segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Jaiminho e Ronaldão.


 Ronaldão era um bon vivant. Um dos melhores partidos de Pocipimba. Andava de carro zero, sempre em alta velocidade, pondo em risco a vida dos pedestres da pequena cidade do interior.
 Jaiminho era um jovem rebelde, barba comprida, gostava de rock and roll. Tinha estudado direito na capital e trabalhava com o pai no cartório da família.
 Já Ronaldão ora ia ao sítio fazer bagunça com a turma que levava, ora estava olhando seus postos de gasolina. Eram os dois únicos da cidade.
 Eram de turmas diferentes. Enquanto Jaiminho saía mais com os alternativos, intelectuais, Ronaldão era da turma dos playbas alienados. Um dia os dois caíram na mesma mesa de bar. Começaram a conversar. Jaiminho se impressionou com aquele caipira autodidata que tinham estudado junto com ele até a oitava série. Sim, porque depois Ronaldão nunca mais estudara.
 Como era possível? A única pessoa na cidade toda que tinha argumentos e cultura suficiente para manter uma conversa, era o Ronaldão alienado?
 Ronaldão por sua vez ficara com raiva daquele “esquerdinha”. E queria provar que o que atrapalhava o mundo era o Estado se metendo na vida das pessoas. Ninguém tinha o direito de interferir na natureza do livre mercado.
 Jaiminho tinha outra opinião, o mundo seria muito melhor sem as grandes empresas, sem os capitalistas que corrompem, e sem multinacionais que excluíam o povo da sociedade.
 Trocaram telefones e passaram a se frequentar. O povo da cidade acostumou a ver a dupla numa mesa de bar. Chegavam de tarde e só saíam de madrugada.
 Às vezes levavam mais duas ou três pessoas, para serem plateia das discussões que acabavam em brigas homéricas. Depois ficavam uma, às vezes até duas semanas sem se falarem.
 Certo dia um enorme posto de multinacional se instalou na rodovia, bem na entrada do Pocipimba. Ronaldão ainda resistiu um ano, mas acabou fechando os dois postos de gasolina, ficando ainda todo endividando.
 Jaiminho nesta época arrumou a franquia de uma livraria e deixou o cartório da família. A livraria havia sido inaugurada no Shopping da cidade. Alguém deu a ideia de Jaiminho também vender eletrônicos, ares-condicionados e celulares. O negócio deu tão certo que ele logo largou os livros. Abriu no mesmo shopping uma loja de tênis e artigos esportivos, suplementos e vitaminas.
 Em pouco tempo Jaiminho se tornara um dos melhores partidos da cidade. Passou a fazer a barba, cortou os cabelos e só se vestia agora de camisas sociais.
 Já Ronaldão, estava andando com um carro bem velho motor mil. Não era mais visto nas baladas, e passou a se dedicar a poesia. Certo dia um conhecido o convenceu de sair candidato a vereador. Sim, dizia o homem, um cara inteligente como você, comunicador, de boa família, se duvidar chega a prefeito.
 Dito e feito, mas ele precisava de um partido político. A primeira oferta veio da “oposição”, que em Pocipimba era um partidozinho de direita formado por uma oligarquia decadente.
 Sem chance foi o que ouviu dos políticos experientes. O que está em alta é o partido da situação. Verdade que Ronaldão recebera convite dos dois. Ele sempre fora muito querido na cidade, mas a “situação” era de esquerda.
 Jaiminho abrira sua quarta loja num shopping numa cidade próxima e convidara Ronaldão para inauguração. Depois saíram para uma pizzaria onde Ronaldão contou a Jaiminho as boas novas: Seria candidato pela esquerda. E Jaiminho seria seu chefe de campanha.
 Jaiminho recusou na hora. Passou um sermão em Ronaldão, disse que na política só havia vagabundos e corruptos, gente que não deu certo na iniciativa privada.
 Ronaldão pego de surpresa, perguntou onde estava o Jaiminho antigo, o Jaiminho que dizia que as pessoas deveriam vir antes do lucro? Que sonhava com uma Pocipimba mais justa? Onde estava?
