segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Tipos de mulheres.


 O ser humano é complexo, por isso classificá-lo em tipos as vezes não é justo. Certa vez uma mulher ao olhar uma tela do pintor francês Henri Matisse, teria dito:
 “Aonde que isso parece uma mulher?”
 No que o pintor que ouvira, responde-lhe:
 “Isto senhora não é uma mulher. É uma pintura.”
 Bem agora vamos lá:



 A comunistinha.

 Geralmente é de classe média alta. Ou ainda só alta. A família tem fazenda ou construtora. Ou as duas coisas juntas. Diz que arte boa é só a que é feita por nordestinos, negros e índios. Ou ainda a arte que exalte nordestinos, negros e índios.
 Tem horror a termos em idioma inglês. Acha o francês uma língua essencial. Já leu o kit: Dostoievski, Proust e Gabriel Garcia Márquez. Ou melhor, diz que leu.
 Acha arquitetura e tudo que é do mundo visual perda de tempo. Quando bêbada se diz também artista. Mas uma arte a favor do povo. Almeja ser ministra. Agora se antes ou depois da revolução tanto faz.
 Não perde uma manifestação.
 Ela é apaixonada pelo professor de capoeira.  

Pontos a favor:
 Quando ela é bonita o mundo inteiro se apaixona. Vide a líder estudantil chilena.
 Não custa absolutamente nada. Freqüenta botecos com cerveja quente. Onde ainda paga a conta com a enorme mesada que a família lhe dá.
 Vai te levar conhecer Porto Alegre e Caracas. 

Pontos contrários:
Acontece que só é bonita uma em cem mil. E geralmente a bonita é Chilena.
Você tem de acordar os vizinhos na hora de fazer amor. Se não ela te acusará de fazer sexo burguês. Isso inclui ainda um fio terra.
 Você nunca terá razão em nada. E se você não for nem índio, nem negro e nem nordestino, você será sempre um cara errado.
 Ela te trocará por um aluno ou professor da USP, PUC, Unicamp engajado numa ONG e com barbinha por fazer.







 A corporativa.

 Fez administração. Adora livros do tipo: “O corpo fala”. Freqüenta stand-up. Tem uma completa alienação do mundo. Joga papel pela janela do carro. Depois fecha a janela bem rápido para não ser assaltada.
 Tem horror a índio, negro e nordestino, no que ela chama a todos de os Baiano. É sempre mal tratada em bares e restaurantes. E é mesmo. Os garçons não a suportam.
 Diz que separa muito bem amor de sexo. Mas não sabe bem o que é o tal do amor. Talvez coisa de gente fraca. Quer conhecer para usar no marketing do produto da empresa.
 Adora mostrar fotos da sede da empresa em algum país de primeiro mundo. Nunca sabe quem é o arquiteto que projetou a sede. E fotos de viagens pelo mundo. Nunca dá tempo de ir a um museu. Mas Louvre ela foi. 
 Sabe quanto o CEO ganha. Arte? Só gosta das que relaxam depois do trabalho. De preferência uma série de tv norte americana.
 Ou quando é um quadro caro.
 Chama os carros de TR4, XPF 7, DW 22... Adora tecnologia. E sempre que dá vai para Fernando de Noronha.
 Começa pedindo drinks clássicos, mas acaba na cerveja. Tal qual a comunista. Mundo curioso este, né?
 Ela é apaixonada pelo seu personal trainer.

Pontos a favor:
 Se for realmente malhada pode ser um excelente sexo.

Pontos contrários:
Todo o resto, com exceção ao: pode ser um excelente sexo.








 A Lolita inteligente.

 Confesso que este é o tipo que eu mais gosto. Quando você sai com um anjo destes em qualquer lugar você é bem tratado. Todos se derretem por ela.
 O jeito meigo. Verdade é que não existe gente propriamente burra no mundo. Ninguém é destituindo de inteligência.
 A Lolita inteligente no caso é uma menina especial. Carismática, linda, com vinte anos e sede de cultura. Adicione talento aí. E pronto.
 Arte para ela é um universo. É uma diversidade. É apaixonada por arte. É de bem com a vida.
 Ela tem humor. Ela te goza. Ela te escuta. Tudo é divertido.
 Você ganha cultura com ela. Tem uma excelente companhia para ir ao teatro.
 É ao mesmo tempo a filha que você não tem. A professora que você sempre sonhou. Ela te admira. Acha você experiente. Pode ser estudante de arquitetura, atriz e hostess de restaurante.
 Mesmo um simples café com ela, não tem preço. Ela é apaixonada pelo mundo. E pelo namorado novinho, que é músico.  

Pontos a favor:
Todas as células do corpo dela. Mais a alma.

Pontos contrários:
Você vai achar que seus cabelos estão brancos. Você vai se sentir gordo. Desajustado. E sempre vai concorrer com meninos tão ou mais cultos e interessantes que você. Com o agravante de que são meninos.  







 A elegante-chique.

 Ela não tem calça jeans. Está sempre maquiada. Mas não é uma perua. Ela somente vive nos anos cinqüenta. Conhece alta costura como ninguém. Divide seu tempo entre Paris e São Paulo.
 Em São Paulo é como se estivesse deslocada.
 É delicada. Tem um olhar triste, mas com um sorriso.
 Nos lugares sempre é bem tratada. As pessoas adoram atende-la. E ela é muito atenciosa. Sabe o nome de quem a serve.
 Domina todos os assuntos, inclusive política e futebol. Toma champanhe com feijoada. E sempre fala bem do Rio.
 Acorda todos os dias ao meio dia. Às vezes quando há uma missa de sétimo dia, acorda mais cedo. Ou para pegar um vôo.
 Tem jantares, vernissages, lançamento de livros, inaugurações, todos os dias. Não raras vezes mais de dois eventos na mesma noite.
 De dia almoça com as amigas. Vai à massagem.
 É uma excelente cozinheira. Mas por enquanto recusa convites para ser sócia de um restaurante.
 Ela está é criando coragem para lançar seu livro de contos.
 Ela é apaixonada por um cara bem mal vestido que escreve teatro.


 Pontos a favor:
 Você vai conhecer com ela o que o mundo tem de mais civilizado. Ela nunca é entediante. É amiga de todos formadores de opinião. Vai te apresentar o que o mundo tem de melhor. Inclusive autores que você nem conhecia. É fiel e te amará loucamente.

Pontos contrários:
 Se ela não tiver uma grande fortuna, terá muitas dívidas. Você se sentirá um americano ao lado dela. Terá de usar sapato.
 Vai acabar virando um coxinha. E se você não tem vocação para aristocrata se sentirá um peixe fora da água.
 E alguém tem vocação para aristocrata? Ou bem você nasce um, ou bem você nasce um.








 Varzeana Feliz.  

 Não está nem aí. Sabe que é uma varzeana mesmo e não inveja os aristocratas. Gosta de um churrasco. Um pagode. Um motel bem cafona. Veste-se com calça jeans e camiseta.
 Tem um corpaço e muita saúde. Adora a praia. Adora comer, rir. Acorda cedo. Adora sexo. Ela é totalmente heterossexual.
 Está sempre namorando. As amigas são como ela, varzeanas, mas ela é única bonita da turma.
 Você vai passar ótimos momentos. Em todos os lugares dirão que ela uma mulher muito simpática e bonita. Todos aconselharão:  
 “Casa-se com esta mulher, ela vai dar uma excelente mãe.”  
 Vai ser sua melhor amiga. Ela ama o pai, a mãe. Era feliz na escola. Te faz massagem.
 E você vai cogitar mesmo se casar com ela.
 Ela é apaixonada por você.

Pontos a favor:
 Mais que uma mulher, é uma amiga. Carrega as malas. Troca pneu. E troca o pneu feliz rindo. Gosta de guiar na estrada. Bebe mais do que você. Assiste futebol.
 Ama crianças. Te coloca para cima, te elogia. Te da beijinhos. Enfim cuida de você. E tudo está ótimo.

