quarta-feira, 13 de julho de 2011

16 Capítulo 5

O leitor deve ler os capítulos 1, 2, 3, 4 anteriores para poder avançar no 5. Valeu.

Sentei-me numa barriquinha de praia e pedi uma água de coco. Abri a pasta lá estavam algumas fotos, datas e descrições dos crimes. Pessoas que haviam sido interrogadas. Eram meninas de cabelos longos, lisos. Todas branquinhas, embora morassem na praia. Talvez a minha primeira constatação, eram todas com estereotipo caucasiano. Européias do norte, eu não sei ao certo o  nome que se dá. Alemãzinhas? E magras. Pelas fotos elas eram magras de cabelos lisos e compridos. Mas que adolescente não é magra? Se bem que hoje em dia, com tantos carboidratos a disposição.
 Se Luana não reagiu, pelo menos não havia marcas em seu corpo, posso concluir que uma: Ela não tinha medo do assassino, pois era alguém conhecido dela, ou alguém conhecido como um salva vidas?  Como Foguinho? Duas foi surpreendida. 
 Uma coisa eu sei, este criminoso é um local. Seria impossível ele se relacionar com as vítimas, ou mesmo não ser visto perto de onde os corpos foram encontrados sem ser alguém que não chamasse a atenção. Todos reparam quando turistas ficam ou beijam uma local.  
  Certa vez li que quando se cruza com um Serial Killer, não há nada a fazer ele vai te matar. Sei. Gostaria de cruzar com um desses.
 Levantei nos olhos daquela pasta, dei um gole na água de coco. Aquele mar tão lindo na minha frente. Céu totalmente azul. Como o litoral paulista é tão mais interessante no inverno que no verão. Só pessoas realmente da praia e pouquíssimas.
 Nunca entendi como alguns de classe média alta chamam estes jovens locais de: “Gente feia”. Para muitos na capital bonitos são apenas pessoas com carros blindados e empregados. Já eu consigo ver sensualidade nas pessoas independente da classe social.
 Nada de inclinação a esquerda não. Apenas uma sensibilidade aos verdadeiros desejos. Não que isso me ajude a investigar e a entender os criminosos. Porque como diz no filme do Batman, criminosos não tem complexidade nenhuma. São criminosos e ponto.
 Na praia, estes jovens locais jogavam futebol. Outros se preparavam para uma capoeira. Algumas meninas riam em pé próximas a mim. Pediam que o dono da barraca, um tal Nicó, tocasse violão. Quando dei por mim Nicó me mostrava algumas poesias em seu caderno.
 Incrível como é fácil fazer amizades no litoral, porque embora esta gente tenha contato com turistas do mundo todo, sim o litoral paulista recebe gringos, muitos, claro que gringos residentes da capital São Paulo. Geralmente executivos de grandes empresas que vem com suas famílias, trazidos por outros brasileiros. E toda fauna de paulistanos, peruas, mauricinhos, surfistas, moderninhos, hippies... Ou seja, apesar de interior e muito, 5 mil habitantes, os locais não são ingênuos nem bonzinhos e um tanto até cosmopolitas.
 Não falo dos caiçaras em especial.
 Estes caiçaras gostariam de se convencer de que antes dos turistas, e os nordestinos, paranaenses o litoral era um paraíso. Um lugar onde todos eram iguais e não havia exploração do homem pelo homem. E que tudo de ruim foi trazido pelos turistas. Você leitor já ouviu falar de um lugar assim? Eu não, só em histórias.
 Alguém pode dizer que em maior escala a analogia serve para explicar a nossa colonização dita de exploração. Mas Victor pare de ser prolixo. Voltemos a nossa investigação.
 O fato é que com uma natureza dessa e uma juventude que embora use drogas tem corpos sarados e lindíssimos. A vida sexual destes jovens é bem resolvida. O problema deles é outro. Adolescentes grávidas, violência do tráfico, difícil acesso a cultura, a educação. Uma menina de São Paulo não tem tempo. Esta sempre correndo. Cursinho, vestibular, estágio, academia... Aqui não.
