliária. O computador de Luana foi roubado no mesmo dia em que ela se afogou logo este menino era a minha única pista naquele momento.
 A fome apertou e segui a pé pela rua principal em direção a Constantinopla, o restaurante contemporâneo do cacau.







domingo, 10 de julho de 2011

16

 Victor Montale é um jornalista investigativo. Ele é de uma família da máfia. Mas resolveu seguir a sua própria vida. Ou talvez a máfia ainda não esteja pronta para um Chefão gay. Nada lhe coloca medo, afinal ele além de muito forte, foi treinado desde pequeno para comandar o submundo do crime organizado. Mas no fundo ele é um idealista.
 Agora sua bela amiga, Luana, que escrevia uma matéria bombástica sobre a especulação imobiliária no litoral norte de São Paulo, afogou-se na praia do Cacau. Se este fato não for realmente um acidente, como disseram as autoridades, que o culpado fuja o mais rápido que puder, porque Victor está na área. Ele é o nosso detetive em ação e não está convencido do “acidente”.  

Capítulo 1.


 A praia do Cacau no litoral norte de São Paulo tem cinco mil habitantes. E no inverno recebe pouquíssimos turistas. Por isso o afogamento da minha melhor amiga, Luana, foi o assunto em todos os lares e comércio do pequeno bairro de São Sebastião.
 Eu e Luana nos conhecemos na faculdade de jornalismo. Depois de formados fomos trabalhar em diferentes jornais. Os dois maiores concorrentes de São Paulo. Anos depois acabamos na mesma revista semanal. Formamos uma dupla de repórteres investigativos.
 Eu sempre quis trabalhar com crime. Luana dizia que eu deveria ter sido policial. Um cara com um metro e noventa, cem quilos. Com propensão para violência e uma disciplina militar. Mas como eu poderia ser policia se sou filho de um dos maiores bicheiros de São Paulo.
 Sim esta é a história da minha família. Meu pai administra cabarés, jogo e toda espécie de contrabando e contravenções. Ele não se incomoda em me ver jornalista. Mesmo porque no Brasil o crime organizado não tem este senso de corporativismo que vemos nos filmes americanos.
 A verdade é que meu pai está se lixando para o que as pessoas fazem ou não. Ele se preocupa com os negócios dele e só. Aliás, como todo brasileiro hoje em dia, é um individualista.   
 Não temos uma boa relação. Acho que ele ainda não aceitou que o filho é gay. Já minha mãe e eu nos damos muito bem.
 Luana ralou muito na vida. Nunca teve retaguarda familiar. Desde a faculdade ela trabalhou. Aprendemos tudo na rua, eu e ela. E embora ela não tenha sido uma jogadora de pólo aquático como eu, tenho certeza de que ela nunca teria se afogado.
 Luana foi para a praia do Cacau, fazer uma matéria sobre especulação imobiliária. Eu deveria ter ido junto. Mas uma coisa me segurou em São Paulo.
  Uma coisa que atende pelo nome de Fernando. E que eu sou apaixonado há mais de seis anos. Seis anos? Não, mais. Já vão fazer oito.
 Meu último telefonema com Luana, ela me disse que estava avançada na investigação, porém tinha achado outra coisa com a qual investigar e escrever. Disse-me que o novo texto se chamava Dezesseis.
 Dezesseis? 16? O que poderia ser? Algo que ela teria descoberto.  Sobre inúmeras denuncias de fiscalização da prefeitura? As obras estavam sendo feitas com irregularidades.