 Passaram então a brigar constantemente, com a diferença de que agora Jaiminho defendia o livre comercio e Ronaldão uma sociedade mais socialista.
 Jaiminho decidiu também se candidatar, ele mesmo, ninguém o convidou. Só que pela oposição, pela direita. O partido achou que o novo empresário, homem de sucesso, ex-hippie, era um candidato tão bom que deveria era sair para prefeito de uma vez. Se o Ronaldão pode, eu também posso. Jaiminho recebeu enormes quantias de doações para sua campanha.
 Ganhou. Jaiminho se tornou o prefeito de Pocipimba. E Ronaldão perdeu para vereador, ficando um dos últimos colocados.
 Sem emprego, Ronaldão pleiteou uma vaga de gerente do novo posto e lanchonete vinte quatro horas da rodovia. O mesmo posto que tempos antes o tinha levado a falência. Fazer o que? Era o que sobrara. Como o salário era pouco e ninguém queria ficar de madrugada, conseguiu o emprego.
 Em pouco tempo Jaiminho foi privatizando tudo na cidade e cortando todos os gastos, inclusive na educação e saúde.
 Um dia o prefeito Jaiminho recebeu uma ligação de Ronaldão e foram tomar uma cerveja. Ronaldão saiu de lá nomeado o novo secretário de turismo. Jaiminho alegou que de tanto trabalhar no posto de gasolina Ronaldão conhecia os turistas que passavam pela cidade. Na verdade eram viajantes que só paravam para fazer xixi e se alimentar. Mas não deixavam de ser turistas.
 Anos se passaram e o tempo gasto com a administração da cidade fez com que Jaiminho ficasse omisso nas suas lojas. Quando deu por si, descobriu que estava quebrado.
 Sem opção, Jaiminho desviou verba pública da prefeitura para suas lojas. Por denuncias anônimas, um vereador da oposição ficou sabendo e fez uma campanha, que acabou derrubando Jaiminho do cargo.
 Agora com esta crise esquerda precisava de um candidato para as novas eleições, e o candidato escolhido deveria ser alguém sem envolvimento com nada. Sem muito histórico, mas ao mesmo tempo conhecido. O nome de Ronaldão veio à tona.
 Em poucos meses Ronaldão era o novo prefeito. Seu primeiro feito foi contratar uma empreiteira da qual Jaiminho era sócio.
 Os dois amigos, prefeito e ex-prefeito são sempre vistos nos bares da cidade. Geralmente numa grande discussão sobre qual é a porcentagem de cada um, em obras superfaturadas. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

China Hotel.


 Fui ao MIS durante o carnaval. Ver a obra do artista chinês Ai Wei Wei. Um sujeito mal encarado, que lembra um artista beatnick. Achei divertido, ter de escolher, ou tirar os sapatos, ou ficar de meias, ou colocar uma proteção nos pisantes. Que nem fazem em restaurantes japoneses e no museu Imperial de Petrópolis.
 Confesso que não entendi se o, acho que é fotógrafo, é aclamado pela sua rebeldia ao regime atual chinês, ou se realmente não há exagero no seu talento.
 Bem o fato é que estava eu lá no museu da imagem do som, em São Paulo vendo o planeta China finalmente chegar. Que emoção.
 Mas logo comecei achar o Wei Wei tão parecido com os americanos. Com um americano. Afinal o que é um americano? Norte americano.
 A mulher devia ter uns 57. E foi mesmo 57 que ela disse que tinha. Era gaúcha, com orgulho descedente de alemães. Os cabelos lembram a Maítena. O menino tinha 3 anos e não era descendente de alemães.
 De repente ouço uma discussão. Um sujeito de papete, baixo, gordinho, com cara de francês, mas sem sotaque algum dizia a três seguranças negros bem altos que não iria tirar a sua vestimenta:
 “Vocês não podem interferir na minha vestimenta!”
 Logo chega uma menina moça, funcionária da exposição. Eu não ouvia o que ela dizia ao homem. Acho que ela era mestiça, não de índios, mas provavelmente alguma etnia do norte da Ásia. Já ele:
 “Se você concordar em tirar sua blusa, eu fico descalço!”
