domingo, 30 de junho de 2013

Mas e a Claudinha?

Luciano entrou assim, por acaso, numa livraria. Estava com o dia livre. Olhava as prateleiras, pegava alguns livros, via por alguns segundos e os devolvia. Pela janela,  um dia nublado e frio.
 Não percebeu a menina se aproximar.
“Posso ajudar?”
 Não podia acreditar naquele anjo de pele branquinha e grandes olhos verdes. Pediu um livro do Rubens Fonseca.
 “Você quer dizer Rubem?”
 “Eu nunca sei se é Rubens ou Rubem.” Ele riu dele mesmo. Então ela sorriu e disse:
 “É Rubem. Eu lembro porque o meu pai também é Rubem.”
 Ele passou a frequentar a livraria. A estudante de psicologia e vendedora, Claudinha, sempre estava lá. Numa outra tarde, outro dia livre de Luciano, aliás, os dias livres de Luciano eram bem frequentes, ele pediu um Mário Vargas Llosa que ficava bem no alto.
 Claudinha, era Claudinha, pois era baixinha. Teve de subir na escada e Luciano pode ver aquele pedaço das costas da menina próximo a bunda, aquele que vemos quando uma menina levanta os braços.
 Ele ficou obcecado por aquele pedaço de costas branca. Voltou só três semanas depois, já que era verão e ele acabou indo viajar para a praia. Queria contar sobre o Mário Vargas Llosa. E qual não foi a sua surpresa ao ver a livraria fechada. Iriam construir um prédio no local. É o que um dos engenheiros que estava lá lhe disse.
 “Mas e a Claudinha?”
 O engenheiro disse que não sabia de nenhuma Claudinha. E que também não tinha o telefone do antigo dono da livraria.
 Passaram-se vinte anos. Luciano agora era um advogado, sócio de escritório renomado.
 Foi para um bar beber num fim de expediente. Pediu uma caipirinha de cachaça mesmo. Outro sócio passou no mesmo instante em que ele fazia o pedido. E comentou aquilo com um gesto de deboche:
 “Cachacinha né Doutor Luciano?” Gargalhou e seguiu para outra mesa.
 Aquilo o aborreceu demais. Mas escondeu a raiva. O celular toca, é sua namorada recente, Eduarda.
 Ela aparece com uma amiga. Claudinha. A mesma Claudinha, agora psicóloga. Ficam os três na mesa conversando e bebendo. Passam-se horas. Eduarda olha pela janela e diz:
 “Adoro este prédio.”
 “Sabe que ai era uma livraria antes?” Pergunta Luciano.
 “Claro que eu sei, eu lembro quando a Claudinha trabalhava nela”.
 “Você trabalhou na livraria que tinha aqui, Claudinha?”
 “Dois anos.”
 “Espera que eu vou lembrar o nome dela.”
 “Livraria Tavares.” Disse Claudinha. “Trabalhei dois anos nela.”
 “Então com certeza você me atendeu muito.”
 Claudinha olhou bem para Luciano.
 “Com certeza sim.”
 “Quanta coisa que já existiu em São Paulo.” Suspirou Eduarda.
 “Quantas vidas e histórias.” Completou Luciano.
 “Atendi tanta gente nesta livraria.”
 Neste momento Luciano reconheceu Claudinha.
 “Mas agora eu estou te reconhecendo.”
 “Eu também to vendo que você não é estranho.”
 “Das aulas de francês, lembra?”
 “Claro, naquela escola de línguas. Nossa! Lá se vão muitos anos. Uns cem?” Ri.
 “Acho que oito.” Concluiu Luciano. “Nós falávamos de Mário Vargas Llosa.”
 Claudinha não se lembrava disso, mas concordou.
 “Bem, tenho que ir.”
Claudinha levantou-se e quando foi pegar a bolsa, Luciano pode ver um pedaço branquinho de suas costas. Ficou fascinado com aquilo.
  Luciano e Eduarda não deram certo. Terminaram dias depois.