 Quando uma menina se desvia da rotina em São Paulo, logo é notada. Ou foi matar aula, ou seqüestrada, ou está doente. Aqui na praia não. Se uma menina desaparece por horas, ou até um dia todo, ninguém dá falta. O criminoso sabe disso.
 “Ei mina vamos dar tiro de cocaína? Mas vamos já, não conte para ninguém.”
 “Vamos”.
 Em São Paulo, em primeiro lugar homens adultos não se aproximam de adolescentes. Ok, na periferia sim. Mas na classe média é visto como anormal.
 Será que eu estou no caminho certo? Será que o criminoso tinha um carrão, era mais velho do que as vítimas e as impressionava com seu poder econômico? Ou poderia ser alguém como este Nicó, dono da barraca, e bom de papo. O maníaco do parque não era assim?
 Acontece que Luana iria sacar o maníaco do parque na mesma hora. A não ser que ela estivesse enganada em relação à identidade do criminoso.
 Toca o meu celular. É Juca o corretor.
 “Falei com um cliente e arrumei um terreno perfeito para você Rui!”
 Eu já estava ficando angustiado com as minhas reflexões sobre os assassinatos e seria uma boa idéia um colírio daquele me levar para passear e ver terrenos.
 “Juca e estou tranqüilo agora, podemos ir lá ver? Eu estou no Piabú.”
 “Desculpe Rui, mas pode ser amanhã eu fiquei de ir jantar com a minha esposa hoje”.
 “Claro eu entendo. Amanhã é ok para mim também.”
 Foi aí que eu o ouvi dizer: “Droga este cara de novo!”
 “O que Juca?”
 “Nada Rui. Eu tenho de desligar.”
 E bateu o telefone na minha cara. Começou a anoitecer e eu me despedi dos novos amigos. Disseram-me para ir à noite ao único bar de Piabú e Cacau. Eu disse que talvez fosse, o que fez a alegria das garotas. Coitadas mal sabem elas. Se eu fizesse este sucesso com os homens...  
 De volta ao hotel, pousada. Lá estava a tal Verônica tomando espumante.
 “Rui onde você estava? Foi na praia?”
 “Oi querida, não. Quer dizer eu fui conhecer a praia do Piabú.”
 “Nossa tem uma gente feia lá, não é?”
 “Você diz uns locais, nordestinos e caiçaras?”
 Ela fez uma cara de aprovação. “Isso mesmo, uma baianada. Um cheiro. E você ainda corre o risco de ser assaltado.”
 Ricardinho observava tudo ao longe. Mas qual não foi a sua surpresa quando um hospede que havia a pouco se registrado gritou:
 “Vic! Vic! Você por aqui?!?”
 Era Marcelo um amigo antigo do pólo aquático. Mal pude tentar explicar a confusão para Verônica. O fato é que Marcelo e Verônica se deram bem logo de cara.
 “Servido?” Ela perguntou para ele, enquanto Ricardinho me puxava. Depois de entregar uma taça para Marcelo. 
 “Então é você!!!!!” O rapaz estava muito eufórico. “É você Rui? Diga-me você é Vic?!” Ele parecia estar diante da revelação de um messias. Não podia desapontá-lo. 
 “Sim eu sou o Vic.”
 “Não acredito. Então é você!"
 "Sim sou eu." Mas o que era aquilo afinal?
 "Eu achei que Vic era uma mulher.”
 “Do que você está falando?”
 E aí eu descobri a coisa mais surpreendente de Lu. Ela pediu a Ricardinho que guardasse o computador e não entregasse a ninguém, exceto a mim. Victor.
 “Ela disse só eu e Vic podemos pegar este computador. E me fez repetir isto três vezes. Ela era maluquinha. Quando eu perguntei quem era Vic, ela disse: Você vai saber quando Vic aparecer. E você vai gostar.”
 Luana embora nunca tenha jogado pólo aquático, era uma excelente jogadora. Eu sempre fui banheira ou pivô no pólo. Alguns acham que a posição que mais precisa-se de força. Mas não é só isso. É preciso também enganar o adversário. Colocar um outro falso jogador para tirar o verdadeiro marcador de cima. Pretender que se é canhoto, quando se é destro. Fingir falta, quando a falta não existe. Eu era bom nisso e Luana mais dissimulada ainda.
 Por isso roubaram o computador falso. Ela tinha dois. Ótimo. Por outro lado talvez esta dissimulação seja que a tenha colocado em risco. Bom já estava ficando tarde e eu tinha um jantar para ir.


