terça-feira, 29 de julho de 2014

A vizinha.

A primeira vez que eu a vi foi no elevador. Ela estava toda atrapalhada, com um carrinho de bebê. Ela não sorriu. Mas seu rosto tinha algo de simpático mesmo sem sorrir. Ela era linda, com uma boca carnuda, os olhos tristes, não era alta, e tão pouco baixa. Branca, bem branca, mas com os cabelos pretos. Talvez uma mistura de germânicos com latinos. Magra, porém com formas bem definidas.
 Ela puxou o carrinho para me dar mais espaço no elevador. Algo desnecessário, pois havia espaço suficiente. Evitou me olhar, e não sei se percebeu que eu através do espelho fiquei a observando.
 Eu havia mudado a pouco para este prédio em São Paulo. Um prédio de classe alta, mas por ser dois por andar muitos vizinhos eram casais jovens. Jovens porem ricos. O que era o meu caso, e com certeza o caso dela.
 Dias depois a vi na garagem, desta vez com uma babá, o mesmo carrinho e seu marido. Um cara alto, bem vestido, bonito, cabelos curtos. Do tipo que trabalha em uma grande empresa, e tem um cargo elevado. Ou seja, eram ricos, jovens e pelo carro, tinham muito sucesso. Um carro daqueles carros grandões que valem bem mais cem mil reais.
 Fiquei intrigado. Como seria a vida daquela mulher? Morando num condomínio circundado por favelas, e miséria. E ela passava os dias com o filho, esperando o marido chegar do escritório para a cozinheira servir o jantar.
 Um dia de frio, muito frio, resolvi ir à sauna do condomínio. Sauna masculina. Quando entrei dois homens já estavam lá dentro. Um era o marido da minha jovem vizinha. O outro um colega do escritório talvez? Outro condômino? Comecei a escutar a conversa deles.
 Meu vizinho reclamava sobre a religião da minha vizinha. Que estava o incomodando. E ele não sabia como ela educaria seu filho.
 Então minha vizinha deveria ser Judia. Foi o que eu pensei. Uma linda Judia.
 Me meti na conversa. Perguntei:
 “Sua mulher é Judia?”
 Achei que talvez os dois me achassem meio entrão, abusado. Tipo: “Quem te chamou para a conversa?”
 Mas não, ao contrário, foram solidários. Afinal como você pode ficar num espaço pequeno, e fechado, sem ouvir o que os outros dois frequentadores conversavam?
 Os dois se mostraram muito simpáticos e me disseram que não, ela não era Judia, e sim evangélica. Uma fanática.
 Muita coisa se explicou então. Uma rica evangélica. Por isso havia casado cedo. Em com certeza aquele fora o seu único homem.
 Eles me convidaram para beber nas espreguiçadeiras, já fora da sauna. Havia um garçom que nos trazia cervejas e aperitivos. Os dois riram quando contei que tivera uma ex namorada, que era budista, mas também gostava de astrologia, numerologia, cabala, umbanda, espiritismo, daime, tarô...  Eles riram muito.
 Depois de um tempo, inventei qualquer desculpa e me fui. Mas tive tempo de descobrir que Álvaro, meu vizinho de 28 anos, trabalhava num banco americano. Seu amigo, Carlos, também nosso vizinho, era um advogado, tinha 30 anos e era solteiro.
 Um dia consegui desenvolver uma conversa com ela, de novo nos encontramos no elevador. Consegui dizer que eu era do interior, trabalhava num jornal e escrevera um romance.
 “Um romance? Quero ler.”
 “Vou te enviar um”.
 Esta estúpida conversa foi bem rápida. Foi a primeira vez que a vi sorrir. Talvez ela quisesse conversar mais. Porém fechei a porta como se estivesse com pressa e o elevador seguiu para cima.
 Comecei a planejar um jeito de atraí-la. Mas minha consciência dizia que eu deveria ficar longe de uma mulher cada.
 Comecei a sair com uma garota do jornal. Uma repórter, e acabei me esquecendo da vizinha por um tempo. O porteiro disse que ela agradecera o romance e que ela estava lendo. Ótimo, mantenha-me informado. O porteiro piscou, deu uma risadinha e disse:
 “Pode deixar. Te informo já, eles estão mudando semana que vem”.
 “Pra onde?”
 O porteiro então me disse que Álvaro havia sido transferido para os Estado Unidos. E Dona Laura iria viajar na frente.
 “A empregada deles, me disse que ela viaja manhã.” Disse o porteiro.
 Foi quando eu soube o nome dela. Laura.
 E lá se vão cinco anos. E eu nunca mais soube dela.  Acontece que ontem eu a vi. No supermercado.
 “Oi Laura”.
 Ela desta vez deu um grande sorriso.
 “Você é o cara que me deu um livro pra ler?”
 “Eu mesmo”.
 “Adorei o livro”.
 Íamos engatar uma conversa, quando um homem surgiu e a chamou.
 “Tenho que ir. Bom te ver”.
 Ela empurrou o carrinho de supermercado até o homem, e saíram abraçados pelo corredor. Pude ver ele ainda dando um beijo nela.
 Segundos depois, eu reconheci o homem que nem me cumprimentara. Era o cara da sauna. Não o Álvaro, mas o outro, o Carlos. Nosso vizinho.



segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mulher de 40 anos.

 Lucia estava ansiosa. Alguma coisa em Pedro a incomodava. A  emocionava. Algum desejo. Ela nem sabia o que era. Afinal Pedro tinha 25 anos.
 Por que ela contrataria um estagiário para seu escritório, se ela mesma estava querendo largar a Arquitetura?   
 Marcaram uma conversa num café, perto da casa dele. Ela estacionou o carro e ele que morava a um quarteirão foi a pé. Chegaram juntos.
 Ela se encantou com o sorriso dele. E Pedro parecia muito mais maduro e centrado, do que quando se conheceram na festa de uma amiga em comum.
 Falaram muito sobre arquitetura. Lucia sentia que sua voz, seus gestos, seus músculos estavam presos. E Pedro pelo contrário se soltava. Aquilo tudo começou a fazer muito bem pra ela. Aquilo tudo o que? Num determinado momento Pedro perguntou se Lucia, que era casada, não tinha vontade de sair com outras pessoas.
 Lucia, que tinha 40 anos, sete de casada, e estava de saco cheio do marido, só faltou se jogar em cima de Pedro. Mas ao invés disso, ela se saiu com essa:
 “Nós temos de abrir mão de algumas coisas, para ter outras”.
 Pedro concordou. Mas onde ela tinha tirado esta coisa puritana? Ela já tivera amantes, e uns dois casinhos. Mas não eram estagiários. Se arrependeu. Mas depois, achou que o rapaz estava só puxando papo, e nada tinha a ver especificamente com ela.
 Deve ser algo com as meninhas da academia, da balada.
 Pedro foi até o balcão pegar um salgado. Nossa que gato!
 Passaram a se encontrar todos os dias no escritório. Almoçavam juntos. A outra sócia, Cláudia, distante, estava sempre atrás da filha, por isso ia buscá-la na escola e não almoçava com os dois.
 Lucia voltou a gostar de arquitetura. Passaram-se dois meses, o agora efetivado arquiteto, começou a dizer de uma hora para outra que achava pessoas mais velhas charmosas. Pronto. Ela pensou. É a deixa.
 Apaixonou-se loucamente pelo assistente Pedro. Tudo o que ela fazia ele elogiava. Seus trabalhos, suas roupas, seu gosto musical.
 “Como você é culta Lu, aprendo tanto com você”.
 Iam a exposições, e uma tarde eles foram até ao cinema. Ela agora estava em forma. Regimão.
 Um dia após ter uma briga com marido, decidiu que ia partir para cima do rapaz. Dane-se, só se vive uma vez mesmo na vida.
 No dia seguinte, veio à revelação. Pedro confessou que estava apaixonado por uma arquiteta de 40 anos, casada. E esperou a reação de Lúcia. Esta fez um charme, deu um gole de suco, suspirou, levantou as sobrancelhas, e agiu como se já soubesse.
 “Eu sei.” Ela disse.
 O rapaz então ficou surpreso.
 “Mas a Cláudia disse que eu não poderia te contar de jeito nenhum”.