 Ele acabou casando com uma sócia do escritório, que as terças e quintas, faz terapia com uma psicóloga. A doutora Cláudia. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Diário de Nova Yorque. 3

O lado mais escuro.
A gente imagina um americano. Como ele é? Uma americana. Uma loira?
Sim uma loira quando a gente quer imaginar uns Estados Unidos belo.
 Por quê? Uma loira é mais bela que uma latina? Ou ainda uma loira não pode ser uma latina?
 Quantas perguntas. Agora imagine um brasileiro. Como ele é? Provavelmente você imaginou alguém cujos ancestrais não nasceram neste continente americano.
 E um mexicano? Um boliviano ou um peruano? Seriam um asteca, um índio, um inca ou um maia? Talvez ainda um ibérico? Um mestiço?
 No Brasil a cultura se misturou. Mesmo quando o sangue não se misturou.
 O que é o Harlem? Um bairro dentro de Nova Yorque só com negros. E estes negros são menos americanos do que os brancos?
 O Harlem hoje, 2013, é um bairro MUITO rico. Tão rico quanto os melhores bairros de São Paulo. (Se o leitor quiser saber de onde provem o dinheiro pesquise na internet. Mas creio que o lugar recebe uma ajuda estatal. Ou ainda governamental como dizem por aqui.) Mas não é disso que se trata este texto. O comércio é superior à média de São Paulo, assim como a vida cultural. As igrejas são bem frequentadas. Quatrocentas delas. Digo, praticamente lotadas.
 Depois da missa, eu e a minha esposa Livia, resolvemos tomar um Brunch de domingo. Mistura de almoço e café da manhã. Da rua não podíamos ver direito o interior do lugar, um dinner, como chamam por aqui, uma espécie de lanchonete, que serve de manhã até de noite e não tem cozinha bem definida. Aliás, concertando, tem cozinha bem definida sim. São como nossas padarias, ou botecos, enfim.
 O lugar era grande e estava praticamente tomado. Só havia uma mesa, próxima a saída. Outra mesa do lado era ocupada com turistas europeus brancos (todo europeu é branco?), que também vão atrás dos cultos de domingo nas igrejas batistas, para admirar os negros cantarem no coro.
 Uns poucos funcionários hispânicos (3) e muitos, muitos negros. Nenhum mulato, tal qual na igreja, tal qual na rua.
 Eu pelo menos, com minha cabeça brasileira, esperava encontrar algo parecido, ou pelo menos similar a uma favela brasileira. Pobreza, criminalidade, alegria, pagode, policia violenta, tráfico, abandono do poder público, prostituição infantil...
 O Harlem não tem absolutamente nenhuma destas características. O Harlem inacreditavelmente parece muito mais Tarantino na estética do que Spike Lee. Na estética e não no conteúdo. Nem sinal de Woody Allen.
 Definitivamente Scott Fritz Gerald é tão estrangeiro para eles quanto para mim. E Eddie Murphy passaria completamente despercebido aqui.
 A gente não sabe se ri, se fica com medo, se relaxa, mas o fato é que o lugar só tem negros.
 De tanto ver galerias e museus por aqui, no começo até parece uma instalação moderna. Sabe aquelas que se utilizam da repetição? Um lugar só com carecas, só com pessoas baixas, só com pessoas gordas, pessoas só de chapéus, sei lá.
 Aí percebo que os “turistas” são uns esquerdistas americanos brancos, ou talvez gente da Columbia University, fingem normalidade, mas não conseguem ficar muito tempo no lugar. Pedem a conta e saem. Agora somos só nós dois (eu e a Livia) e eles.  
 Café americano, panquecas com melado, ovos mexidos, torradas, tudo absolutamente americano, mas as pessoas eram só negras.
 Nesta hora entendo aquela frase, tanto usada para os negros no ocidente:
 “Sua cor já é um problema”.
 Ao entrarmos pela porta a Lívia e eu, já criamos um desequilíbrio. Já criamos um problema, sem ao menos estar atrás de um.
 “O que vocês estão fazendo aqui? Embora seja domingo, aqui não é turístico. É só uma lanchonete como outra qualquer. Acontece que é uma lanchonete no Harlem”.
