segunda-feira, 3 de setembro de 2012

É tudo igual?


Até hoje nunca publiquei uma crônica convidada. Mas eu gostei muito desta. O nome da autora é Livia Prestes, ela tem 20 tantos anos, é paulistana e atriz. Descubra você leitor qual dos tipos de homem você é. E você leitora identifique os tipos que você conhece. Boa leitura. 


  
  Homens são todos iguais. Só muda o endereço. O contexto. O tom da voz. A suposta futura sogra.  Mais alguns outros mil detalhes, que os torna bem diferente um do outro. As vezes parece tão único e depois se mostra tão previsível... A verdade é que eles tem prós e contras. Depende da sua disposição e das suas tendências para amá-los ou não. Se apaixonar e enjoar da parte chata, é só uma questão de tempo. E de afinidades também. A mulherada sempre vem contar alguma história de homem! Geralmente as que deram errado. O que está dando certo a gente não conta muito. Vive que é melhor. Abaixo eu tento não classificar ou rotular, longe de mim! Mas definir alguns tipos que já vi por aí.


O gringo


 Dependeria do país para mais detalhes, mas os gringos que não optaram em ser malucos, ainda tem dinheiro, ou fingem que tem, e querem casar. São românticos, vão te surpreender. Prometem aprender sua língua e ainda propõe de vocês aprenderem uma nova juntos, para fazerem amor em português, russo e chinês um dia. Fala das guerras que teve no país dele com orgulho, tentando te convencer de que hoje, aonde ele vive e nasceu é o melhor lugar possível para se ter e criar os filhos. Ele te dá segurança e presentes caros.  Tenta justificar os erros que comete dizendo que isso não está na cultura dele. Quando uma coisa acontece de muito legal, isso é super normal na cultura dele. Se veste bem, mas vai de camisa á praia. Está sempre cheiroso, chique, vale a pena se vestir para um homem deste. Ele vai notar suas vestes sempre. Vai dizer que hoje você está mais bem vestida que aquele outro dia, e que esta marca de perfume tal combina mais com você. Ele lembra até se a maquiagem combinava ou não com a roupa e com a ocasião. Ele é fã de Rihana. Quer uma brasileira pra ele, morena.  Canta junto as músicas americanas que tocam na rádio. Aumenta o volume quando elas passam.

Porém

Sabe aquela história linda de um escritor famoso do seu país? Ele vai dizer que leu pra passar no vestibular e acha um saco essas coisas. Vai chamar de “essas coisas” mesmo

Todavia

Você vai cansar de namorar em inglês. Vai querer comer feijão preto e falar de coisas que ele nunca vai entender. Ele vai insistir que o Brasil não é seguro! E você vai se irritar.



O esportista saudável


Ele fez educação física, gente. É super atencioso, adora crianças e elas o adoram também, o chamam por outro nome, tio alguma coisa. Ele dá aula de natação num clube, é personal trainer de madames, participa de corridas, triatlos, tem um grupo de amigos homens lindos como ele, onde saem juntos para fazer mais esporte, desta vez, por lazer, ufa!  É do tipo que te olha de longe no parque Ibirapuera, muda a rota dele e “sem querer” tromba com você na pista de corrida. Logo depois, te encontra na barraquinha de água de coco e começa a conversar. É muito simpático risonho, adepto da seratonina gratuita. Vocês irão muito para praia de moto, cabelos ao vento, curtir a natureza. Ele vai te ensinar a correr e a alongar direito. Sabe tudo sobre uma alimentação correta. Tem um labrador. Na cozinha da casa dele tem aquelas barrinhas diet e aqueles potes de suplemento alimentar que é químico pra caramba, mas ele vai dizer que é natural. Que é proteína pura, que faz bem sim. Ele tem bike e um carro com rec para levar a bike. Um dia você descobre que na adolescência ele foi gordo e cheio de espinhas no rosto. Ele vê que você achou a foto e fica muito bravo. Desconcertado, como se você fosse mudar com ele depois desta revelação! Aos domingos ele curte um pagodão com feijoada light sem culpa. Ufa! Ele toma uma cervejinha! Uma.

Porém

Talvez você largue o cigarro um pouco e vai diminuir o sal na comida automaticamente.

Todavia

Você não vai parar de comer chocolate e vai se irritar quando ele disser pela milésima vez que sorvete nada mais é que gordura hidrogenada com açúcar.




Jesus Freud


Geralmente mais velho, com a vida estabilizada. As vezes nem é tão mais velho que você, mas se sente muito vivido, experiente. Ele trabalha num banco famoso, na bolsa de valores, tem grana hoje porque se esforçou bastante, trabalhou muito, fez faculdade e pós na FGV. Ele te vê com uma vida tão incerta, quer te dar alguns conselhos para que você ganhe mais dinheiro e seja rica e feliz como ele. Então ele faz perguntas sobre a sua infância, sua profissão, sugere jogos de perguntas e respostas. Compra seu livro favorito, e depois pergunta sobre.  Os caras Jesus Freud querem se sentir descolados ao seu lado, porque na verdade eles não são  lá tão resolvidos quanto pensam que são. Ou quanto dizem que são. A casa dele é super normal, decorada como a do pai e ajeitada por uma faxineira que vai lá três vezes por semana. Com cheiro de bom ar e lustra móveis. Ele é organizado. Fez terapia a vida toda, leu alguns livros de auto- ajuda e por tanto pensa que pode ajudar você. Sem você pedir ou precisar. Te leva, te busca, é super atencioso. Seu lado Jesus quer te salvar e o lado Freud quer te curar. Ele quer ser seu pai! Tarde demais, você já teve o seu.

 Porém
É bom pra você ver como cada louco tem sua mania e de perto ninguém, mas ninguém mesmo é normal. E a sua vida é bela.

Todavia
Você pode ficar tão louca quanto ele pensa que você é, e alguém querendo te “melhorar” o tempo todo é um saco.



O porra loca tudo de bom


Cuidado. Existe o de boa e má qualidade. Não vá se perder por aí, como diz a música! Vocês vão sair noite a fora, dar muita risada e voltar bêbados pra casa. Se um dos dois vomitar muito, não há problema, vocês continuarão apaixonados e tudo certo. As conversas são sempre pra cima. É incrível como vocês concordam em tudo e riem no final de cada frase. É uma delícia fazer planos com ele, afinal de contas, nunca vão mais longe que a viagem no próximo feriado, ou a balada de hoje à noite. Os amigos entre vocês são parecidos, ele gosta dos seus e você dos dele, vocês tem vontade de apresentar todo mundo, e juntar todos num grupo só. Todos se dariam bem. Vocês se encontram mais para se divertir, mas às vezes ele ajuda com outras coisas da vida também. É pau pra toda obra. A melhor companhia do mundo para shows lotados e eventos culturais concorridos.  Ele fez direito, mas trabalha com produção musical.  É das artes, ou corretor de imóveis, ou alguma profissão liberal, onde ele possa mudar os horários malucos. Mora sozinho ou com amigos tão legais quanto ele. Os pais estão na mesma cidade que ele. Se vocês terminarem hoje, ou melhor, deixaram de se ver, daqui há anos ele estará igualzinho, tão bonito quanto antes, com mais história pra contar, e mais mulheres no currículo, pois claro que é mulherengo e irresistível.

Porém

Mulher de porra loca, porra louquinha é. Além disso, será tudo muito surreal. Até quando você quer viver em Neverland?

Todavia

Sua pele vai melhorar de tanta alegria, mas pode piorar se você beber muito e fumar loucamente. Alegria e felicidade são parecidas mas diferentes.