Pontos contrários:
Vem sempre com uma enorme família. Irmãos grandes e bêbados. Sogra que cozinha pessimamente e te obriga repetir várias vezes. Um pai que faz as piadas mais sem graça e politicamente erradas do planeta. E ainda peida sempre.  
 Inúmeras amigas varzeanas gordas, que dirão que você é um gordo e que ela tem muitas outras melhores opções.
 Enfim, o mundo varzeano todo.







 A hippie doida.

 Acreditem ou não. Eu gosto. Primeiro transamos e depois nos apresentamos. Banho tem de ser cachoeira. Pra que banho todo dia? Temos de economizar a água do planeta.
 Só come comida vegetariana. Espiritualizada. Carinhosa. Super feminina. Te faz viajar no tempo. Te faz viajar.
 Te faz prestar atenção nas árvores. Não briga. Não depila.
 Te da muito amor. Te batiza com um novo nome. Te toca de uma maneira especial. Cada canto ela decora e faz ficar agradável. Você descobre o olfato. Novos sabores. As preliminares com uma hippie são a melhor coisa que existe.
 Ela te transforma num ingênuo. Mas você fica feliz.
 As pessoas a tratam com receio. Alguns sorriem e outros tem nojo de cumprimentar.
 Ela é apaixonada pelo mundo. Pela humanidade. Apaixonada pelas florestas. Pelos bichos. Mas gosta muito de você.  



Pontos a favor:
Você ficará em total sintonia com a mãe Terra. Você se sentirá mais saudável. Vai emagrecer e curtir sua barba.
 E é bom parar por aqui. Porque você pode se descobrir um hippie, talvez até mais hippie que ela.


Pontos contrários:
Ter de ouvir que ela viu Jesus. Agüentar dezenas de gatos. E criar meia dúzia de filhos, que você nem tem certeza se são realmente seus. Nem você nem ela tão pouco.





 A louca pra casar.

Vocês se conhecem há décadas, ela tem a sua idade. Ou até mais, 37, 38... Já viu quase todas as amigas se casarem, ou todas mesmo. Tem amigos e conhecidos em comum com você.
 Em festas, ela te serve. Faz seu prato, busca bebida. Te cumprimenta com um beijão melado no rosto, é a pessoa mais simpática da terra. Só te elogia.
 Ela nem se lembra que vinte anos atrás, ela era uma gatinha esnobe que nem te dava oi. Nem notava a sua existência. Naqueles tempos, era uma deusa. Todos a desejavam. Hoje sobraram os cinquentões para cima. E esses ela ainda não quer. Não está apelando.
 Você então diz que está difícil que você é um artista desempregado.
 Ela insiste que seu pai é um médico famoso, que você é sócio de restaurante. Sócio do Paulistano.
 Enfim, ela já sondou e sabe que depende só de você. Insiste em programas como caminhar no Ibirapuera. Viajar para a praia com a velha guarda. Claro, ela de biquíni ainda é melhor que a velha guarda. Será?
 Você não quer vê-la de biquíni. Quer lembrar dela quando ela tinha 15 anos e você era apaixonado por ela. Quando ela tinha uma bunda perfeita. Um cabelo que brilhava.
 Hoje se ela te pegar desprevenido, ou ainda se você encontrá-la à noite, no escuro é capaz de cumprimentá-la com um: “Oi tia.” E depois se dar conta que não é a mãe dela, e sim ela mesma.
  Ela vai te cercando falando de crianças. Comenta festas de casamento. Pergunta se minha casa é própria. Sonha com berços, Moises e bem casados.
 É apaixonada por um vestido branco na vitrine de uma butique.


 Pontos a favor:
 Você também não é tão jovenzinho assim. Já está na hora também de parar de ser padrinho e virar noivo.

Pontos contrários:
 Isto aí era um vinho maravilhoso. Mas era para ter sido bebido ainda jovem.











 A ninfeta filha de intelectual artista.

 Você a conhece num vernissage. Todos os tios da sua idade também estão de olho. Ela se veste com botinhas, um vestidinho curto e um casacão por cima. Tem o rosto bem maquiado. Algo de “Táxi driver” o filme.
 Não se sabe como, mas você acaba ficando de frente para ela e começam a conversar. Ela diz que você se parece com o pai dela. Parece muito, com meu pai, ela diz. Ele também é assim meio intelectual artista. Igual você.
 E você tem medo de perguntar a idade dela. Você imagina que o pai dela deva ser assim... Igual ao seu. Só que mais descolado. Mais artista, sei lá.
 Na mesma noite ela te chama para ir numa balada. Você ainda não desconfia que ela tenha só 15 anos e que aqueles enormes seios são silicone.
 Você começa a dançar com ela na pista. Um monte de tiozão vem querendo se enturmar. Porque ela dança black music como se fosse uma negra americana.
 Aí você coloca ordem na casa e mostra para os projetos de rappers que você é que é o dono da fêmea. Ou ainda do filhote de fêmea.
 Você começa a perceber que as coxas dela são coxas de menina, embora os seios sejam enormes. O corpo ainda não é formado totalmente. Antes de você esclarecer ela começa te beijar loucamente.  
 Ela diz que está com fome e que ir comer um dogão. Depois disso você a leva pra casa.
 No dia seguinte conversando com uma amiga sua, descobre que ela é também amiga do pai da ninfeta. Descobre que o outro intelectual artista é só um pouquinho mais velho que você.
 Daí você não se sente mal. E ainda acha engraçado. Mas não sai por aí comentando, porque fica com medo de ser preso. Tem até hoje na memória a boca e as batatas da perna dela. E se ela não tivesse ido fazer intercambio você talvez tivesse sido preso.
 Ela é apaixonada pelo pai. Um grande intelectual artista.


Pontos a favor:
 Talvez seja a sua ultima oportunidade da vida de ainda poder beijar uma ninfeta.

Pontos contrários:
 Bem a começar pela cadeia e terminando em “Juno” o filme.














 A Bond Girl.

 Você a vê de longe numa estréia de teatro. Pensa logo, ou ela é uma atriz da novela das oito, ou ainda é namorada de um ator de novela das oito. A pele, o corpo, o rosto, os cabelos parecem ter vindo de outro planeta.
 Você sabe que aquele pedaço de carne de primeira não é para você. E você está bem resolvido com isso. Foi lá para ver teatro. 
 De repente de tanto você olhar para ela, percebe que ela também começa a te olhar. Você sabe que você nunca teria coragem de chegar nela. E para a sua sorte e seu desespero a vê vir em sua direção.
 Você tem vontade de chamar pela sua mãe. Suas pernas começam a tremer. Fica tudo embaçado.
 Você tenta então achar um garçom com uma bebida. Ao mesmo tempo em que tenta saber onde é o banheiro feminino, que ela te perguntou.
 Toma a bebida num só gole. E ela volta do banheiro com mais duas taças de espumante na mão.
 Por mais antipático e inseguro que você se mostre, ela está resolvida. Ela quer dar para você naquela noite. Por quê? Vai ver você deu sorte de estar no caminho. Mas você quer algo mais profundo com uma Bond Girl e vai para um restaurante japonês com ela.
 Afinal de tanto tomar espumante você ficou com fome. No restaurante você pede saquê a toda hora e ela te diz para ir de vagar. Você quer impressioná-la e diz que agüenta muito mais.
 No dia seguinte acorda de ressaca. Não lembra direito de muita coisa. E se dá conta que passou uma noite toda com uma mulher e não a conheceu. Não sabe nada a respeito dela. Só um vago: “Sou modelo.”
 Ela continua um mistério. Você não sabe nada dela. Nem tem o contato dela. Sumiu como uma bond girl.
 Anos depois vendo uma capa da Vogue, sente um gosto de saquê na língua. Então você a reconhece. Dá um suspiro e compra a revista. Fim da história.
 Ela é apaixonada por um colega modelo que é gay.