                                                             

segunda-feira, 11 de julho de 2011

16 Capítulo 4

E necessário o leitor ler os capítulos 1,2 e 3 antes de ler o 4. Valeu.  

 O nome do delegado era Elias. Ele me contou que se formara em São José dos Campos e há dois anos tinha assumido a delegacia de Piabú. Realmente o Brasil estava se transformando. Mesmo a polícia às vezes surpreende. Além de gato era um policial competente. Deu a entender que sabia da minha origem e da minha vida profissional. E ainda disse me considerar um grande jornalista investigativo e corajoso.  
 “A declaração que dei sobre a morte da sua amiga Luana foi para não prejudicar uma investigação em que trabalho há cerca de quatro meses. Nunca achei que Luana tivesse se afogado. Ela inclusive me procurou no dia anterior a sua morte”.
 “E o que ela queria?”
 “Disse que estava prestes a conseguir provas para incriminar o assassino de duas meninas daqui do Piabú e uma outra do Cacau”.
 “Você teve três assassinatos aqui em quatro meses?”
 “Sim. Três meninas na idade de dezesseis anos. As vítimas tinham em comum além da idade, de serem bonitas, usuárias de droga e de baixa renda”.
 “O que isso quer dizer?”
 “Que se fossem turistas de São Paulo, me mandariam reforços para ajudar na investigação.”
 “Entendi. E Luana não lhe deu nada?”
 “Foi tudo muito rápido, ela não queria que o suspeito soubesse que ela tinha me procurado.”
 “E o senhor sabe quem era o suspeito?”
 “Sei. Um garoto que você chegou a procurar hoje. Foguinho.”
 “E você acha que o Foguinho poderia ter cometido estes crimes?”
 “Victor, eu tenho dúvidas. A primeira morte foi por pauladas. A segunda por estrangulamento e a terceira com facadas. Nas três houve violência sexual, inclusive anal. Não posso afirmar que um garoto de dezesseis anos tivesse força e maldade suficientes. Mas claro posso estar enganado. Não tenho pessoal suficiente, por isso não pude colocar ninguém vigiando e seguindo Foguinho. O que sei é que duas testemunhas o viram na manhã em que Luana foi encontrada. Ele estava andando pela praia. O que também não quer dizer muito, as pessoas vão à praia.”
 “Mas Elias, digo Delegado Elias...”
 “Pode me chamar de Elias, Victor.”
 “E se Foguinho fosse uma fonte. Veja eu conhecia muito bem Luana, eu sei como ela seduzia para trabalhar.Para conseguir informações. Nós fazíamos uma equipe”.
 “Diga-me Victor você e Luana já namoraram?”
 Eu sorri. E fiz um gesto de não com a cabeça.
 “Imaginava que não mesmo.”
 Elias me propôs trabalharmos juntos. E me deu uma pasta com cópia de toda a investigação e informações sobre os assassinatos das meninas de 16 anos.
 “Ajude-me Victor a encontrar semelhanças nas vítimas, algo em comum. Aqui pessoas morrem frequentemente. Jovens. Muitas vezes mortes por vingança. Seja por dívidas de droga ou infidelidade. Mas estas meninas não estavam comprometidas. E eram usuárias casualmente. E existe a violência sexual. Estupro mesmo”.
 “Não passou pela sua cabeça as vítimas conhecerem o agressor?”
 “Eu entendo o que você quer dizer Victor. Mas lembre-se de que aqui todos se conhecem. Somos cerca de cinco mil habitantes. Vamos fazer assim, eu preciso sair agora. Por que não jantamos a noite?”
 “Claro Elias. Eu conheci um lugar... Constantinopla. Que tal?”
 “Lugar bem caro tanto para um jornalista quanto para um delegado. Mas para minha sorte eles não me cobram e eu erradamente aceito. Não sou nenhum anjo.”
 “Não tenho tanta certeza assim. Você parece um anjo da lei. Nove horas?”
 “Combinado.”
 Eu já ia deixar a sala com a pasta na mão, quando parei ao ouvir de Elias:
 “Victor só mais uma coisa. Eu sei que ela era sua amiga, mas aqui eu resolvo as coisas da maneira correta. Se você vai me ajudar, vamos fazer isso direito”.
 “Claro Elias.”
 Eu fingi concordar com aquilo. Entendi o recado. Um filho de bicheiro se vinga matando. E Elias achou que apesar de tudo eu era diferente. Mal sabia ele que meu pai perto de mim equivale a um carneiro perto de um lobo. Se uma merda de Serial Killer tivesse matado Luana, este ser iria se arrepender de cada morte cometida e iria implorar por piedade. Iria não. Vai.
 Antes de voltar para a pousada, fui conhecer Piabú. Andar pela praia. 




  

16 Capítulo 3.

O leitor deve antes ler os capítulos anteriores 1 e 2. Valeu.