 Então naquela tarde Lucia soube. Toda aquela conversa de mulher mais velha, aquela vontade em agradar, não era outra coisa, se não porque Pedro estava tendo um caso com uma mulher casada. Era com Cláudia sua sócia, uma mulher de 40 anos. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A encomenda.

 A encomenda.

 Me pediram um texto sobre o lendário hotel Maksoud Plaza. O que me fez lembrar de que eu não sou um jornalista.
 Mas quem se importa. Se os contratantes não se importam, não será você leitor, que me exigirá credenciais legais, para exercer a profissão de comunicador de noticias.
 Contudo, como este texto, não fornecerá notícia alguma, tão pouco, trata-se de um texto com a precisão histórica, nem há pesquisa, e também ao que tudo indica, não há ficção tão pouco. Não tem nada? Dirá então o leitor. Tem sim.  Quer dizer sempre há ficção. Principalmente na publicidade.
 A publicidade tem mais ficção do que a própria ficção. Já reparou?
 Voltemos para o hotel. O Maksoud Plaza.
 Eu poderia dizer que é um lugar decadente, mas que já representou o que houve de melhor na sociedade moderna Paulistana.
Ai me sobraria o que? Que o hotel tem um estilo anos setenta de Nova York?
 Falar sobre o seu dono? Sempre há um dono, um empreendedor notável, que dá alma ao estabelecimento.  Falar sobre os funcionários antigos e suas vidinhas medíocres? Hospedes notáveis, o famoso: Traçar perfis.
Ah! O Maksoud...
 São Paulo já teve várias épocas a arquiteturas: Os bandeirantes, os quatrocentões, os imigrantes, migrantes... Que de tão antigos parecem estes sim ficção.
 Uns caçavam índios, eram índios, sei lá eu.
 Os outros sei lá eu por que vieram. Dizem que vieram nas tais caravelas, plantar café e ter escravos.
 Os outros para serem escravos e depois para substituírem os escravos. Contruir industrias, comércios e hotéis de luxo.
 Mas ontem fui na Pizzaria Camelo, lá estavam os bandeirantes, os quatrocentões, os italianos, os Sírios- Libaneses, os Nordestinos, nesta mistura de não sabermos mais quem é Português e quem não é.
 Inclusive comi Strogonoff. A pizzaria ao contrário não é decadente. Aliás, não é nada. Sem personalidade. Talvez por isso tantos se identifiquem. Têm tanto nada no mundo. Mas o Stogonoff estava bom e serviço também. Agora Arquitetura?
 Meu amigo mesmo disse:
 “Não tem nada de extraordinário nesta pizzaria, e, no entanto... Sempre cheia”.
 As pessoas vão lá, comem e se vão. E nada acontece.
 Ah mais o Hotel Maksoud! Este sim. Lá tem tudo. Aconteceu tudo.
 Leitor quer uma dica?
 Vá assistir ao filme o “Grande Hotel Budapeste”.
 Está tudo ali.
 Gustave, o protagonista, como é descrito pelo Lobby Boy do hotel:
 “Ele era de uma época, que quando ele nasceu, esta mesma época, já não existia mais”.
 Eu acho que o Maksoud Plaza tem muito disso. Quando o hotel foi inaugurado ele já representava uma época que não existia mais.
 Feliz nove de julho, para todos!

 I me icomenda ai uma Pizza, lindinho! Que me vou leva pra casa meu! 

sábado, 24 de maio de 2014

Rápida autobiografia de um quarentão, Leo Chacra.

Leo Chacra:

Aos 10 anos:
Eu queria ser um Jedi. Morar em outra galáxia. Meu carro preferido era uma nave espacial. O país mais maravilhoso do mundo era os EUA, mas eu tinha uma curiosidade pela União Soviética. A mulher mais linda eram as mais velhas, as de onze anos. Fazia ginástica olímpica.


