terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fim da primeira jornada.


Certa vez lendo Peter Brook, um diretor de teatro, eu entendi quando se deve terminar um espetáculo.
 Ele diz que quando não sentimos mais o impulso, a motivação, a coisa viva, devemos encerrar.
 Este meu BLOG, crônicas censuradas fez um ano. Com 60 crônicas, 1 novela, 3 contos e algumas peças (cenas) curtas e uma peça de teatro média.
 Quando tive a idéia de ter um blog eu pensava em escrever humor, textos cômicos. Sempre tive em mente trabalhar a ficção e às vezes fatos autobiográficos em forma de ficção.
 Colocar minha visão de mundo não em opiniões claras, mas em situações, narrativas e nas falas dos personagens. Mais um retrato do mundo e menos uma crítica social.
 O que aconteceu logo no início e se seguiu foi que os meus textos não se mostraram humorísticos e todos, praticamente todos, tem um só tema: Meninas.
 Eu nunca poderia imaginar.
 Acho que estes textos falam da minha relação com essas meninas. De como elas me enxergam, ou eu acho que elas me enxergam. Do que eu sinto por elas. Da indiferença delas. Às vezes do amor delas. Muitas vezes do meu amor por elas.
  Mas eu acredito que esta fase está terminada, concluída. Eu quero agora escrever de outras coisas, novos temas.
 Por isso encerro por enquanto este período. E voltarei, não sei quando, com algo diferente, que ainda nem sei o que é.
 Eu nunca reli meus textos. Mas sei que as últimas crônicas caíram em qualidade.
 A última inclusive é um desabafo e não um texto literário. “Homem a beira de um ataque de nervos”.
 Até aqui este blog se mostrou universal. Mas de um tempo pra cá, ele começou a querer seguir para uma forma de diário.
 Enfim. Acho que hoje começa o início da segunda jornada. Valeu! Obrigada leitor. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Homem a beira de um ataque de nervos.

 ADVERTÊNCIA: Isto não tem qualidade para ser uma crônica, é na verdade um desabafo. 

