quarta-feira, 4 de julho de 2012

Dois tipinhos raros de mulheres.


Tempos atrás escrevi sobre alguns tipos de mulheres digamos mais evidentes.  Tipos que conhecemos aos montes. Nesta continuação vou falar de algumas espécies, não diria propriamente raras, em extinção, mas tipos de mulheres que dependem de combinações de fatores para existirem. Assim parece tudo muito complexo, complicado, é e não é. Então chega de falação e vamos aos tipos:

Primeiros dois:

A feia sortuda.


 Sim leitora você já deve ter ouvido falar. Aquela menina do colegial, um tanto quanto nerd, grossa, um tanto elitista, sem charme, sem sensualidade nenhuma, com pouca inteligência. Usava aparelho e falava cuspindo. Para ela ninguém era bacana, detestava os artistas, os pensadores. Se vestia mal. Sem assunto. Com a idade foi ficando mais feia e mais sem graça e um belo dia você descobre que ela se casou.
 Só o fato de ela ter se casado já é algo extraordinário. E eis que sua amiga diz que a feia chata não só casou, mas que o marido é um executivo bem sucedido que ganha milhares e milhares de reais por mês.
 Os filhos da feia babaca estudam em escola americana. Ela tem babás e empregadas. Carro alemão, motorista, casa na praia, fazenda... E viaja quatro ou mais vezes por ano para fora do Brasil. Viaja de classe executiva, às vezes de primeira e só fica em hotel com meia dúzia de estrelas.
 E o marido não é ruim não. É menos que um Tiago Lacerda, mas também não é baixinho, tem a idade dela, tem cabelos e não é gordo. Um cara que dá pra beijar sim senhora. Um cara que daria pra desfilar mesmo que não fosse este executivo chefe.
 E ela agora sai nas revistas e é convidada para eventos culturais que a empresa do marido patrocina e não são poucos não. Ela que não gostava de artistas agora continua não gostando e ainda os esnoba. Pois há uma fila deles puxando o saco dela, por causa do patrocínio.
 Ela passa os dias no clube falando o quanto é rica e feliz. E chega a cogitar apresentar conhecidos para mulheres feias como ela. Conhecidos, entenda-se aí, homens bonitos, bem sucedidos e jovens para babacas feias como ela. Porque ela acredita que ela não é exceção.
 Às vezes acontecem coisas assim. Sem explicação. Alguns homens embora tenham dinheiro e outros atrativos, escolhem casas, prédios sem arquitetura, enormes e sem harmonia para morarem.
 Às vezes querem a certeza de que nunca serão cornos. Mas o pior é que são. Porque a feia babaca de tanto ficar apresentando homem interessante para mulher feia babaca, acabou que mordeu alguns pelo caminho.
 Realente se a feia babaca, não tiver empregadas bonitinhas e nem tão pouco espelho em casa, ela será a mulher mais feliz da terra.


A ex Miss High School.

 Ela sempre foi linda. Não chegava a ser a melhor aluna da classe, mas era ótima em todas as matérias. Esportista, feliz, namorou os meninos mais bonitos, ricos e populares. Sempre existiu uma legião de admiradores e outras dezenas e dezenas de apaixonados.
 Como filha era exemplar. Quando faltava em uma festa familiar era uma choradeira. Todos a queriam por perto. Era e sempre foi o centro das atenções em todos os lugares. Na faculdade então... Os professores eram apaixonados.
 Ela acabou se tornando uma professora. Seus alunos a amam. Recebeu pedidos e mais pedidos de casamento. Homens bem sucedidos, rapazes maravilhosos, e caras maravilhosos e bem sucedidos ao mesmo tempo. Uns ela recusou, outros nem respondeu.
 Diziam que mais cedo ou mais tarde, ela acabaria se casando com um príncipe.
 Então ela conheceu um pintor. Ele era mais velho que ela. Vinte anos mais velho do que ela. Era um pintor desconhecido, ou ainda, pouco conhecido. Baixinho, bem mais baixo do que ela. E feio. Um homem sério, que ria pouco. Contrastava com ela em todos os sentidos e adjetivos. Ela tem um sorriso lindo.
 Casaram-se. Tiveram três filhos. Vivem numa pequena casa num bairro longe. Mais longe do que você imaginou leitor. Ela continua linda e dando aulas. Ela é quem sustenta a casa.
 Ele, o pintor, só tem tempo para pintar. Tentou dar aulas, mas atrapalhava a sua disciplina no atelier.
 Como eu disse acima, há coisas que não se explicam. Teria ela cansado da vida fácil? Teria ela se apaixonado por este homem tão desinteressante (para maioria das pessoas)?
 Deus quando cria heróis e heroínas vai tão fundo. Ela é melhor que todas as mulheres. E provavelmente mais feliz e resolvida do que a maioria. Mas ela quer tanto uma máquina de secar roupa. E uma cozinha maior também. Este tipo leitor é muito raro. Muito. Nossa que sorriso ela tem!!!