 Na verdade sempre foram, mas agora a coisa tinha se acelerado de tal forma que se não fossem reveladas para a sociedade o litoral norte de São Paulo corria sérios riscos de desaparecer.
 Sumir num conceito elitista. O “paraíso” de veraneio. Por isso quando pensamos na matéria, queríamos abordar de outra forma também.Um outro lado. Mostrar não só a parte criminal, mas também polemizar em relação as ideologias estéticas e ecológicas. Estas que sempre foram pré definidas há décadas assim como os infindáveis puxadinhos.
 Sim o Brasil é o país dos puxadinhos. E das praias também. E no Cacau haviam as duas coisas juntas. O mais estranho é que não se mata assim tão rápido alguém que investiga o meio imobiliário. O que Luana teria achado ou esbarrado?  
 Eu no meu egoísmo estava tão entusiasmado em contar as minhas eternas desventuras amorosas com o Fernando que nem a ouvi direito quando ela tentou me explicar. Este telefonema foi no dia anterior dela ser encontrada morta. Ela vestia um biquíni.
 Uma senhora disse que caminhava pouco antes do almoço pela praia e teria avistado uma moça estendida na areia tomando sol. A senhora achou que Luana estava numa posição estranha e ao chegar mais perto notou que minha amiga havia se afogado. Chamou a polícia dali mesmo pelo celular.
 A praia estava deserta, embora com o céu completamente azul, mas é inverno. E soprava um vento gelado neste dia.
 No litoral todas as mortes são vinculadas a drogas. A pessoa que morre sempre é usuária ou traficante. O delegado constatou um acidente. Mais um afogamento no mexido mar de inverno.
 “Uma turista deveria evitar nadar na água fria e num lugar deserto. Uma fatalidade para a família. Uma moça tão jovem e bonita”.
 É o que ele teria declarado. Eu avisei meu editor que eu precisava pensar na vida. Que eu estava abalado com a morte de Luana e pedi umas férias. Ele entendeu na hora. O que ele não sabe é que eu segui para a praia do Cacau.
 Luana é minha melhor amiga. Droga! Era a minha melhor amiga. Embora eu não tenha nada de afetado. Não se pode dizer que eu seja um gay convencional eu tenho algumas características ou estereotipo. Meu melhor amigo era uma garota.
 Por isso eu sei tudo da vida de Luana. São mais de dez anos de convivência. Se existe alguém para descobrir o que teria acontecido com ela, este era Victor. Ou melhor dizendo, Victor Montale, eu.
 Ao me registrar na pousada, a mesma em que Luana ficou eu não me identifiquei como jornalista e nem tão pouco insinuei saber do “acidente” de três dias atrás.
 O corpo de Luana fora para São Paulo e pouco depois de uma rápida perícia, liberado para o enterro. Não quero dizer o quanto isto foi triste e nem a quantidade de pessoas que compareceram. Luana era simplesmente amada. Claro, absurdamente inteligente, charmosa e linda. Não estou brincando não. Ela nunca passou despercebida.
 Luana é até hoje a mulher mais elegante e sensual que já conheci. Se eu gostasse... Juro que a teria pedido em casamento. Mas como dizem: Meu time é outro.
 Depois de me identificar como um empresário e surfista de férias. Dando um nome e documentos falsos, segui para o quarto. Ainda tinha um final de tarde e eu queria me trocar para conhecer este mar que levou a minha amiga embora. Aliás, minha única amiga.