  A música logo na entrada era muito agradável. Agradável, que palavreado é este Victor? O restaurante Constantinopla era bem iluminado e com muita vegetação. Uma linda garçonete, Catarina, veio me receber. Havia só mais duas mesas. Um jovem casal bem vestido e na outra, duas senhora e um senhor. Comi uma massa ao dente maravilhosa. Surfe da muita fome. Um vinho italiano acompanhando.
 Perguntei a Catarina se ela conhecia Foguinho. Este era o nome do menino.
 “O que é que você quer com ele? Coisa boa não pode ser.”
 “Disseram-me que ele da aula de surfe. Confere?”
 “Olha se ele não estiver ocupado assaltando nenhuma casa de turista pode até ser, porque ele é bom surfista. Mas todo cuidado é pouco.”
 Tentei mudar de assunto.
 “Por acaso Catarina você sabe de casas para alugar por aqui?”
 “Claro que sei. O meu amigo tem uma imobiliária, a Sun Time. Procure pelo Juca e diga que a Catarina é que te mandou.” Pegou a bandeja e se mandou.
 Quantos anos esta linda mulata poderia ter? Com certeza menos de vinte. A sobremesa uma deliciosa torta de limão.
 Voltei para o hotel e mal entrei uma mulher de uns quarenta anos e muito em forma me chamou:
 “Hei não quer me acompanhar num espumante?” Ricardinho estava atrás do balcão do bar da pousada e ria meio como piscando para mim. Meu Deus só podia ser a tal Verônica, e agora? Se eu disser a ela que sou gay terei um Ricardinho em cima se achando íntimo para sempre. Se continuar a bancar o heterossexual fazendo turismo, eu vou ter de pegar esta... Nossa que mulher vulgar!!!
 Tentei simular um mal estar e corri para o quarto. Mas Verônica bateu na porta junto com Ricardinho e me ofereceram remédios. Não teve jeito, tive de voltar ao bar e vencê-la no álcool. Pensei que uma mulher de 40, já alta não agüentaria muito. Ilusão, eu acordei numa resseca. Pelo menos acordei sozinho. Já era meio dia.
 O café da pousada já tinha sido tirado. Encontrei uma padaria e foi lá mesmo que tentei me informar sobre Foguinho, o menino de 16 anos.
 “O senhor está atrás de aula de surfe?” Me perguntou um rapaz de uns 25 anos que me atendia.
 “Isso”.
 “Sinto muito moço, o Foguinho faleceu ontem à noite. Hoje é o enterro dele.”
 “Como? Morreu ontem, de que?”
 “Provavelmente ou foi droga ou foi alguma coisa que ele roubou. O Foguinho mais uns por aqui vivem roubando as casas dos turistas. Trabalhar ninguém quer, uma hora daria nisso.”
 Minha única pista havia desaparecido. Pelo que eu soube depois com Ricardinho, Foguinho tinha levado umas facadas num beco que tem acesso à praia. Resolvi então visitar uma imobiliária. Ricardinho me sugeriu a mesma que Catarina. Sun Time, Juca.
 “O Juca é um cara sensacional. Se você quer uma casa boa ele te arruma.”.
 Conclui que o Juca era um cara bonito. Mas não imaginava que fosse tão bonito. Recebeu-me com um lindo sorriso. Tinha quase a minha altura, uns 35 anos. Cara de bem sucedido e de esportista. Um lindo corpo. Nossa comecei a me apaixonar.
 Com certeza Luana ficaria mexida com um tipo desses, apenas um detalhe ela não iria gostar, Juca era simpático, lindo mas sem conteúdo nenhum.
 Levou-me ver algumas casas para alugar. Eu disse que queria comprar um terreno também.
 “Juca eu ouvi dizer que para construir é muito difícil aprovar a planta na prefeitura?”
 “Rui, eu nunca soube de nenhuma casa que não teve a planta aprovada pela prefeitura, para tudo se dá um jeito.”
 Depois me disse que o governo vai duplicar a estrada e com isso os imóveis vão duplicar o valor.
 “Aqui o único problema é o transito nos feriados. Mas com a estrada nova, isso aqui não vai mais ter preço.”
 “Achei que estávamos na bolha.” Eu disse.
 “Rui a dez anos que eu escuto que o litoral norte chegou ao máximo, e por mais incrível que pareça todo ano os imóveis se valorizam”.
 Incrível, achei eu, porque se ele estava já há tantos anos como não havia ficado rico? Ele não me parecia muito feliz em morar lá. Era um tipo que se daria muito bem em São Paulo, no Itaim. Mas me contou que havia se casado com uma local e já tinha um filho de dois anos.
 Perguntei sobre a violência, e ele disse que tinha diminuído muito. Falei do assassinato de Foguinho.
 “Quer saber? Ainda bem que o mataram. Aquele garoto era um marginal.”
 Realmente Luana não teria gostado deste Joca, Juca sei lá.
 O que Luana tinha feito com Foguinho? Será que duas mortes não fariam a policia suspeitar de uma conexão? Será que Ricardinho não tinha contado a policia sobre os encontros de Foguinho e Luana?
 Fui até a delegacia, que ficava em outra praia. Na praia do Piabú. Qual foi não foi a minha surpresa ao reconhecer o Delegado. Era o bonitinho que estava ontem final de tarde surfando e havia sorrido para mim.
 E qual não foi uma surpresa ainda maior ao ouvir:
 “Queira sentar-se senhor Victor Montale, eu o estava esperando.”.