O viajante descolado


   Hoje ele mora em Dublin, vai sempre a Londres, Bruxelas e vai passar três meses no Canadá para conferências e mais um curso de nome esquisito. Se espanta quando você conta novidades do Brasil de três meses atrás.  Estudou numa ótima universidade e é daqueles que são e vivem como estudante a vida inteira. Fez mestrados e doutorados pelo mundo, e apesar de ter se tornado um engenheiro químico, ou correspondente internacional, é super descolado. Vai aos melhores cinemas, assistiu a várias peças legais, subiu naquela montanha mais doida de todas e tomou sol naquela praia incrível. Te apresenta bandas do Oriente Médio e te dá uma revista em quadrinhos de um país você nem sabia que existia. Tem de escrever artigos longos complicadíssimos sobre a diferença do etanol e de novas opções de biocombustíveis disponíveis e a real funcionalidade dos mesmos, em determinado país no bloco econômico em que atua até o ano de 2030. Você ouve tudo sem entender nada. E acha lindo! Fascinante. Ele traz um vinho delicioso, da última vez que visitou um cliente na Itália, e o harmoniza cozinhando muito bem, pois sempre viveu sozinho, sabe se virar. Conta seus planos de morar em Singapura e às vezes coloca você nesses (para ele super possíveis) devaneios. Logo ele conta que está só, há apenas um mês. Porque a ex-namorada espanhola acabou de se mudar para a Austrália. Fora que às vezes ele atende o telefone e fica falando com alguma gatinha em russo.

Porém

Pra dar certo com ele, você vai precisar de um passaporte europeu, ou de um visto de estudante.

Todavia

Num piscar de olhos ele pode ir para Finlândia fazer alguma pesquisa ou matéria, e deixar você arrasada, comendo macarons, fumando cigarros escuros, sozinha, num café em Paris.



O melhor !


Ele fala bastante dele. E dos amigos dele. E das impressões que ele tem do mundo. Conta da infância dele,  e de como é a profissão, e o dia- a-dia dele. É o preferido da mãe coruja que ele tem. Ele é religioso, o que pode ser ótimo. Finalmente ele pergunta de você!  Sem ter o que dizer de tão magnífico sobre si mesma, você tenta trazer algo simples, como a previsão do tempo para os próximos dias, o final de semana e o seu almoço hoje. Ele é super educado, família tradicional, faz comentários pertinentes. Mas diz que conhece um restaurante maravilhoso que cozinha esse prato que você diz ter comido, muito melhor do que qualquer outro cozinheiro. Você explica que almoçou com sua mãe. Ela cozinhou o prato. Por tanto, pra você, é impossível que alguém cozinhe melhor que ela. Ele sorri te dá um beijo, acha legal você valorizar a família, e pede desculpas pela sua mãe. Em seguida diz que de fato, não há como negar: o feito pelo cozinheiro dele é o melhor do mundo sim. Sem comparação. Para ele você nunca sabe o que está dizendo. “Você não sabe o que está dizendo!” Ele sabe! Você duvida do maldito cozinheiro, só de raiva! Ele é sarcástico, tem um humor muito sofisticado, bom gosto para tudo que existe na Terra! Um dia vocês combinam de ir comer o tal prato. No restaurante você concorda com ele, pra agradar. Você bebe o vinho que nem cachaça pra ficar louca logo. Segundo ele este vinho é o melhor, j;a até ganhou prêmios. Ele é circuncisado. Você não consegue ignorar isso e não vê a hora de saber qual será a sua reação. É. A sua reação. A dele tanto faz. Hunf!

Todavia

Você vai ter de mudar alguns hábitos a fim de se tornar a melhor das melhores e mais perfeita namorado do mundo Isto será um desafio!

Porém
 Se acostume a dividir a conta. Ele quer você a melhor para se igualar a grandeza dele.



O culto

A casa dele parece um museu. Não é uma bela decoração, pelo contrário, tudo muito empilhado. Ele foi a tantos lugares incríveis no mundo e tem um pedacinho de cada canto que foi pela casa. De areia do Saara, á lembrança de pingüins da Antártida. Você tenta entender que diabos ele foi fazer na Antártida. Ele tem uma biblioteca fabulosa. E leu tudo, claro. Já encenou tantas peças, fez um filme premiadíssimo. É um homem fascinante. Imita argentino porteño e bonairense. É bem humorado mas as vezes inteligente demais, dá desespero! Você comenta que está fazendo uma pesquisa, lendo um livro importante e ele é amigo do autor. Velhos amigos! Estudaram juntos! Você descobre um cinema novo perto do seu trabalho com uma grade incrível de filmes bons, ele comenta que foi ele quem concebeu a idéia junto com o dono do espaço. O pior é que é verdade! Não há nada relacionado a ele que possa ser estúpido. Exceto o fato de que quando você não sabia de nada isso, ele era mais legal. Você sentirá como psiquê transando com Eros. Uma mortal se relacionando com um Deus grego! Ele corrige seu português. Mas você resolve não se incomodar, pois ele o faz com a sua super educação de lord dinamarquês do noroeste sul. Você pensa que pra ele as suas observações devem ser tão bobas e previsíveis como as de um mortal devem ser. Faz palestrinhas sobre um assunto que você considerava já encerrado e agora vê mais trezentas e cinqüenta e sete novas possibilidades. Ele muda suas opiniões. Você vai economizar tempo de ler algumas coisas. Peça pra ele contar a peça e ele conta com o maior prazer e empolgação. Você também irá as melhores festas, lançamentos de livro e pré estréias da cidade.

Porém

 Ele dá várias mancadas gravíssimas como homem. Pois no final das contas  o que ele precisa ser  pra você, acima de qualquer outra coisa,  é homem! Absolutamente nada mais que isso. Mas você acabará perdoando pra ficar mais um pouco ao lado de alguém que te ensina tanto. E vai se sentir burrinha as vezes. Sensação nada boa. Fascínio perigoso, te fugirá o controle. Vai dar um medo danado.

Todavia

 Você nunca irá entender o que ele viu em você.  Pior, ele nunca entende o que você quer dele. Nesse ponto o culto se assemelha ao “porra loca tudo de bom”. Acaba ficando tudo por isso mesmo, pois ele é super inteligente e não força nada. E a relação se esvai, numa boa.



O rico irresponsável


Ele tem um belo de um carrão, e corre com aquele troço com você dentro, te pondo em risco! Faz isso numa avenida como a Rebouças. Sim, é possível correr na Rebouças. Com ele é. Pois não respeita as faixas de ônibus, nem os semáforos. Vai pelas adjacentes e como num passe de mágica, ele chega ao pódio, depois de costurar tudo. Não se importa nem com o fato de você estar com o coração pulando na mão. Nem com as dezenas de multas que ele recebe por mês. A secretária paga tudo depois mesmo. Ele trabalha na empresa do pai. Diz que trabalha pois nunca está lá. Também ajuda a administrar as propriedades da mãe. E está pensando no que vai investir as dele. Talvez numa balada nova em São Paulo, que sem sombra de dúvidas vai bombar e tudo vai dar certo. Ele não recicla. Mora num apartamento cujo a portaria parece um shopping.  Tem lá uma alameda de serviços, que sem ela, ele não vive. A decoração foi algum famoso arquiteto que fez.   Consome alimentos e bebidas despreocupadamente com a origem, a época, o valor então, nem conta.  O dinheiro o protege de tudo, ainda mais no Brasil. O legal é que ele vai deixar você dirigir uma Porsche na Imigrantes sem carta de motorista! Você vai dizer “não imagina, que isso...”,  e ele é quem vai insistir. Praia, tomando sol, você vê um barquinho. Ele percebe você olhando e proporciona o iate para o final da tarde. E também deixa você dirigir.  Mas não tem significado nenhum, não custa nada. Não custa nada. Não há muquiranagem oque o difere de “o melhor”. Ele tem coração, isso vale muito. Fica feliz de ver que está fazendo você se divertir. Ainal tudo isso pra ele é bem normal. Ele podia fazer algum trabalho de caridade. Mas não faz nada. Diz que “não tempo pra isso”.   Tem tempo sim. Se tempo é dinheiro, uh se tem.