Aos 15 anos:
 Eu queria ser diretor de cinema. Outra opção era ser o 007. Morar em Mônaco, desde que Mônaco ficasse na Califórnia. Meu carro preferido era um Passat ou qualquer carro que eu pudesse dirigir. Meu país preferido era o mar, um navio pirata. A mulher mais linda eram todas as mulheres. Eu gostava de Rock and Roll. Fazia Polo Aquático.


Aos 20 anos:
 Eu queria muito, muito, muito mesmo ser arquiteto. Não sabia desenhar, ainda não sei. Morar na Europa. Meu carro preferido era um carro pequeno, ainda é. Meu país preferido era o Brasil. Ouvia música clássica. Lia literatura clássica, via filmes clássicos. E era completamente apaixonado por uma menina drogadinha de 14 anos. Era ateu. E também era budista, além de marxista. Fazia circo.


Aos 25 anos:
  Eu queria ser o Moliere. Era contra televisão, carro e publicidade. Minha religião era o teatro. Lia literatura policial e muitos livros de teatro. Amava minha namorada. Queria morar onde tivesse teatro. De preferência dentro do teatro. Era um fanático. Não fazia esporte nenhum. Mesmo assim até que era bem em forma.


Aos 30 anos:
 Queria ter a minha própria casa e tinha. Queria ser escritor. Mas escrever o que? Morar numa cidadezinha bem pequena, de mil habitantes, com a natureza. Agora era marxista só uns 3 dias por semana. O resto era conservador. Bebia. Acho que era um pré-alcoólatra. Pela primeira vez fui um pouco playboy. Andava metade do tempo com playboys e a outra metade com artistas. Nunca misturados, que não dava certo. Parei com babaquice de país preferido. Carro? Sei lá, taxi, qualquer carro, desde que não fosse assaltado. Amava a ex-namorada. Tinha muita facilidade para pegar mulher. Ouvia o que estava tocando. A noite ia beber na Vila Madalena. Fim de semanas na praia. Meus amigos iam se casando.


Aos 35 anos:
 Eu era dono de restaurante e diretor de teatro. Queria ser ator. Fazia muito esporte, regime, engordava e emagrecia. Era completamente apaixonado por outra ex-namorada. Aproximei-me do cristianismo. Me interessei por história, ao mesmo tempo que nunca mais me interessei por clássicos. Comecei a me preocupar com o futuro. A me preocupar com meus pais. Na mesma intensidade que os meus pais começaram a se preocupar muito comigo. Muito. Meus amigos já eram quase todos eles, pais. Tive uma fase samba. Cogitei viver no Rio. E me achava decadente.


Aos 40 anos:

 Eu amava minha mulher. Ou melhor, amo. Quero ter uma CIA de teatro. Estou fazendo um filme. Faço esporte todo dia. Muita natação. Escuto o que a minha mulher coloca pra ouvir, e o rádio do carro também. País preferido é o país que eu ainda não conheço. Dei pra gostar de cerveja. Não só dos destilados, que, aliás, nem ando indo muito em bares. É raro. Não me arrependo dos caminhos que segui. Acho que podia ter sido mais ousado. Mas será que não fui? Me dei conta de que eu não sou alto como eu imagino que sou. Carro? Odeio todos. Com a política sou desiludido. Mas me provoca, pra ver. Me preocupo muito com o presente. E acho que sou bem feliz. Pra ser sincero eu não sabia antigamente se chegaria tão longe. Quarenta. A melhor idade. Será que me convenci? 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os sonhadores.


