quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Mulheres que eu conheci.

Eu queria chamar este post de: “Mulheres interessantes”.
 Mas dai pensei. Interessantes para quem? Então vou fazer assim, chamar de: “Mulheres que eu conheci”.  Vou trocar os nomes de umas com as outras, assim, talvez só elas mesmas, se vierem a ler, saberão de quem falo. Afinal ninguém quer ser exposto, né?Mesmo porque, na verdade são mulheres que nem existem de fato, são construções em cima de mulheres de fato, mas sempre exagerando um ponto aqui, tirando um defeito acolá... Misturando lembranças, paixões, risadas e épocas:





1-    ISABELA.



 A primeira vez que vi Isabela, ela estava descalça com um vestidinho estampando, destes leves de verão, em cima de uma mesa de boteco nos jardins, a cantar Cartola em Francês.
 Morena jambo, depois descobri que era do Mato Grosso, daquele lá mais longe, o do “norte”, de uma tal Cuiabá. Ela dizia descender de índios. Como não conheço índios, na minha fantasia, ela me parecia alguém às vezes do Paquistão, às vezes do Sul da Espanha, tinha um rosto exótico, bem exótico. Sorria o tempo todo.
 Mas embora fosse bem doida e boêmia, Isabela acordava cedo. Era empreendedora. Seu forte era cozinha europeia.  Havia vivido em Paris. Ela sorria muito. Mas sua felicidade era um pouco como a do samba, um sorriso com uma melancolia.
 Era um equilíbrio entre mentalidade europeia, e a selvageria do Pantanal.








2-    JANAÍNA.



 Eu vi uma moleca na pista de dança. Ela dançava meio com os olhos fechados, como alguém que ouvi a música e imagina paisagens.
 Achei que ela, Janaína, tivesse uns 17 anos. Mas tinha 20. Dei uma carona de volta pra casa dela, e ela esqueceu o RG no meu carro. Dias depois marcamos um almoço para eu lhe devolver o documento.
 Janaína tinha os cabelos curtos, era bonita, mas o que chamava a atenção era o seu nariz. Lindo. Falamos de cocaína, pintura, ela era estudante de artes plásticas, e de mulheres. Janaína gostava muito de mulheres.
 O segundo encontro foi num bar na Rua Augusta. Ela tomava Cosmopolitan e eu cerveja e cachaça. Falamos da sua ex namorada. Era final de um feriado, fui deixa-la em casa, na porta ela me deu um beijo, dos melhores da minha vida, e me perguntou o porquê eu de não a ter levado para minha casa.
 No terceiro encontro, eu estraguei tudo. A coloquei na parede, a questionei deste negócio de ela gostar de mulheres. Perguntei onde eu ficava na estória. Enfim, o que era para ter sido uma curtição foi uma troca de gêneros onde a menina era eu. Mal tínhamos transado e eu querendo saber das intenções dela. Mas que nariz! Que perfil!
 Teríamos sido grandes amigos. Em outras circunstâncias. No fundo o que não deu certo, foi à diferença de idade.







3-    GABRIELA.



 Um casal, um amigo meu e sua namorada, resolveram me apresentar à irmã dela. Marcamos num bar, estes bares que já na época faziam drinks clássicos. Na verdade a ideia surgiu por sermos todos de ascendência Libanesa. E para ser sincero talvez isso fosse a única coisa que tínhamos em comum.
 No primeiro encontro correu tudo bem, a menina, não era lá muito alta, mas tão pouco baixa, eu é que tenho uma preferência pelas altas. Mas era muito bonita. Parecia muito mais uma Inglesa de comportamento, e também na pele, no cabelo, e uma francesa no estilo, do que o estereótipo da Libanesa.
 Gabriela nunca tivera uma calça jeans, segundo ela mesma. Ela criava vestidos de alta costura. Mas não tinha aquela afetação da moda. Era uma artista de verdade, se é que moda é arte. Mas ela era extremamente ambiciosa artisticamente. Levava sua profissão muito a sério. Mas sem perder a elegância, seus gestos, seus olhos, a maneira de falar, eram de uma mulher madura, que sabe o que quer.
 Aconteceu que ela ficou bem mais interessada em mim, do que eu nela. Acho que o negócio de não ter a calça jeans, não me caiu bem. Era muita sofisticação para mim. E me sentia mal vestido o tempo todo. Adoro champanhe, mas também quero tomar cerveja, ir à Vila madalena. E a verdade, embora muito gente ria disso, me considero um hippie.
 Sou muito mais anos 60, do que anos 50. E Gabriela era a consagração dos anos dourados. Eu era Tropicália, e ela JK. Eu era Woody Stock e ela Bossa Nova. Eu era Avenida Paulista e ela Copacabana Palace. 
 James Bond adoraria Gabriela. No final, das contas, eu fiquei no meu provincianismo e ela seguiu.
 Anos depois a encontrei no supermercado. A mesma elegância. Ela estava morando num dos prédios mais charmosos de São Paulo, um que eu amo. É porque eu sou anos Sessenta na alma, mas sou apaixonado pelos prédios paulistas dos anos 50.
 Demorei um tempão, mas acabei descobrindo, que sim, eu e Gabriela temos gostos em comum.