quarta-feira, 30 de maio de 2012

Skeeter e Scarlett.



 Scarlett O’Hara, exibicionista, linda. É obcecada pelo seu primo. Ama, ama,ama, ama, o amor é sua única preocupação na adolescência. Procedente do Sul dos estados unidos.
 Seu ideal de vida é que a civilização escravocrata se perpetue eternamente. Fazer com que suas terras permaneçam para sempre na sua família.
 Com a guerra, perde tudo. Não hesita em matar, roubar, enganar e casar sem amor, para continuar no poder. Ou seja, continuar com suas terras e títulos aristocráticos. A sua sensualidade lembra uma vilã dramática, ou ainda uma jovem apaixonada numa comédia romântica.  
 De tão estereótipo ela, Scarlett, se torna humana. E os homens são presenças essenciais no grande filme e o “Vento levou”.
 Leitora, quantas e quantas vezes, eu não me lembrei de Scarlett, depois de tomar um fora. De uma decepção amorosa. Inúmeras. Se ela a mulher mais linda do Sul era desprezada por um homem que de marcante não tem nada.
 E quantas e quantas vezes eu não me senti o capitão Red Butler também. Quando as minhas Scarletts me desprezaram, eu pensava: “Um dia, um dia, elas verão que eu é que sou o realmente o amor da vida delas.”
 Mas eis que ontem leitora, resolvo, depois de muito hesitar, assistir ao filme “Vidas cruzadas”.
 E lá estava ela, Eugenia Skeeter, cem anos depois da Scarllet, no mesmo Sul dos EUA. Mesma elite e civilização, que o pernambucano Gilberto Freire, dizia ser tão parecida com a Nordestina Brasileira. A comida apimentada, os costumes conservadores, as enormes fazendas de platation, lá algodão, aqui a cana. A escravidão.
Mas voltemos a Skeeter. Eugenia, não é uma princesa. Não ama ninguém aparentemente. Não é bonita. Não é exibicionista. Não é charmosa. Nem estilosa. Não tem convites pra sair. Não é querida pelas amigas, não é uma líder. Não é a filha que a sua mãe queria. Eugenia vem de uma rica família tradicional do Mississipi dos anos 60, e parece que é só. Agora o Sul vive de certa forma o sonho econômico americano. Mas a divisão racial está prestes a explodir em uma guerra civil, só que desta vez: Sul contra Sul. Americanos negros reivindicando seus direitos civis.
 Então Skeeter é uma líder política? Uma revolucionária? Errado ainda. Ela consegue um emprego no jornal local, para continuar com uma coluna de conselhos domésticos.
 Acontece que Skeeter tem criatividade na mesma proporção que tem coragem. E ela apesar de estar no atrasado Sul, é uma das criadoras, inventoras do New Journalism.
 Skeeter tem uma voz única e gigante. Eugenia Skeeter talvez não tivesse o infinito número de homens atrás dela, com Scarlett, porque no fundo os homens sabem que sempre serão inferiores a ela.
 Porque com Scarlett é um desejo, com Skeeter é uma admiração, amor, ela é uma personagem dramática, uma heroína, mas é mais que isso também. Ela me da inveja. Vontade de ser como ela.
 Já Scarlett, é um desejo de possuí-la. E para que a leitora não ache que eu sou sujeito mórbido, eu to falando dos personagens mulheres e não das atrizes que os interpretaram, ok?
 Skeeter viveu num mundo de duas opções, os afazeres domésticos das mulheres, a vida prática dos homens, os brancos privilegiados e negros oprimidos e humilhados.
 Ela não só denunciou este mundo, nem só quis transformá-lo. Ela só era uma desajustada. Talentosa e desajustada.
 O mundo se reconstrói por Scarletts. Mas novos mundos são inventados por gente desajustada, pessoas corajosas, talentosas e muito lindas, como Eugenia Skeeter. 