Pontos a favor:
 Se você sair com uma mulher dessas as outras mulheres vão te respeitar para sempre. Dinheiro chama dinheiro, mulher linda também chama mulher linda. Você vai ser fotografado e você vai ser o que você sempre sonhou quando criança:
 Você será o 007.

Pontos contrários:
 Você pode ser confundido com um playboy milionário e ser seqüestrado. Que mais? Que mais? Que mais? Você pode se tornar um chato convencido. E ficar mal acostumado para sempre. 












 A gordinha linda.

 Ela aceita sair com você a qualquer momento. Pode ser um dia gelado e você chamá-la de ultima hora. Nem interessa o lugar, para ela está tudo ótimo.
 E você a chama logo num domingo de madrugada, para não correr qualquer risco de ser visto com a gordinha num encontro. No fundo acho que ela sabe e não se importa.
 Chegam ao restaurante e ela olha o cardápio, depois olha para você e te confessa que está de regime. Pede então uma salada. E diz que já perdeu dez quilos. Você toma um susto se com dez quilos a menos ela continua gorda... Imagine como ela era?
 No final você que já mandou um espaguete, só de maldade pede um bolo de chocolate.
 A menina não resiste e cai matando. Um bolo de chocolate depois de meses de recesso lhe provoca uma compulsão. Ela quer pagar a conta de qualquer jeito. A sua e a dela. Quer agradar não importa como.
 Ela te convida para entrar. E para sua surpresa lhe dá um dos melhores beijos que você já teve. No escuro descobre que o que é bom de ver realmente não é bom de pegar e inverso também.
 A pele da menina é durinha embora ela seja cheinha. E antes que isto fique politicamente correto. Você se despede e some.
 Ela lhe manda recados agradecendo o jantar. Envia-lhe presentes, poemas e você sempre que vê um bolo de chocolate se lembra dela.
 Acaba virando sua amante. E cada vez você vai ficando mais desatento, até que um dia é flagrado com ela numa churrascaria rodízio da Marginal Tiete.
 Você não agüenta a explosão de comentários irônicos na internet e fora dela e decide não ver mais a gordinha.
 Depois de 30 torpedos e você carente, lembrando-se dos abraços nos escuros, não agüenta e segue para o SPA encontrá-la.
 Ela é apaixonada por carboidrato.

Pontos a favor:
 Você vai se sentir magro. Vai comer sem culpa. Não será corno, a principio.

Pontos contrários:
 Você será feliz, mas será discriminado.










 A perfeita.

 Um dia você a conhece. Bela, nem muito exibicionista, nem muito quieta. Culta, bem educada, trabalha. Tem cinco centímetros a menos que você. E seis anos mais nova.
 Já morou junto com outro cara. Cozinha. É criativa, alternativa, descolada, chique... Olhos verdes, lindo sorriso. Meiga, seios enormes e lindos Ela te adora, tem senso de humor, as amigas são ótimas, a irmã também, o irmão é na dele.
 Independente e está a fim de você. Ela adora sair, ir ao teatro, cinema, festas.
 Na cama é uma delícia, não fala em casamento, mas você vai ficando com ela.
 Tranqüila, calma. Você procura os defeitos, não acha. Nenhum. Nada. Sempre alegre, a conversa flui, você se diverte com ela.
 Você passa horas olhando o rosto dela e não se cansa. Você a admira dormindo, quer desenhá-la. Que rosto lindo, você suspira!  
 Mas chega um dia, você não a quer mais. Ela até chora. Ela quer saber o porquê disso?
 E você diz que não sabe. E você não sabe mesmo. E você se odeia, porque já gostou de tanta mulher imperfeita e sofreu por tanta mulher imperfeita e agora está com uma que é um sonho, e você não a quer. E vai embora sabendo que talvez tenha feito a maior burrada da sua vida.
 Ela é apaixonada por um burro.  


Pontos a favor:
 Você terá uma família de comercial de margarina.

Pontos contrários:
 Você quer realmente casar?











 A ninfomaníaca.

 Em público ela é super discreta. Te cumprimenta como se mal te conhecesse. Já sozinhos ela se transforma.
 Não adianta dizer que na praia de noite é frio, é perigoso. “E daí?” Ela dirá. Então você alega que ela está menstruada. “E daí?” Novamente.
 Quando ela chega à minha casa, já vai tirando a roupa e indo direto para minha cama. Ou entra no banheiro e sai pronta. Nua. Como se estivesse indo fazer ginástica.
 E é uma ginástica. Nos intervalos propõe chamar outra mulher na próxima. Para nos fazer companhia. Prometo pensar a respeito.
 Depois da quinta vez, resolve me acompanhar para comer algo. Saímos em busca de uma padaria 24 horas. Mas no caminho me faz parar numa praça deserta e novamente transamos.
 Já na padaria vou ao banheiro e ela me segue. E novamente transamos. Transamos no elevador, transamos com comida, sem comida, no banho.
 Ela pode sumir por meses. Mais um dia sempre volta. E sempre diz:
 “Nossa! Eu tinha me esquecido do quanto você é gostoso.”
 Para falar a verdade eu fico constrangido muitas vezes. Perto de um tipo assim eu sou um tímido.
 Ela tem um corpo totalmente malhado. E está em plena forma física. É insaciável e muito barulhenta.
 É apaixonada por um cara que come ela de vez em quando e não a assume. Ele é casado e ela diz que ele adora um ménage.

Pontos a favor:
 Você vai viver a vida e se libertar. Ela vai embora e não quer dormir de conchinha e nem carinho.

Pontos contrários:
  Você quer dormir de conchinha e quer carinho.









A Dona Flor.
Você sempre a achou interessante, mas ela era casada. De repente ela se divorcia. Tempos depois você a encontra. Combinam de se ver.  Você vai buscá-la para jantar. Ela pede que você entre só um pouquinho. Ainda não está pronta. E não está mesmo.
 Ela então te serve uma bebida. Você mal toma e ela, com um ar de nostalgia da inicio: “O Paulo também segurava o copo assim.”.
A principio aquilo não te incomoda. Tem até certo charme.  Você acha justo e pensa que foi um deslize. Afinal ela acabou de se separar. Faz o que? Só um ano?  
Minutos depois ela estará dizendo o signo do Paulo. Falara sobre a mãe do Paulo. E você ficando com fome.  Mas ela continua a falar de como era a casa quando o Paulo ainda morava ali. O que ela mudou e o que ela não mudou na casa.
 Duas garrafas de vinhos depois partem em direção há um restaurante que você sugeriu. Ela diz que o Paulo nunca a levou neste lugar. E fala sobre as preferências gastronômicas dele, o Paulo.  Já no restaurante ela decide que não esta com fome e pede um só prato para vocês dividirem. O garçom diz que o prato é grande. Que realmente para dois ate da para dividir. Você tem vontade de dizer para o garçom que vocês estão em três.
 Durante o jantar ela conta a vida dela antes e depois de conhecer Paulo. Você então já saturado daquela situação resolve falar das suas próprias ex-mulheres. Coisa que alias você adora. Quando se da conta, você e a Dona Flor estão comparado as suas ex-mulheres com o Paulo. Discutindo se eles combinam ou não.  
 Você já está na sobremesa e é agora um expert em Paulo.
 Já sabe os gostos dele, as manias, é como já o conhecesse. “O Paulo é um artista!” Ela diz.

Tenta refletir se o Paulo realmente seduzia as jovens alunas. Se ele realmente era um alcoólatra como ela dizia. Dona Flor já estava na terceira garrafa de vinho, e dizia que um dos motivos de ela largar o Paulo era que ele bebia em excesso.
 Excesso? Você se coloca a imaginar o que poderia ser este excesso. Umas cinco cachaças “velho barreiro” por dia?
 De volta à porta da casa dela. Dona Flor olha para todos os lados, esta meio aflita. Diz que é melhor eu ir embora, que o Paulo pode aparecer. Eu digo que já faz um ano que ele esta com a jovem aluna dele. Ela não se convence. Ela não quer traí-lo. Corre abre a porta e sem nem mesmo se voltar para trás, entra em casa.
 Ela é apaixonada pelo ex.