 Fim de semana passado eu fui a um almoço de uma amiga. Uma feijoada. Sábado lógico. Fazia tempo que não via o pai dela. Ele me perguntou o que eu andava fazendo.
 “Bem eu ando a beira de um ataque de nervos!!!”
 “Por quê?” Ele quis saber.
 Claro que eu não contei tudo. Mas o pai da minha amiga é que nem um detetive. Ele é um grande psicanalista. Vai sacando.
 Eu não disse que a minha relação com as mulheres lésbicas anda muito estreita. E que uma delas me convenceu de que eu sou uma “mulherzinha”. Isso eu não conto para ninguém, nem para você leitor.
 O que pega é que quando eu tinha sei lá... Era adolescente o que eu queria eram todas as mulheres do mundo.
 Na verdade eu queria era ser o 007. Nem muito por conta de Mônaco, Itália, Caribe, carrões e bebidas. Eu queria era ser 007 por causa das mulheres que são apaixonadas por ele. Mulheres lindas, e que nunca ficam de TPM.
 Quando eu tinha vinte anos, meus pais diziam que eu era gordo. Eu me achava gordo e velho. Já hoje em dia, com trinta e seis anos, os meus pais continuam me achando gordo. E agora eles me acham gordo e velho.
 Mas agora eu não me acho mais velho. Eu me acho gordo e baixinho.
 “Eu estou fazendo um curta metragem. A história de um cara com 36 que se apaixona por uma menina de vinte. Mas em 15 minutos de filme, ele se descobre apaixonado pela esposa de trinta. Ele percebe que não ama a menina de vinte e sim a mulher de trinta. E se aceita como adulto. O problema é que eu estou confundindo ficção com realidade e acho que me apaixonei por uma menina de vinte. Na verdade por uma só não. Mas por três. Uma de vinte, uma de vinte um e outra de vinte e quatro.”
 Foi aí que ele me disse a frase:
 “O eterno sair e voltar.”
 Acho que ele quis dizer que passamos à vida entrando e saindo da infância. Entrando e saindo da adolescência e da vida adulta. Não só em relacionamentos, mas em tudo.
 Acontece que eu fujo ao padrão. Eu não terminei a faculdade, eu nunca trabalhei num escritório e eu nunca quis ser jogador de futebol. Vocês conseguem imaginar o 007 jogando futebol?
 O que eu quero dizer é que eu não sinto falta da turma da faculdade, do primeiro emprego, primeira namorada, eu não tenho este tipo de nostalgia.
 Eu sinto falta daquele cara, que se acha alto, magro, cafajeste, seguro e sedutor. Que consegue pegar a mulher que quiser.
 Acontece que ele vem só às vezes, e tem fases que ele demora a aparecer.
 No mais sou obrigado a conviver com este aqui. Que escreve blog, afetado, inseguro e apaixonado pela primeira criatura que cruza a sua vida.
 Outro dia saí com uma mulher de trinta. Engraçada, louca, linda, segura, promíscua, sensual, um puta papo e sofisticada. Uma pele e um corpo lindos.
 Me bateu uma saudades dela. Daquela bunda, daquela informalidade. Das risadas. De beber com ela.
 Mas eu queria era eu ser o 007 e não ter uma mulher 007.
 “Acho que você quer dormir sozinho, não é? Vou te deixar dormir a vontade na sua cama e vou embora.”
 E se foi.
 Liguei então para uma amiga lésbica e contei a história.
 “Leo são quatro da manhã e você está me contando sobre uma mulher que você acabou da transar e foi embora. Sabe o que você é?”
 “Sei um homem a beira de um ataque de nervos.”
 “Não. Você não é um homem a beira de um ataque de nervos. Não. Você é uma mulherzinha.”
 “Na verdade minha amiga, todos nós homens somos. Eu só não disfarço.”
 “Leo você é uma lésbica e boa noite.”  
 Então sozinho comecei a lembrar do diálogo. Do que ela a menina, a mulher tinha falado. O que será que ela quis dizer? Será que eu tinha que ter insistido para ela ficar? Será que eu ligo? Será que ela gostou de mim? Será que eu estou gordo? Será que eu estou velho? Nossa Leo...
 Será que o 007 fica se perguntando essas coisas? Não. Acho que não.
 Ah se eu fosse um pouquinho mais alto! Ah se eu tivesse olhos verdes! Uns cinco centímetros a mais, de altura... E não tivesse alguns fios brancos. O que mata é um ossinho que eu tenho aqui... Ah! Se eu fosse mais jovem... Amanhã começo um regime. Será que eu tinha que ter insistido? Será que o problema é a minha barba? Será que eu falei alguma bobagem? Algumas? Devo ter falado. Eu sempre falo. Daí eu bocejei.  
 E peguei no sono. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A foto do beijo.


 Combinaram num bar. Ele chegou antes. Pediu uma cerveja e ficou olhando pra rua, folhando um jornal.
 Ela com seu jeitão de moleca vinha tranqüila fumando um cigarro. Como se não estivesse em São Paulo e sim no Rio. Ela veio a pé, morava ali perto.
Deu um sorriso e mostrou o cigarro. Ele entendeu. Ela queria terminá-lo na rua. Ele fingiu que voltara a ler o jornal.
 “Oi.”
 “Oi.” Ele riu.
 “Que foi algum problema?”
 “Você é engraçada.”
 “Engraçado é ler jornal de ontem.” Ela disse.
 Foi aí que ele percebeu que o jornal era de ontem.
 “Você é bem inteligente sabia?”
 “Inteligente? Só porque eu vi que o jornal era de ontem?” Ela disse e fez um não com a cabeça. Depois riu.
 “Quer tomar alguma coisa?”
 “Não”. Pausa. "Você é engraçado.”
 “Um amigo meu diz que quando um casal de namorados ri um do outro, é porque eles se amam.”
 “Acho que quero uma cerveja.”
 “Traz mais um copo.” Ele pediu ao garçom. E ela riu de novo. “Já te disseram que você se parece com...”
 “Já.”
 “Quem disse?”
 “Você.”
 “Nossa, como eu estou repetitivo.” Ela riu.
 “Você é engraçado.”
 “Você não costuma tomar muito sol?”
 “Nós não somos namorados.” Ninguém riu.
 Ele pediu a quinta cerveja. Estavam agora falando de religião.
  “Você está rindo porque eu vou numa igreja?”
 “Não, eu estou rindo porque não somos namorados.” Ele disse.
 “Na verdade eu nunca tive um namorado.”
 O garçom trouxe a conta.
 “Estamos fechando.”
 Já não tinha mais ninguém e as portas quase todas abaixadas.  Pagaram à conta. E quando estavam quase na rua, ele parou, olhou as paredes e perguntou para o garçom e o caixa:
 “Cadê o quadro da foto do beijo?”
 “O que?” Fez o garçom. Olhando para parede também. Havia várias fotos, mas não aquela. A foto de um casal que se beijava, enquanto um garçom que já colocara as cadeiras em cima das outras mesas observava pronto para fechar o bar.
 “Eles tiraram.” Disse com tranqüilidade o caixa.
 Ele deu de ombros. Estava frio.
 “Eu ando um pouco com você.” Ele disse a ela.
 “Você que sabe.”
 Começaram a caminhar. Ele a olhava, ela realmente era uma moleca.
 Chegaram à esquina. Uma noite estrelada e fria.  
 “Tinha um quadro lá que era uma foto de um beijo. Linda a foto. Um beijo de fim de noite.” Ele disse.
 “É... Tem gente que espera uma noite toda para dar um beijo.” Ela riu.
 “Do que é que você está rindo?”
 “De nada, eu estou cansada.”
 Despediram-se. Com um abraço. E ele ainda disse:
 “Eu acho que o trabalho vai ficar ótimo. Eu gosto de trabalhar com você.”
 “Eu também. Você é legal.”
 E cada um foi para um lado.    