 4-    HELO.



 Franzisca era uma alemãzinha, que adorava capoeira, samba, praia, açaí e bicicleta. Estávamos já no segundo encontro, e eu sentia que algo estava travado.
 Tínhamos ido almoçar na Liberdade, era um sábado de calor. Depois acabamos numa festa na Vila Madalena. Franzisca impressionava tanto homens quanto mulheres. Era muito charmosa e carismática. Também uma alemãzinha, falando português com sotaque, e vestindo-se como uma carioca, atraiu muitos olhares na festa.   
 Um dos olhares foi de Helo. Uma mulher de 30 anos, um avião. Saca mulherão¿ Voz, corpo, maturidade, uma leoa.
 Acho que Helo se impressionou por eu estar com Franzisca. Tipo: “ Este Leo ai deve ser bom”. Ou talvez ela estivesse a fim do casal.
 O Fato é que dias depois, marcamos um encontro, eu e Helo.
 E a Alemã? Não sei, mas acho que eu não era o tipo dela.
 Helo e eu fomos encontrar uma turma bem divertida. Aniversário de um amigo gay, com muitos gays, que adoram as imitações de Helo. Todos riram um bocado com ela.
 Ela era do tipo mulher engraçada, tipo estas do Stand Up. Que vivem no limite da vulgaridade.
 Helo nunca deu nenhuma dentro comigo, mas seu discurso parecia tão honesto que eu não ligava.
 Primeiro disse que odiava Teatro. Helo era diretora de TV. Depois vir a descobrir que ela é irmã de uma amiga atriz. Atriz de teatro.
 Helo dizia que queria só sexo e nada mais. Que fora casada por oito longos anos, e agora queria se divertir. Estava numa fase de curtição.  Viemos pra casa, fizemos um amor intenso. E ela poucos minutos depois, disse que iria me deixar dormir tranquilo. Como ela quem estava de carro, só fiz foi acompanha-la até o carro.
 Bem vindo ao século 21 Leo.
 O que afinal Helo tem de interessante? Já disse, é um mulherão.  Melhor dizendo, Helo é um caso antropológico. Ela tem toda uma estética brasileira, ginga, sensualidade, lembra demais destas cantoras sapatas de MPB, demais.
 Ela é a famosa garota do Bar.
 A rainha do bar. E me fez um favor, ninguém acorda com a rainha do Bar. Seria muita pretensão da minha parte.


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5-    CAMILA.