 Nesta hora até fiquei empolgado. Será? Que eu vou ver os seios da moça? Afinal estava calor, tanto para ficar descalço, como para uma exposição nudista.
 Me deu inveja, da mulher gaúcha de 57 anos. Agora ela tinha aquele menino lindo de três anos. Fiquei com vontade também de adotar um menino negro. Que dupla. Ainda bem que se acharam.
 Certa vez li uma citação que deram créditos ao Mário de Andrade:
 “Ao contrário do que imagina Freud, eu e minha mãe apenas somos bons amigos”.  
 Havia também outro menino no almoço. Loirinho, mãe e pai também branquinhos. A festa inteira estava seduzida pelo loirinho. Um loirinho cheio de vida, com longos cabelos que filhos de pais alternativos usam. Uma risada contagiante.
 O outro, o filho da Maítena não ria muito. Ao contrário do “anjinho”, ficava na dele. Tinha algo no olhar. Como se entendesse toda dor de Lima Barreto. Será? O que uma criança pode entender? Pode sentir? Não seria tudo imaginação minha?
 Passamos a vida toda aprendendo a não ser mais criança a crescer.
 E de que adianta? Se todos somos prisioneiros da repressão. Seja ela chinesa ou não.
 Ouço um pastor dizer na televisão que ninguém gostaria de ter um filho gay. Ele não me conhece. Ele não conhece a mulher gaúcha com cabelos de Maítena e o filho Luis Fernando.
 Ele não conhece o Wei Wei. E principalmente ele não conhece Jesus.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O bamba.

  Arnaldo quase não acreditou quando viu o nome do Napinha como agora vice-presidente.
 Ele, Arnaldo havia feito não uma, mas duas grandes faculdades. Direito na São Francisco e Administração na Getúlio Vargas, e agora Napinha era o Vice-presidente. Arnaldo vestia a camisa da empresa de telefonia.
 Ele conhecia Napinha por que tinham amigos em comum. Napinha era o tipo de cara que passava despercebido, feio, mal vestido, sem carisma, sem estilo e sem charme. Então como ele Arnaldo que malhava todos os dias, tinha uma mulher linda, carismático, culto, criativo continuava um gerente?
 E o pior, logo depois da promoção de Napinha eles se encontraram na sede da empresa e Napinha mal o cumprimentou. Deu um oi, assim, meio de lado.
 No outro dia foi para o Rio. Estava num almoço de negócios onde todos falavam de Napinha, ou melhor dizendo, de Aramando Guimarães que tão jovem havia se tornado Vice-presidente.
 Foi então que Arnaldo começou a olhar para a mata atlântica numa das janelas do restaurante do Jardim Botânico. Ouviu um samba, ou talvez uma bossa nova e relaxou. Pensou: “Quer saber vou ficar aqui no Rio e não vou voltar hoje pra São Paulo. Eu vou é na Lapa. “
 Seguiu para um hotel, fez o check-in e foi caminhar na praia. “O Napinha!” Ele pensava.
 O Napinha nunca havia feito uma piada. Não tinha ideologia política, nem hobbies, nem paixões. Uma vez falaram que ele era chegado numa garota de programa, mas quem não é? Bom o Paulo do Marketing não era, mas o Paulo era gay.
  Bem da verdade Arnaldo gostava muito do seu emprego. Para sua ambição seu cargo era o que ele sonhara. Amava a esposa, tinha um bom apartamento, seguro saúde, sócio de um clube, carro novo, viajava para o exterior... O que ele não conseguia engolir era o Napinha ser Vice-presidente. Ou seja o que o deixava louco era a empresa reconhecer alguém que ele acreditava ser pior e menos qualificado do que ele.
 Quando deu por si estava bêbado e na Lapa conversando com uma cantora de Ribeirão Preto.
 “Mas em Ribeirão tem samba?”
 “E porque você acha que eu estou aqui na lapa?”
  A moça, Raquel havia a pouco se separado de um economista. Ele não entendia o meu estilo de vida.
 Não demorou muito para Arnaldo trazer o assunto Napinha. Raquel não parecia muito interessada na empresa de telefonia.