 Ninguém nos abordou. Nem nunca vou saber o que eles pensaram. E se realmente ligaram para nós.  
 Saímos de lá, andamos pelas ruas, lojas e museus. Lorca disse uma vez que os negros americanos são os maiores atores do mundo. Claro que isto é uma bobagem. Ou ainda um exagero. A cor não define um talento. Mas uma cultura pode ser sim mais teatral. Mais histriônica e visceral.
 Em pouco tempo você percebe que há diversidade no Harlem. Seus olhos começam a identificar padrões que se repetem.
 Há o negro gangster, o negro intelectual, o negro engajado, o negro artista, o negro capitalista, o negro racista, o negro com ginga, as negras exibicionistas, as senhoras negras simpatiquérrimas, os negos sábios, os malandros, os direitistas, os negros velhos que parecem tão jovens.... E são tão americanos. E tudo tão musical.
 O Harlem é uma nação dentro de uma nação. Lá vimos à bandeira americana onde o branco era substituído pelo preto. É sério, as listras e estrelas eram pretas.
 A Vai Vai em São Paulo é o encontro da África com a Itália. O Bixiga é a terra do Adoniran Barbosa.
 O Harlem é o Harlem. Não é África, não é Inglaterra, não é o Mississipi.
 O Harlem não tem nada de Brasil.
 Com certeza deve haver muita maldade por lá. Exatamente como em todo lugar, não sejamos ingênuos.
 Aos domingos o número de turistas europeus é grande no bairro. Não vi asiáticos nem brasileiros.
 Uma pena. Talvez os brasileiros achem que os negros americanos sejam mais parecidos com os brasileiros do que os brancos americanos. Por isso não vão conhecer. Com exceções, claro.
 Em minha opinião, leitor brasileiro, o Harlem é uma cultura a parte. Aí que gafe, digo, uma cultura original, sem matriz. E é uma grande e belíssima cultura.
 Espero que o leitor entenda que este texto é uma impressão minha do Harlem, e não um tratado sociológico. Se quiser informações precisas, dê um Google.
 Se vier para Nova Yorque, sim com Y mesmo. Pegue o metrô e venha para o Harlem.
 O mais incrível é que ninguém vai te pedir o passaporte na saída do metrô.
 Mas vá preparado, os habitantes do Harlem vão te gozar, vão-te amedrontar, vão te emocionar.
 Como o pastor de lá disse, eles são os cristãos contemporâneos.
 São talvez, proporcionalmente, umas das comunidades que mais inovam no planeta. A missa deles é centenas de vezes, mais interessante do que a católica.
 Mas eles não sabem disso. Acho que o perigo, é que quando descobrirem o quanto são interessantes, eles deixem de ser.
 Mas até lá, vá visitar o Harlem. Imperdível.






 


Diário de Nova York 2

 Artistas ricos.  
 “Narciso acha feio o que não é espelho”.      
 Acho que a frase é do Caetano Veloso. Ela para mim significa muito. Talvez pela incapacidade que eu tenho em reconhecer que existem lugares que podem superar em beleza a minha cidade, a minha casa.
 Já o meu irmão que mora em Nova York, e é nascido em São Paulo, não sofre deste mal.
 Pra mim, poucas sensações são tão gostosas quanto à de pousar no aeroporto de Guarulhos. Mesmo que eu nunca tenha visitado Guarulhos.
 O mundo não é feito de países. Ele é feito de cidades e de bairros e de ruas. E claro, de prédios e casas. O tal de arquitetura e urbanismo.
 Eu não posso dizer que amo São Paulo. O que eu gosto muito, é do alternativo da Vila Madalena, dos prédios de Higienópolis, da riqueza da Vila Nova Conceição, da modernidade do Itaim, da sofisticação dos Jardins, da inovação do Baixo Augusta das pessoas da Praça Roosevelt, da calma da Granja Viana, do oriente da Liberdade, do inesperado da Vila Mariana, da Imponência do Morumbi, da casa da sogra no Bonfa (Butantã), do Sesc da Pompéia, de me perder na Lapa, de viajar no Ibirapuera, do céu da  Avenida Paulista e da Praça Buenos Aires. Buenos Aires. Até do nome da Praça eu gosto. Do futurismo da Berrini. E dos bares da Zona Norte, da Zona Leste, dos lagos da Zona Sul, dos nordestinos no centro quatrocentão.  