sábado, 20 de agosto de 2011

Só para você.


 Lembro-me que quando bem garoto eu amava as aulas de História e literatura. Às vezes geografia. As outras todas eu passava ora desenhando ora olhando as minhas colegas preferidas. Geralmente umas duas meninas, no máximo três delas.
 Certo dia, eu vi no jornal, no roteiro cultural a peça de um grupo do Paraná: “Aula que absurdo!” Eu ainda era estudante. Agora de teatro, lá se vai mais de década.
 Não sei quem é o autor do texto até hoje. Mas foi a única vez que a palavra, aula me interessou. Aula, seguida da palavra absurdo. 
 Cheguei ao teatro, era um dia frio como o de hoje. Não havia muita fila na bilheteria. Eram três salas. Numa delas estava à peça que eu fora assistir. Fui tomar um café. Vi o público das outras salas entrando.
 Dirigi-me a minha sala. Mas um funcionário pediu-me que eu ainda aguardasse um pouco. Ok, também eu nunca vi aula começar no horário. Sentei no hall do teatro. Deu nove e quinze e nada.
 Um rapaz e uma moça se aproximaram. O Rapaz me perguntou:
 “Então você é o tal que comprou o ingresso?”
 Foi aí que me dei conta. Eu era o único público. A única pessoa que estaria na platéia.
 “Você se incomodaria se nós devolvêssemos o seu dinheiro?” Ele falou isso e estendeu as pequenas notas. Peguei o dinheiro, coloquei no bolso e quando eu já estava na calçada, senti uma mão no meu ombro. Era a mesma moça, uma atriz.
 “Mudamos de idéia. Se você ainda quiser vamos fazer o espetáculo só para você.”
 Ela me olhava com os seus dois olhos verdes. Com uma seriedade. Naquele momento eu não responderia só por mim. Para aquela jovem atriz eu representava um público de mil pessoas.  
 Eles então colocaram uma cadeira no meio do palco. E me sentaram nela. A platéia inteira vazia. E eu lá sentado. Só eu, no meio do palco e aqueles cinco atores fazendo o espetáculo em volta de mim.
 Dizem que quando vamos ao teatro a gente se lembra de onde sentou. O lugar exato da platéia. Desta vez me senti mais que num teatro. Senti-me num sonho.
 Ontem fui numa grande sala. Um daqueles espetáculos de centenas de pessoas. Um sucesso. Eu com o meu eterno medo de chegar atrasado cheguei umas oito e quinze. O espetáculo começava as nove horas. Fui então tomar um café. Peguei o guia off e fui para a calçada folhear o livrinho. Então senti uma mão no meu ombro.
 Virei e vi uma mulher grande, linda. Sem seriedade alguma. Ela sorria. E tinha uns lindos, maravilhosos olhos verdes.
 “Hoje você não é o único.”
 Neste instante me lembrei de quinze anos antes. Era ela. Como eu nunca tinha percebido? Aquela atriz premiada, famosa, que eu tanto ouvia falar era ninguém menos que aquela menina persistente, obcecada que eu conhecera anos atrás. Ela conseguiu.
 Terminado o espetáculo, não sei como ela me viu e me mandou um beijo do palco.
 Talvez eu seja o seu público mais fiel. O mais antigo.
 Naquela noite quinze anos atrás. Ela me deu um beijo e voltou pro Paraná.
 Que história absurda. Uma verdadeira aula. Aula de perseverança.