Pontos a favor:
 Se você for um ator, uma ainda um doido com dupla personalidade, pode se deleitar fazendo um laboratório. Pode fingir que é o Paulo e usar as roupas dele. Pode ainda dormir na cama dele, ter as mesmas opiniões que ele. Tudo baseado nas informações da Dona Flor. E talvez você consiga transar com ela. Transar a três.
 Finalmente você vai se dar conta de que falar de ex num encontro, é estragar qualquer possibilidade. E nunca mais vai fazer isso. Será?

Pontos contrários:
Você vai saber tudo de um tal Paulo que você nem conhece e não vai saber nada dela. Apenas o obvio. Ela ainda ama o ex. Você vai se perguntar: Será que ela não quis saber nada de mim? Nem me reparou? Ou seja, vai se sentir um step de pneu.



A amiga da namorada.
Você conhece duas mulheres em uma balada. As duas são melhores amigas. Fica na dúvida de qual você vai pegar. As duas são gatas. Ambas simpáticas e estão a fim. Inclusive estão competindo por você. O conflito é enorme, mas você tem de se decidir. Percebe que as duas é demais. Não vai dar. Além do que você não conseguiria dar conta.
 Você então opta pela mais meiga. Troca telefone. Você começa a namorar com a mais meiga. Acontece que a outra agora sempre vai estar junto de você e sua namorada. E num certo fim de semana, você chama a namorada para andar na praia, ela diz que não tem vontade e diz para você ir andar na praia com a melhor amiga dela.
 Aquela mulher que você depois de quase um ano, a vendo sempre, a deseja cada vez mais. Inclusive se questiona se acertou na escolha. Você poderia ter escolhido ela. E agora estão juntos, numa praia quase deserta. Ela de biquíni, com os cabelos soltos e o vento batendo. Ela te chama para entrar na água. Vocês se aproximam. Os dois riem, ela te joga água e espera que você entre na brincadeira.
 Você entra na brincadeira. Você chega à conclusão de que o seu anjo da guarda ficou lá na areia. E que seu diabinho da “guarda” é um surfista de primeira. Ele, o diabinho, está bem ali. A menina se aproxima você vê aqueles peitos, os pelos... É agora ou nunca.
 Daí você pensa, por que nunca? Pode ser amanhã. Você recua. E fica dando mergulhos como um mineiro que nunca viu o mar. Ela para de brincar e fecha a cara. E se ela estiver só me testando? Você pensa.
 E você se lembra de como a sua namorada é meiga e te ama. Então toma uma decisão e saí correndo da água na direção do seu anjo da guarda. Já na areia seu anjo da guarda te abraça e diz que você é o cara!
 Mas a melhor amiga da namorada não sai da água. Parece que está se afogando. E para desespero do anjinho da guarda você volta para salva-la e a salva. E salvando-a você se perde.
 Percebe caminhando na volta que aquela, melhor amiga da sua namorada, é também meiga, sensível, delicada e quase se afogou. Você quer cuidar dela, Você agora tem ciúmes dela, até dela com a sua namorada.
 Ela fala o quanto ela gosta de mar e natureza e o quanto ela está feliz com aquele domingo perfeito na praia. Na volta para São Paulo você fica a olhando pelo retrovisor enquanto sua namorada, que está do seu lado, troca as músicas. Sua namorada nem desconfia.
 Ela é apaixonante.

Pontos a favor:
  Como diz Oscar Wilde: “Só há uma maneira de você vencer um desejo. Jogando-se a ele..”
 Meu amigo no amor vale tudo.

Pontos contrários:
 Largue a mão de ser cafajeste! Ela é a melhor amiga da sua namorada. Já imaginou ela beijando seu melhor amigo? Um pesadelo, né? Então seja homem. Para você ter uma coisa, você tem de abrir mão de outras. Ela nem gosta de você, é só uma bandida. Será?



A ciumenta boxeadora.
 Ela tem ciúmes. Muito. Ela acha que você é simpático em excesso com as pessoas. Um dia se interessa pelo seu plano de celular. Diz que vai conseguir negociar um melhor na operadora.
 O que você ainda não sabe é que ela começa a receber na casa dela os números para quem você liga. Esta era a negociação. Depois ela sabe-se lá como, descobre a senha dos seus e-mails, do seu Faca-Book.
 Para ela todas as mulheres do mundo são bandidas. Você sai para beber com as atrizes que você está ensaiando. Ela acha um absurdo e ameaça terminar o namoro. Mas antes ela te da uma surra. Sim ela treina boxe.
 Não que tudo isso venha já na primeira semana de namoro. Não. É um processo que vai se intensificando. Certo dia ela chega e diz que você tem de se livrar da sua coleção de play-boys. Como assim? Você diz. Algumas ou metade delas eu herdei do meu avô, você argumenta.
 Não adianta, em poucos minutos ela as pega todas e carrega no carrinho de super mercado. Você nunca viu o seu porteiro tão feliz. Ele não crê no presente ganhou.
 Tempos depois, você descobre que ele não ganhou só a sua coleção de revistas. Mas recebe dinheiro dela para dar informações de quem vai a sua casa. Ela sabe com quem você fala no clube. Você se torna uma pessoa vigiada.
 Diz que vai a um bar depois do ensaio com todo o elenco, inclusive os homens. Mas acabam mudando os planos e vocês vão para outro bar. Porque o que vocês iam anteriormente está fechado.
 Ela então te liga. Está aos gritos.  Quer encontrá-lo porque diz que passara de carro no bar e não te viu. Inclusive o bar está fechado. Você quer argumentar que só sobrou você e o Ailton, que é um ator gay da companhia. Ela chega lá e começa a te bater na frente do Ailton. O garçom chega a pensar que você tem algo com o Ailton.  Ela começa a pensar que você tem algo com o Ailton.
 Você se confunde todo. E começa a mentir para ela, não porque você a trai, mas porque você não quer apanhar dela. Mas não importa tudo o que você diga ela encontrará uma falha, um buraco na sua história.
 Até que um dia você vai a uma festa. Sai com cinco atrizes e vão para casa de uma delas. Você beija as cinco atrizes juntas. Sai de lá de madrugada e vê que tem 80 ligações dela não atendida.
 Você não agüenta e diz a ela pelo celular a verdade. Que você estava não com uma mulher, mas sim com cinco mulheres. Ela tem um ataque de riso. Claro que não acredita e te da um mês de folga.  Então você percebe que quanto mais você a trai de verdade, mas ela sossega.
 Até um dia que ela começa a sumir. Você liga e ela não atende. O celular acabou a bateria. Estava sei onde, com sei lá quem e esqueceu sei o que e não viu o celular, porque sei lá o que e quem... Blá, blá, blá... Tenho outro.
 É você descobre que a sua gatinha do boxe, aquela garota visceral, que te amava incondicionalmente, tem um amante. E você que nunca havia sentido ciúmes daquela criatura, fica desesperado. Você não passa de um corno.


Pontos a favor:
 Namorar uma mulher ciumenta faz bem para o ego. Você vai descobrir inúmeras mulheres que te dão bola e que você nem sabia.
 O problema é que talvez seja fantasia dela. E você não poderá olhar de volta para estas mulheres, porque você vai estar com o cão de guarda. Ela.


Pontos contrários:   
 No começo apanhar é até divertido. Você ri, é algo diferente. Mas em determinado momento, um pacifista como você começa a achar aquilo degradante. Como você pode se relacionar com uma pessoa que te bate? Te bate e ao mesmo tempo diz que te ama?