Todavia

 Let’s living La vida loca!  Calcinhas vermelhas com saia curta, batom forte e cara blazê, começarão a fazer sentido pra você. Será no mínimo divertido. Nada como segurar uma taça de champagne cara e fazer carão.

Porém

 Você terá medo de ser uma espécie de troféu esquisito. E troféu não se compra, se ganha.


O canela fina

  Diz a lenda que o homem de canela fina é aquele que dança bem. Não importa sua classe social, profissão, trata-se somente de ser cheiroso e bailar com você pelo salão, lindamente. O canela fina é da mesma espécie que o surfista. Os surfistas podem ser o que for, eles são surfistas e ponto final. O fato de estarem surfando de fazerem o movimento com o pescoço aonde mergulham a primeira vez ao entrar no mar, ao passar a arrebentação, o modo de abrir a boca para respirar, é isso. Puro hedonismo. Nada mais. O canela fina pode até trazer uma bebida, ter ou não papo bom. Gente, ele só precisa te olhar nos olhos durante a dança e já está tudo certo como 2 e 2 são 5. Depois de horas viajando em seus braços, você vai querer tomar uma ar com ele na varanda e vai beijá-lo e vai ser lindo. A lua na fase em que estiver vai ilustrar o cenário perfeito. Tudo que vocês falarem vai fazer parte daquele contexto, vai combinar com a cor da saia e com a temperatura do drink. Ele mora longe! Talvez você não o veja mais! Tem que ser hoje, pois talvez você esteja sonhando, ele não pode escapar!  Se ele disser qualquer coisa que você não concorde, vai achar bonitinho que ele ainda pense assim e exaltar que conviver com diferenças de pensamento é muito importante. É estar apaixonada, embevecida, música, luz, câmera, magia. E som na caixa.

Todavia

 Há há há há há, mas eu to rindo a toa, não que a vida esteja assim tão boa, mas um sorriso ajuda a melhorar...

Porém

  Amanheceu. Você acorda: “Ahhhhh!  Desculpe, bom dia. Como é mesmo seu nome? A gente pensa que não mas xiboquinha dá ressaca mesmo né?  Hehe... tsc.”. Disfarça e some.


O músico

  Eis o mais desonesto de todos, ou melhor, a mais desonesta comparação de todas.  Músico não vale...  É demasiado encantador, ele toca um instrumento. Sabe hipnotizar pessoas com melodias e poesia, é muita artimanha para um homem só, por isso digo que é desonesto. Vai te observar em silêncio. É sensível suficiente pra saber o que quer ouvir. E ao cantar vai fazer aquelas caretinhas de feliz que os músicos fazem, ou pior, as carinhas de anjo enquanto estão concentrados tocando. Se ele cantar junto então pode esquecer. Você não terá a menor chance de se manter no controle. E também se não cantar, a timidez de um músico que não canta, tem outro efeito igualmente macumbeiro. Ver o namorado músico no palco enquanto as mulheres na platéia se deleitam por ele, dá uma falsa sensação de poder que vicia. O interessante é que ele é original, tem milhões das melhores influências, mas é super ele mesmo, quase não vai jogar com você, é extremamente honesto! Até demais... Se ele fizer alguma coisa errada vai dizer, dar uma explicação dentro da lógica de músico dele, que fará sentido e mesmo que você não queira, ache absurdo, vai aceitar! Por que se não vai perdê-lo. E você gosta dele assim mesmo.  Apaixonada por um desse você vai querer tê-lo. Ser mais amada que aquela guitarra que você já tem ciúmes, poisfica mais tempo nos braços dele que você. Ele também quer que você o queira. Até você querê-lo muito. Depois não gosta mais que o queira tanto assim. Pois ele precisa circular naquela energia da liberdade bohêmia pra compor, pra seguir sendo ele, que é o exato o motivo, quase místico, de ter ele te conquistado. 

Porém

 Você vai se sentir a June de “June and Carter” e vai descobrir todas as novas versões das canções. Não tenha dúvida de que você estará como musa nas próximas canções dele. Fato.

Todavia

 Ele pode um dia te explicar calmamente que não foi traição, o fato é que a moça era uma cantora muito especial e é “só “ isso que ele vê nela, nada mais. Ui! Pois é... São em geral, bichinhos lindos, verdadeiros e infiéis.


O casado

Evito julgar as pessoas ao máximo que posso, mas o casado, pra mim, é das roubadas a maior. Parece droga: você sabe que faz mal, que destrói, leva de mal a pior, mas por mexer tanto com você, é difícil parar por mais que queira. 24 horas! Só por hoje! E lá está você de novo as escondidas com o cafajeste. Cada hora num local diferente, interessante e escondido.  Ele comprou um celular só pra você poder ligar pra ele quando quiser. Faz você se sentir num filme de ação. Você criou a ilusão e acredita piamente que é o homem certo na hora errada. Simplesmente ele é o mais perfeito de todos que você já teve, você pensa: fazer o que? A vida é dura mas você por algum motivo louco de meu Deus, idealizou que é dele o melhor sexo, que é ele o pai perfeito para os seus filhos,  é  quem vai finalmente vai te fazer feliz de uma vez por todas nessa vida. Clássica obsessão. Tem até perfume caro com esse nome: obsessão. Talvez porque ele faça promessas de que vai largar a outra por você. E mesmo que não faça você tem essa projeção maluca dentro de si. Afinal quem deixaria uma mulher linda, filhos lindos, entraria num perigo desses dentro da nossa sociedade, numa aventura daquela, só pra ficar quinze minutinhos: com você. Ninguém mais só você. O ego. Por isso a semelhança com a droga. Nada amacia mais o ego tão falsa, perfeita e rapidamente como droga ou homem casado. É como uma peça de teatro: paga pra ser iludida, porque ser iludido, quando se gosta da sensação que ilude, é muito bom. Você pensa sozinha: “mas ele não gosta ela, e deve ser horrível ser casado com quem não se gosta...”- e se sente boazinha por estar “ajudando” o pobrezinho desajustado a se sentir um pouco melhor. Tsc, tsc, tsc...

Porém

 Ele não vai ter ciúmes absurdo, pelo contrário o pouquinho que tiver você vai até gostar. Se ele tiver muito é maluco mesmo e vocês devem se internar juntos!

Todavia

 Menina: não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você. Já dizia o Newton se subiu tem que descer! Quando ele deixar a esposa por você, vai acabar todo esse fogo e ele vai perder a graça.