 (Fica a dica: "The help", no original. "E vidas cruzadas", no Brasil). 

domingo, 20 de maio de 2012

Hard Rock Chocolate


 Incrível! Ontem fui a uma exposição de Rock no Ibirapuera. Na Oca. Acredito que teve um grande apoio da revista Rolling Stones. Digo incrível, porque pela primeira vez peguei fila para comprar o ingresso numa exposição na Oca.
 O ingresso custou 20 reais. Havia pessoas de todas as idades, a maioria com menos de 50 ok. Eram de todas as classes sociais. E todos entendiam tudo. Nada de textos de curadores dizendo isso e aquilo outro. Não.
 A exposição era composta na maioria por objetos das bandas, como figurinos, LPS, instrumentos e fotografias. Em alguns lugares painéis contavam um pouco a “história” deste gênero musical.
 Acredito que na minha cidade, São Paulo, todos tenham um pouco de Rock dentro de si. Mesmo porque havia até uma foto de Chico Buarque lá. Uma de Jô Soares, outro retrato da Dilma. Impossível fugir.
 Mas aqui vai a minha opinião, do porque o Rock estar tão vivo, e ainda ser tão procurado. 
 Todos aqueles músicos e bandas saíram da rua. É isso. Da rua. 
 Nenhum deles veio da academia. Ninguém fala do currículo escolar deles. O Rock veio dos ritmos norte americanos, mas o gestual é das máquinas. O modo cortado e seco de dançar é lá da cidade operária de Liverpool. De Cubatão. De Chaplin. É o apertar de um parafuso. Experimente. 
 Eles nunca saíram da rua. Ao contrário do teatro, por exemplo, as pessoas não acham que devam entender o Rock. Elas são Rock e o Rock são elas. Saia na rua e Rock está ali. Não precisa de feriado.
 Eles ocuparam o lugar que o cinema teve até os anos cinquenta. Não existe nada mais popular que o rock.
 Minha namorada, que estava comigo, disse que enquanto houver adolescentes haverá o rock. Que ele será um momento na vida de todo cidadão. Se você contesta alguma coisa, você já está no rock.
 Ela diz também que o rock a fez conhecer o Brasil. A partir de Chico Science, ela conheceu outros gêneros brasileiros, como até o cordel.
 Já para mim, olha eu vou dizer algo bem babaca, pra mim o rock é o carboidrato da música. O chocolate. E eu amo chocolate!
 Entre João Gilberto e Bob Dylan?
 Bob mil vezes.
 "O rock ou Rock and Roll é o pai, o filho e o avô".  (frase lida na exposição). 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Puerto Rico is in the America do Sul.


 “Diário de um jornalista bêbado” é um filme em que eu gostaria de fazer parte do roteiro. Como personagem. Não se trata de uma comédia propriamente dita, mas há personagens estereotipados. Ou ainda caricatos. Antes de tudo quero deixar claro que pra mim isto é uma benção. Vamos ao resumo, não da trama, mas dos personagens.
 Troquemos aqui, Americanos por Paulistanos. E Porto Riquenhos  por Porto Segurenses. Ou ainda colonizadores e nativos.

 Príncipe:


 Características da personagem:

 Fez uma faculdade média. Afinal gente bonita não precisa de GV. Tem um sorriso lindo, sedutor. Esportista, pode variar entre 30 a 45 anos. No auge da forma. Tem todos os cabelos. Com certeza mais de 1,75 metros.
 Bronzeado, contrata um arquiteto descolado e constrói uma casa de 1500 metros quadrados. Sendo 120 metros quadrados de área útil. E o resto nem o próprio arquiteto sabe dizer direito pra que serve. A casa fica num sítio, fazenda de frente para o mar. Com uma praia “particular”. Ou duas praias. 
 Tem o kit completo. Modelo de família, não ele, a jovem de 22 anos, que é modelo e tem família. Veleiro, helicóptero, roupas da oskley, richards e de Miami. Um Land Rover, ou qualquer coisa que lembre o casamento de um Jipe com um carro de luxo.
 Nunca conversou com nenhum nativo. Talvez seus criados. Cachaça só se forem aquelas fashion que ele mesmo está penando em investir. Aquelas que parecem vidro de perfume e bebida escandinava dos anos 90.
 Ele é o relações públicas do grupo local de capitalistas investidores. Graças ao seu sorriso sedutor e a sua total alienação.