 Aceitaria a sugestão dos pais. Passaria uns meses na Europa. Na Itália. Foi um livro de turismo com uma foto de uma italiana num vestido de verão com os cabelos voando ao vento. Atrás uma rua com prédios antigos, mesas nas calçadas, motocas passando.
 Aqui no Brasil com seus 19 anos ele não era nenhum sucesso. Mas na Itália ele conseguiria “pegar” um monte de gatas. Seria o lugar ideal. Passar o verão estudando italiano, na Itália.
 Todos diziam que ela era linda, uma boca carnuda sensual, seios fartos, bunda, ela estava decidida, faria um book de modelo. A noite ela se imaginava desfilando.  Conheceria o mundo, a Itália, que ela tanto sonhava.
 Ele depois decidiria que carreira seguir, pensava em ser arquiteto, talvez economista. Ela seria modelo fotográfica, foi o que recomendaram. Hoje uma menina precisa ter mais de um metro e oitenta. Pelo menos, para fazer moda. Ela tinha um e sessenta. E era quase gorda. Quase. Mas um rosto lindo, modelo fotográfica. É.
 Era um dia realmente quente e de sol. Ela tomava um sorvete numa praça em algum lugar de Roma.
 Ele viu ali uma chance. Abordou a menina num inglês amador. A garota contou que era do Texas. Nunca ouvira falar de São José do Rio Preto, muito menos de São José do Black River, a “Califórnia” Brasileira.
 Combinaram um cinema, no outro dia foram a um museu, almoçaram. E o verão acabou.
 Ele resolveu estender a temporada e se mudou para o quarto dela. Ela morava numa pensão de americanos. 
 Ele compra uma máquina fotográfica usada. Começa a tirar fotos nas tardes livres. Roma era um cenário sem fim.
 Ela começou um curso de gastronomia. Acabou num restaurante. Na cozinha, na parte de sobremesas.
 Ele foi estudar fotografia. Conheceu uma modelo magrela e alta. Uma alemã. 
 Ela fugiu com um chefe espanhol. Dez anos se passaram.
 Ele tomava um sorvete em uma praça em algum lugar de Barcelona. Ela passa com uma menina de uns três anos. Se reencontram. Saem, vão à praia, ao teatro, ao parque.
  O marido dela volta de Portugal. Eles fogem para o Marrocos. O marido vai atrás. No hotel em Casablanca ele dispara a arma e mata os dois na piscina.
 Ela suspira. Abre os olhos e continua ouvindo aquele garoto brasileiro, contando de como será seu filme. Sim ele é diretor de cinema, ainda não fez nada, mas é.
 Quem sabe ela não seria uma estrela na próxima temporada de Cannes?
 Quem sabe? Sonhos são incrivelmente superiores e mais interessantes que a realidade. Nem sempre.
 E hoje? Ele quer saber. Alugam uma moto e saem em direção ao sul. Grécia, Istambul, Beirute...
 Sonhar definitivamente é um talento. Sol, praia, vinho, história, arte, e 20 poucos anos. 
 Entram numa igreja de mil anos e fingem casar. Saem e bebem, vão até a praia e dormem na praia. Agora são casados. O sol forte, o céu azul, o Mediterrâneo verde, verde como eles. 
 O mar sorri, ele já viu tantos casais jovens. Mas também já viu tanta guerra, tanta gente morrer afogada. 
 Mas hoje é verão. E Rio Preto está longe, lá para os lados do Texas. 
 Os dois correm pela praia, sem protetor solar, sem lenço e sem documento. 

domingo, 13 de outubro de 2013

O Ivan da Tia Marta.