 Acho também que os lugares têm épocas. Com certeza Nova York foi na primeira metade do século vinte, um lugar extraordinário e teve seu reconhecimento como capital mundial na década de 70. Mas o auge, de novo em minha opinião, o auge foram seus prédios residenciais do final dos anos vinte.
 Os que eu mais admiro e perco a respiração são os de duas torres da Park West. San Remo, Magestic, Bedford, El Dorado e talvez até o Dakota. Este último onde morou John Lennon.
 Se eu fosse filmar uma cena, ou colocar num livro um cenário que definisse Nova York, eu colocaria não um prédio comercial como Empire State ou o Chrysler, mas sim os de duas torres.
 Por mais bonito que possam ser os Arranha Céus refletidos nos rios com suas enormes pontes suspensas, eu ainda fico com os residências da West Park ou Park West.
 Os que conhecem bem a cidade vão me chamar de elitista, já que estes apartamentos, fiquemos só no San Remo, onde viveu e morreu Rita Hayworth. Onde morou Marilyn Monroe, pode chegar a custar 23 milhões de dólares. Mesmo a pessoa tendo a quantia, ainda tem de passar pelo crivo do condomínio. Um bilionário russo, por exemplo, outro dia não passou.
 No San Remo, que Steves Jobs depois de chamar o arquiteto I. M. Pei (Pirâmide do Louvre) para reformar um apartamento, o vendeu para o Bono Vox, da banda U2. O irlandês é vizinho de Paul Simon, de Dustin Hoffman, Steven Spielberg, Steven Martim. E por aí vai. A lista é bem grande.
 Este prédio de linhas fascistas de fazer inveja no Duce, já teve Madona e Sean Pean, candidatos a moradores, recusados.
 Enfim, não precisei saber que tantas celebridades o admiravam, antes de ficar fascinado. E nem sabia que eram tão espetacularmente caros os apartamentos. Como sou ingênuo.
 Mas você quer o que leitor? Isto aqui é Nova York. A maior concentração de Bilionários do Planeta.
 Eu seria muito feliz no Village ou no Brooklyn. Mesmo porque eu gosto de olha-los (os prédios) e não necessariamente de morar neles.
 Parafraseando outro Bilionário: O Paulo Coelho.
 Acho que eu sou como aquele lago, que podia ver o próprio reflexo nos olhos de Narciso. Ou seja, sou só um brasileiro deslumbrado com uma obra prima, que não é europeia, mas nem tão pouco americana. É nova yorquina. Um brasileiro paulistano comum, e não um bilionário russo, nem uma estrela mundial pop.
 Mas com algo em comum com eles. Hoje estamos no mesmo barco, nenhum de nós pode viver lá.
 Podemos vir ao parque, sentar num banco, como estou neste exato momento, olhar pra ele, e escrever esta crônica.
 E ele, o San Remo, num sorriso, parece que ainda o escuto a murmurar como há vinte anos, quando nos conhecemos pela primeira vez:
 “Faria Lima, Praça Buenos Aires, sei... Ei cara saia da minha frente e me deixe ver o Parque”.
 Será que Will Eisner (Avenida Dropsie), concordaria comigo?
 . 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Diário de Nova York-1.


 Hoje estávamos eu e a Livia (esposa) conversando sobre o que mais gostamos nesta cidade, após uma semana da nossa chegada.
 O leitor pode discordar, ou até nem reconhecer a cidade, através dos meus relatos. O caso é que as minhas impressões são bem pessoais e não necessariamente corresponde a realidade.