  Liguei para minha amiga Suzana, convidado pra passar à tarde de sábado comigo. Ela disse que não poderia, mas a irmãzinha dela, Camila, estava louca por uma companhia para ir junto comprar um vestido de formatura da escola, do colegial.  
 Nesta época eu já passara dos 30. Conhecia Camila, porque a vira certa vez num jantar que Suzana fizera para os amigos. Na época do jantar, a jovem com agora 19 anos, tinha 15. Vestia uma jardineira jeans. E me lembro dela ter me chamado muito a atenção no meio daquelas 20 pessoas.
 Camila me serviu almoço e começou a falar como uma metralhadora. Era um doce. Fomos à galeria Ouro Fino comprar o vestido. Ao deixá-la em casa, depois de falarmos de teatro, artes, e montão de coisas mais.
 Quando ela desceu eu pensei: “Nossa! Nunca mais vou ficar com uma menina de 19 anos. Ainda mais porque eu tenho 32”.  
 Lá se vão quase dez anos. E eu achando que era um senhor.
 O encontro veio, fomos ao Bar Balcão, e a menina conhecia tanto rock clássico dos anos 60, e artistas plásticos dos anos 60. E tinha um All Star azul, uns peitos que depois vim a descobrir que faziam jus a propaganda da irmã Suzana sobre os mesmos. Minha irmã tem os peitos mais lindos que eu conheço. Ela dizia. Que por conta disso mais um pouco de álcool me apaixonei.
 Esta sim, bem alta. Mais do que eu. Tempos depois fomos para fazenda dela. Ela selou os cavalos e de posse de chapéu, me colocou em cima de um cavalo e fomos tocar gado. Foi a primeira vez que eu toquei gado na vida. E por enquanto a única.
 Depois Camila, tirou as selas lavou e alimentou os cavalos.  
 Nunca entendi bem Camila. Quem a visse na fazenda acharia que ela era quase um Vaqueiro. Mas me dizia que gostava mesmo era de Nova Iorque.
 A louca mais suave que eu já conheci.  Na manhã seguinte me levou dar milhos aos fofos carneirinhos.
 À noite, no jantar da fazenda elogiei a carne. Para minha surpresa, Camila me disse que eram os carneirinhos. Os mesmos que horas antes tínhamos dado milho para eles comerem.








6-    FERNANDA.



 Ela era morena de cabelos cacheados e olhos verdes. Mais velha que eu alguns anos, mas só na idade, não na aparência. Viera do interior, para cursar Direito em São Paulo.
 E me dizia que depois de refletir muito, tomara uma decisão. Iria fazer uma revolução para acabar com os Burgueses do mundo. Era rica de pai e mãe. Geralmente os comunistas são ricos.
 Me explicou o quanto as presas (presidiárias) eram exploradas, e mal tratadas. De como a mídia deveria ser cerceada. Me levou na casa de Espanhóis comunistas, células revolucionarias, discutíamos arte. Ela dizia que arte não deveria ser burguesa.  Deveria servir ao povo.
 O primeiro desentendimento foi em relação ao sexo. Eu transava como burguês, segundo ela. E isso não queria dizer que eu era machista.
 E sim que eu deveria gritar mais, aceitar fio terra, enfim... Desempenhar sei lá que papel, que personagem.
 Fora este pequeno desentendimento, o resto eu aceitava, porque ela era convincente.
 Mas acho que ela me achava um frouxo. Minha época de marxista, sempre foi muito frágil.
 Não me empolguei com a ideia de colocar tijolos em escolas do MST.
 Afinal nunca fui burguês. Sempre fui artista. Tempos atrás, soube que Fernanda agora está com a missão de acabar com o cigarro no mundo.
 Às vezes acho que ela é a reencarnação da Maria Bonita, ou da Olga Benário.







7-    JULIE.


 Uma Chinesinha- Norte Americana. Nascida em Taiwan, criada em Boston. Julie nos anos 90 era a traficante da faculdade onde eu morava em Boston. Ela reciclava as coisas. Na época eu nem entendia o que era aquilo. Afinal nem internet existia.
 Logo no começo ela explicou, eu tenho que ser má, se não, não me respeitam. Comigo ela nunca foi má.
 O primeiro encontro foi o dia das Bruxas. Fomos até Salém, no dia das bruxas. Muitas fogueiras, pessoas de preto, e uma maconha muito forte que ela me deu. Na volta eu ria muito no carro. Quer dizer, meus músculos riam, não havia graça nenhuma em nada. Ou se havia, era um outro código.
 Chegamos no dormitório feminino. Fazia muito frio. A menina que dividia o quarto com Julie estava fora da cidade. Logo ela me convidou para ficar.
 Fui para a outra cama, no que ela disse que se fosse para eu dormir na cama da colega, era melhor eu ir embora. Nos juntamos na mesma cama. A dela, com vista para o bosque. Eu ia no banheiro do dormitório cheio de meninas.
 Combinamos em fugir para Londres no dia de Ação de Graças, já que ela dizia que Chinês não comemorava esta data. Naqueles tempos, creio que ainda hoje, Boston- Londres era bem em conta. Menos que uma ponte área Rio- SP.
 Mas Julie acabou me dando o Bolo. O que também foi bom. Imagine ir para Londres com uma dealer?
 Acho que Julie foi uma das pessoas mais alternativas que já conheci. Tudo nela alternativo. O modo de encarar a vida, de curtir, de descobrir. Mas nada nela era politizada.
 Ela era visionária. E eu estava numa época de descobrir o mundo. Minha vida inteira eu quis ser polícia.
 Hoje penso, na minha fantasia, que Julie não era uma policial infiltrada.
 Isso explicaria o interesse em um Brasileiro, que dividia o quarto com um Colombiano. Este, por sua vez me dizia que sua família, estava no ramo de laboratórios farmacêuticos, lá na Colômbia.