 Seu sonho:

 Dentre alguns: Ouvir que sua casa lembra a do Steve Jobs. Hospedar uma celebridade internacional. Saber que sua casa é maior do que a do príncipe concorrente.

Jornalista bêbado:


Características da personagem:

 Total falta de foco. Se apaixona pela modelinho de família. Mas compreende a situação. Ele mesmo se fosse uma modelinho de família daria para o príncipe. Não entende a obsessão que o príncipe tem com ele.
 Talvez o príncipe não se conforme de que o único bem material, dele príncipe, que o jornalista inveje, seja a modelinho de família. 
 Capacidade de ver defeito na desigualdade entre nativos e colonizadores. Qual o problema afinal? Os colonizadores estão dando emprego, gerando turismo.
 Total indiferença pelos nativos coronéis. Capacidade de se misturar com os nativos e ainda curtir a situação.
 Mesmo desprezando as oportunidades de empreendedorismo imobiliário, como criar enormes condomínios seguros, cercados para os colonizadores. Mesmo assim, escreve bem e se mete nas melhores aventuras.
 O Príncipe não tem aventura nenhuma.

Sonho:

 Encontrar a sua voz interior como artista. Ser lembrado como um pioneiro na descoberta daquela nova cultura. Mas seu maior sonho mesmo é comer a modelinho de família. Aliás, o público todo deseja a modelinho. Não só a plateia do cinema, mas também os nativos. Já as moças querem o Príncipe.  Vamos logo para o terceiro personagem, tão falada até aqui.

 A modelinho de família.

Características da personagem.
 O ideal era uma foto dela. E só. É uma menina num corpo de mulher, que seduz a todos e fica maluquinha.  Ela quer é curtir. E alguém a condena?

 Sonho:

Dar pro nativo (um negro alto e lindo, sarado), e pro jornalista bêbado. 
 E que o Príncipe não descobra nada. Tem gente que acha que em determinada ora, ela se apaixona pelo jornalista. Porque ele é escritor.
 Eu não acredito não. Ela nem lê.

Chefe de peruca.

Características da personagem:
  
Um herói fracassado, que quando jovem queria salvar os nativos, agora é um vendido aos colonizadores capitalistas.

 Sonho:

Ter paz e sossego num mundo sem direita e nem esquerda.


Colonizador branco e gordo.

Características da personagem:

 Sujeito, egoísta, hipócrita, direitista, racista, homofóbico, consumista, materialista, capitalista... Capitalista é ofensa?
 De bom, ele... Horas bolas, de bom, ele também quer comer a modelinho de família. Neste sentido ele tem bom gosto.

Sonho:

Colesterol baixo, Viagra, ar condicionado e uma vidinha confortável.  

 Amigos do jornalista bêbado.

Características das personagens:

 Perdedores, com meio talento. São seres que faltam alguma pecinha, ou uma ambição por menor que seja. Cultos dentro da contra cultura, apreciam arte, culinária local, sonham. Prestigiam a boa música, sonham com mulheres, se divertem, se misturam.
 Do tipo de gente que tem história para contar. O que alguns chamam de irresponsáveis, transgressores, radicais enfim bêbados de certa forma felizes.

Sonhos:

 São tantos. Basicamente eles se alimentam de sonhos.   
 Bem da verdade o filme mostra a visão do colonizador em cima dos nativos. Os personagens dos nativos são estereótipos, ora do opressor, ora do oprimido, do preguiçoso, todos com aquele ar latino americano que eu amo.
 Eu sei que está na moda dizer que a América Latina é bem diversificada, que aqui vivem inúmeras culturas e etnias bem distintas uma das outras. Pode até ser.
 Conheci Porto Rico bem jovem. Um dia sai do Hotel five star, estilo internacional, e caminhei até o que eles chamam de: “Old San Juan”.
 Tomei Run, olhando o mar e sonhando com piratas. Vi turistas felizes, dançando a música caribenha.
 Assim como a Bahia, o caribe é um lugar aparentemente pacifico e cordial. Desde que você não queira levantar o pano. Desde que você seja um turista neutro. No meio. Como o jornalista bêbado se define no filme.
 O Haiti pode não ser aqui. Mas os soldados de lá são Baianos. 

domingo, 29 de abril de 2012

Vantagens de ser solteiro.