sábado, 2 de julho de 2011

The girl from Nebraska.


 Dizem que Ava Gardner foi descoberta na rua. E se tornou alem de estrela de Hollywood o sonho de pelo menos duas gerações de homens e com certeza de algumas mulheres também. Inclusive o meu.
 Acontece que depois de duas semanas na Califórnia, forno quente em espanhol, eu já começava a acreditar que Los Angeles é um lugar decadente, habitado por pessoas com sobrepeso, derretidas, feias e mal vestidas.
 Finalmente encontrei uma espécie de café, que me pareceu ao mesmo tempo belo e com um toque de humor.     
 Eram duas da tarde, logo havia apenas uma mesa. Uma menina de óculos me sorriu atrás do balcão e disse, em inglês claro:
 “Onde você quiser”.
 Leitor, esta menina, saiu de trás do balcão e veio atravessando o salão em minha direção no jeito mais lânguido que já vi. Ela deslizava como numa tomada de cena de um filme, perfeita. Como a melhor tomada de cinqüenta, oitenta vezes. 
AÇÃO!
 “Você é realmente campeão mundial de frisbee?”
 Ela disse isso sem nenhuma pressa. E no mesmo instante eu pensei: “Encontrei.” Encontrei a loucura da Califórnia. A transgressão, a arte, o cinema... Tudo em apenas uma única frase.
 Frisbee? Que diabo é frisbee? Pensei. E me lembrei da camiseta que eu vestia. Sou realmente um brazuca. Vestia uma camiseta envelhecida artificialmente, que dizia ser eu vencedor do campeonato mundial de frisbee em 1979.
 A verdade é que apesar da minha altura não ser large a minha largura é. Logo eu tinha comprado àquela droga de camiseta porque outras tantas dez não haviam servido.
 “Não. Não sou não. É só...”
 Ela sorriu claro que estava me gozando.
 “O que você me sugere?”
 “Para café da manhã, almoço ou jantar?”
 Achei tratar-se de outra gozação, afinal eram duas da tarde. Mas percebi que não.
 Então veio um prato que era uma mistura de carne, espinafre, pimentões e cebolas. Na verdade dentro de uma tigela, tudo realmente misturado. E uma limonada. Depois ela me trouxe uma pimenta. E disse com sua voz sensual e tranqüila.
 “Feita aqui mesmo em Venice.”
 Falou de um jeito que Venice o bairro ficou mais charmoso do que Veneza a cidade.
 “De onde você é?” Ela quis saber.
 “De onde você acha?” Eu devolvi.
 “Continue falando.” E continuei.
 “Russo!”
 Russo? Acho que vi uns dois ou três Russos na vida, mas acho que eu não pareço um Eslavo. De maneira nenhuma.
 “Acertou.” Eu não gosto de desapontar as pessoas, depois os Russos não são mais inimigos da América há alguns anos.
 “E você?”
 “Eu sou de Nebraska”.
 “De Lincoln?”
 Ela não podia acreditar que aquele Russo pudesse conhecer a cidade de Lincoln. Fechou a mão e fez um “Yes!”
 “Mas não. Eu sou de uma pequena cidade de 400 habitantes”.
 Foi então que eu reconheci a música de Tom Jobim que estava tocando.
 “Olha que coisa mais linda que vem e que trás,
 Esta limonada
 A caminho de Santa Monica..."
 Isso foi no último dia de viagem. Porque se não fosse eu levaria meu violão lá todos os dias e cantaria, para aquela Deusa de óculos. A garota de Nebraska. 
 Isto foi em junho e ela disse ter chegado em L.A. apenas em janeiro.
 Ou seja, se esta garçonete se tornar uma estrela, porque ela inclusive já é, eu vou poder dizer que fui eu quem a descobriu.
 E quando eu menos esperava, ela veio com um outro copo de limonada. E disse agora como uma garota da fazenda.
 “Beba tudo. Você vai precisar.”
 CORTA!
  Perfeito. Ou melhor, perfeita!
 E aquele sussurro vai ficar para sempre nos meus ouvidos. Close da câmera nos lábios:
 “Venice”.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Você vai se apaixonar pela pessoa mais imprevisível na hora mais inesperada.