 Enfim, adorei o desejo de comer um cheesebuger. Digo o desejo porque depois de ter comido me arrependi muito. Acreditem ou não o sanduíche era pior do que os do Brasil e o refrigerante creiam ou não, tem o mesmo gosto. Igualzinho. E eu por minha vez estou quase me convencendo de que eu não gosto de clássicos. Como cheeseburger.
 E falando em clássicos. Meus olhos melhoraram muito. Vinte anos atrás eu olhava as pinturas europeias clássicas e não via muita diferença entre elas. E o incrível é que me animo hoje em dia, em simplesmente me aproximar da etiqueta e confirmar que estou certo em relação ao autor.
 Estava eu no museu Metropolitano meio a toa, e tonto com a quantidade de velinhas simpáticas e obras ocidentais, quando entrei meio que para cortar caminho na ala da coleção asiática de arte. Japão, Coreia, Índia, sul da Ásia, China...
 Me deu uma paz aqueles Budas. O mundo é realmente vasto, tantas velinhas simpáticas e cultas nos EUA, tantos Budas calmos por tantos séculos.
 A Livia diz que eu tenho uma obcessão por prédios. Acho que tenho mesmo. O interessante aqui, é que prédios remetem ao passado.
 A cidade não é jovem como São Paulo. No sentido Social e de tamanho. Na idade são praticamente da mesma idade. Mas o que ocorre é que os prédios aqui remetem a primeira metade do século vinte. Os da segunda metade são um grande erro.
 É como se tivessem perdido a fórmula. Na MINHA opinião, tudo de bonito em arquitetura aqui em Nova York foi feito até os anos quarenta, depois... Bem depois veio a internet. Mas o metrô é o mesmo. E a ilha continua do mesmo tamanho. Manhattan.
 Gostei de conhecer os alternas do Brooklyn. Aliás gostei de atravessar a ponte. No fundo os aternas me lembram o oeste. A imensidão aberta da América. Por quê?
 Porque no fundo enxergo os Nova Yorquinos, se é que alguém aqui é de nova York, como pessoas que se vestem de anos oitenta, vivem em prédios dos anos 40, comem extremos, que vão de junk foods a alimentos hiper saudáveis e leem livros eletrônicos.
 E por último adorei ir ao teatro.
 Meu irmão diz que meu bisa avô Chacra desceu aqui em Nova York em 1896. E isso é documentado. O avô do meu pai.
 Hoje meu celular tocou. Um homem se identificou como sendo do acampamento de verão. Queria falar com o pai do João, meu sobrinho.
 Meu bisa avô se chamava João Chacra também, como meu sobrinho, seu trineto.
 Um dia desses quero ir a ONU. Ainda não entendi se as nações unidas ficam naquele prédio ou espalhadas nas centenas de línguas faladas pela cidade.  
 Como separar o Vaticano da cidade de Roma?
 Como separar Nova York do mundo? Se o mundo é Nova York.
 Adorei descobrir que a Broodway era nada mais, nada menos, que a trilha dos índios locais. Por isso ela é a única avenida torta.
 Por sorte meu bisa avô não gostou daqui.
 Se ele tivesse gostado, este texto não existiria. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Pepinos em conserva.


 Ele já havia dado três mordidas. Era nítido que algo estava errado naquele sanduíche de salmão defumado, queijo estepe, alfaces americanas, cream-cheese e pepinos em conservas.
 Mas claro! Este amargor com cara de estragado é o pepino. Retirou a tampa de baguete com gergelim. Só podia ser. Lá estavam eles bem pequenininhos, apanhou um bocado e colocou na boca.
 Estavam moles e ruins. Mas como ter certeza de que o gosto não era aquele mesmo? Mandar trocar poderia ser uma injustiça. Afinal era um lugar elegante, charmoso e bem frequentado e pasmem havia gordinhas trabalhando lá.
 Em qual lugar da moda se veem gordinhas no salão? Exposição de fotos, cardápio inventivo, preços razoáveis? E fazer uma deselegância dessas? Trocar o prato?
 Ele tentou bem sutilmente.
 “Nossos pepinos em conserva são preparados em sei lá o que. Depois colocados sei lá onde. De maneira que você pode estranhar, mas o gosto é refinado e é este mesmo”.