O publicitário


As vezes faz propaganda de si mesmo sem perceber. Os publicitários são divertidos descolados, alternativos. Tentam ser? A casa dele parece uma instalação da Casa Cor. Pode estar de camiseta de banda de rock ou num terno chiquérrimo maravilhoso, depende da reunião de hoje. Depende do gosto do cliente. Ou da cliente. Sabem de tudo um pouco. De tudo mesmo, qualquer assunto. Nenhum a fundo. Vestem-se muito bem, melhor que os próprios modelos. Tem o corte de cabelo da moda, tendência, paleta de cores, sabem  o que é in e o que é out. São artistas frustrados. Ou apaixonados por dinheiro mais que pela arte. Vendem suas idéias e preferências. Mudam a preferência de acordo com a tendência. Aí que mora o perigo minha amiga. Se você deixar de ser in, ferrou. Todo esse mundinho é muito importante pra eles. Pra não dizer a casca de fora, o que eles gostam é de ver como você se expressa no mundo. Ou seja, diferente do gay desavisado que vê sua alma, o mais profundo que um publicitário vê em você é a sua lingerie Victoria Secret. Prepare-se para as festas mais chiques e bem patrocinadas da sua vida. E para ter um monte de brindes exclusivos na sua casa. Eles adoram esta palavra: exclusividade. E por amarem tanto a tal exclusividade, eles esperam que os amigos deles os invejem. Desejem você. Você entrará em competição com as namoradas dos amigos deles. Em segredo eles ficam pensando qual é a mais gostosa. Quem deles se deu mais bem que o outro. Procure viajar pra fora e trazer algo que ninguém viu aqui no Brasil. Nossa ele vai pirar mais que um beijo demorado! Se você for inteligente, vai impressioná-lo o tempo todo. Eles adoram.  Mas se não for, trate de ser linda! E rica de preferência.

Porém  

Você vai entender o poder da sedução em 30 segundos, tempo das propagandas publicitárias. Vai decorar melhor sua casa, vai descobrir que é descolada! Que já sabia tudo isso, e sempre pagou bem menos pelas mesmas coisas sem a marca que as encarecem.

Todavia

 Você não poderá sair de moda jamais! Se engordar uma grama, ele vai notar. A celulite vai tinir como unhas riscando o quadro negro dele.



O gay desavisado


Ele é o cara mais legal do mundooo!  Tudo que a gente sempre quer é que um homem nos entenda sabe?  Além de entender tudo, ele é parceiro. Voces fazem compras juntos, cozinham e fazem juntos a tal dieta miraculosa. A corrida matinal que sem ele te acordar as seis da manhã você jamais conseguiria sozinha.  Acompanha suas conquistas, te dá os melhores conselhos, te ouve, entende, ajuda. Compra o absorvente que você gosta, traz chá com ponstan e bolsa de água quente quando você está com cólicas. Nunca na vida ele comprou o remédio errado ou botou uma grama de  açúcar demais no chá. Faz o melhor capuccino do mundo. Uma gracinha. Vces dançam juntos a música da Beyonce e caem na risada no sofá. Vão jantar nos melhores restaurantes, ele é muito refinado. Elogia a cor do seu esmalte. Você sente saudades dele o dia o todo! Finalmente no fim de semana vão viajar pra praia mais incrível e badalada que tem. Ele está um gato com aquele óculos escuro da Gucci,  uma delícia com aquele cheirinho de Australian Gold, e depois do décimo Hi-Fi na praia , na aba do seu chapéu chique que ele te deu. O sol já está se pondo vces já trocaram milhões de olhares e celinhos, vc não vai pegar mais ninguém nessa praia. Vc não vai conhecer ninguém mais carinhoso. Vc vai, e o beija. Ele treme um pouquinho, estará ele nervoso?  Vc abre os olhos continua, ele não se move e de repente no meio do beijo rola com vc fazendo a areia  grudar na baba do rosto. Ah foi lindo, vai!  Vocês levantam se abraçam, vão correndo para a água que nem duas crianças e o beijo salgado nas águas de Yemanjá, meu rei!  Resumindo: vces decidem namorar. Quando voltam a SP no Porsche Cayenne preto dele ,  chegam no apê super cheiroso e mega bem decorado. Bêbados vão para o quarto. É chegada a hora do veredicto e até agora está indo tudo muito bem. De repente ele pára. Olha nos seus olhos com toda a força da paixão que sente e diz: “eu gosto de você, mulher inteligente, linda... e ativa. Vc sempre foi ativa não é? Desde que te conheço você sempre foi assim linda e ativa. Vc segura a onda de ser assim ativa pra sempre?”  Vc concorda. É lógico sempre foi linda e ativa, e nunca se importou com isso.  Fica feliz de alguém notar e te dizer isso. Ele repete:    ” Vc se importa de ser assim ativa sempre, de nunca mudar...”  Você quase chora de emoçÃO. Finalmente um homem pede pra você nunca mudar?  Que beleza.  Então ele vai pro banheiro da super bela suíte e volta com aquilo. Antes mesmo de começar o sexo ele já te mostra aquele objeto que é pra você na hora certa lá, comer o seu namorado.

Todavia

 Você disfarça pra não chorar na frente dele, beija-o, ou melhor, encosta os lábios nos dele, e vai embora. Imediatamente.

Porém

 Não se preocupe a amizade vai voltar depois. Afinal eles são super liberais e compreensivos. Só não sinta ciúmes da próxima desavisada tentativa que aparecer na vida dele. A próxima “deeeusa” que na verdade, ele queria é ser!


O filho

Ele é um fofo! Tem uma boa textura. Cheirinho delicioso, um abraço, um cabelo gostoso de mexer. A vontade é apertá-lo, e mordê-lo o tempo inteiro. Vocês tem várias coisas em comum, muitas vezes você se verá nele e muito provavelmente ele se verá em você. Vocês trocam informações muito preciosas um com o outro o tempo todo. Tem profissões parecidas, se completam, se ajudam. Te faz carinho e você nele. Na verdade massagem específica para o músculo que está doendo. Você se comporta como médica, terapeuta do rapaz, quer cuidar, educar, dar casa, comida e roupas novas. Sente muito ciúmes das meninas que se aproximam. Você vai assistir filme na casa dele e ele não tenta te comer! Ele descobre uma vaga de emprego na internet e te liga, te passa os contatos e se você precisar vai com você até lá, ou te empresta o carro dele, pois será dia do seu rodízio e ele sabe disso.  Contanto que você vá com ele caminhar no parque. É que se você, ou alguém não for com ele , ele não vai. Ele faz chantagens emocionais. Você odeia caminhar no parque. Mas vai. Ele quer emagrecer, você sabe disso, não pode perder a oportunidade de ser alguém importante nas conquistas dele.  Você adora aconselhá-lo! E adora ouvi-lo também.  Mas aí ele faz uma coisa errada, e você briga muito com ele, e o põe de castigo! Mas leva a comida que você cozinhou na casa dele. Ele compara o tempero do seu rango com o da mãe dele. É a primeira pessoa da sua vida a elogiar sua comida. Diz nunca ter comido nada igual. E nada de comer você. Mas tudo bem! Vocês se beijam. Ele é um pouco tímido com ações físicas, mas bom com palavras. E com aquela cara de ursinho fofo, gut-gut que ele tem. Você pensa que ele é um homem! Mas quando ele faz vozinha de menino, por algum motivo você pira. Afinal ele te mima também.  Mostra os textos dele pra você avaliar e você fica orgulhosa de conhecê-lo! Você quer vê-lo bem, vencendo! Torce para que tudo dê certo na vida dele, e quando ele falha você acha que falhou! Você quer pegá-lo na escola encher a sua bola com todo seu amor!

Todavia

Será confuso pensar em engravidar. Você sente que já tem um filho!  Vai entender os casais grudentos que se amam de verdade. Pois amor verdadeiro, já diziam os caminhoneiros, é o amor da mãe!

Porém

Ele vai te irritar, pois filhos são irritantes, pedintes e insistentes. E essa dependência que se criará entre vocês dois, uma hora vai encher o saco. Como uma criança chorando porque quer o raio do pacote de biscoito antes do jantar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Capítulo 2- Os gêmeos anões de Nova Orleans.