 O funcionário da rádio se aproximou do casal e disse que faltavam cinco minutos para eles entrarem no ar. A menina olhava a cidade lá embaixo. Estavam num andar muito alto na Avenida Paulista. Depois olhou para o rapaz.
 “O que você está escrevendo?” Ela quis saber.
 “É uma ideia para um conto. Um cara que vai dar uma entrevista com uma garota, sobre uma peça que estão fazendo juntos, e ele se declara pra ela no ar.”
 “Coitada!” Diz a moça. Depois completa. “Mas isso já aconteceu de verdade. Só que na televisão. Acho que foi lá pros lados dos Estados Unidos.”
 Meus irmãos vivem me dizendo que eu deveria frequentar palestras. E eu nunca vou à palestra nenhuma. Por que, quer saber o leitor? Não sei dizer. Todas as que eu já fui gostei muito. E eis que me chega um convite para dar uma palestra. O tema era: “As vantagens de ser solteiro.”
 O público seria composto por membros de um tal Pink Clube. De inicio pensei tratar-se de um público gay. Mas depois vim a saber, que seria uma palestra, seguida de um debate com mais dois oradores. Um casado, eu e uma terceira opção.  Falaríamos para um público eclético.
 Pensei então nas vantagens de ser solteiro:
 Meu Deus! Eu não conseguia pensar em nenhuma.
 “Onde vocês se conheceram?” Perguntou no ar e ao vivo o radialista.
 E toda aquela plateia, de duzentas pessoas, me olhando e esperando as vantagens de ser solteiro.
 Me apresentei, andei de um lado para o outro do palco. E comecei:
 “Vocês sabem quais são as maiores vantagens em se ser solteiro?”
 Para aumentar meu desespero ninguém na plateia pareceu querer responder.
 “Vamos lá podem falar.” Um gordinho timidamente, olhou para os lados e foi levantando a mão. Bem lentamente.
 “Pois não, pode falar.”
 “Se a gente é solteiro, não seremos cornos.”
 “Muito bem observado". Ele sorriu satisfeito com o aparente acerto. "Mais alguém?”
 Neste instante a plateia começou a rir.
 “Como vocês se conheceram?”
 A moça sorriu. Olhou todos sentados na mesa. Era uma pizzaria.
 “Eu fui dar uma entrevista na rádio, pra ele.”
 Andei de um lado para o outro do palco, esperando outra resposta...
 Desta vez uma linda menina, nem levantou a mão, já foi falando:
 “Poder assistir ao canal que quiser não ter de dar satisfação, usar o banheiro de porta aberta, não precisar tomar banho...”
 A menina falou outras escatologias, enquanto metade da plateia aplaudia e outra vaiava.
 Na hora em que o rapaz criou coragem, que decidiu após vinte minutos de entrevista, que este agora era o momento, respirou e já ia falar, quando foi pego, ou atropelado pelo radialista:
 “Vocês não estão vendo o quanto esta garota é bonita... Olha, eu acho que nunca entrevistei uma mulher tão charmosa e linda aqui no rádio...”
 Agora era tarde. Ele tinha perdido o momento.
 Alguém mais sabe outra vantagem?" Uma senhora agora.
 “Poder vir a palestras com esta”.
 “Muito bem. Esta é sem dúvida uma enorme vantagem”.
 Não preciso dizer ao leitor que perdi o debate, para o palestrante casado. Mesmo tendo ajuda do palestrante, terceira opção, que se dizia enrolado.
 Porque a verdade é que alguém casado, pode optar por fazer algo só, ou estar com o companheiro ou companheira. Pode ir ao cinema só ou acompanhado. Pode escolher jantar só ou acompanhado. Já o solteiro, embora aparentemente tenha todas as opções do mundo, na verdade ele tem uma só. A solidão. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Asterix, Malvinas e minha namorada.