 Bem sutilmente não tinha funcionado. Aquele maitre se retirou e deu o caso por encerrado.
 Logo ele não teve alternativa a não ser radicalizar. Agora ele queria vingança pela falta de delicadeza do maitre. Levantou-se para espanto das gordinhas e dos clientes e perguntou em alto em bom tom:
 “Pago aqui ou no caixa?”
 Desta vez o maitre voltou falando mansamente, ofereceu trocar pelo o que ele quisesse.
 Situação acalmada veio um clássico misto quente. O novo sanduiche não tinha nada de estranho, gosto de misto quente.
 Dois dias depois, ele volta, no mesmo horário de almoço novamente sozinho.
 “Um misto quente e um... Este suco aqui de limão, maçã, hortelã, gengibre, sem açúcar.”
 O suco chegou antes do misto, um líquido verde aguado, o suco tinha sido demasiadamente batido e coado. Ficando só algo que lembrava uma água suja de chuva.
 Tomou um pouquinho, ele não gostava de jogar nada fora, ter jogado um salmão fora, dias antes já o tinha feito sofrer de remorso.
 “Um guaraná zero com gelo e laranja, por favor”.
 Acabou que tomou o suco, comeu o misto, tomou o guaraná, comeu um pedaço de bolo e tomou um cafezinho. Na conta esqueceram de acrescentar o guaraná.
 E agora? Será que ele ficava quieto e não pagava o guaraná? O que era um guaranazinho afinal? Nisso tomou outro gole e ainda ouviu uma gordinha garçonete dizer para um cliente ao lado:
 “Antes era com o pepino em conserva, mas reclamaram tanto que mudamos.”
 E o cliente da mesa ao lado:
“Mas eu sonhei com este sanduiche com pepinos em conserva! Não tem mesmo como fazer? Era algo tão original.”
 “Sinto muito senhor”. Disse a gordinha e abaixou a cabeça.
 Foi quando ele se deu conta que todos os seus atos, por mais simples e cotidianos tinham reflexos na vida de outras pessoas, inclusive de pessoas que ele não conhecia.
 Conclui que pagar aquele guaraná era algo de mais valor do que real preço em si.
 “Faltou um guaraná.”
 O maitre disse que não. Que ficava pelo transtorno que ele sofrera na ultima visita.
 Então ele deixou 20 por cento de serviço e seguiu para o escritório. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Jaiminho e Ronaldão.


 Ronaldão era um bon vivant. Um dos melhores partidos de Pocipimba. Andava de carro zero, sempre em alta velocidade, pondo em risco a vida dos pedestres da pequena cidade do interior.
 Jaiminho era um jovem rebelde, barba comprida, gostava de rock and roll. Tinha estudado direito na capital e trabalhava com o pai no cartório da família.
 Já Ronaldão ora ia ao sítio fazer bagunça com a turma que levava, ora estava olhando seus postos de gasolina. Eram os dois únicos da cidade.
 Eram de turmas diferentes. Enquanto Jaiminho saía mais com os alternativos, intelectuais, Ronaldão era da turma dos playbas alienados. Um dia os dois caíram na mesma mesa de bar. Começaram a conversar. Jaiminho se impressionou com aquele caipira autodidata que tinham estudado junto com ele até a oitava série. Sim, porque depois Ronaldão nunca mais estudara.
 Como era possível? A única pessoa na cidade toda que tinha argumentos e cultura suficiente para manter uma conversa, era o Ronaldão alienado?
 Ronaldão por sua vez ficara com raiva daquele “esquerdinha”. E queria provar que o que atrapalhava o mundo era o Estado se metendo na vida das pessoas. Ninguém tinha o direito de interferir na natureza do livre mercado.
 Jaiminho tinha outra opinião, o mundo seria muito melhor sem as grandes empresas, sem os capitalistas que corrompem, e sem multinacionais que excluíam o povo da sociedade.
 Trocaram telefones e passaram a se frequentar. O povo da cidade acostumou a ver a dupla numa mesa de bar. Chegavam de tarde e só saíam de madrugada.