 Ela estava parada no trânsito. Tinha uma reunião e já estava atrasada. Resolveu olhar o facebook no celular: “Você vai se apaixonar pela pessoa mais imprevisível na hora mais inesperada”.
 Riu da frase que leu postada por uma amiga. Droga agora se não acelerasse ela perderia a hora mesmo.
 Ele vinha tranqüilo pensando na vida. Em direção ao parque para caminhar e relaxar naquele lindo dia azul de inverno. Não teve tempo de pular levantou a mão como quem pede para parar. Ele estava no meio da faixa de pedestre e um carro a direita dela tampou a sua visão.
 Aquele enorme jipe veio brecando e o pegou em cheio. Ele viu uma escuridão e só. Ela desceu correndo. Esse lindo jovem rapaz no chão ensangüentado parecia um anjo caído do céu. Foi o que ela pensou na hora: “Atropelei um anjo”.
 Pessoa prática que é, chamou logo um resgate.
 Mas com tantas buzinas e pessoas dando palpite, pediu ajuda e colocou o moço no banco de trás. Voou agora com atenção máxima para o pronto socorro.
 O menino, rapaz, ele tinha 24 anos e foi para a UTI. Pelos documentos entraram em contato com a família. Muitos amigos e parentes seguiram para o hospital e começaram a doar sangue.
 Ela só pensava positivamente para aquele menino não morrer. Não conseguia encarar a família dele direito. A jovem cirurgiã percebeu a sua aflição e foi conversar com ela. Eram quase da mesma idade.
 A reunião nunca chegou a acontecer. Ela acabou que se esqueceu para sempre da reunião. A médica fez um trabalho e tanto e um dia depois o menino saiu do coma.
 Durante uma semana, ela foi todos os dias, no hospital visitar o Marcelo. Começaram até a ficar amigos. A médica disse que ele se recuperaria bem e que por milagre nada de grave lhe ocorrera. Ele deveria descansar alguns meses e depois poderia voltar a freqüentar parques, baladas e tudo mais que quisesse.
 No último dia de hospital veio o inusitado. Um convite para jantar. Ela pensou: “Por que não?”
 Foram a um restaurante japonês. Conversaram sobre suas vidas. Seus ex-amantes. Sobre solidão e tomaram saque.
 Já na casa dela rolou um beijo. Ela que fazia atendimento numa agencia de publicidade nunca imaginou aquilo. De repente por causa de um atropelamento, ela estava ali apaixonada.
 Apaixonada por uma médica. As duas logo em seguida começaram a namorar e foram morar juntas.
 E se você leitor acha improvável histórias de amor que começam em prontos socorros, saiba que elas existem. Eu mesmo nasci de uma. Afinal sou filho de médico com enfermeira.
 E as duas fazem tudo por Marcelo. Arrumam a casa dele. Fazem os trabalhos de faculdade, apresentam amigas, o que ele pedir. Porque ele é um anjo. Um cupido que caiu do céu.  


segunda-feira, 6 de junho de 2011

A cachorra.