 “Você tem algum contato de alguém que recebem editais de cultura, lá?”
 Mas ele insistia no Napinha. Determinada hora da noite, ele cantou um samba pra ela.
 “Lindo! De quem é?”
 “É meu...”
 Isto foi há mais ou menos dez anos. Raquel e Arnaldo não estão mais juntos, ficaram só alguns meses. Suficiente para ele conhecer a rapaziada do Samba.
 Um dia uma grande empresa patrocinou um show da sua escola de samba. As músicas eram dele, Arnaldo. O presidente da empresa depois veio falar com ele.
 Era um cara bem alegre e falante. O presidente abraçou Arnaldo e o beijou várias vezes.
 “Não está me reconhecendo Arnaldo? Napinha! Não lembra? Só porque ficou um bamba do samba não lembra mais dos amigos!”
 Arnaldo deu um grande abraço em Napinha. E os dois beberam até o sol nascer.  

domingo, 13 de janeiro de 2013

A busca por Ele.


 Ele havia decidido viajar da Geórgia para Califórnia. Cruzaria a América levando a palavra de Deus. Em Atlanta diziam que pregador melhor não existia. Com uma moto e uma bíblia seguiu pela estrada. Numa pequena cidade do Texas ele a conheceu. Seu nome era Adriana.
 A moça morena de uma beleza que ele não conhecia muito na Geórgia, era cantora. Sim, cantora e católica. Ela ficara deslumbrada com a multidão que assistia ao culto ao ar livre, na praça.
 Adriana era filha de Mexicanos. Seu estilo era o Blues. Ele deu uma carona para ela até o Arizona, aonde a prima de Adriana iria se casar. Nunca mais foram vistos. Era o ano de 1965.
Dois anos depois aconteceu o festival pop de música de Monterey. Eram 200.000 pessoas na plateia. Um ex-colega de ginásio dele, lá de Atlanta, disse ter visto o casal pelo festival. Mas como este colega de nome, John John Silva, alega que estava doidão na hora, por isso não tem total certeza de tê-los vistos.
  O povo do Tropicalismo, diz ter conhecido um sujeito com as mesmas descrições em Londres. Um bebia muito com o Ivan Lessa. Tanto que existe uma entrevista feita com ele para a revista Cruzeiro. Uma que ninguém assinou.
 Por isso quando o vi no Rock and Rio, eu tive dúvidas. Ele estava ao lado de uma senhora com um vestido Indiano. A senhora morena parecia uma índia dessas da América do Norte, tipo uma apache. O sujeito, um daqueles gringos derretidos, lembrava o Pereio dançando.  Não falava português, e deixou cair um cartão. Cosegui pegar o cartão do chão.  
 Liguei para um hotel em Copacabana. Mas eles me informaram que o casal descrito por mim, havia deixado às malas no hotel e sumido. Era uma pista.
 Pedi para revistar as e os objetos. Além de uma antiga bíblia, muitas roupas coloridas e sujas. Nenhuma foto, nada. Mesmo o registro no Hotel eram nomes falsos. Mas espere. Acho que eu vi algo.
 Esta é a mesma camisa que ele foi visto no Texas, em 1965. Ou é muito parecida. Espere de novo. Eu estou vestindo a camisa colorida. E tem uma senhora gringa morena, dessas velhas Hippies me dando uma bronca. Ela acabou de entrar no quarto aqui do Hotel.
 Mas ela é Adriana. Então? Eu sou ele. O pastor.
 Nossa!
 “Francis você precisa para com as drogas e de beber também! Ta ficando muito louco.” Diz Adriana.
 No dia seguinte acordo feliz por ter me encontrado. E rezo agradecendo. Cinquenta anos usando drogas. Mas parece que foi ontem, que eu conheci esta menina. Lá no Texas. Que música que tinha lá naquela época!
 Obrigada Senhor!
 Essa velha hippie aí quem é?
 Ah é. Lembrei. Nossa!  

Neverland.