 Às vezes levavam mais duas ou três pessoas, para serem plateia das discussões que acabavam em brigas homéricas. Depois ficavam uma, às vezes até duas semanas sem se falarem.
 Certo dia um enorme posto de multinacional se instalou na rodovia, bem na entrada do Pocipimba. Ronaldão ainda resistiu um ano, mas acabou fechando os dois postos de gasolina, ficando ainda todo endividando.
 Jaiminho nesta época arrumou a franquia de uma livraria e deixou o cartório da família. A livraria havia sido inaugurada no Shopping da cidade. Alguém deu a ideia de Jaiminho também vender eletrônicos, ares-condicionados e celulares. O negócio deu tão certo que ele logo largou os livros. Abriu no mesmo shopping uma loja de tênis e artigos esportivos, suplementos e vitaminas.
 Em pouco tempo Jaiminho se tornara um dos melhores partidos da cidade. Passou a fazer a barba, cortou os cabelos e só se vestia agora de camisas sociais.
 Já Ronaldão, estava andando com um carro bem velho motor mil. Não era mais visto nas baladas, e passou a se dedicar a poesia. Certo dia um conhecido o convenceu de sair candidato a vereador. Sim, dizia o homem, um cara inteligente como você, comunicador, de boa família, se duvidar chega a prefeito.
 Dito e feito, mas ele precisava de um partido político. A primeira oferta veio da “oposição”, que em Pocipimba era um partidozinho de direita formado por uma oligarquia decadente.
 Sem chance foi o que ouviu dos políticos experientes. O que está em alta é o partido da situação. Verdade que Ronaldão recebera convite dos dois. Ele sempre fora muito querido na cidade, mas a “situação” era de esquerda.
 Jaiminho abrira sua quarta loja num shopping numa cidade próxima e convidara Ronaldão para inauguração. Depois saíram para uma pizzaria onde Ronaldão contou a Jaiminho as boas novas: Seria candidato pela esquerda. E Jaiminho seria seu chefe de campanha.
 Jaiminho recusou na hora. Passou um sermão em Ronaldão, disse que na política só havia vagabundos e corruptos, gente que não deu certo na iniciativa privada.
 Ronaldão pego de surpresa, perguntou onde estava o Jaiminho antigo, o Jaiminho que dizia que as pessoas deveriam vir antes do lucro? Que sonhava com uma Pocipimba mais justa? Onde estava?
 Passaram então a brigar constantemente, com a diferença de que agora Jaiminho defendia o livre comercio e Ronaldão uma sociedade mais socialista.
 Jaiminho decidiu também se candidatar, ele mesmo, ninguém o convidou. Só que pela oposição, pela direita. O partido achou que o novo empresário, homem de sucesso, ex-hippie, era um candidato tão bom que deveria era sair para prefeito de uma vez. Se o Ronaldão pode, eu também posso. Jaiminho recebeu enormes quantias de doações para sua campanha.
 Ganhou. Jaiminho se tornou o prefeito de Pocipimba. E Ronaldão perdeu para vereador, ficando um dos últimos colocados.
 Sem emprego, Ronaldão pleiteou uma vaga de gerente do novo posto e lanchonete vinte quatro horas da rodovia. O mesmo posto que tempos antes o tinha levado a falência. Fazer o que? Era o que sobrara. Como o salário era pouco e ninguém queria ficar de madrugada, conseguiu o emprego.
 Em pouco tempo Jaiminho foi privatizando tudo na cidade e cortando todos os gastos, inclusive na educação e saúde.
 Um dia o prefeito Jaiminho recebeu uma ligação de Ronaldão e foram tomar uma cerveja. Ronaldão saiu de lá nomeado o novo secretário de turismo. Jaiminho alegou que de tanto trabalhar no posto de gasolina Ronaldão conhecia os turistas que passavam pela cidade. Na verdade eram viajantes que só paravam para fazer xixi e se alimentar. Mas não deixavam de ser turistas.