16 Capítulo 2

 Se o leitor ainda não leu o capítulo 1, não pode ler o dois. Para tanto é só ler, ele é a postagem anterior a esta. Valeu. 


 A praia estava linda naquele final de tarde. Ela tinha um quilometro e meio de extensão. Bem na frente da pousada é onde ficavam os surfistas. Uma linda coincidência. Se não fosse a dor da perda de Luana, eu estaria muito feliz.
 Não entendo como algumas pessoas se preocupam com a estética das casas na praia. Dentro da água o que se vê são as enormes montanhas verdes da mata atlântica, a praia, o mar e que Deus existe. Existe?
 Havia cinco caras na água, mas só um me cumprimentou. Era um cara bem definido. Passou e me deu um sorriso. Depois ficava me olhando, meio curioso. Acho que vou me dar bem aqui no Cacau.
 Depois do banho, uma bichinha da recepção passou a me perseguir.
 “Senhor Amaral está tudo bem com a sua estada? Precisa alguma coisa?” Rui Amaral, este era o meu disfarce.
 “Oi, você é?” Eu vi o crachá escrito Richard. Mas não queria dar a entender que eu fosse alguém esperto. Quanto mais tonto, mais informações nos dão.
 “Richard, mas pode me chamar de Ricardinho.” Sei... Eu hein! 
 “Ricardinho? Mas Richard é tão bonito. Combina com você.” É as vezes eu sou meio afetado.
 “Olha Ricardinho para falar a verdade sim. Você pode e ajudar.” O jovenzinho magrinho e muito feinho, ficou extremamente contente em ajudar.
 “Um amigo meu me disse de um lugar chamado... Que o nome era um número?”
 “O senhor Amaral quer uma sugestão de um restaurante?”
 “Sim, não existe nenhum lugar aqui com nome de número?” Claro que eu já tinha dado um google com todas as possibilidades possíveis: Cacau imobiliárias 16. Cacau 16, Dezesseis litoral norte. Restaurante 16.... Enfim, era a última tentativa.
 “Aqui no Cacau? Não.”
 “Acho que me confundi. Mas de qualquer maneira onde você me recomenda jantar?”
 “No Constantinopla! Sem dúvida o melhor restaurante da região. Não faz feio em nenhum de São Paulo.”
 “Ótimo, você poderia me reservar uma mesa?”
 “Sim claro.”
 “Me diga uma coisa Ricardinho... Eu estou aqui de férias, atrás de umas gatas, você entende, não é?” O Ricardinho ficou vermelho de vergonha. Parecia desapontado, mas ao mesmo tempo um papo tão direto assim o tirou da mesmice, da monotonia da portaria.
 “Tem uma moça de uns 35 anos acabou de separar, está no quarto 18. É muito bonita e tem um corpão.” Ele dizia isso num sussurro.
 “Sei, mas fora esta recém divorciada...”
 “Verônica, Dona Verônica, um charme e muito simpática.”
 “Sim Verônica, mas muitas outras mulheres sozinhas vêm para a pousada, não?”
 Foi aí que ele deu um suspiro.
 “Seu Amaral... Se o senhor soubesse... Se o senhor soubesse...”
 “Rui, pode me chamar de Rui. Mas então me conte, estou de férias adoro histórias.”
 Foi aí que ele falou de Luana. Não disse o nome, mas a descrição e as datas era ela.    Mas eu não podia acreditar no que eu ouvia. Um garoto de 16 anos vinha visitá-la no quarto? E eles ainda saiam juntos, sempre.
 Ela era a minha melhor amiga, e eu nunca soube que ela gostasse de garotos. Pelo contrário seus grandes amores sempre foram homens mais velhos do que ela. Mesmo assim consegui saber quem era o menino. E o mistério do número 16 estava resolvido.
 Conhecendo minha amiga, este garoto deve ter relação com a investigação imobiliária. O computador de Luana foi roubado no mesmo dia em que ela se afogou logo este menino era a minha única pista naquele momento.
 A fome apertou e segui a pé pela rua principal em direção a Constantinopla, o restaurante contemporâneo do cacau.