 Hoje eu fui ao Masp (Museu de arte de São Paulo). Fui ver uma exposição chamada “Luzes do Norte.” Não era nada do que eu imaginava. Nem gostei nem desgostei. Ao sair chovia muito. Como todo domingo há uma feira embaixo da marquise.

 Vi uma aglomeração de pessoas e um som com músicas de Michael Jackson. Me aproximei mais e pude ver algo lindo. Era um fã clube do artista morto. Jovens, bem jovens, adolescentes de todos os tipos, tamanhos, gêneros e etnias. Eles realizavam coreografias do cantor e dançarino na chuva. Estavam todos caracterizados e se divertiam muito. Meninos e meninas. Quando saltavam ao voltarem com os pés no chão, a água do paralelepípedo espirrava. Parecido com o comercial da Coca Cola, ou Pepsi. Como queiram.
 Coincidentemente ontem meu amigo Marvin me falou da sua fascinação pela cena de Fred Astaire cantando e dançando no filme “Cantando na chuva”.  
 Lembrei de mim quando bem menino. Minha mãe me presenteou com uma Jaqueta igual a do Michael Jackson e com ela eu realizava meus passos nas festinhas do ginásio.
 Depois voltando pra casa, agora na garoa, refleti: “Por que será que tantas pessoas atacam a Igreja Católica”.
 Será que um mundo sem a Igreja, seria um mundo melhor? Não consigo achar nada, absolutamente nada de ruim no pensamento Cristão. Pelo contrário acho o cristianismo lindo. Como também não consigo achar nada de errado com a arte de Michael Jackson.
 Mas dizem que por baixo de tudo, está escondido um segredo de abusos em seres inocentes. Pode ser. Monstros existem. Mas a mensagem... A mensagem tanto da igreja, quanto de Michael Jackson, é tão somente o AMOR. E também a crença no Paraíso. Ou para alguns, a Terra do Nunca.
(O autor não é Católico praticante e nem tão pouco fã de Michael Jackson). 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nova antiga Praça. Para sempre Roosevelt.


Antes de conhecer o Teatro do Satyros localizado na Praça Roosevelt eu conheci o
N.Ex.T. , um tetro próximo dali na Rua Rego Freitas. Na época o N.Ex.T. tinha outra proposta. Lá acontecia o Terça Insana, quando este espetáculo ainda era um tanto quanto off.
 Mas no fim tanto o Satyros quanto o N.Ex.T. têm mais ou menos a mesma configuração. Um bar na frente e um pequeno auditório nos fundos.
 A minha memória mais antiga da Praça Roosevelt foi quando meus pais me levaram num antigo cine clube que ficava onde hoje é o Teatro do Ator. Assistimos ao “Carteiro e o Poeta”. Acho que eram os anos 80. Lembro que gostei muito lugar.
 Meu pai sempre foi um pioneiro e garimpeiro cultural. Ele frequentava o Teatro de Arena nos anos 60, também ali perto. Outro dia descobriu um novo cine clube, acho que se chama “Matilha”, ali mesmo na Rego Freitas, galeria de arte na frente e cinema aos fundos.
 Mas voltando. Há uma década, o Satyros aportava na Praça Roosevelt. O lugar tem prédios que me lembram os de Buenos Aires.
 No começo ficávamos bebendo nos Satyros e depois também nos Parlapatões. Antes e após as apresentações de teatro.
 Eu achava a rua que separa os teatros e bares da Praça propriamente dita, uma fronteira do mundo encantado. De um lado a ficção da dramaturgia, feita com a luz do palco e os atores, do outro aquele lugar sinistro, com árvores antigas, construções que lembravam ruínas futuristas, nunca tínhamos a visão do todo da praça, pois a praça ficava elevada em relação aos teatros e bares.
 Terça feira passada fui à praça. Ver de perto a famosa e esperada revitalização. Não amei. Me lembrou vagamente o concreto do Memorial da América Latina.
 O lugar agora tem a mesma intensidade de luz à noite quanto de dia. Claro que para uma metrópole que sofre com o pesadelo da violência e das precárias condições dos aparelhos urbanos, a população sai ganhando.
 O lugar estava lotado, pela primeira vez vi mais gente na praça do que nos bares.