  O Ivan da Tia Marta.
 Não me lembro quando foi e nem quem me falou, a primeira vez, sobre o Ivan da tia Marta.
 Acho que foi a própria, quando nós sobrinhos a indagamos se ela não casara, e não tivera nunca um namorado.  A tia solteira teria nos contado sobre o Ivan. Uma paixão sabe-se lá de quando, talvez ainda dos anos 60, ou até antes.
 O que eu sabia era que o Ivan fora frentista num posto de gasolina, meu avô, pai da Tia Marta, não permitiu o casamento. Ficando minha Tia Marta solteira até hoje.
 Depois Ivan tornou-se taxista, vindo a falecer há uns 15 ou 20 anos atrás.
 Lembro deste episódio e de um outro, que também faz parte da minha biografia não autorizada. Fabi, uma amiga atriz, me chamara para participar de um espetáculo infantil.
 Meu papel seria o de interpretar uma versão de Tarzan. Eu deveria ficar a peça toda sem camisa, de tanguinha, coisa que não me agradou. Aliás, nada me agradava no texto, inclusive o texto se chamar Peter Pan. O Tarzan era só um coadjuvante, praticamente sem fala.
 Resolvi ser então assistente de direção. E arrumamos um rapaz bem mais sarado do que eu, na época, para fazer o rei das selvas.
 O diretor, uma Tia velha, apaixonou-se pelo novo Tarzan. E passava os ensaios todos repetindo baixinho para mim:
 “A vida deste rapaz daria um filme”.
 Tempos depois, aprendi que qualquer vida dá um filme. Inclusive a vida da Tia Marta e do Ivan. Inclusive a sua leitor.
 Conto tudo isto, porque hoje encontrei num restaurante, o diretor do qual fui assistente, há uns dez anos. Assim por acaso. Ele e Tarzan continuam casados. São reais. E são felizes, estão montando um Nelson Rodrigues.
 Já o Ivan da minha Tia Marta, nunca terei certeza se ele realmente existiu. E não sei por que, mas se eu fosse escrever a biografia da minha Tia Marta, o Ivan é um dos fatos mais interessantes. Digo, o mais.
 Talvez o Ivan seja Vânia, mulher do Moacyr, que era frentista. Talvez minha tia tenha só cruzado com este frentista, Ivan, e trocado poucas palavras. O resto seria fantasia dela. Tantas possibilidades.
 O fato é que o Ivan acabou se tornando um tio. Um parente que eu nunca conheci. O Ivan da Tia Marta.
 E toda vez que eu visito a Tia Marta, eu tenho esta vontade de saber mais sobre o Ivan. E ela sempre me sai com respostas evasivas:
 “Seu avô não me deixou casar com ele”. “Virou taxista e depois morreu”.
 “Mas tia! Nem a cor do taxi a senhora pode contar? Eu quero detalhes tia.” 

domingo, 22 de setembro de 2013

Ensaio sobre os Corleones.

 Ensaio sobre os Corleones.