 Eu tive uma namorada, Adriana, que me batia. Sim. Ela era muito ciumenta. Mas esta não era a sua única característica. Ela também gostava de animais. De cachorros. Seus lindos olhinhos verdes não podiam ver nem saber de nenhum sofrimento de animais fossem eles domésticos ou selvagens.
 Sofria, ao ver um cachorro abandonado. Fazia-me parar no meio da estrada para pegar um cão no acostamento. E me batia. Ouvia meus recados no celular, me vigiava o tempo todo.
 Para os cachorros aqueles olhinhos verdes cheio de água, e aquele narizinho que pareciam um mangá japonês, eram só carinho e afeto.
 Para mim era porrada mesmo, ela praticava boxe, às vezes praticava em mim. Certo dia um mendigo que andava próximo a Faap começou a vender dois filhotinhos de vira-latas.
 “Leo pelo amor de Deus vamos pagar o que ele pede! Este homem é um alcoólatra veja como ele trata estas duas criaturinhas? Ele as deixa dentro de uma caixa de sapato, e eles passam frio, fome, sede.”
  Levamos então os dois filhotes para praia, para Juquehy. No meu restaurante um garçon o Gil se entusiasmou quando soube que Adrina havia dado um dos filhotes para um cliente. Um americano músico de jazz.
 “Sobrou uma fêmea, você a quer?”
 Gil olhava aquela patricinha da Faap, com olhos verdes e um nariz arrebitado e imaginou que estava fazendo um grande negócio. Era um sujeito malandro que trabalhava no meu restaurante durante o fim de semana e estudava em Santos durante a semana onde era casado.
 Quando vinha para Juquehy ficava num lugar misto de pousada com pensão. E já pensava por quanto ele venderia aquele filhote em Santos.
 “Que raça que é?”
 Quis saber Gil já pegando a cachorrinha das mãos de Adriana.
 “Raça?” Exclamou um cozinheiro.
 “Isso aí é um tomba lata!” E todos em volta riram de Gil.
 No dia seguinte, a mulher do músico Americano veio trazer o filhotinho macho de volta. Depois deu uns gritos com Adriana e foi-se embora. Por sorte conseguimos rapidamente um novo lar, com o fornecedor de bebidas.
 “Minha filhinha vai adorar, como é que chama?”
 “Chama Leo.” Ria Dri.
 E seguimos para São Paulo. Livres de dois filhotes. Missão cumprida, nós arrumáramos dois lares para dois cães órfãos.
 E não é que já em São Paulo alguém liga para a Adriana e diz que a cachorrinha tinha sido vista no meio da praia.
 “Agora já é tarde, três da madrugada. Amanhã a gente vê isso.” Tentei.
 Mas Adriana com cachorros é doce, mas com quem os maltrata, sai de baixo. Ela conseguiu o telefone da pensão do garçon Gil e ligou. Atendeu a dona da pensão. Uma senhora de uns cinqüenta e poucos anos.
 “Alo.”
 “O Gil está?”
 “Sim. Deve estar no quarto.”
 Gil já tinha alertado a dona da pensão sobre sua mulher santista. Se ela ligar diga que depois eu retorno.
 “E a cachorra está no quarto?!” Perguntou Adriana já bem alterada.
 “Mas não tem cachorra nenhuma no quarto não, o moça.” A dona da pousada pensou estar acalmando Adriana, mas isso soou o oposto para a protetora dos bichos.
 “Como que a cachorra não está?”
 “Não está.”
 “Mas a senhora foi ver se ela realmente não está?”
 “Olha moça, o Gil é um homem correto, e ele nunca trouxe nenhuma cachorra para cá.”
 “Como que não levou?! Então cadê a cachorra? Eu mato este Gil! A senhora vá até o quarto já e veja se a cachorra está lá!”
 “Olha moça, agora você me cansou! Eu já disse que não há nenhuma cachorra e nem nunca ouve. E já está muito tarde, por isso se a senhora não se importa eu vou desligar o telefone.”
 “Vai desligar nada! E a senhora vai presa junto com o Gil!”
 “Presa eu? Você tinha é que mandar prender é a cachorra e não eu!”
 “Prender a cachorra? Tá louca?!” Ninguém toca nesta cachorra que eu vou buscá-la!”  
 “Mas se eu estou dizendo que não há cachorra!”
 “A senhora é cúmplice deste bandido!”
 “Ah não! Agora foi demais. Boa noite.” E desligou o telefone.
 “A filha da mãe desligou o telefone e tirou do gancho!!! Culpa sua Leo!”
 "Culpa minha nada. Você não explicou e ela deve ter achado que tratava-se de uma cachorra."
 "Mas trata-se de uma cachorra! Seu burro! Imbecil!"
 "Mas não uma cachorra mulher!"
 "Claro que não!" De repente Adriana abaixou os braços. Acho que tinha caído a ficha. Deu de ombros e fingiu que não entendia.
 "Leo sua besta!" 
 Nossa! Como eu apanhei aquela noite. Justo eu que sempre fora fiel. Que gastara uma grana comprando os dois cachorrinhos órfãos.
 Matilde, este é o nome daquela filhotinha de vira-lata foi encontrada em Barra do Sahy, uma praia a seis quilômetros de Juquehy. Gil foi levado do restaurante um dia pela delegacia das mulheres e nunca mais voltou. Parece que tinha quebrado o dedo da namorada.
 Adriana já faz uns oito anos me deixou. Ficamos eu e ela.
 Matilde, que está aqui deitada no chão junto dos meus pés enquanto eu escrevo esta crônica. E hoje vai dormir na minha cama que está frio pacas.
 Adriana se casou. Mas até hoje vez ou outra me liga.
 “Como ela está? Você está cuidando bem dela?”
 Na verdade Matilde cuida bem mais de mim do que eu dela. Mas eu lá sou louco de dizer isso para a Adriana?
“Ela está ótima. Pergunta sempre quando você vai vir visitá-la.”
“Manda um beijo e diz que eu vou sim em breve.”
“Matilde! Mamãe diz que vem te ver em breve. Mandou outro, Adriana.”
 O ser humano às vezes é tão doido. Bom, vou levar a Matilde para passear. Tchau. Fomos.  

O encontro.