 Acontece que para mim, que era um frequentador que ia uma vez a cada duas semanas, quando não estava eu mesmo em cartaz, o pesadelo sumiu, mas sumiu também parte de um sonho.
 Aquele lugar sombrio, sinistro, fantástico, um bosque mágico e perigoso no centro de São Paulo, deu lugar a um horizonte que me lembra as orlas de Santos, Recife, Caraguatatuba... Só não há o mar no final. 
 E com isso tenho a certeza que aquele lugar nunca foi o que foi, por conta só da arquitetura e do urbanismo.
 Aquela praça é o que é por conta das pessoas. Por conta do acaso de juntar uma rua com prédios Portenhos, teatros alternativos, como o La Mama de NY, que não tem o mesmo charme do Satyros. Com o circo dos Parlapatões, com as atrizes gatinhas andando lado a lado com as garotas de programa bonitinhas.
 Com pessoas de todo o Brasil, com influencia, de arquitetos como Rino Levi, Niemeyer e  Artacho Jurado.
 Eu queria que algum Paulistano parecido em alma, como o Nova Yourquino Wil Eisner, autor da Avenida Dropsie, contasse todas as décadas da Praça da Roosevelt. Seus movimentos, sua arquitetura, e principalmente os personagens. Sonhadores, boêmios, prostitutas, viciados, poetas, descolados, moderninhos, políticos, curadores, dramaturgos, roqueiros, sambistas e belas moças.
 Que venha uma nova década, que venham outros jovens. Quero que daqui uns vinte, ou trinta anos, eu volte a Praça Roosevelt e veja jovens curtindo a noite, sem pressa de ir para casa, para ter acordar cedo no dia seguinte.  
 Vou lembrar das minhas noitadas. Lembrar do encantamento. E imaginar que na praça existam seres mágicos e segredos escondidos. Mesmo porque as mudas plantadas hoje serão árvores fortes, enormes e cheias de histórias para contar neste dia.
 Quem sabe neste dia, um texto meu, seja montado por um grupo destes jovens.  
 E que depois da apresentação, iremos ao Planeta`s jantar, na Rua Augusta e voltaremos para Praça, para beber. Beber até o sol nascer. Viva!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Testemunho de um arrastão.


Estávamos ainda aguardando os pratos. Eu e minha namorada, jantávamos num restaurante Árabe descolado na Vila Madalena. Eu a havia buscado no trabalho, uma produtora de vídeo, bem perto da Rua Girassol, onde agora nos encontrávamos.
 Era uma noite feliz. Não tínhamos brigado, a paixão estava rolando no ar. Nos entendíamos tão bem. Vi uma conhecida na mesa ao lado. Ela parecia estar num encontro. Dei um oi de longe.
 Como nossa mesa era na porta, e outra mesa ficara vaga, os garçons gentilmente nos ofereceram trocar de mesa. No caminho para nova mesa, agora encostada na parede, parei alguns segundos, para conversar um pouco com a minha velha conhecida. Noite calma. O lugar tem uma atmosfera que mistura oriente com Vila Madalena, de um jeito contemporâneo.
 Em filmes, ou mesmo no circo e no teatro, as atrações são anunciadas. Um arrastão, um assalto, são uma cena, com começo meio e fim. Independente do estilo. Causa tensão.
 Mesmo quando se é só uma foto, ou um pedaço de cena, a platéia, ou o espectador tem de entender, que um personagem está roubando o outro.
 Foram só três minutos. Sem anuncio, sem trama, sem líder, sem organização alguma.
 O que eu senti? Posso afirmar que não foi síndrome de Estocolmo. Sei lá o que as pessoas sentem. Mas pra mim... Como dizer?
 Eu posso reproduzir este três minutos. A posição em que eu fiquei. Tudo o que eu pensei. Onde estava cada mão, pé. O que eu sussurrei para a namorada. Enfim tudo. Tudo o que eu vi e ouvi. As cores, as vozes... Mas como somos ensinados desde cedo para não reconhecer rostos e eu fiquei olhado para o meu prato vazio, logo não me é possível reconhecer ninguém.