domingo, 10 de julho de 2011

16

 Victor Montale é um jornalista investigativo. Ele é de uma família da máfia. Mas resolveu seguir a sua própria vida. Ou talvez a máfia ainda não esteja pronta para um Chefão gay. Nada lhe coloca medo, afinal ele além de muito forte, foi treinado desde pequeno para comandar o submundo do crime organizado. Mas no fundo ele é um idealista.
 Agora sua bela amiga, Luana, que escrevia uma matéria bombástica sobre a especulação imobiliária no litoral norte de São Paulo, afogou-se na praia do Cacau. Se este fato não for realmente um acidente, como disseram as autoridades, que o culpado fuja o mais rápido que puder, porque Victor está na área. Ele é o nosso detetive em ação e não está convencido do “acidente”.  

Capítulo 1.


 A praia do Cacau no litoral norte de São Paulo tem cinco mil habitantes. E no inverno recebe pouquíssimos turistas. Por isso o afogamento da minha melhor amiga, Luana, foi o assunto em todos os lares e comércio do pequeno bairro de São Sebastião.
 Eu e Luana nos conhecemos na faculdade de jornalismo. Depois de formados fomos trabalhar em diferentes jornais. Os dois maiores concorrentes de São Paulo. Anos depois acabamos na mesma revista semanal. Formamos uma dupla de repórteres investigativos.
 Eu sempre quis trabalhar com crime. Luana dizia que eu deveria ter sido policial. Um cara com um metro e noventa, cem quilos. Com propensão para violência e uma disciplina militar. Mas como eu poderia ser policia se sou filho de um dos maiores bicheiros de São Paulo.
 Sim esta é a história da minha família. Meu pai administra cabarés, jogo e toda espécie de contrabando e contravenções. Ele não se incomoda em me ver jornalista. Mesmo porque no Brasil o crime organizado não tem este senso de corporativismo que vemos nos filmes americanos.
 A verdade é que meu pai está se lixando para o que as pessoas fazem ou não. Ele se preocupa com os negócios dele e só. Aliás, como todo brasileiro hoje em dia, é um individualista.   
 Não temos uma boa relação. Acho que ele ainda não aceitou que o filho é gay. Já minha mãe e eu nos damos muito bem.
 Luana ralou muito na vida. Nunca teve retaguarda familiar. Desde a faculdade ela trabalhou. Aprendemos tudo na rua, eu e ela. E embora ela não tenha sido uma jogadora de pólo aquático como eu, tenho certeza de que ela nunca teria se afogado.
 Luana foi para a praia do Cacau, fazer uma matéria sobre especulação imobiliária. Eu deveria ter ido junto. Mas uma coisa me segurou em São Paulo.
  Uma coisa que atende pelo nome de Fernando. E que eu sou apaixonado há mais de seis anos. Seis anos? Não, mais. Já vão fazer oito.
 Meu último telefonema com Luana, ela me disse que estava avançada na investigação, porém tinha achado outra coisa com a qual investigar e escrever. Disse-me que o novo texto se chamava Dezesseis.
 Dezesseis? 16? O que poderia ser? Algo que ela teria descoberto.  Sobre inúmeras denuncias de fiscalização da prefeitura? As obras estavam sendo feitas com irregularidades.
 Na verdade sempre foram, mas agora a coisa tinha se acelerado de tal forma que se não fossem reveladas para a sociedade o litoral norte de São Paulo corria sérios riscos de desaparecer.
 Sumir num conceito elitista. O “paraíso” de veraneio. Por isso quando pensamos na matéria, queríamos abordar de outra forma também.Um outro lado. Mostrar não só a parte criminal, mas também polemizar em relação as ideologias estéticas e ecológicas. Estas que sempre foram pré definidas há décadas assim como os infindáveis puxadinhos.
 Sim o Brasil é o país dos puxadinhos. E das praias também. E no Cacau haviam as duas coisas juntas. O mais estranho é que não se mata assim tão rápido alguém que investiga o meio imobiliário. O que Luana teria achado ou esbarrado?  
 Eu no meu egoísmo estava tão entusiasmado em contar as minhas eternas desventuras amorosas com o Fernando que nem a ouvi direito quando ela tentou me explicar. Este telefonema foi no dia anterior dela ser encontrada morta. Ela vestia um biquíni.
 Uma senhora disse que caminhava pouco antes do almoço pela praia e teria avistado uma moça estendida na areia tomando sol. A senhora achou que Luana estava numa posição estranha e ao chegar mais perto notou que minha amiga havia se afogado. Chamou a polícia dali mesmo pelo celular.
 A praia estava deserta, embora com o céu completamente azul, mas é inverno. E soprava um vento gelado neste dia.
 No litoral todas as mortes são vinculadas a drogas. A pessoa que morre sempre é usuária ou traficante. O delegado constatou um acidente. Mais um afogamento no mexido mar de inverno.
 “Uma turista deveria evitar nadar na água fria e num lugar deserto. Uma fatalidade para a família. Uma moça tão jovem e bonita”.
 É o que ele teria declarado. Eu avisei meu editor que eu precisava pensar na vida. Que eu estava abalado com a morte de Luana e pedi umas férias. Ele entendeu na hora. O que ele não sabe é que eu segui para a praia do Cacau.
 Luana é minha melhor amiga. Droga! Era a minha melhor amiga. Embora eu não tenha nada de afetado. Não se pode dizer que eu seja um gay convencional eu tenho algumas características ou estereotipo. Meu melhor amigo era uma garota.
 Por isso eu sei tudo da vida de Luana. São mais de dez anos de convivência. Se existe alguém para descobrir o que teria acontecido com ela, este era Victor. Ou melhor dizendo, Victor Montale, eu.
 Ao me registrar na pousada, a mesma em que Luana ficou eu não me identifiquei como jornalista e nem tão pouco insinuei saber do “acidente” de três dias atrás.
 O corpo de Luana fora para São Paulo e pouco depois de uma rápida perícia, liberado para o enterro. Não quero dizer o quanto isto foi triste e nem a quantidade de pessoas que compareceram. Luana era simplesmente amada. Claro, absurdamente inteligente, charmosa e linda. Não estou brincando não. Ela nunca passou despercebida.
 Luana é até hoje a mulher mais elegante e sensual que já conheci. Se eu gostasse... Juro que a teria pedido em casamento. Mas como dizem: Meu time é outro.
 Depois de me identificar como um empresário e surfista de férias. Dando um nome e documentos falsos, segui para o quarto. Ainda tinha um final de tarde e eu queria me trocar para conhecer este mar que levou a minha amiga embora. Aliás, minha única amiga.