 Marcamos de sair lá pelas oito horas. Da noite, claro.
 “Eu te pego ou você me pega?”
 “Vamos ser machistas Leo. To te mandando o endereço.”
 Ela disse que sairíamos como amigos. Cinqüenta por cento delas me falam isso no primeiro encontro. Calma leitora, eu não tenho tantos encontros assim. Aliás, esta menina em questão, já são alguns meses em que venho trabalhando nela. Claro tudo virtualmente e pelo telefone. 
 Manda-me torpedo de madrugada. Ouviu minha vida toda já.
 Eu também já sei tudo da dela. Sobre o cara que a abandonou. Sobre os currículos que ela vem mandando para empresas. Sobre a família. Sobre o trabalho. Sobre os namorados antigos.
 Enfim. Oito horas, dá tempo de nadar, tomar banho e chegar um pouquinho atrasado como o meu avô ensinou. Afinal “amigos” sempre se atrasam.
 Essa menina me lembra aqueles filmes americanos. Sabe leitora, quando o roteiro é sobre duas pessoas carentes que se aproximam se tornam amigos? E depois numa noite qualquer, eles se encontram bebem um vinho e acabam se beijando sem querer.    
 Pior é que eu não estou apaixonado por esta menina. Apesar de ela ser bem bonita. Conheci numa festinha, uma reunião na casa de um amigo. Diz que gosta de me ouvir. Louca.
 Quando eu tinha vinte anos coloquei na cabeça que queria ser modelo. Top-model, sei lá como se chama hoje em dia. Um manequim. Deram-me o telefone de uma fotógrafa e ela disse que eu deveria ir lá no seu estúdio antes para uma entrevista. Para ver se eu tinha o perfil de um modelo.
 Passei na entrevista. Marcamos as fotos para mesma semana. Mas no dia senti que não estava pronto. Achei que eu estava gordo, meio barrigudo.
 “Oi Dona fotógrafa, você é gatinha e tal... Foi super legal comigo, mas eu acho que não estou pronto para as fotos agora.”
 “Como assim? Eu te vi anteontem e você estava ótimo.”
 “Mas eu estou meio gordo e acho que tenho que fazer umas flexões e uns abdominais antes do book de fotos.”
 “Olha... É Leo, né?”
 “É.”
 “Cada um tem uma qualidade, pelo que eu vi a sua é o rosto. Você nunca vai fazer nenhum trabalho de corpo. Nem se fizer um milhão de abdominais.”
 Não é que a Dona fotógrafa tinha razão?
 Toca o meu celular é a menina:
 “Leo... Eu to aqui vendo um filme na casa de uma amiga. Você acha que a gente marca pra mais tarde, ou ainda marca outro dia?”
 “A gente já remarcou isso Carla.”
 “É, né?”
 “É.”
 “Sabe o que é? Eu não estou pronta pra sair com você? Preciso mais tempo.”
 Fiquei tão aliviado. Porque esta menina é um achado. Ouve todas as minhas histórias absurdas. Diz que me acha interessante e é linda.
 Depois aonde eu ia com ela num frio destes? Acabei indo almoçar com os amigos. Almoçar mesmo que hoje é domingo e acabou num almojanta.
 Chego em casa e toca o telefone. É a pessoa que eu mais queria que me ligasse. Não leitora, não é a Carla.
 “Só estou te ligando porque você diz que eu não ligo para você.”
 “Então é para provar que eu estou errado?”
 “Fui na D-Ege ontem.”
 “E eu quase fui na D-Ege ontem, juro! Uma amiga me chamou a Franziska!”
 “Então foi um desencontro.”
 “Foi.”
 “Pena.”
 “Ainda bem porque eu não estou pronto para te encontrar.”
 “Não está pronto?”
 “Isso, eu não estou pronto.”
 “E quando o senhor vai estar pronto, para me encontrar?” Ela ri.
 “Nunca. Eu nunca vou estar pronto para te encontrar.”
 “Leo, eu só te liguei para dar um oi, tenho que voltar a trabalhar.”
  Sinceramente acho que nessa minha vida eu já tive muitos encontros. Muitos. E mesmo assim eu não tenho conselho nenhum para dar. Apenas sonhe.
 E acredite alguns encontros são até melhores que nos nossos sonhos. E não raras vezes com a mesma pessoa. Eu trocaria mil encontros com a mesma mulher do que mil mulheres lindas em milhares de encontros. Porque talvez num encontro a gente tem de encontrar.
 “Leo, eu só te liguei para dar um oi, tenho que voltar a trabalhar.”
 "Bom trabalho."
 "Fazemos assim, amanhã eu te ligo e quem sabe a gente não se encontra."
 "Ok, amanhã."
 "Amanhã."
 Eu rio.