 Foram muitas noites, dormindo no aquecimento, ouvindo Shakira, com vista para o gélido bosque, no quarto da chinesinha Julie. Ah! Os anos 90! 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Tipos de diretores de Teatro:

Existem infinitos estilos de diretores de teatro. Aqui apenas faço uma brincadeira. Colocando alguns tipos mais comuns, que fui conhecendo durante a minha trajetória.
 Em absoluto acredito que exista um jeito, regra ou fórmula de dirigir. Seja um diretor invisível, que de mais espaço para o texto aparecer, ou ainda um diretor com cores mais fortes, que atravesse o texto, tanto faz. Sou e sempre fui a favor da diversidade. Da possibilidade infinita. Dito isto, lá vão os tipos:




O INSEGURO:



 O diretor inseguro, já começa indeciso quanto ao texto que irá montar. Clássico ou contemporâneo? Texto nacional ou estrangeiro? Comédia ou drama?
 Como ele é inseguro, suas decisões são tomadas junto a outras pessoas. Ele pergunta o que o produtor acha, o que os atores acham. Chega até perguntar para sua esposa, para sua mãe e até para sogra.
 Ora se decide por Molière, ora resolve fazer teatro físico. A frase que mais diz durante os ensaios é: “O que vocês acham”?
 O diretor inseguro, deixa toda equipe insegura. O autor, se é vivo, fica inseguro. O produtor fica inseguro, o elenco fica inseguro. As vezes a própria plateia fica insegura.
 O diretor inseguro, deixa os técnicos inseguros. Será que é para dar o terceiro sinal já?
 O bilheteiro fica inseguro se cobrou certo, se era convite, ou inteira. O público, fica inseguro quanto ao lugar, a poltrona.
 Até o crítico fica inseguro, quanto a crítica. “Será que era ruim mesmo”?
 O cenógrafo nem se fale. “Acho que era pra ser um verde mais escuro ali”.
 A temporada toda, mesmo se forem meses, todos os dias, todos se perguntaram: “E se mudarmos ali”? Acho que aquela cena deve sair. Colocar mais luz no fundo. A música tava melhor quando era mais alto o volume.
 A atriz, que faz a japonesa, era melhor quando era a negra, e não esta loira. A negra tinha mais cara de coreana.
 Já para o pai dela, melhor o ator parar de ser gago. E tirar a barba. Já o policial, melhor se ele falar mais baixo, mais doce.
 O que? Não tem policial? Mas o crítico disse que aquele personagem ali, é na verdade um policial.
 O que? O crítico voltou atrás e deu mais estrela? É claro que eu gosto da atriz. Só não sei se ela é boa atriz. O que você acha? Você acha que eu troco ela? Trocar a roupa dela? Mas se já vai trocar o figurino, já troca o elenco também.
 Você acha que eu deveria ter feito o clássico de uma vez?
 Às vezes acho que é melhor mudar de Teatro. Ou deixar de ser sexta, sábado e domingo. Ser sábado, terça e domingo. O que você acha de mudar o título?
 O diretor inseguro não decide nem a cantina apoiadora que vão comemorar após a estreia. Se é a Piolim, ou a Planeta’s.




 O DORMINHOCO:


 Este tipo acredite ou não, é pontual. O diretor dorminhoco chega até antes, pois adora ficar conversando com os atores. O ensaio atrasa uma meia hora, as vezes até mais. Mas sempre termina no horário, nem um minuto a mais. Como um terapeuta encerrando a sessão.
 O diretor dorminhoco, tem sempre um excelente assistente. Destes mais sargentos. O diretor lhe dá toda autoridade de ensaiar com braço com forte. Anotar bem as marcas. Afiar a luz. Um assistente pouco criativo, mas executor, e autoritário com o elenco.
 O assistente passa um aquecimento bem puxado. Com vários exercícios físicos. Isso dá a impressão ao elenco que eles estão rendendo, ensaiando.
 Depois o diretor pega um caderno, uma caneta, um lápis, e começa a desenhar. O elenco terá a sensação de que ele está anotando coisas referentes ao ensaio, ao espetáculo. Mas não são notas que o diretor dorminhoco faz. E sim desenhos. Sua cabeça vai longe. Viaja.
 Desenha, desenha, e quando o assistente o questiona sobre o que fazer. Ele manda repassar a cena, ou escolhe outra para ensaiarem.
 Avisa que está indo tomar um café na padaria, que depois no fim do ensaio quer ver tudo passado. E sai. Volta dez minutos antes de acabar o ensaio.
 Ele está lá sempre sentado, calmo. Muitas vezes o diretor dorminhoco, tem dúvidas sobre a profissão que seguiu. Mas também como não estudou mais nada. E já tem alguns espetáculos na carreira, ele continua sempre em frente. No automático.
 Muitos críticos, teóricos e observadores de teatro, acreditam que este tipo de direção ausente, até pode acarretar um excelente espetáculo, quando feito por bons atores.
 Porque a verdade é que bons atores, sabem fazer as cenas. Mas bons atores também gostam de que sempre tenham alguém a observa-los. Coisa que fica a cargo do assistente sargento.
 Mas a verdade é que alguns dias antes da estreia, o diretor dorminhoco, acorda e passa a achar seu próprio espetáculo lindo. Fica levemente mais empolgado. Pois o este tipo, adora teatro, adora ser plateia, o que ele não gosta é de trabalhar, ensaiar e claro atuar.
 Eles são ótimos para formar novos diretores. Porque eu mesmo leitor, confesso, que a primeira assistência de direção que eu fiz, primeira e única, foi para um diretor dorminhoco. Ele me mandava repetir e repetir a cena com os atores exaustivamente, e saia.
 A única vez que ele levantou da poltrona, tomei até um susto. Ele estava atrás de um cinzeiro a poucos metros. Pegou o cinzeiro e voltou a ficar no seu mundo.
 Depois da estreia, o diretor dorminhoco, sai de férias. Ou dorme dois, as vezes até três dias seguidos. Pois está exausto.





 O CRIATIVO:


 Dizem que este tipo surgiu com a invenção da lâmpada. Lá pelos idos de 1880. Em Paris, e depois se difundiu pelo mundo. Antes poucos recursos eram disponibilizados numa apresentação de teatro. Poucos, mas suficientes.
 Texto, atores e plateia. Mas agora, com a lâmpada o céu era o limite. Aliás, dizem que o diretor em geral surgiu com a eletricidade. O estilo de direção. Mas isto é outra polêmica, para teóricos e historiadores.
 Ele agora, o diretor de teatro, pode deixar os atores no escuro, pode fazer a tudo amarelo, pôr do sol, tudo azul. Pode colocar música que quiser, enfim, fazer a atmosfera que quiser. Apagar e acender as luzes, o tempo todo. Até mexer no ar condicionado, ele pode.
 Claro que todos estes recursos, vieram para colaborar, para servir. O problema é quando o texto e os atores, ficam servindo os efeitos. 
 O diretor criativo, é o pesadelo dos autores. Porque bem da verdade ele é apaixonado pelo palco, e não por histórias (estórias).
 Ele se preocupa única exclusivamente com a equipe técnica. Iluminador, sonoplasta, cenógrafo, e muito, mas muito dinheiro no orçamento para gastar.
 Aqui vão três anões, ali duas loiras, perto da piscina, atrás do leão.
 Geralmente os criativos se cansam dos palcos Italianos convencionais. O edifício do teatro como conhecemos, o auditório com o palco.
 Preferem explodir o espaço cênico. Encenar a peça em Igrejas, em barcos, na fachada de prédios. Sim isso mesmo, na fachada, com atores pendurados como o Homem Aranha. Por que não? Vai ver quem quer.
 O texto? O texto é pretexto. Desde que o ponto de partida, seja um nome como Saramago, Tolstoy, Dostoyevsky, Machado de Assis, e as vezes um texto baseado em pintores, ou arquitetos, ou em chefes de cozinha, Picasso, ou Le Corbusier, Ferran Adria...  Em cineastas, em atrizes que já morreram, ou em qualquer coisa, artística ou não. Não importa. Pode ser baseado até neles mesmos, ou em uma notícia de jornal.
 Colocam os atores dando falas no escuro. Colocam um ator fazendo Shakespeare em grego contracenando com um ator alemão fazendo Nelson Rodrigues em japonês. Convidam celebridades para atuar, misturam vídeo, fazem cenas na rua.
 Colocam a plateia no palco, e o elenco na plateia. Às vezes acho que são para o teatro, o que arte conceitual é para as artes plásticas.
 Quando este tipo, criativo, tem de verdade uma personalidade forte, é seguro, pode sim acarretar um ótimo espetáculo. E as vezes até aparecer com uma forma narrativa interessante.
 Mas alguns aparecem com coisas que já foram feitas e refeitas há mais de cem anos. E vendem isso como inovação. Mas o que seria do mundo das artes convencional, sem os verdadeiramente criativos? Aliás, o que seria do mundo sem eles?
 Cabe lembrar que um destes diretores, que era outras coisas também, vereador, autor, teórico, era tão criativo, mas tão criativo, que fazia coisas sem dinheiro.
 Inventou o Teatro Invisível, o Teatro Fórum. Mas me acorre que Augusto Boal, fosse realmente um inventor, e não um criador.