sábado, 2 de julho de 2011

The girl from Nebraska.


 Dizem que Ava Gardner foi descoberta na rua. E se tornou alem de estrela de Hollywood o sonho de pelo menos duas gerações de homens e com certeza de algumas mulheres também. Inclusive o meu.
 Acontece que depois de duas semanas na Califórnia, forno quente em espanhol, eu já começava a acreditar que Los Angeles é um lugar decadente, habitado por pessoas com sobrepeso, derretidas, feias e mal vestidas.
 Finalmente encontrei uma espécie de café, que me pareceu ao mesmo tempo belo e com um toque de humor.     
 Eram duas da tarde, logo havia apenas uma mesa. Uma menina de óculos me sorriu atrás do balcão e disse, em inglês claro:
 “Onde você quiser”.
 Leitor, esta menina, saiu de trás do balcão e veio atravessando o salão em minha direção no jeito mais lânguido que já vi. Ela deslizava como numa tomada de cena de um filme, perfeita. Como a melhor tomada de cinqüenta, oitenta vezes. 
AÇÃO!
 “Você é realmente campeão mundial de frisbee?”
 Ela disse isso sem nenhuma pressa. E no mesmo instante eu pensei: “Encontrei.” Encontrei a loucura da Califórnia. A transgressão, a arte, o cinema... Tudo em apenas uma única frase.
 Frisbee? Que diabo é frisbee? Pensei. E me lembrei da camiseta que eu vestia. Sou realmente um brazuca. Vestia uma camiseta envelhecida artificialmente, que dizia ser eu vencedor do campeonato mundial de frisbee em 1979.
 A verdade é que apesar da minha altura não ser large a minha largura é. Logo eu tinha comprado àquela droga de camiseta porque outras tantas dez não haviam servido.
 “Não. Não sou não. É só...”
 Ela sorriu claro que estava me gozando.
 “O que você me sugere?”
 “Para café da manhã, almoço ou jantar?”
 Achei tratar-se de outra gozação, afinal eram duas da tarde. Mas percebi que não.
 Então veio um prato que era uma mistura de carne, espinafre, pimentões e cebolas. Na verdade dentro de uma tigela, tudo realmente misturado. E uma limonada. Depois ela me trouxe uma pimenta. E disse com sua voz sensual e tranqüila.
 “Feita aqui mesmo em Venice.”
 Falou de um jeito que Venice o bairro ficou mais charmoso do que Veneza a cidade.
 “De onde você é?” Ela quis saber.
 “De onde você acha?” Eu devolvi.
 “Continue falando.” E continuei.
 “Russo!”
 Russo? Acho que vi uns dois ou três Russos na vida, mas acho que eu não pareço um Eslavo. De maneira nenhuma.
 “Acertou.” Eu não gosto de desapontar as pessoas, depois os Russos não são mais inimigos da América há alguns anos.
 “E você?”
 “Eu sou de Nebraska”.
 “De Lincoln?”
 Ela não podia acreditar que aquele Russo pudesse conhecer a cidade de Lincoln. Fechou a mão e fez um “Yes!”
 “Mas não. Eu sou de uma pequena cidade de 400 habitantes”.
 Foi então que eu reconheci a música de Tom Jobim que estava tocando.
 “Olha que coisa mais linda que vem e que trás,
 Esta limonada
 A caminho de Santa Monica..."
 Isso foi no último dia de viagem. Porque se não fosse eu levaria meu violão lá todos os dias e cantaria, para aquela Deusa de óculos. A garota de Nebraska. 
 Isto foi em junho e ela disse ter chegado em L.A. apenas em janeiro.
 Ou seja, se esta garçonete se tornar uma estrela, porque ela inclusive já é, eu vou poder dizer que fui eu quem a descobriu.
 E quando eu menos esperava, ela veio com um outro copo de limonada. E disse agora como uma garota da fazenda.
 “Beba tudo. Você vai precisar.”
 CORTA!
  Perfeito. Ou melhor, perfeita!
 E aquele sussurro vai ficar para sempre nos meus ouvidos. Close da câmera nos lábios:
 “Venice”.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Você vai se apaixonar pela pessoa mais imprevisível na hora mais inesperada.