Capítulo 2

 Ainda era bem cedo quando Joe Parker e Sonny Wayne chegaram a rua de paralelepípedo onde ficava a pensão de Herbie cabeção. Joe estacionou o carro em frente à casa, estilo colonial Frances. Eles não souberam se a rua é que era tranquila ou se ainda era muito cedo.
 “Afinal como você conhece este outro anão?” Quis saber Sonny, que embora convencido do plano, parecia estar preocupado.
 “Herbie? Ora quem não conhece o Herbie? É um sujeito pacato, todos estão sempre mexendo com ele. Eu as vezes almoço no restaurante que ele trabalha.
 “E como você sabe onde ele mora?”
 Neste instante surgiu Mily, uma garota de dezesseis anos. Ainda da varanda ele cumprimentou Joe:
 “Vejam se não é o rapaz dos refrescos”.
 Sonny não estava achando a menos graça naquela adolescente que parecia conhecer Joe.
 “Olá Mily.”
 “Você chegou cedo, cedo demais. Não estou de bom humor neste horário.”
 “Lamento querida, mas não vim atrás de você.”
 “Veio fazer o que então? Procurar um quarto aqui na pensão de Dona Mangnólia?”
 “Na verdade... Acredite ou não, eu vim atrás do anão.”
 “E que você quer com o anão?”
 Joe estava se divertindo com tudo isso. Sonny queria saber como ele conhecia o anão? Ok, ele conhecia Herbie de tanto ir visitar a pequena Mily. Dizia a todos que vinha jogar cartas com o anão.
 Herbie por sua vez, tinha muito medo de Joe, e sempre que possível o evitava. Dona Magnólia, uma tia de Mily e proprietária da penção, tomava café próxima a janela e ouviu a conversa.
 “Se você está tão ansioso para jogar cartas com o anão, você vai encontrá-lo no rio.”
 Dona Magnólia fingia nem ligar para Joe. Mas a verdade é que ela o achava um homem muito interessante e tinha uma atração enorme por ele. Não entendia como um sujeito como Joe podia se interessar por uma moleca como Mily sua sobrinha. Que andava com Maria-Chiquinha no cabelo. Usava óculos e uns vestidos ridículos.
 “E este negro quem é?”
 Quis saber Mily. Seus pais a tinham mandado para Nova Orleans ajudar a tia na pensão. Eram gente do campo. Mas também nos anos 20, quem não era do campo?
 “Ele é um grande músico de jazz, um dos maiores.”
 Os olhos de Mily brilharam. Seu sonho era ser cantora de jazz.
 “Estou ajudando Sonny num show hoje, no Tiffany’s club. “
 Joe convidou Mily para o show a noite, ouviu a explicação de Dona Magnólia onde ela achava que o anão estaria. Fazendo a sua natação matinal dos sábados.
 “Na estrada para Fort Mallins, não tem como não ver a minúscula bicicleta amarela dele.” Disse Dona Magnólia.
 Sonny calculou que a Dona ia lá pelos seus quarenta anos e estava bem em forma. Bem que ela poderia acompanhar a sobrinho no show a noite, mas ficou tímido em convidá-la. Depois se meter com uma branquela poderia dar confusão.
 Se bem que mais confusão do que ele já estava. No caminho perguntou a Joe:
 “Se é uma bicicleta minúscula, como a mulher diz que não temos como não ver?”
 Calma você é um pessimista Sonny.”
 Iam eles fazendo as curvas da estrada para Fort Mallins.
 Herbie gostava de olhar para as árvores depois que saia da água. Nadava todas as manhãs de sábado durante o verão. Descobrira na estrada de Fort Mallins, um braço de rio, que vinha do Rio Mississipi. Contou isso certa vez para Dona Magnólia.
 “Não é porque sou mais baixo que não sou um esportista. “Gabava-se do seu corpo. Ele não tinha nenhuma barriga.
 O lugar era praticamente deserto. Ali Herbie via a natureza, ninguém ao seu redor para lembra-lo do seu tamanho. Ninguém por perto a o chamar de cabeção. Só ele e as folhas das árvores, o silencio da mata.
 Por isso tomou um susto ao ouvir, os gritos de Joe Parker:
 “Herbie! Herbie Cabeção!“
 Não teve dúvida, achou que Sonny era um dos capangas de Joe, e que eles estavam lá por conta de sua dívida do bar Fort Mallins, ou qualquer outra coisa ruim. Com certeza descobriu que a tonta da gorota Mily estava de caso com todos os garotos do bairro. E alguns pais dos garotos também. Ou que Mily contou que ele Herbie havia a visto tomando banho.
 A garota percebia que o anão com uso de banquinho a observava no banho, do banheiro coletivo na pensão. Ele conseguia na ponta dos pés ver a menina se ensaboando. Mas ela gostava da plateia. Teria ela dito algo ao Joe?
 O fato é que coisa boa não devia ser, já que o próprio Joe Parker o achara no seu esconderijo.
 Se Joe Parker tivera o trabalho de ir até lá atrás dele... Era para usar de violência com certeza. Conhecia a fama de sádico de Joe. Ou a fantasia que as pessoas faziam dele. E a coisa ficou realmente ruim depois que Joe há uns dez metros dele, parar.
 Joe estava ofegante, e com um sorriso gritou.
 “Graças a Deus te achei Herbie!”
 O anão diferente de George o outro anão, não estava acostumado com gente sorrindo atrás dele que não fosse outra coisa além de se divertir a suas custas. E ali parecia que seria algo ainda pior do que as humilhações de sempre, ainda mais que não havia testemunhas por perto. Diferente da pensão, ali Joe Parker poderia fazer o que quisesse com ele.
 Saiu correndo nu. Joe e Sonny no seu encalço.
 Joe percebendo o mal entendido do anão gritava e ria.
 “Pare Herbie, não é o que você está pensando! Você está sem roupas!”
 Já estavam na estrada, Sonny e Joe quase tocando o anão e Herbie pedindo socorro:
 “Socorro! Me ajudem! Socorro!”
 O Xerife Soflerck de Fort Mallins vinha passando com dois guardas em sua viatura no mesmo instante e parou.
 “Que diabos! O está acontecendo por aqui?” No início achou que Joe e Sonny perseguiam um gambá ou um bicho qualquer.
 Não sabiam eles que a temporada de caça estava proibida? Assim como a venda de bebidas?
 O Xerife tomou um susto ao ouvir o gambá falando Inglês. E um susto maior ainda quando o gambá correu para ele pedindo ajuda. Mas era um anão ele percebeu.
 Saiu do carro com a arma na mão. Era um sujeito gordo, forte e corajoso, adorava proteger a população.
 O anão suava e chorava. Joe e Sonny pararam e levantaram as mãos.
 Foi quando Soflerck reconheceu Joe Parker. Seu sábado não poderia ser melhor. Agora ele tinha um bom motivo para colocar um traficante de segunda classe atrás das grades.
 Ganguesteres pequenos como Parker eram ao mesmo tempo, desprezado por grandes traficantes, e perseguidos pelas autoridades locais. Os chefes do crime da região de Nova Orleans até agradeciam quando o Xerife dava certa canseira em tipinhos como Joe Parker.
 Aquela manhã prometia. Xerife levou Sonny, Joe e Herbie para delegacia e os prendou na mesma cela. Um dos guardas veio dirigindo o caro de Joe e todos os outros na viatura com o xerife. Deram um uniforme de polícia para Herbie vestir, o que ficou ridículo, aqueles trajes imensos num anão.
 Todos falavam ao mesmo tempo. O xerife achava que era tudo coisa de bêbados boêmios. Show? Empresário de Chicago? O que ele tinha com isso? Mesmo porque a região estava ficando muito bagunçada. Se Nova Orleans gostava de badernas, ali em Fort Mallins a coisa permaneceria calma enquanto ele ocupasse o posto de xerife.
 Aliás, iria antes almoçar e só na volta é que iria esclarecer o incidente. Quem sabe com isso os três presos não ficassem menos agitados. Até lá os três esperariam. Ou esperariam ainda mais, pra que a pressa?
 “Vocês fiquem aí. Rezem, reflitam e se perguntem se todo esse desequilíbrio não é falta de Deus na vida de vocês? Dois sujeitos adultos perseguindo um anão nu. Este tipo de abuso de vocês é crime! E se chama pesdonfilia.”
 “Pedofilia” Corrigiu um dos guardas.
 “Isso. Pendos...  Tilia.”
 “Mas Xerife temos aqui um caso de vida ou morte! Alguns dos melhores músicos de Nova Orleans dependem da gente!”
 “Bons músicos não se metem com tipinhos como você Parker. Passar bem, depois do almoço eu volto.”
 Dito isso o xerife e outro policial se foram, fechando a porta atrás deles. Agora Sonny estava realmente começando a se preocupar, o relógio parecia correr mais rápido. E ele queria tanto aquela chance. Mudar de vida. Estava olhando Joe tentar explicar para Herbie o que se passava.
 Achou até perda de tempo. De que adiantava explicar o plano ao anão se eles com certeza não seriam soltos até de noite. Eles não tinham um bom advogado. Alias, não tinham advogado algum.
 Baixou a cabeça, fechou os olhos desesperançados. Foi quando surgiu uma luz, ou melhor, uma voz.
 “Cara você não é o grande Sonny Wayne? Adoro o seu som”.
 Era o policial que havia ficado sozinho na delegacia. Talvez nem tudo estivesse perdido. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Os gêmeos anões de Nova Orleans.