 De tanto ler e ouvir sobre arrastões, não demora tanto tempo para sacar que você está fazendo parte de um. Como vítima.
 Não sei se é treinamento do Teatro. Mesmo porque até no teatro dizem que eu sou muito calmo. E acho que quanto maior o perigo mais calmo eu fico.
 Acontece que antes de entrar em cena, nos preparamos. Mesmo para um stand-up, ou show de palhaço. E se não rirem? E se não baterem palma? Bom, se não baterem palma eu não vou morrer por isso, correto?
 Andar de avião, praticar um esporte radical... Mas para tudo isso há um preparo, nada é assim de surpresa. Por maior que seja a adrenalina, já estamos aquecidos.
 O que eu quero dizer, e isto é algo muito particular. É que quando acabou o assalto e aqueles cerca de oito ou dez homens armados se foram, ficou uma sensação de quero mais.
 Já ouvi que jogadores de cassino são viciados na emoção de quando os dados ainda não pararam.
 Bombeiros, policiais, assaltante de bancos, soldados, eles têm esta emoção. Uma mistura de medo e prazer. Final de Copa do mundo, olimpíadas e resultado do vestibular são alguns exemplos.  
 Nestas horas ficamos totalmente livres. Esquecemos se estamos bem vestidos. Esquecemos nossa doença, nossa dor de amor, dívidas e até a eleição.
 Uma vez quando sofri um sequestro relâmpago, achei que iam me matar, e senti pena de mim, porque estava escrevendo uma peça de teatro e não poderia terminá-la.
 Mas dizer isso ao seu assassino:
 “Veja bem, você não pode me matar porque ainda não terminei de escrever a minha peça de teatro. Ela pode ser uma obra prima da dramaturgia nacional.”
 Acho que não é um bom argumento.
 Não acho que existam duas versões, para caracterizar um arrastão. Uma de esquerda e outra de direita. Sem maniqueísmo. Existe uma só. Quem pega em armas para realizar um ato banal dentro da democracia, é porque gosta dessa sensação.
 Acredito que seja muito mais forte que qualquer droga. Porque vem do nosso próprio corpo. Vicia. Liberta.
 Ruim é a expectativa. “Será que vão me assaltar se eu parar no sinal vermelho?”
 Durante é até um alívio. “Pronto finalmente aconteceu.”  
 Não gosto de pensar como sociólogo, porque eu não sou, nem tenho acesso a pesquisas ou a trabalhos sobre comportamentos sociais e tal.
 Mas querer substituir esporte, lazer e cultura pela violência, é uma tarefa muito árdua.
 Para não dizerem que sou um louco, digo que sexo ainda é bem melhor do que jogar entre a vida e a morte. Mas que essa adrenalina de um arrastão, é muito melhor do que um medinho controlado de parque de diversões e filminhos de terror. Ah! Isso é. 
 Não desejo que me aconteça de novo. Foi uma lição. Para eu entender que nem tudo é racional.
 Bom e para terminar, sou sim a favor de excluir um cidadão que ameaça outros com uma arma, do convívio da sociedade.
 Ainda mais quando eles são desconhecidos entre eles. Vítima e criminoso. Eu sempre estarei do lado da vítima.
O assalto acabou. Eu e minha namorada jantamos. Comida maravilhosa. No caminho para o carro, cruzamos com um grupo de Portugueses moderninhos bebendo vinho e rindo na calçada.
 Para a surpresa da minha namorada, eu contei ao grupo sobre o assalto, o arrastão, a um quarteirão dali. Eles se solidarizaram conosco e ainda nos chamaram pra ir a Mercearia São Pedro beber.
 Foi quando o Leo civilizado voltou e pediu para o Leo bárbaro sair. O curioso é que o Leo bárbaro é calmo, contido, frio, dissimulado, coordenado, rápido e feroz.
 Já o Leo civilizado é histriônico, comunicativo, afetado... Uma noite linda, luar e a tranquilidade da Vila. Nem mais sinal do pequeno exército mercenário que o destino nos colocou frente a frente.
 Era dia de São Francisco de Assis.