 Ela estava parada no trânsito. Tinha uma reunião e já estava atrasada. Resolveu olhar o facebook no celular: “Você vai se apaixonar pela pessoa mais imprevisível na hora mais inesperada”.
 Riu da frase que leu postada por uma amiga. Droga agora se não acelerasse ela perderia a hora mesmo.
 Ele vinha tranqüilo pensando na vida. Em direção ao parque para caminhar e relaxar naquele lindo dia azul de inverno. Não teve tempo de pular levantou a mão como quem pede para parar. Ele estava no meio da faixa de pedestre e um carro a direita dela tampou a sua visão.
 Aquele enorme jipe veio brecando e o pegou em cheio. Ele viu uma escuridão e só. Ela desceu correndo. Esse lindo jovem rapaz no chão ensangüentado parecia um anjo caído do céu. Foi o que ela pensou na hora: “Atropelei um anjo”.
 Pessoa prática que é, chamou logo um resgate.
 Mas com tantas buzinas e pessoas dando palpite, pediu ajuda e colocou o moço no banco de trás. Voou agora com atenção máxima para o pronto socorro.
 O menino, rapaz, ele tinha 24 anos e foi para a UTI. Pelos documentos entraram em contato com a família. Muitos amigos e parentes seguiram para o hospital e começaram a doar sangue.
 Ela só pensava positivamente para aquele menino não morrer. Não conseguia encarar a família dele direito. A jovem cirurgiã percebeu a sua aflição e foi conversar com ela. Eram quase da mesma idade.
 A reunião nunca chegou a acontecer. Ela acabou que se esqueceu para sempre da reunião. A médica fez um trabalho e tanto e um dia depois o menino saiu do coma.
 Durante uma semana, ela foi todos os dias, no hospital visitar o Marcelo. Começaram até a ficar amigos. A médica disse que ele se recuperaria bem e que por milagre nada de grave lhe ocorrera. Ele deveria descansar alguns meses e depois poderia voltar a freqüentar parques, baladas e tudo mais que quisesse.
 No último dia de hospital veio o inusitado. Um convite para jantar. Ela pensou: “Por que não?”
 Foram a um restaurante japonês. Conversaram sobre suas vidas. Seus ex-amantes. Sobre solidão e tomaram saque.
 Já na casa dela rolou um beijo. Ela que fazia atendimento numa agencia de publicidade nunca imaginou aquilo. De repente por causa de um atropelamento, ela estava ali apaixonada.
 Apaixonada por uma médica. As duas logo em seguida começaram a namorar e foram morar juntas.
 E se você leitor acha improvável histórias de amor que começam em prontos socorros, saiba que elas existem. Eu mesmo nasci de uma. Afinal sou filho de médico com enfermeira.
 E as duas fazem tudo por Marcelo. Arrumam a casa dele. Fazem os trabalhos de faculdade, apresentam amigas, o que ele pedir. Porque ele é um anjo. Um cupido que caiu do céu.