 Capítulo 1.

 Primeiro vem à ótima notícia. Sim o maior empresário musical de Chicago, Frank Sttit, está na cidade e quer ver a banda. Ele disse que já ouve o nome do anão trompetista há tempos. Veio junto com Tonny Gambale, um mafioso da família Gambellini. Eles vêm dispostos a investir muito dinheiro. Eles querem levar uma banda nova para o Timbum Clube, a mais nova sensação em matéria de casa de show de Chicago. Nada melhor do que levarem a banda Bisy de Sonny Wayne, um bamba, boa praça e nada talentoso. Mas que vem chamando a atenção aqui pra estes lados do Rio Mississipi.
 Depois vem a péssima notícia, a banda está desfalcada. Sua principal e real estrela, o anão trompetista, George Morgan, noite passada foi ao cabaret da senhora, Glen Ellis e bebeu. Encheu a cara com gin, uísque e tudo mais. Ninguém a principio se preocupou, pois George apesar de pequeno era bom de copo.
 A bebida procedia do pior traficante de bebidas da região, Joe Parker, que é de quem senhora Glen compra.
 Pior no sentido qualidade. Pois Parker, apesar de ter botado uma meia dúzia de quatro ou cinco sujeitos pra dormir, era um cara bom coração.
 Já nas altas horas da madrugada, George o anão, quis experimentar uma nova moça vinda do Tennessee, a menina de 18 anos.
 Uma garota mais fortinha, que é o tipo que George gostava. Valquíria seu nome. Ela em determinada hora subiu em cima de George e quando desceu o anão apesar de um sorriso na cara não respondia aos chamados.
  Doutor, Jacó Shorter, um médico de oitenta anos, quase sessenta de profissão, por sorte estava lá também. Na companhia de Jude, uma das meninas de dona Glen. Jude era bem diferente de Valquíria, ela tinha uma beleza do sul. Mas está é outra história, voltemos ao nosso anão trompetista.
 Ao que tudo indicava, George havia enfartado.
 O médico tentou reanimar George. Mas o anão parecia não mais respirar. Ele estava branco e frio.
 “Morreu coitado.” Disse doutor Jacó.
 Jude deu sorriso. Seria a primeira vez que veria um enterro de um anão. Já Valquiria gritava de horror:
 “Matei o trompetista! E agora?”
Esconderam o corpo e não anunciaram a notícia.
 Aquilo não pegaria bem para madame Glen. Ela sempre fora muito discreta. Por isso seu cabaret era frequentado, por políticos, artistas, comerciantes tanto brancos como negros.
 Apesar de um público bem diverso, os clientes tinham a certeza de que seriam bem tratados.
Sonny Wayne, o líder da banda, foi chamado às pressas ao cabaret. Ninguém sabia o que fazer. Era uma oportunidade única. Naqueles anos 20 todos queriam tocar em Chicago nos clubes dos mafiosos. Al Capone tinha algum dos melhores.
 E agora tudo perdido, lamentava-se Sonny. Os outros, o traficante Parker, madame Glen, doutor Jacó e as pequenas Valquíria e Jude, também suspiraram, quando Sonny explicou toda a história, do empresário que estava em Nova Orlenas para assisti-lo. Aquiolo doía mais do que a amizade que ele tinha com George.
 Aliás, nem tinham amizade. De uns tempos para cá Sonny estava já de saco cheio do estrelismo e a arrogância de George. O anão vinha recebendo a maior parte dos cachês, exigindo jantares, fazendo dívidas e dizia que se Sonny não estava feliz que ele, George, tinha outros convites para outras bandas.
 Será que o anão não percebia que o talento era dele Sonny? Ninguém percebia? Bem feito George. Mas agora o que fazer? Tinham se comprometido com Frank Stitt, o homem não tinha tempo a perder. Uma coisa destas não se desmarca. Mas talvez todos ficassem comovidos com a morte de George e... Mas pensando bem, quando é que mafiosos se comovem?
 Só quando algo acontece ao dinheiro deles. Todos ali de cabeça baixa, quase um velório.
 Foi Joe, o traficante quem deu a ideia. No fundo ele estava de consciência pesada porque acreditava que talvez sua bebida tivesse algo a ver com a morte de George.
Se realmente o problema era arrumar um anão, ele conhecia um lá pros lados da Rua dos Franceses. O pequeno Herbie cabeção. Trabalhava de faxineiro, lavador de pia, num restaurante barato.
 Seria tudo muito fácil, o século vinte afinal era o século das inovações. Era só colocar Herbie no palco fingindo tocar, e um trompetista de verdade atrás das cortinas. Afinal de contas, George nem era lá grandes coisas. O que valia era a sua figura. Um anão jazzista. Aquele velório de anão teria de esperar.
 Joe, além de ser o dono da ideia, era o mais empolgado. Mas Sonny, que não passava de um artista, estava receoso:
 ”Sei não, estes caras são ligados com a máfia, se descobrem a trapaça, são capazes de acabar com a gente.”
 “Deixa de ser um negro medroso Sonny! Eu mesmo faço isso com as minhas bebidas, troco gato por lebre, e ninguém percebe.”
  A senhora Glen, deu uma risada e resmungou:
 “Ninguém percebe. Sei. Foi a sua bebida que o matou.”
 No que Parker respondeu:
 “Morreu feliz. Eu não tenho culpa do governo proibir a bebida.”
 Mas eles não tinham tempo para pequenas brigas.
 “Agora, mesmo que funcione, quem colocaremos atrás das cortinas? A coisa não pode se espalhar, porque como eu disse, se Frank ou alguém da família dos Gambellini descobre...” Sonny faz um sinal com as mãos. “Nós morremos.”
 “Tem razão teria de ser alguém bem próximo e corajoso”. Pensou a madame Glen.
 “Mas quem? Nesta cidade são todos invejosos e linguarudos. Todos querem esta oportunidade com Frank Stitt. Todos sabem que se não for a nossa banda, a Bisy, ele acaba levando outra.” Se amargurava Sonny.
 E novamente foi Joe Parker quem teve a solução.
 “Porque não chamamos o Buddy Lee?”
 Todos riram. Buddy Lee era um músico, que estava praticamente surdo, por conta da idade.
 “Sim ele é surdo, por isso mesmo ninguém mais o chama. Mas o cara é bom no Trompete.”
 Foi aí que Joe deixou escapar algo que fez Sonny sorrir.
 “Buddy no fundo mesmo surdo é talvez melhor ainda do George fora.” Parker continuou.
 “E depois ele é ótimo em improvisação. E quer saber estes italianos de Chicago nem sabe porra nenhuma de música. Vai dar tudo certo. Eu assumo o comando, é minha especialidade.”
 Madame Glen que era vivida estranhou Parker querer ajudar o pobre Sonny Wayne, que não passava de um músico negro. Seriam aqueles anos vinte mesmo fantásticos? Não. Resolveu ficar quieta, mas no fundo não sabia, quem era pior os cara de Chicago, ou a criminalidade local.
 Como todos concordaram com o plano de Joe Parker. Dispensaram as meninas, que já haviam ouvido até demais. Colocaram o corpo de George num depósito ao fundo do cabaret .
 Decidiram que Joe mandaria um de seus homens atrás de Buddy, o surdo e ele e Sonny, iriam logo buscar o Herbie Cabeção. O outro anão. 