Vitor ou Vitória.
 Você a vê dançando. Vai lá falar com ela. Percebe que ela apesar de suave e muito feminina é objetiva. Você não sabe direito bem o como, mas começa a se relacionar com ela. Ora ela é uma menina, ora é um menino.
 Aquele ser andrógeno te provoca muitas reações. E é esta parte que ela mais gosta. De ver o que acontece com você. De se perceber menos frágil do que você.
 E você não se sente um homem quando está com ela. Se sente, mas também não se sente. Ela não inspira aquelas sensações que dizem que nós homens heterossexuais temos. A de ter duas mulheres ao mesmo tempo. Não.
 Ela pede uma porção de bacon e fica te encarando. Os gestos, quando ela não está dançando são contidos. Mas o olhar é uma das coisas mais intensas da terra. Ela fica ali te ouvindo, não porque ela te deseja desesperadamente, mas porque ela gosta de ver como um “homem” se comporta com ela.
 Ela tem um humor extraordinário. É uma artista até o fundo da alma. E você que também não é lá muito bom da cabeça, depois de vários copos, começa a ver, não mais aquele ser underground, e sim a santa Joana D’ Arc.
 Ela quer alguma coisa a mais de você. Algo mais pratico. Sexo talvez.  Ela está te dando uma oportunidade. E você fica ali, a colocando na parede.
 Por que você é isso? Por que você gosta daquilo? Há quanto tempo que você sabe que você gosta disso? No começo ela até se diverte. Nos tornamos um Eduarda e Mônico, Mas depois ela vai se cansando.
 Você quer uma mulher e ela também quer uma mulher. Você no fundo a inveja. Ela é uma artista plástica, coisa que você nunca conseguiu ser. Ela é bissexual, coisa também que você nunca conseguiu ser.
 Mas tem algo a mais. Naquele jeito agressivo, com uma voz de menina, um humor de moleque, umas costas de bailarina, Você quer o Vitor, você quer a Vitória. Você quer só a igualdade.
 A verdade é que com ela você pode ser você mesmo. Melhor dizendo, com ela você pode jogar as máscaras fora. Ser esta pessoa sensível, feminina, sem se preocupar. Acontece que às vezes com ela, você fica o inverso.
 Um monstro, ibérico que se julga superior. Alguém que vai dizer-lhe: “Ei garota, eu posso ter estas mulheres que você sonha. Porque elas gostam de homem.”
 No fundo existe aí um conflito insolúvel. Ela não entende porque você não desiste. E você não entende porque ela sempre dá outra chance.
 Ela te ajuda na sua arte. E você talvez a ajude na dela.
 Ela é apaixonada por arte, por meninos e por meninas.  


Pontos a favor:
Esta é a sua verdadeira chance de ter um grande amigo e ainda transar com ele. Mas, mais do que isto é a sua oportunidade de conhecer a fundo a humanidade.

Pontos contrários:
 Se as mulheres já são complicadas, imagine esta?
 Ela diz que me faz uma pergunta simples. E que eu respondo, aí do meu jeito. Você fica sem saber quem é o homem e quem é a mulher da relação. Será que isto é realmente um ponto contrário?



A Esportista:
 Você sempre a vê no clube. Ela tem um corpo diferente. Tudo é como se a gravidade a puxasse para cima e não para baixo. Os músculos são todos marcados. Se ela ficasse pelada, poderiam usá-la em uma aula de anatomia.
 Você fica ali refletindo, como seria possuir um corpo daquele? A oportunidade aparece. Ela diz para você pega-la umas seis horas. Da tarde. Você a leva para um bar na Vila Madalena. Ela nunca havia ido a um bar na Vila Madalena. 
 Você chega até a desconfiar inclusive, que ela nunca nem esteve num bar antes. Em nenhum. No terceiro suco, ela grita:
 “Meu Deus do céu! Já são oito e meia e eu ainda estou de pé!”
 Você diz que é sábado a noite e amanhã é domingo. Ela diz que tem que pedalar as cinco da manhã até Ubatuba e voltar antes do almoço. Aí você não sabe se ri, ou se é sério. Ela ri antes e quebra o gelo. Ponto para ela. Até que é mais esperta do que imaginei.
 Não é porque vive para o corpo que não tem um pensamento veloz. Mas aquilo vai ficando tão triste. Começo a fazer uma consultoria com ela. Conto o que eu faço de exercícios durante a semana. Ela balança a cabeça e diz: “Está bom para quem está começando.” Começando? Eu treino desde sempre. Acontece que o que eu faço em um mês, ela faz em três dias.
 Nove horas e ela começa a piscar os olhos. Nove e quinze. Você pede a conta e a carrega até o carro. Ela já está dormindo. Antes das dez e sua noite de sábado acabou. Você pensa: “Só vai ter um jeito. Eu namorá-la na hora do almoço. É o único horário em que os dois estarão acordados”.
 Você descobre que aquele plano de parar de beber, e viver para o esporte, estão longe da sua realidade.
 Ela ama as olimpíadas.

Pontos a favor:
 Aquele corpo malhado realmente impressiona. Você dorme sem culpa. A noite de sono com ela é um prazer. Quer dizer, se você conseguir dormir antes das dez da noite. Eu não consigo.

Pontos contrários:
 A falta de assunto. Ou ainda assuntos rasos. Não é porque ela é atleta que você também vai ser. Ou ter de ser. Enfim, desde o começo você sabia que não iria dar certo.
 Alguém tem de fazer massagem nela. Se não for você, será outro. Mas isso até que nem é um ponto contra. Pode ser até gostoso. 




A Vampirona.
 Ela vive de preto. Mesmo de dia. A Pele é branca. Já foi casada, tem dois filhos. É o que alguns chamam de coroa. Mas ela é uma coroa que destrói corações. De senhores poderosos e até mesmo de universitários, garotos e... Até o seu coração também. Também? Também. Uma espécie de Carla Bruna brasileira. 
 Ela é vizinha dos seus pais. Você a conhece no elevador. Começam a sair. Você acha que ela está entrando na sua. Acredita que ela passa as tardes ligando para as amigas, contando do garotão que ela encontrou. Acredita que ela agradece a Deus de você ter aparecido.
 Te incomoda um pouco você ir na casa dela e ver aqueles filhos, que parecem que saíram do filme “Crepúsculo”. Eles ficam te olhando com cara fechada. Ela diz aos vampirinhos que você é um amigo dela. Mal sabe você que eles continuam indiferentes porque toda semana aparece uma vitima diferente. “Um amigo”.
 Um cara que pensa que está comendo a mãe deles. Mas mal sabe que está é se transformando em um vampiro. Ela te chupa todo. Tem muito mais estrada que você, embora pareça tão lânguida, tão civilizada...
 Você descobre que ela tem uma suástica no braço. Ela diz que não. Que a tatuagem é um símbolo hinduísta que os nazistas distorceram. De qualquer maneira você apreçasse a lhe dizer que você embora pareça, você não é circunsisado. Que Chacra é cristão. É melhorar se garantir. Se proteger. 
 Ela diz que é artista plástica e te mostra telas pintadas por ela. O tema é sempre o mesmo, a suástica hinduísta, ou alemã, sei lá... Ambas são idênticas. Ela explica que não. Que uma é para esquerda e a outra para direita. Você percebe que ela não tem reflexo no espelho.
 Um dia ela recua porque você comeu alho. Você não leva isso como um indício. Porque todo mundo recua com alho.
 Você se lembra então de que certa vez leu que lúcifer era um anjo lindo, o mais lindo! Começa acreditar que aquela criatura diabólica é má Só pode ser a madrasta da Branca de Neve. Só pode. .
 Tem certeza que ela, a coroa, te jogou algum feitiço. Você que antes gostava de garotas novinhas, está agora totalmente envolvido com a madrasta má?
 Uma voz vem do espelho dela. Uma voz masculina. Você pensa: “O que será que tem na minha bebida?”.
 Um dia acorda e não tem mais desejo de vê-la. Acha que o feitiço passou. Mas tem dúvidas se também não virou um vampiro.
 Ela é apaixonada por sangue fresco e poder. Não necessariamente nesta ordem.