 Anos se passaram e o tempo gasto com a administração da cidade fez com que Jaiminho ficasse omisso nas suas lojas. Quando deu por si, descobriu que estava quebrado.
 Sem opção, Jaiminho desviou verba pública da prefeitura para suas lojas. Por denuncias anônimas, um vereador da oposição ficou sabendo e fez uma campanha, que acabou derrubando Jaiminho do cargo.
 Agora com esta crise esquerda precisava de um candidato para as novas eleições, e o candidato escolhido deveria ser alguém sem envolvimento com nada. Sem muito histórico, mas ao mesmo tempo conhecido. O nome de Ronaldão veio à tona.
 Em poucos meses Ronaldão era o novo prefeito. Seu primeiro feito foi contratar uma empreiteira da qual Jaiminho era sócio.
 Os dois amigos, prefeito e ex-prefeito são sempre vistos nos bares da cidade. Geralmente numa grande discussão sobre qual é a porcentagem de cada um, em obras superfaturadas. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

China Hotel.


 Fui ao MIS durante o carnaval. Ver a obra do artista chinês Ai Wei Wei. Um sujeito mal encarado, que lembra um artista beatnick. Achei divertido, ter de escolher, ou tirar os sapatos, ou ficar de meias, ou colocar uma proteção nos pisantes. Que nem fazem em restaurantes japoneses e no museu Imperial de Petrópolis.
 Confesso que não entendi se o, acho que é fotógrafo, é aclamado pela sua rebeldia ao regime atual chinês, ou se realmente não há exagero no seu talento.
 Bem o fato é que estava eu lá no museu da imagem do som, em São Paulo vendo o planeta China finalmente chegar. Que emoção.
 Mas logo comecei achar o Wei Wei tão parecido com os americanos. Com um americano. Afinal o que é um americano? Norte americano.
 A mulher devia ter uns 57. E foi mesmo 57 que ela disse que tinha. Era gaúcha, com orgulho descedente de alemães. Os cabelos lembram a Maítena. O menino tinha 3 anos e não era descendente de alemães.
 De repente ouço uma discussão. Um sujeito de papete, baixo, gordinho, com cara de francês, mas sem sotaque algum dizia a três seguranças negros bem altos que não iria tirar a sua vestimenta:
 “Vocês não podem interferir na minha vestimenta!”
 Logo chega uma menina moça, funcionária da exposição. Eu não ouvia o que ela dizia ao homem. Acho que ela era mestiça, não de índios, mas provavelmente alguma etnia do norte da Ásia. Já ele:
 “Se você concordar em tirar sua blusa, eu fico descalço!”
 Nesta hora até fiquei empolgado. Será? Que eu vou ver os seios da moça? Afinal estava calor, tanto para ficar descalço, como para uma exposição nudista.
 Me deu inveja, da mulher gaúcha de 57 anos. Agora ela tinha aquele menino lindo de três anos. Fiquei com vontade também de adotar um menino negro. Que dupla. Ainda bem que se acharam.
 Certa vez li uma citação que deram créditos ao Mário de Andrade:
 “Ao contrário do que imagina Freud, eu e minha mãe apenas somos bons amigos”.  
 Havia também outro menino no almoço. Loirinho, mãe e pai também branquinhos. A festa inteira estava seduzida pelo loirinho. Um loirinho cheio de vida, com longos cabelos que filhos de pais alternativos usam. Uma risada contagiante.
 O outro, o filho da Maítena não ria muito. Ao contrário do “anjinho”, ficava na dele. Tinha algo no olhar. Como se entendesse toda dor de Lima Barreto. Será? O que uma criança pode entender? Pode sentir? Não seria tudo imaginação minha?
 Passamos a vida toda aprendendo a não ser mais criança a crescer.
 E de que adianta? Se todos somos prisioneiros da repressão. Seja ela chinesa ou não.
 Ouço um pastor dizer na televisão que ninguém gostaria de ter um filho gay. Ele não me conhece. Ele não conhece a mulher gaúcha com cabelos de Maítena e o filho Luis Fernando.
 Ele não conhece o Wei Wei. E principalmente ele não conhece Jesus.