 A continuar. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O dia que me queiras.


Julieta havia cinco anos deixara a cidade de Rosário para viver em Buenos Aires. Eram os anos 20. E a Argentina um país dos sonhos. Próspero e em rápida transformação. Seus subúrbios eram às vezes miseráveis. Formado por pessoas que vinham do interior como Julieta, imigrantes Europeus e árabes.
 Sebastian era estivador do porto. Ganhou seu violão aos 15 anos de idade. Um tio um pouco mais rico, alfaiate lhe dera. No cais do porto começou nas horas livres tocar com os Italianos, alemães. Era uma miscelânea de estilos.
 Julieta era linda. Seus cabelos ondulados vermelhos, olhos verdes e a pele branca. Um dia ela vê Sebastian tocando no bairro da Boca. Ela não era mais daqueles lados. Mudara-se para o centro rico.
 No começo ela trabalhou num prostíbulo mediano. Mas uma cafetina logo a levou para o melhor cabaré Portenho de então.
 Não se sabe quando foi, mas um dos jovens Alvear, família mais rica de então, se apaixonou por ela e resolveu fazê-la esposa. O casamento seria em breve, numa estância. Toda a sociedade Argentina estaria presente. Santiago Alvear era um playboy muito bonito. Mas seus três talentos eram só estes: Ouro, beleza e simpatia.
 Sebastian sabia que tinha talento. Era um compositor de música popular. Aquele ritmo novo, o Tango. Não dominava a música clássica, os gêneros Europeus. Aliás, nunca havia visto uma Ópera. Gostava de ver as comédias populares no teatro. E o cinema americano mudo. Mudo claro.
 Certa vez ouvira que o Tango era um pensamento triste que se dançava. Não entendeu. Para ele o Tango era vida, não tinha nada de triste.
 Mas lá estava Julieta. Fascinada com a música. O motorista de Santiago a esperava para levá-la a San Telmo onde almoçaria com Santiago e um casal francês que estava na cidade.
 Estava lá visitando uma antiga amiga. Também prostituta. Sebastian viu que a moça não lhe tirava os olhos de cima. E a chamou para dançar.
 Meses depois ele recebe um convite para tocar no casamento de Julieta e Santiago Alvear. Era uma enorme orquestra na estância mais bela da Argentina. Cerca de 40 quilômetros da capital.
 Neste dia Sebastian olhou a noiva e teve ódio do mundo. Por que ele amaria uma rainha, se ele não era um rei? Os colegas lhe disseram na mesma noite que ele realmente progredia no Tango.
 Passaram-se 10 anos sem que ele soubesse de Julieta. Ele, Sebastian, se casara com Soledad, uma lavadeira do seu bairro. Como começou a beber e sair muito na boemia, acabou demitido do emprego. Soledad era quem segurava a casa.
 Certo dia recebe o convite para dar aulas de violão a Martin Alvear. Filho de Julieta. Ela diz que desde a noite do seu casamento não tirara Sebastian da cabeça.
 Disse que em Paris aonde chegara a viver três anos se sentia bem e saia muito. Mas ali em Buenos Aires onde todos sabiam do seu passado, ela raramente colocava os pés para fora.
 Julieta aos 30 ficara ainda mais interessante. Mais segura, mais mulher. Sebastian entre o intervalo de uma aula e outra, lhe confessa ter composto meia dúzia de músicas para ela. Tornaram-se amantes. Encontravam-se num hotel.
 Combinam o dia em que fugiriam para Europa. Ele seria um músico de Tango em Paris. Lugar este que o Tango era muito mais admirado.
 Fez a mala, escreveu uma carta a Soledad explicando tudo. Passou no banco sacou a poupança da esposa. Com as passagens na mão esperou já dentro do navio por Julieta que não apareceu.
 Ficou vinte anos em Paris, mas veio a guerra e ele retornou a Buenos Aires. Tudo estava mudado. Havia novos instrumentos para o Tango. Novos compositores. Os Italianos já não eram Italianos e sim Argentinos.
 Foi convidado para tocar em programas de rádio. Comeu o churrasco Argentino. Chorou no cemitério que Soledad estava enterrada. Sim ela morrera de desgosto.
 Nunca recebera uma carta de Julieta. Contaram-lhe ainda em Paris que ela tinha uma dezena de amantes músicos. Que ela gostava era de se envolver com compositores, mas não era mais do que isso.
 Ele estava o que, louco? Achou que ela largaria de um homem como Santiango Alvear para seguir a vida com um músico miserável?
 Sebastian já no final dos anos 60, bebendo numa recepção, depois de um show no teatro Colón, percebe uma senhora a se aproximar. Algo lhe é familiar. Era ela Julieta.
 “Magnífico! Bravo Sebastian!”
 Ele quer saber de tudo. Por que ela nunca respondera a nenhuma carta. Por que não fugira com ele?
 Então vem a explicação:
 “Sebastian, meus ouvidos sempre foram excelentes, bem como meu instinto. Me apaixonei por ti. Mas se eu tivesse te acompanhado, quanto tempo nossa paixão duraria? E depois com tudo isto você se tornou um dos maiores compositores de todos os tempos. Eu não poderia privar o mundo disto”.
 Se despediram, e ao voltar caminhando para casa, Sebastian vê dois jovens namorando na rua. E se lembra de uma frase que ouvira quarenta anos anres:
 “O Tango é um pensamento triste que se baila”. 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Carlos um malandro paulista de sucesso.