Pontos a favor:
 Você vai sair um pouco do circuito confortável: Menininha, chatinha, bobinha, tontinha, frígida, namoradinha. E entrar em uma verdadeira tempestade. Uma montanha russa.

Pontos contrários:

 Vai entrar em regiões até então desconhecidas para você. Será que você já está pronto para uma aventura destas? No fundo você é apenas um menino.


 Por enquanto são essas. Eu sei que este tema não é nada original. E é uma visão minha. Valeu. 




    


     


   

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Augusta e Oscar Freire.


Sigo a noite pela Rua Oscar Freire, estou quase na esquina com a Rua Augusta. Uma mulher com três crianças me pede:
 “Moço tem um trocado?”
 Viro o rosto em sua direção e sem diminuir o passo, digo baixinho.
 “Não tenho.”
 Ma ela ainda insisti:
 “Deus lhe paga em dobro.”
 Estou indo encontrar 5 amigos homens num restaurante badalado dos jardins onde jantaremos e depois vamos a um cabaré. Para comemorar algo que não vem ao caso.
 Paro no sinal e espero para atravessar a faixa de pedestre, quando escuto uma menina, uma criança, com certeza a filha da mulher:
 “Moço dá um dinheiro pra gente!”
 Continuo dizendo que não tenho. O sinal não abre e ela nas minhas costas insiste:
 “Moço nós não temos onde morar, nós vamos dormir na rua.”
 A menina agora falava num tom de revolta, de desespero. Um ser que sabia que outro ser humano, no caso eu tinha condições de ajudá-la. Ela, a menina, uma criança, não podia entender como eu não queria ajudá-la. Por que será que aquele homem é tão ruim? Ela devia se perguntar.
 “Ajuda a gente moço.”
 Agora ela me seguia pela rua e ela queria provar pra ela mesma que existem almas boas. A menina queria acreditar na humanidade. Já eu comecei entrar em desespero queria gritar, queria que aquela menina desaparecesse.
 Lembrei das campanhas do rádio que dizem que não se deve dar dinheiro par crianças, porque isso estimula a exploração infantil.
 Não me ocorreu nenhuma piada. Aquilo não tinha graça. Poucas vezes na vida o humor me abandonou. O bairro com mais glamour de São Paulo. Butiques chiques e aquela menina e a família iria dormir ali na rua na frente de uma vitrine.
 Uma vontade de socialismo me invade. Eu dando as costas para a menina e seguindo para um restaurante quentinho onde eu iria comer e beber e rir. Rir?  Como eu iria rir agora?
 Na mesa ao lado, uma família rica jantava. Uma menina da mesma idade da moradora de rua dormia. Ela usava uma malha cara e lindas botas. Provavelmente já aprendia Inglês.
 De lá seguimos para um bordel como havíamos combinado. O lugar tinha luzes frias, e mulheres com risos forçados que circulavam entre homens tristes.
 Acho que só vão a bordeis homens tristes. Durante algum tempo eu chamei bordeis de cabarés. Mas em cabarés existem shows, música e circo.
 Logo penso por que eu vim aqui? Este lugar não tem nada comigo. Nada a ver comigo. Mas em cinco minutos começo a gostar.
 As luzes frias, de onde eu conheço um lugar parecido com esta atmosfera? Sem romance. Sem imprevistos. Os bordeis são cheios de regras. Te dão uma pulseira. E te dizem: "Não pode isso, não pode aquilo."
 Você tem de pagar uma bebida para a garota. Você tem exatamente uma hora, se passar tem de pagar tudo de novo.
 É quase um quartel de tanta disciplina. Não há espaço para surpresas.
 Eu começo a explicar para duas jovens prostitutas que elas são exploradas e que deveriam cobrar mais. Falo de Brecth, de Marquise e todas se dizem de Porto Alegre. Mesmo as com sotaque nitidamente nordestino.
 Eu não posso também fazer um retrato do lugar em apenas uma noite. De repente surge uma mulher dentro de um casaco preto. Ela está descalça. E me diz para eu tirar os copos da mesa.
 Meus amigos a tinham contratado para um striptease. O maitre puxa um dos bancos e o garçom recebe seu casaco. E a mulher com um corpo fantástico sobe na mesa e inicia uma dança do ventre.
 Aquele lugar inóspito torna-se confortável. E eu que era o que mais hesitou em ir lá dos amigos, começo a gostar.
 Me cai a ficha. Aquelas luzes frias, que não tinham nada de feminino, aquele lugar masculino. De homens que não gostam do feminino e tão pouco talvez gostem de mulher, e sim só transar com mulher. Aquele lugar me lembrou a minha casa. Minha coleção de revistas.
 “Quanto custa para você fazer um strip só pra mim?”
 Meus amigos com exceção de um começaram a querer fugir dali. E fugiram. 
 Quando a mulher subiu comigo e conversamos dentre outras coisas sobre dança. Ela aos poucos deixava de ser uma mulher e ia se tornando uma menina.
 “O que você faz?”
 “Sou polícia.” Eu disse.
 “Já namorei um policial.”
 A velinha do caixa diz que sou um homem muito bonito para freqüentar ali. A dançarina me da o número do telefone e me mostra o RG.
 “Este é o meu nome.”
 Mas desconfio que ela queira só um cliente. Um nerd como ela me definiu. Ela não conhecia nem Bob Dylan, nem Moliere, nem tão pouco falava inglês. Mas conhecia algo que eu não conheço: Lisboa.
 Atravesso a Avenida Rebouças de banho tomado e venho voltando para casa. Caminhando pela Rua Oscar Freire. Chego à esquina da Rua Augusta. É madrugada. Já tomei muito wisky.
 Venho pensando em escrever uma peça com dois personagens, um cliente e uma prostituta.
 Já não me lembro mais da pequena menina que me pedira um gesto há poucas horas.
 Um gesto só. Para ela continuar na infância. Para ela acreditar na bondade. Para ela acreditar no que a mãe me disse:
 “Deus te da em dobro.”

  

sábado, 17 de setembro de 2011

Complicada e perfeitinha.


 Quando estamos apaixonados parece que as outras mulheres percebem. A garçonete me olha a cada dez segundos. Peço uma ajuda:
 “Pra beber. O que você sugere?”
 “Olha, nesse frio, eu to quase sentando com você e tomando um vinho.” Ela me diz sorrindo. Deve ter uns vinte anos.
 De repente uma outra mulher senta-se na mesa e para surpresa dos meus amigos me pergunta se eu sou Libanês. Diz que é por conta dos meus traços. Deixa-me um cartão e pede para eu ligar.
 O gordinho com uma mochila nas costas atravessa a Avenida Paulista correndo. Os carros quase o pegam. Sua barriga vai à frente.
 À noite vou ao concurso de Miss Universo.
 Ela é mais linda do que qualquer miss.
 “Quando eu te vejo de novo?”
 “Nunca mais.”
 Ela me diz assim. Depois de passarmos a noite juntos.
 “Você é doida.”
 “Não Leo. Você é que é doido por mim.”
 “Sabia que eu nunca abri a porta do carro para mulher nenhuma?”
 “Todos os homens sempre abrem à porta do carro pra mim!”
 Quando estamos apaixonados os mesmos lugares tão cotidianos se tornam tão interessantes.
 “Nossa como você está gatinho! Adoro o seu cheiro!”
 “Você também está... Bem bonita.”
 “To indo viajar.”
 “Pra onde?”
 “Outro País.”
 “E volta quando?”
 “Não sei. Mas você ainda tem algumas horas.”
 Quando estamos apaixonados nós vemos uma beleza até no gordinho que atravessa a Avenida Paulista. Adoramos o filme comercial. Amamos o prato feito, com arroz feijão. Eu pelo menos me sinto mais homem. Vou beber com meus amigos. Fico até com vontade de ter um time de futebol.
 O mundo começa a fazer todo sentindo. A profissão dos meus amigos deixa de ser um assunto monótono.
 As amigas dizem para eu usar camisinha.
 “Mas se eu usar camisinha como eu vou ser pai?”
 E ela vai cantando um samba.
 E eu descubro que gosto muito de mulher. Ainda mais esta, que é complicada e perfeitinha. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Me conta uma história.