 Meses atrás fui a uma palestra sobre a atual situação política da Síria. Mas não se preocupe leitor, isto não tem nada a ver com os dias de hoje e sim com a obra de ficção:  The Godfather de Mário Puzo, com contribuição de Francis Ford Coppola. Simples assim.
 Acontece que o palestrante daquele dia, no caso meu irmão mais novo, usou a obra como uma analogia para explicar política internacional. Interessante como cada um enxerga a trilogia cinematográfica, eu não li os livros, como quer. O que é ótimo. Aqui vou dar a minha interpretação pessoal sobre ela, a obra. Diferente, mas não melhor do que a do Guga.
 Começo falando da palestra, porque o meu irmão ter citado os Corleones me deixou com vontade rever esta trilogia. Demorei um pouco, mas este fim de semana eu mergulhei nos filmes.
 E ao contrário do que meu irmão e muitos acreditam, não acho que Michael Corleone se tornou o maior chefe da máfia norte americana por acaso. Por acidente. Não. Começo falando sobre Vito Corleone, seu pai.
 Me identifico com Vito. Ele era um artista. Improvisava, era simpático, ambicioso também. Mas qual imigrante não é pelo menos um tantinho ambicioso?
 Acho que ele sim foi longe sem querer. A máfia ainda não tinha seus postos conquistados, devidamente ocupados na América. Os mafiosos antes de Vito eram bufões amadores e exibicionistas, falastrões. Não foi difícil superá-los.
 Vito viu seu pai ser assassinado, depois seu irmão e finalmente sua mãe, esta ultima bem na sua frente, quando ele tinha apenas nove anos. Com um histórico deste não é de surpreender que ele fosse violento. Um garoto de nove anos que em 1901 atravessa o atlântico sozinho precisa sobreviver?
 Vito Corleone foi apenas um imigrante bem sucedido. Um dos muitos chefões do crime organizado de Nova York. Talvez por um pequeno período de tempo o maior deles. O primeiro do raking. Mas ele não conseguiu se segurar. A concorrência era faminta. E tudo entrou numa confusão. Seu pequeno império não demorou a desmoronar. Se não existisse o jovem Michael, tudo seria perdido logo após sua morte.
 Os irmãos de Michael, Fredo e Sony, eram fraquíssimos. Não eram líderes, aliás, não eram nada.
 Quando Vito é baleado, Michael entra em cena. Mas aí é que reside o erro. Achar que Michael não era extremamente ambicioso e focado. Ele queria um futuro maior para si. Maior até que o que seu pai Vito sonhara. Mas até então o jovem era distante e vivia como um universitário.
 Não é a toa que na terceira parte, Michael se torna além de um homem de negócios dentro da lei, com todas as atividades legalizadas, um dos homens mais ricos do planeta. Rico e influente.
 Vito... Vito coitado. Ok, ele era charmoso, e um sobrevivente. Seu charme e sorte o levaram para longe. Claro que era ousado. Mas no fundo há um certo limite para um imigrante.
 A segunda geração, a de Michael, é sempre a mais americana, ou brasileira no nosso caso. Michael precisa se agarrar a cultura americana. E aqui convenhamos é uma terra de imigrantes, nada mais nacional do que o filho do imigrante.
 Ele vai para faculdade e conhece Kay. É óbvio que Michael quer uma mulher não italiana. Ele desde cedo quer superar aquilo. Quer transcender as origens.
 É ele que faz o estado de Nevada. É um dos criadores de Las Vegas. Faz negócios com judeus, com americanos wasps (brancos protestantes). Tenta expandir seus negócios para Cuba e para o Oeste.
 Seu pai Vito, apesar de padrinho de Frank Sinatra era um provinciano perto de Michael. Provavelmente até Frank Sinatra fosse menos americano que Michael.
 É claro que ele acaba casando com uma siciliana, quando estava fugido e longe de Kay. Mas é um casamento de uma americano com uma siciliana. O sonho dele era ser grande, grande como o seu país, os EUA.
 É por isso que Michael se alista para lutar na segunda guerra. Ele ama os EUA. Ele é os EUA.
 Michael inova a máfia, ele a legaliza e está um passo na frente dos próprios políticos americanos. Isso deixava os poderosos americanos mais expostos, eles achavam que estavam lidando com um ítalo-americano, enquanto Michael era cem por cento americano.
 Ele se ofende quando recebe o título de o Ítalo-americano do ano. Ele nunca se auto refere como sendo um italiano e quando fala da Sicilia, ele diz: Este país, eles... E não, nós, e meu país.
 Eu acho que Michael não é uma continuação da Máfia, nem perpetuação das tradições milenares da Sicilia. Michael é o fim da máfia. Um fim que veio de dentro para fora.
 Ele confessa a irmã, já mais velho, que quanto ele mais sobe, quanto mais poder ele tem, quanto mais ele tenta ser honesto, mais podridão, mais miséria e corrupção ele vê.
 Michael é um herói trágico. Michael sempre odiou os mafiosos. Com exceção dos da sua família.
 “Eu preciso de advogados e não de valentões”.
 Vito e Michael não tem nada em comum. A não ser o fato de serem pai e filho. A cabeça de Michael é exata, ele nunca se confunde. Vito se esquece embaralha tudo e se salva com o seu charme pessoal.
 Michael é tão americano, quem sem se dar conta, seu filho Antony se torna um artista. Cantor de ópera. E não um italiano mafioso.
 E sua última frase no filme, ao sair da ópera de Palermo depois de uma performance de Tony, é:
 “Agora os Corleones serão lembrados por uma voz”.
 Infelizmente esta voz, é o grito de Al Pacino ao ver sua filha, Sofia Coppola cair baleada na sua frente, nas escadarias do lado de fora da Ópera. Lado de fora?

 Michael não conseguiu vencer a Sicilia. Lamentavelmente.