 CARLOS AOS 20 ANOS:



   Carlos aos 20 anos era ambicioso. Enquanto Álvaro tinha ambições artísticas, Carlos queria ser um empreendedor. Sonhava com um império. Nem terminou o colégio e entrou numa agencia de publicidade. Era redator.
 Carlos era um garoto de comunicação. Algo intrínseco. Ele era gordo. Mas era um gordo carismático. Sua rede de relacionamentos aumentava todos os dias. E dos quatro era ele quem conhecia mais meninas.
 Era convidado para todos os lugares e eventos. Ninguém se lembra de vê-lo beijando ninguém, mas sempre havia meninas lindas a sua volta. E elas estavam sempre sorrindo.
 Carlos começou a despontar na agencia por conta de uma campanha, e logo seu salário era muito bom para alguém da sua idade.
 Carlos começou a viajar pelo mundo. Fazer contatos. E por incrível que pareça Carlos era reconhecido nos lugares como um formador de opinião da nova geração.
 Um dia num grande evento com inúmeros jornalistas, Carlos foi visto com uma atriz da Globo lindíssima. Depois num restaurante com uma modelo fantástica. Elas diziam que eram só amigas.
 Mas a fama estava feita. Quando os amigos perguntavam das beldades, ele só pedia descrição. Fingia que realmente era rodeado delas.
 Carlos aos 20 anos era realizado. Mas não era feliz. Sabia que seu mundo era uma farsa.





 AOS 25 ANOS: 



 Carlos aos 25 anos faz uma campanha histórica. Com este sucesso, funda a sua própria agencia de publicidade, a Bollívia. Compra um Loft e um carro do preço de um loft. Vive entre a ponte aérea porque tem clientes no Rio.
 Torna-se sócio de um restaurante e de uma balada no Rio. Aluga um apartamento na Barra.
  Contrata uma grande assessoria de imprensa, e saí em todas as revistas e jornais. Engorda dez quilos. O que o deixa muito deprimido. Quanto mais engorda, mais quer ganhar dinheiro.
 Começa um curso sobre vinhos. Compra uma enorme adega. Mulheres? Não faltam mulheres nesta época para Carlos. Não que ele as pagasse, mas um jantar aqui, um contato ali, um presentinho acolá... Se não podemos agradar as “amigas” pra que ser rico e poderoso?
 Ele estava no Aeroporto do Rio quando veio à notícia. “Você ganhou em Cannes!”
 Desligou o celular. Sorriu. Agora sua vida não era mais uma farsa.




 AOS 30 ANOS: 


  Mudara seus negócios para o Rio. Vivendo agora em Ipanema. Já tinha dinheiro suficiente para se aposentar, mas ao contrário trabalhava cada vez mais. Sócios em vários negócios. Publicidade, campanhas políticas, produtoras de vídeo, rádios e igrejas evangélicas. Sim igrejas.
 Carlos começou a apoiar e trabalhar para os barões evangélicos e em pouco tempo tornou-se ele mesmo um magnata evangélico.
 Resolveu se casar com uma garota de família tradicionalíssima da zona sul. Seria o maior casamento evangélico da história. Pois seria um casamento evangélico para o dinheiro antigo. Para a classe alta tradicional da ponte aérea Rio- São Paulo. Filha de um senador.
 Viriam todos os políticos importantes de Brasília e o empresariado de São Paulo. Mas duas semanas antes, Carlos ao ver uma secretária muito sensual e suburbana, não aguentou e a levou jantar e saiu com ela na night carioca.
 Os fotógrafos paparazzis aproveitaram e clicaram tudo. Um verdadeiro estrago no dia seguinte.
 Carlos mandou todos passearem. Afinal o que ele ganhava com aquele casamento? Uma patricinha gastadeira, que nunca trabalhou e chata pra caramba? Nem gostava dela, e ela estava engordando. E ele queria ser o único gordo do casal.
 Rico, muito rico e poderoso, cheio de mulher no mundo, casar pra que? Resolveu que esperaria pelo menos mais uma década.
 Já sua noiva, esperou só dez meses. E casou-se com um rapaz de uma também tradicional família da zona sul.  





 AOS 35 ANOS: 



Apesar de ter sido sempre um empreendedor da iniciativa privada, Carlos aos 35 anos tinha vários negócios com o Estado.
 Seus principais clientes eram políticos, muitos deles representantes de eleitores evangélicos.
 Mas Carlos começou a se meter em tudo, não só em propaganda política, mas também livros escolares, universidades, fundações, lobby propriamente dito.
 Vendeu todas as suas participações em pequenos comércios como baladas, restaurantes, e postos de gasolina. Agora investia tudo em imóveis, escolas, universidades e negócios variados com o governo.
 Mas uma investigação da policia federal chegou até ele. Seu império desabou. Seu nome caiu na imprensa e seus clientes do governo se afastaram.
 A sociedade naquele tempo pedia fim da corrupção. Os políticos se safaram, mas para isso colocaram a culpa no corruptor Carlos.
 Gastou uma fortuna com advogados, e no fim não adiantou, foi condenado a cinco anos de prisão.
 A devassa da polícia constatou que seus bens valiam menos do ele devia de imposto de renda.
 Então aos 35 anos, Carlos estava novamente pobre e condenado à prisão.
 Seria agora muito difícil se levantar. E para piorar Carlos não estava com ninguém, suas namoradas interesseiras desapareceram.
 Os amigos também. A faculdade que fora vendida continuou empregando Dudu.
 Aquilo o deixou feliz. Por mais que seus amigos estivessem distantes, ele Carlos nunca deixou de gostar deles.
 Carlos era um homem com ambição. Aquela temporada da prisão só iria dar um novo curso a sua vida, mas não tiraria a sua vontade de fazer, realizar e crescer.




 AOS 40 ANOS: 




  Depois de três anos preso, Carlos consegue a liberdade. Continuou a viver no Rio. Procurou emprego como corretor de imóveis, mas só conseguiu numa imobiliária do subúrbio. Acabou demitido um mês depois.
 Pensou em virar taxista. Mudar o nome. Entrou em contato com várias agencias de publicidade. Tentou convencer de que ainda era um ótimo redator. Ninguém o recebeu.
 Procurou sua ex-noiva, agora divorciada, Catarina. Ela disse não o conhecer e também não o recebeu.
 Arrumou outra imobiliária na zona Norte do Rio e se mudou para uma quitinete. Um dia bebendo num bar da zona Norte ficou bêbado, e contou toda sua história para um senhor aposentado.
 O velho perguntou, por que ele não escrevia um livro contando sua vida? Daria até um filme.
 É isso! Carlos pensou. Com isso vou me reerguer. Entrou em contato com vários jornalistas e escritores. Mas nenhum se interessou. Mas pra que chamar um escritor? Afinal eu sei escrever.
 Foi ele mesmo para frente de um velho micro e começou a digitar. Passou praticamente três semanas escrevendo o livro.
 Mandou o material para algumas editoras. Todos amaram a história. Pegou a melhor oferta.
 Pouco antes do lançamento foi ao programa da Jô. A entrevista foi um sucesso. A noite de autógrafos tanto em São Paulo como no Rio, foi um evento de enorme proporção.
 Carlos se viu sem agenda para tantas entrevistas e programas. Os jornalistas não saiam mais da sua quitinete. Até que tiveram a ideia de fazer um programa na TV, com ele como apresentador.
 O programa foi um sucesso. Em um ano Carlos era de novo um homem rico e respeitado. Mas diferente do jovem deslumbrado, era um cara de 40 anos calejado.
Pensou em reabrir a sua agencia Bollívia. Mas desistiu. Começou um regime. Era uma nova fase na sua vida. Uma virada.
 Quem disse que não podemos nos reerguer e fazer tudo de novo?
 Com a diferença que agora era tudo dentro da lei. Carlos descobriu aos 40 anos, que a maior malandragem que existe é ser honesto.
 Deu uma enorme festa de quarenta anos no Rio. E convidou todos os seus amigos do colégio, Álvaro, Dudu e Rodriguinho. No dia seguinte foram os quatro para praia.
 Vinte anos se passaram, mas é como se eles ainda fossem os mesmos. Prontos para recomeçar tudo de novo. Ou mesmo começar.
 Afinal tudo, o mundo, a alegria e a vida começam aos 40.