  “Leo me conta uma história”.
 Eu estava ali com aquela menina ouvindo o mar. No meu quarto em Juquehy.
 A luz da lua entrando e eu completamente apaixonado. Mas e agora?
 Não era a primeira vez que uma menina me pedia uma história. Minha sobrinha sempre me pede. Acontece que a minha sobrinha tem 3 anos. E acredito que ela se prende mais aos gestos e sons improvisados que eu faço, do que na trama propriamente dita.
 E como minha sobrinha não tem ainda um repertório grande, ela nem pode saber se a minha história é realmente boa.
 Mas a outra menina, não a sobrinha, mas a de 1,77 metros virou-se e ficou me olhando:
 “E então? Conte-me uma história pra eu dormir.”
 E agora Leo? Você diz que cantar não sabe. Não escreve poesia, não pinta nem toca violão. Logo ou você diz que está cansado e prepara um super almoço amanhã, finja ser um grande Chef, ou pense logo numa história. Sem nada é que não dá para ficar. 
 Não que eu não saiba muitas histórias, mas eu precisava uma original. Não quero que ela se apaixone por um outro escritor, mesmo se for um morto. Respirei fundo e me lembrei de uma história. Mas uma história que aconteceu ali mesmo em Juquehy. Me lembrei? 
 “Eu estava com o meu amigo Teco, no carrinho de coco dele. Eu já tinha andado a praia toda e agora estava sentado numa cadeira de praia com ele ao meu lado e ambos víamos o mar, num lindo domingo azul.
 O movimento do carrinho estava devagar, pois era inverno. Dois casais se aproximam. Eram quatro jovens na casa dos 20 ou dezoito. Vinham de mãos dadas. Um menino com um corpo perfeito, sem gordura, alto e uma menina mais baixa, também maravilhosa se aproximaram, enquanto o outro casal ficou um passo para trás. 
 -Quanto é o coco? Perguntou o rapaz. No que Teco respondeu 4 reais. -Eu quero 4 cocos, mas vou pagar só 10 reais. É melhor você aceitar os 10 porque você não vai vender mais nada hoje e vai acabar jogando os cocos fora.
 O rapaz ia dizendo estas teorias econômicas de mercado e Teco ia retrucando que não, que os cocos eram 4 reais cada um. -Dezesseis reais. Se não eu não tenho lucro. 
 Eu percebi que quanto mais o rapaz falava mais a menina ficava sem graça. E notei ainda mais. Pelo jeito de falar, os modos e o tom de voz, percebi que se tratavam não de classe média alta, mas de classe alta mesmo.
 O rapaz queria impressionar a garota, como se ele estivesse negociando milhões. O outro casal ficava apático ao lado só observando. Mas durante as negociações que já se estendiam e o rapaz já ia querer ensinar matemática financeira ao Teco, o outro rapaz tirou vinte reais do bolso da bermuda e disse:
 -To fica aí com o troco. Teco então guardou o dinheiro, sorriu e cortou os cocos.”
 Minha amiga me interrompeu:
 “Teco é aquele cara meio surfista que você conversou no carrinho de coco hoje?”
 “É ele mesmo.”
 “Um que tava com uma menina sarada e bronzeada bem bonita?”
 “Esta é a menina que estava com o rapaz do coco.”
 “Então ela largou o carinha mauricinho e agora está com o vendedor de coco?”
 “Isso. Não é uma história de amor linda?” Eu perguntei.
 “Não.” Ela disse.
 “Como não? A patricinha gostar de um cara duro e não de mauricinho? Não é bonito isso?” Eu quis saber.
 “Leo, isto aí não é uma história. É uma fofoca.”
 Minha amiga então se virou puxou o cobertor e disse baixinho.
 “Boa noite Leo. História de amor... Até parece.”
 Mas daí já era tarde demais. E eu não consegui dizer a verdade.
 Que nunca vi nenhum Teco. Nem conhecia o cara do carrinho hoje. Nem a menina bronzeada. Nem nunca vi casais de mauricinhos, comprando coco. E nem sei teorias econômicas.
 E pensei em silencio: O que eu queria menina era me acertar com você. Igual o cara com a menina bronzeada que vimos hoje. Os dois riam, e ninguém nem comprava coco nenhum.
 Juventude, beleza, praia e céu azul já bastam para uma história de amor. Trama pra que? 
 E já no escuro ouvi:
 “Leo eu gosto de você. Mas ainda quero saber o fim desta história.”
 Eu também. Eu também quero menina. E nela você é a protagonista. Minha protagonista.
 E antes de dormir ainda mandei um torpedo pra minha tia.
 “Querida tia, amanhã logo cedo vou te ligar pra saber a receita daquele peixe. Caso de vida ou morte.”
 E no dia seguinte depois do almoço.
 “Leo, suas histórias são ruins, mas já o seu peixe... Delicioso.”
 Será que ela soube que eu atravessei a rua e peguei o prato pronto com o Chef de cozinha do meu restaurante? Que não fui eu, nem minha tia? Essa que aliás sumiu.  
 Então ela suspirou e disse:
 “Depois deste almoço me deu um sono". Bocejou, virou o rosto pra mim:
 "Me conta outra história para eu dormir a sesta?”
 “Não prefere uma massagem no pé?”
 “Pode ser." Fui indo pegar o pé dela.
 "Pode ser uma massagem com histórias." 
 Ufa! Leo, ou bem você começa a cozinhar ou arrume mulheres menos lindas e mandonas. E pra minha sorte, acho que ela não conhecia Giovanni Boccaccio. Ou fingiu não conhecer.
 “Que histórias lindas Leo! Eu não vou nem dormir para ouvir o final.”
 “No final ela lava a louça.”
  E ambos rimos. Ouvindo jazz e vendo o mar. 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fim da primeira jornada.


Certa vez lendo Peter Brook, um diretor de teatro, eu entendi quando se deve terminar um espetáculo.
 Ele diz que quando não sentimos mais o impulso, a motivação, a coisa viva, devemos encerrar.
 Este meu BLOG, crônicas censuradas fez um ano. Com 60 crônicas, 1 novela, 3 contos e algumas peças (cenas) curtas e uma peça de teatro média.
 Quando tive a idéia de ter um blog eu pensava em escrever humor, textos cômicos. Sempre tive em mente trabalhar a ficção e às vezes fatos autobiográficos em forma de ficção.
 Colocar minha visão de mundo não em opiniões claras, mas em situações, narrativas e nas falas dos personagens. Mais um retrato do mundo e menos uma crítica social.
 O que aconteceu logo no início e se seguiu foi que os meus textos não se mostraram humorísticos e todos, praticamente todos, tem um só tema: Meninas.
 Eu nunca poderia imaginar.
 Acho que estes textos falam da minha relação com essas meninas. De como elas me enxergam, ou eu acho que elas me enxergam. Do que eu sinto por elas. Da indiferença delas. Às vezes do amor delas. Muitas vezes do meu amor por elas.
  Mas eu acredito que esta fase está terminada, concluída. Eu quero agora escrever de outras coisas, novos temas.
 Por isso encerro por enquanto este período. E voltarei, não sei quando, com algo diferente, que ainda nem sei o que é.
 Eu nunca reli meus textos. Mas sei que as últimas crônicas caíram em qualidade.
 A última inclusive é um desabafo e não um texto literário. “Homem a beira de um ataque de nervos”.
 Até aqui este blog se mostrou universal. Mas de um tempo pra cá, ele começou a querer seguir para uma forma de diário.
 Enfim. Acho que hoje começa o início da segunda jornada. Valeu! Obrigada leitor. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Homem a beira de um ataque de nervos.

 ADVERTÊNCIA: Isto não tem qualidade para ser uma crônica, é na verdade um desabafo. 