 O leitor deve estar acompanhando as “celebrações”, dos trinta anos da guerra das ilhas Malvinas.
 Acho que desde que o enorme e perigoso Paraguai nos invadiu, nenhum outro conflito de proporções desta magnitude ficou tão perto da gente aqui de São Paulo.
 E falando em São Paulo estava eu subindo hoje a Alameda Casa Branca, e sem querer me escapa:
 “Oh mochila pesada!”
 Minha namorada parou me olhou, e disse:
 “Da isso aqui pra mim. Eu já disse que não queria que você a carrega-se. Se ela é minha...”
 “Eu só disse que ela é pesada.” Ela me olhou ainda mais brava e falou séria.
 “Você nunca fez exercito, né Leo? Você daria um péssimo soldado.”
 Eu no meu machismo ia começar a gritar o que ela sabia sobre exército?  Já ia com dedo apontado para a cara dela. Ela já estava com a mochila nas costas, e não parecia achar nada pesado. Continuou a subir a rua.  Sem me dar importância.
 Quando me ocorreu que assim como ela, eu não sei nada a respeito de exército.
 Por que afinal o povo que mora naquelas ilhas, sem árvores, com muitas pedras e um vento gelado, deve optar ou por Inglaterra, ou por Argentina?
 Não podem simplesmente serem uma vila livre e independente como a do Asterix? Um lugar bulcólico, autossuficiente?
 Você sabia leitor, que foi uma mulher chamada Margaret quem aceitou começar a guerra das ilhas Malvinas, ou ilhas Falklands?  
 Dias antes no parque do Ibirapuera, dois jovens falavam de carreiras, salários, chefes e colegas enquanto tomavam um lanche depois dos exercícios. Aqueles dois jovens nunca haviam se alistado no exercito. Porque eram jovens, mas eram meninas. Nada na fala delas lembrava o feminino.  Elas conversaram uma hora só sobre valores, mercado, preços. Nada sobre homens, crianças, moda...
 E como não estamos nem na Suíça nem em Israel, por que deveriam ter se alistado?
 Há algo interessante em ser Brasileiro. Nós não sabemos direito para que serve um exército.
 Para o Chaves não tomar o Amapá? Para vermos desfiles no sete de setembro? Uma vez me ensinaram que ele serve para além de proteger as nossas fronteiras, fazer a nossa constituição ser respeitada.
 Na volta da exposição do museu quando, ela, a minha namorada, reclamava dos pés que doíam, eu disse:
 “Eu teria dado um excelente soldado.”
 Ela que já nem se lembrava, franziu a testa. Acho que depois lembrou e deu de ombros.
 “Sabe por que eu teria dado um bom soldado?” E ela que é mais alta do que eu:
 “Não. Não sei. Por quê?”
 “Porque lamentavelmente todo garoto de 17 anos é louco para ser soldado. E os caras de 37, por mais aliviados que são por nunca terem sido, sempre terão uma curiosidade. Como seria ter ido para a guerra?”
 Acho que é a mesma sensação da mulher que nunca deu a luz. Mas isso tudo tem os dias contados. Com os aviões caças robôs, e os homens engravidando.
 Felizes, mais felizes ainda que o Asterix e Obelix é o povo das Malvinas.
 Asterix tem de se defender por si só. Agora o povo das ilhas, têm Inglaterra e Argentina brigando por eles. O conflito mais improvável e fictício dos últimos tempos.
 Será que é realmente só uma vontade masculina adolescente de brigar?
 Ou será que de novo tem uma mulher querendo ver um monte homens se matando? Hein Cristina? 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sherlock Holmes e a empregadinha.