  

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

23 capítulo final.

 O leitor deve ler as postagens anteriores. Os capítulos I, II, III, IV, V, VI, VII e VIII. Valeu. 
 Os dois jogadores americanos corriam para dentro do gramado. Pedro vinha atrás com mais dois homens atirando.
 “Mas como eles fugiram?”
  “Um policial de nome Antonio sabia onde eles estavam e chegou antes da gente. Agora eles não querem mais cooperar e querem ver Letícia. Os dois são apaixonados por essa hippie.”
 “E o policial o Antonio?”
 “Está morto.” Responde Franco, um policial também agente duplo.
 “Então foda-se, paramos aqui.” 
 Pedro os segurou e pode ver os dois jogadores serem aplaudidos pela multidão.
 “Não temos mais tempo daqui a minutos o caça vai bombardear o estádio.”
 Juares desde sempre julgava o Brasil um império do Sul. O império do Norte eram os EUA. E hoje ele poderia com um só movimento acabar com as lideranças dos dois impérios. Uma América Latina mais forte e mais livre do imperialismo nasceria dali a poucos minutos.
 Seu grande líder na Venezuela ficaria orgulhoso dele. Na tribuna oficial os assessores do ministro da Defesa receberam a informação de que o caça havia se desviado do alvo, a plataforma X, e rumava para o estádio do Maracanã.
 Em Copacabana o helicóptero do Agente Torres recebe um pedido para decolar. Dessa vez Felipe e os outros ficaram no solo. Era talvez a última vez que veriam Torres e o piloto.
 Juares não pode ver de onde o Helicóptero veio. O caça com o impacto caiu na hora. Mas o piloto do helicóptero conseguiu fazer um pouso de emergência. E ambos sobreviveram. 
 Marcel passava os códigos para a plataforma X. E a pressão foi diminuída e todos os níveis voltaram ao normal.
 O jogo começava no Maracanã. E antes dele terminar o grupo 23 teria de encontrar Mariana e Pedro, para conseguir limpar o nome do movimento. Um movimento pacífico.
 Alex viu que havia um torpedo no seu celular:
 “Prenda Pedro e Mariana, eles são infiltrados. Eles são os verdadeiros terroristas.” Era enviado pelo comandante Alfredo Ferraz. Minutos antes do veneno fazer efeito. 
 Pedro entrou numa van e seguiu para um apartamento em Ipanema. Alex com vários agentes os seguiu.
 No apartamento Mariana e Pablo assistiam à televisão. Pararam quando Pedro entrou.
 “O que aconteceu? Porque o caça não terminou o serviço?”
 As ruas estavam vazias, Camila e Felipe chegaram em pouco tempo ao endereço. Lá embaixo viram Alex e os outros agentes. 
 Quando os EUA marcaram o gol a porta foi arrombada.
 Pedro tentou atirar de volta, mas foi baleado. Pablo e Mariana foram presos.
 Dizem que este jogo, esta final foi um divisor de águas na história do mundo. O Brasil acabou derrotando os EUA por cinco a zero.
 Pela primeira vez em 64 anos o Maracanã via o Brasil derrotar Golias. Perdêramos em 50 para David, mas agora éramos hexa campeões do mundo.
 No Rio e em todo o País era uma festa. A América Latina toda vibrava. A América Latina tinha derrotado os EUA. Mas agora os EUA já não era mais o velho EUA e sim também América Latina, porque estava se tornando uma potencia futebolística e uma decadência econômica.
 O continente Americano neste dia parecia um só.
 A operação de contenção dos atentados terroristas ficou conhecia como operação “Colombo.” Em homenagem ao nosso descobridor.
 Felipe Rulfo e os jovens Lucas e Letícia foram condecorados com medalhas de honra. E os agentes Camila, Torres e Alex também. As acusações foram retiradas, porque até os jogadores americanos confessaram que a idéia do "protesto" partira de Mariana, Pablo e os contatos venezuelanos.
 Letícia ficou grávida. Nem Lucas, nem Felipe sabiam quem era o pai. Os três seguiram em lua de mel para o México. E juraram fidelidade um aos outros.
 Os três haviam sido enganados pela mesma pessoa. Por outro lado foi Mariana que havia feito com que suas vidas se cruzassem.
 No parque de Chaputepec na cidade do México os três prometeram que a filha Franziska seria criada ali no verde de Polanco, na maior cidade Asteca do mundo. Na maior cidade do planeta. Ali começaria a revolução deles.
 Naquela cidade de 23 milhões de habitantes.