 Fim de semana passado eu fui a um almoço de uma amiga. Uma feijoada. Sábado lógico. Fazia tempo que não via o pai dela. Ele me perguntou o que eu andava fazendo.
 “Bem eu ando a beira de um ataque de nervos!!!”
 “Por quê?” Ele quis saber.
 Claro que eu não contei tudo. Mas o pai da minha amiga é que nem um detetive. Ele é um grande psicanalista. Vai sacando.
 Eu não disse que a minha relação com as mulheres lésbicas anda muito estreita. E que uma delas me convenceu de que eu sou uma “mulherzinha”. Isso eu não conto para ninguém, nem para você leitor.
 O que pega é que quando eu tinha sei lá... Era adolescente o que eu queria eram todas as mulheres do mundo.
 Na verdade eu queria era ser o 007. Nem muito por conta de Mônaco, Itália, Caribe, carrões e bebidas. Eu queria era ser 007 por causa das mulheres que são apaixonadas por ele. Mulheres lindas, e que nunca ficam de TPM.
 Quando eu tinha vinte anos, meus pais diziam que eu era gordo. Eu me achava gordo e velho. Já hoje em dia, com trinta e seis anos, os meus pais continuam me achando gordo. E agora eles me acham gordo e velho.
 Mas agora eu não me acho mais velho. Eu me acho gordo e baixinho.
 “Eu estou fazendo um curta metragem. A história de um cara com 36 que se apaixona por uma menina de vinte. Mas em 15 minutos de filme, ele se descobre apaixonado pela esposa de trinta. Ele percebe que não ama a menina de vinte e sim a mulher de trinta. E se aceita como adulto. O problema é que eu estou confundindo ficção com realidade e acho que me apaixonei por uma menina de vinte. Na verdade por uma só não. Mas por três. Uma de vinte, uma de vinte um e outra de vinte e quatro.”
 Foi aí que ele me disse a frase:
 “O eterno sair e voltar.”
 Acho que ele quis dizer que passamos à vida entrando e saindo da infância. Entrando e saindo da adolescência e da vida adulta. Não só em relacionamentos, mas em tudo.
 Acontece que eu fujo ao padrão. Eu não terminei a faculdade, eu nunca trabalhei num escritório e eu nunca quis ser jogador de futebol. Vocês conseguem imaginar o 007 jogando futebol?
 O que eu quero dizer é que eu não sinto falta da turma da faculdade, do primeiro emprego, primeira namorada, eu não tenho este tipo de nostalgia.
 Eu sinto falta daquele cara, que se acha alto, magro, cafajeste, seguro e sedutor. Que consegue pegar a mulher que quiser.
 Acontece que ele vem só às vezes, e tem fases que ele demora a aparecer.
 No mais sou obrigado a conviver com este aqui. Que escreve blog, afetado, inseguro e apaixonado pela primeira criatura que cruza a sua vida.
 Outro dia saí com uma mulher de trinta. Engraçada, louca, linda, segura, promíscua, sensual, um puta papo e sofisticada. Uma pele e um corpo lindos.
 Me bateu uma saudades dela. Daquela bunda, daquela informalidade. Das risadas. De beber com ela.
 Mas eu queria era eu ser o 007 e não ter uma mulher 007.
 “Acho que você quer dormir sozinho, não é? Vou te deixar dormir a vontade na sua cama e vou embora.”
 E se foi.
 Liguei então para uma amiga lésbica e contei a história.
 “Leo são quatro da manhã e você está me contando sobre uma mulher que você acabou da transar e foi embora. Sabe o que você é?”
 “Sei um homem a beira de um ataque de nervos.”
 “Não. Você não é um homem a beira de um ataque de nervos. Não. Você é uma mulherzinha.”
 “Na verdade minha amiga, todos nós homens somos. Eu só não disfarço.”
 “Leo você é uma lésbica e boa noite.”  
 Então sozinho comecei a lembrar do diálogo. Do que ela a menina, a mulher tinha falado. O que será que ela quis dizer? Será que eu tinha que ter insistido para ela ficar? Será que eu ligo? Será que ela gostou de mim? Será que eu estou gordo? Será que eu estou velho? Nossa Leo...
 Será que o 007 fica se perguntando essas coisas? Não. Acho que não.
 Ah se eu fosse um pouquinho mais alto! Ah se eu tivesse olhos verdes! Uns cinco centímetros a mais, de altura... E não tivesse alguns fios brancos. O que mata é um ossinho que eu tenho aqui... Ah! Se eu fosse mais jovem... Amanhã começo um regime. Será que eu tinha que ter insistido? Será que o problema é a minha barba? Será que eu falei alguma bobagem? Algumas? Devo ter falado. Eu sempre falo. Daí eu bocejei.  
 E peguei no sono. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A foto do beijo.


 Combinaram num bar. Ele chegou antes. Pediu uma cerveja e ficou olhando pra rua, folhando um jornal.
 Ela com seu jeitão de moleca vinha tranqüila fumando um cigarro. Como se não estivesse em São Paulo e sim no Rio. Ela veio a pé, morava ali perto.
Deu um sorriso e mostrou o cigarro. Ele entendeu. Ela queria terminá-lo na rua. Ele fingiu que voltara a ler o jornal.
 “Oi.”
 “Oi.” Ele riu.
 “Que foi algum problema?”
 “Você é engraçada.”
 “Engraçado é ler jornal de ontem.” Ela disse.
 Foi aí que ele percebeu que o jornal era de ontem.
 “Você é bem inteligente sabia?”
 “Inteligente? Só porque eu vi que o jornal era de ontem?” Ela disse e fez um não com a cabeça. Depois riu.
 “Quer tomar alguma coisa?”
 “Não”. Pausa. "Você é engraçado.”
 “Um amigo meu diz que quando um casal de namorados ri um do outro, é porque eles se amam.”
 “Acho que quero uma cerveja.”
 “Traz mais um copo.” Ele pediu ao garçom. E ela riu de novo. “Já te disseram que você se parece com...”
 “Já.”
 “Quem disse?”
 “Você.”
 “Nossa, como eu estou repetitivo.” Ela riu.
 “Você é engraçado.”
 “Você não costuma tomar muito sol?”
 “Nós não somos namorados.” Ninguém riu.
 Ele pediu a quinta cerveja. Estavam agora falando de religião.
  “Você está rindo porque eu vou numa igreja?”
 “Não, eu estou rindo porque não somos namorados.” Ele disse.
 “Na verdade eu nunca tive um namorado.”
 O garçom trouxe a conta.
 “Estamos fechando.”
 Já não tinha mais ninguém e as portas quase todas abaixadas.  Pagaram à conta. E quando estavam quase na rua, ele parou, olhou as paredes e perguntou para o garçom e o caixa:
 “Cadê o quadro da foto do beijo?”
 “O que?” Fez o garçom. Olhando para parede também. Havia várias fotos, mas não aquela. A foto de um casal que se beijava, enquanto um garçom que já colocara as cadeiras em cima das outras mesas observava pronto para fechar o bar.
 “Eles tiraram.” Disse com tranqüilidade o caixa.
 Ele deu de ombros. Estava frio.
 “Eu ando um pouco com você.” Ele disse a ela.
 “Você que sabe.”
 Começaram a caminhar. Ele a olhava, ela realmente era uma moleca.
 Chegaram à esquina. Uma noite estrelada e fria.  
 “Tinha um quadro lá que era uma foto de um beijo. Linda a foto. Um beijo de fim de noite.” Ele disse.
 “É... Tem gente que espera uma noite toda para dar um beijo.” Ela riu.
 “Do que é que você está rindo?”
 “De nada, eu estou cansada.”
 Despediram-se. Com um abraço. E ele ainda disse:
 “Eu acho que o trabalho vai ficar ótimo. Eu gosto de trabalhar com você.”
 “Eu também. Você é legal.”
 E cada um foi para um lado.