O caso que vou contar aqui aconteceu por coincidência. Meses atrás eu mal conhecia Holmes. Claro que temos muitos amigos em comum. Frequentamos os mesmos bares da Vila madalena. Às vezes o vejo em vernissages, shows e outros lugares frequentados pelo público alternativo.
 Sim escutei boatos sobre ele. Aliás, todos nós já ouvimos. Uma conhecida certa vez foi a sua kitinete. Ela disse que estava fascinada por ele. Mas ao ver aquele lugar todo sujo, largado, com pizzas e cinzeiros espalhados por todo canto. Ela não conseguiu.
 Existe uma diferença entre ser famoso, ser talentoso e ser rico propriamente dito. Eu sei que existem várias meninas loucas pra dar pra ele pela cidade a fora. E de todos os tipos, ninfetas, mulheres exuberantes, peruas, universitárias... Enfim, uma gama bem diversa.
Mas não desviemos do assunto. Durante um período da vida, eu passei por grande mistério. Sim leitor. Eu ia ao supermercado da esquina que é 24 horas e entre as coisas que eu comprava, havia um sal cine. Sim aquele que vem com um bonesinho de tampa.
 Chegava com as sacolas, na época de plástico, e ao retirar os produtos percebia que o sal havia sumido. Me aconteceu durante umas dez visitas ao supermercado. De todas as mercadorias a única que nunca chegava era o sal cisne. Cheguei a só comprar o sal. O que me causou constrangimento na fila. Mas mesmo assim ao chegar em casa ele havia sumido. Como? Um mistério leitor. Um verdadeiro mistério.
 Mas este ainda não é o mais intrigante. Certo dia eu passei a usar o elevador de serviço. Sei lá por que? Para variar um pouco talvez. Escapar dos vizinhos malas. Na segunda vez o elevador parou no quarto andar e ela entrou.  Era uma empregadinha ruiva, com sardinhas no rosto.
 Sorriu, falamos da chuva e tal, chegamos ao térreo e ela se foi. Toda vez que comecei a usar o elevador de serviço ela surgia. Sempre sorrindo e falando do tempo, do transito, da cidade do barulho. Mas sempre feliz, simpática e sorridente.
 Incrível, mas não havia uma única só vez que eu não usasse o elevador de serviço sem que ela não estivesse lá. Passei a usar o social. Mas na quarta vez ela também surgiu no social. E agora não importava qual elevador eu escolhesse, ele o elevador, sempre parava no quarto andar, e ela aparecia.
 Então um dia saí pela escada. Um horário que nunca saio, seis horas da manhã, e quando eu passava pelo quarto andar, eis que a empregadinha ruiva surge. Aquilo me intrigou demais.   
 No dia seguinte fingi que ia para o outro lado, mas a verdade é que passei a segui-la. Tinha virado para a esquerda, andei uns oito passos, parei e dei meia volta, pegando agora a direção da direita.
 Leitor você não vai acreditar. A empregadinha pegou o caminho do bairro da Vila Mariana. Foi indo pela Avenida Paulista. Entrou numa rua a esquerda, depois à direita. E eu sempre tomando cuidado para não ser visto.  Com óculos escuros, um gorro e uma cadeira de rodas. Mas qual não foi a minha surpresa a ver a empregadinha entrando na Baker Street. Parou em frente ao prédio de Sherlock Holmes tocou a campainha e entrou.
 Bem, não era lá uma ruivinha nota dez. Mas se levarmos em conta a mocréia que o Strauss Kahn é acusado de ter agarrado, até que a ruivinha era ajeitada.
 Esperei duas horas tomando uma água de coco na banca da esquina. Fiquei de saco cheio e desiste. Me mandei.
 À noite pensei comigo, caso encerrado. O Holmes está comendo a empregadinha aqui do prédio. Logo, os boatos são somente boatos. Senti até uma inveja do detetive. No dia seguinte ela não estava no elevador. Nem no outro dia tão pouco. E nem outro ainda. Em nenhum dos elevadores. 
 Somente uma semana depois é que fui reencontrá-la. De novo me sorriu, falou do tempo. E eu, debochado como sou, quando o elevador ia chegando ao térreo, emendei:
 “Acho que você conhece um amigo meu. O Sherlockinho?”
 “O Seu Holmes? Claro. Sou diarista dele. Doutor Watson é que me recomendou. O senhor conhece o doutor?”
 “De vista. De vista.” Disfarcei e sai andando. “Até logo.”
 “Até logo”. Ela sorriu. 
 Elementar. Elementar. Mas até que a empregadinha ruiva é charmosa. Não consegui tirar ela do pensamento a noite toda. Na manhã seguinte interfonei para o quarto andar.
 “Aqui é o moço do elevador. Você por um acaso não tem sal para me emprestar?”
 Ela tinha. Ela me deu um potinho de sal cisne. Mas quando retornei para a minha casa, procurei nas mãos, nos bolsos e nada. O sal cisne havia desaparecido. Um mistério. Um verdadeiro mistério.