P S: Comecei esta história porque queria contar de alguma maneira a relação da esquerda dos anos sessenta com uma esquerda jovem atual. Uma esquerda pacífica versus uma violenta. Uma idealista e outra apenas poderosa e sanguinária. No final ficaram duas sanguinárias e monótonas.   
Mas a verdade é que inventei tanta trama e aventura épica que perdi o fôlego. Descobri só quase no final que deveria ter pensado em algo menor. Uma relação em São Paulo, de amor entre três jovens de vinte anos. Ou vinte e três.
Acredito muito nos jovens de vinte anos. Tão ou mais que nos da década de sessenta. Ufa! Terminei esta Copa do Mundo.    

domingo, 7 de agosto de 2011

De onde eu conheço este pé?


“O trabalho do ator é arrumar trabalho. Depois é diversão.” 
Morgan Freeman

 Quando eu faço um teste para ator, dependendo do trabalho, eu fico nervoso. Uma vez fiz um teste para “Romeu e Julieta”. Deram-me o papel do conde Paris que é o prometido de Julieta. Com quem a família quer que ela se case.
 Nossa como eu estudei para o teste. Convenci-me até que tinham me dado o personagem do conde Paris porque o diretor queria um grande e bonito ator, para fazer com que a união do jovem casal tornar-se ainda mais surpreendente. 
 Descobri também que em todas as adaptações do cinema e do teatro que havia assistido tinham sido diminuídas, quase excluídas, as cenas do conde Paris.
 Caramba! Como foi ruim o teste que eu fiz. Mas na época eu achei que estava certo. Eu era obstinado e muito inteligente. E este foi o problema. Eu acreditava que o pobre diretor pensava as coisas que eu pensava. Na verdade eu estava era fazendo um projeto de encenação paralelo e não sendo um garoto de vinte anos.
 As pessoas não esperam uma compreensão de Shakespeare de alguém com vinte anos. 
 Por outro lado as pessoas se esquecem que Shakespeare tinha uns vinte anos quando escreveu “Romeu e Julieta.”   
 Semana passada eu e um diretor estávamos escolhendo dentre 18 atrizes de vinte anos uma personagem para o nosso filme. É muito difícil escolher entre tantas Julietas. São tantas possibilidades e corpos e vozes e talentos. Não há a certa, e sim a escolhida.
 Mas não é para este tipo de pensamento que estamos aqui. 
 Eu a vi passando do lado de fora pela janela. Um perfil forte.
 Já no estúdio estava sentada enquanto o diretor a entrevistava. O diretor pediu que eu perguntasse alguma coisa.
 “De que diretor ou grupo de teatro você gosta?”
 Fui seco e rápido. E fiz uma pergunta fora do contexto. Afinal estamos fazendo um filme e não um espetáculo de teatro. 
 Ela se virou para o meu lado e como alguém que já viveu muito, no alto dos seus vinte anos me disse as suas preferências artísticas. Fez isso com uma confiança que pessoas de quarenta ainda não têm.
 Encarava-me não pedindo aprovação do que havia dito, nem provocando, apenas feliz por ter me dito. Por ter compartilhado. 
 E então veio a improvisação e aquele ser ria como uma criança. Um riso forte e honesto, cheio de vida.  
 Eu não sei ao certo que sentimentos eram aqueles que eu estava em relação ela. A Julieta. Digo a garota. É como se eu a conhecesse. Conhecesse de outra vida quem sabe? Quem sabe? Era como se conhecesse seus defeitos. Conhecesse suas qualidades. 
 A inteligência dela me era familiar. A velocidade precisa do que ela dizia. A falta de senso que faz todo sentido na arte. E uma paixão tranqüila.
 O pé dela me era muito familiar. O pé. Meus olhos foram para o pé dela. Me deu uma paz aqueles pés. 
 No outro dia, ela voltou. Eu não sei se ela gostou de mim. Eu sei é que ela gostou de estar lá.
 Aí eu fiquei uma semana pensando. Por que o pé? Conversei com muitas pessoas a respeito. Todas as pessoas me disseram: 
 "Ué Leo? Você ficou a fim da menina". Mas não era isso.
 O mundo é ainda mais simples do que isto.
 Daí eu entendi. Eu reconheci aquilo. Ela tem a mesma ambição. A mesma ambição artística que eu tinha.  
 Eu me vi naquela menina. Eu vi o menino que eu fui, nela.
 Um pé rebelde que não se prende. Mas ao mesmo tempo, um pé de moleca.
 Ok, ela tem também outras coisas. Uns olhos maravilhosos... E sabe-se lá o que eles enxergam. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Alguém aí, por favor, me ensine a chorar.


 Tempos atrás eu e o meu amigo Antonio fomos ver uma peça de uns amigos na Rua 13 de Maio. Um Shakespeare. Depois de termos comprado os ingressos Antonio olhou no relógio e disse:
 “Vamos até a rua para eu fumar um cigarro? Faltam ainda dez minutos”.
 Estávamos então na calçada quando ouvi um carro brecar e atropelar uma criancinha que atravessava a rua correndo de um bar num lado da rua, para uma padaria do outro lado. Foi exatamente na minha frente. 
 Era sábado e a rua estava cheia de moradores e turistas. Não lembro do sexo da criancinha. Só lembro dos parentes e amigos. Eles, ou melhor, elas gritavam e choravam e gemiam. Eu não consegui chorar e Antonio tão pouco. Fizemos uma cara de lamentação um pro outro, olhamos o relógio e fomos ver a peça.
 Claro que nenhum ator do mundo iria conseguir chegar ao grau trágico e frescor que os parentes da criancinha estavam. Mesmo assim eu gostei de ter visto Shakespeare.
 Hoje no parque do Ibirapuera escutei um som, gemidos e uma espécie de choro misturado com latido. Várias pessoas em volta de um cachorro, um Pastor Alemão que segurava um outro pequeno, bem pequeno cachorro pela boca.
 O Pastor Alemão ia trucidando o cachorrinho e ninguém conseguia o fazer parar. Éramos uns vinte humanos testemunhando um assassinato. Um cachorro matando outro.
 Acho que foi a primeira vez que eu vi alguém matando com a intenção de matar. No caso o alguém era um cachorro.
 Virei o olho e as vi. Duas meninas de uns 20 anos. Elas choravam como duas cachoeiras. O corpo, a respiração delas, tudo estava livre para o choro. Nenhum canal estava impedido. Um estilo, uma força, uma naturalidade.
 Eu nunca vou saber chorar assim. Nunca. Não sei se não aprendi ou desaprendi.
 Homem não chora. Nós temos vergonha de chorar? Não sei. Temos. Temos sim. Homem não chora. É o que elas sempre dizem da gente. 
 Ver aquelas duas meninas chorando me deu um prazer enorme. Não tenho a mínima idéia do por que.
 Não sei se foi a de ver uma humanidade tão forte nas duas?
 De ver talvez duas meninas de 20, parecidas com muitas outras meninas de vinte, que já me fizeram sofrer. Só que agora sofrendo elas mesmas?
 Alguém aí me ensine a chorar pelo amor de Deus!
 Por que depois de presenciar um cachorro ser morto de maneira tão bárbara eu ainda consigo jantar um filé?
 De me sentir bem, porque a criança atropelada não era meu parente. Não fui eu quem atropelou.
 O cachorro que morreu não era meu. Não era eu.
 E me deu uma pena do Pastor Alemão. A carinha dele. Ele não tinha a mínima idéia do que havia cometido. Uma cara meiga.
 E o choro das meninas completamente tomadas pela emoção, com nenhuma razão. Será que é assim? O homem só perde a razão para agredir e a mulher só perde a razão quando é testemunha ou vítima de agressão?
 Eu nunca vi meninos chorarem daquele jeito. E nunca vou ver. Já vi meninos num conflito entre não posso chorar e preciso chorar. Não posso e preciso. Não posso e preciso.
 E quando choramos é escondido de nós mesmos. Que inveja daquelas meninas. 
 Se cachorro chora, mulher chora, por que eu nunca aprendi? Que inveja daquelas duas meninas. Nasceram com um talento que eu nunca vou ter. Nasceram mulheres.