 O BREGA: 


 O Diretor Brega, não tem muito segredo não. Ele tira toda forma de reflexão, polêmica, filosofia, sofisticação de um espetáculo. Ele simplesmente faz o famoso Teatrão. Ele possui um gosto duvidoso. Não é questão de fazer pizza, ou gastronomia refinada. Seria o famoso restaurante Paris 6, por exemplo. A função é agradar.
 Não que algo mais reflexivo, caprichado, não agrade tanto quanto.
 Alguns são bem resolvidos com apenas agradar o público em geral.
 O problema, se dá com os não verdadeiramente assumidos diretores bregas, que passam a querer ter uma imagem mais aceita pela opinião dita mais culta.
 E aí que se tornam mais bregas ainda. Pois muitas vezes são artesões que desejam parecer artistas. Mas um artista mais para o lado de um cantor sertanejo, astro de rock. Claro que as referências, serão Marco Nanini, Possi Neto, misturados com Tom Cruise e Suzana Vieira.
 O diretor Brega, é aquele indivíduo que não abrir mão de nada. No seu inconsciente ele quer ser como a rede Globo. Chique, com audiência, e ainda esbanjando cultura.
 Acontece que a Globo não faz teatro, tentou e quebrou a cara. Ou bem da verdade nunca quis. Nem tem nada a ver. Teatro não é indústria, propriamente dita. Se bem que os números financeiros dos atuais musicais, desmentem isso.
  Enfim, voltando, o cara quer ter tudo, beleza, dinheiro, Oscar de Hollywood, prestigio, e ainda ser um grande artista. Não dá. Pois pouquíssimas pessoas têm tudo. Se é que alguém tem tudo.
  O que eles fazem? Leis e mais leis Rouanets, correm atrás de atores famosos e assessores de imprensa que invariavelmente os acabam mandando para programas televisivos bregas, e frequentando estreias de espetáculos ditos mais artísticos, onde artistas fogem deles.
 De cinco em cinco em anos, arrumam uma enormidade de dinheiro, fazem um espetáculo caro, com elenco televisivo, um pé no musical, e seguem em frente.
 O espetáculo as vezes pode vir a ser até bom. Pois apesar de tudo, o diretor Brega, é sim um obstinado. Um lutador.
 Quem já não teve noites agradáveis com aquela menina brega, bem breguinha mesmo, mas com um sorriso lindo, e uma enorme vontade de vencer?
 Eu já tive. Desconfio as vezes que o teatro só não morre, por conta dos bregas. As vezes a peça toda é ruim, mas as vezes tem alguma cena, uma só que seja, tão brega, mas tão brega, que ela fica até verdadeira.
 É quando a alma deles é revelada.
 Agora ninguém, mas ninguém supera o coquetel de estreia de um diretor Brega. São os melhores.
 Porque para uma equipe brega, por mais que desejassem serem reconhecidos como artistas, o que define o sucesso pra eles, é sim, o lugar comum, uma casa cheia.
 E numa estreia a casa é sempre lotada. É muita felicidade. E muito champanhe.





 O TÉCNICO:


 Este tipo de diretor, é aquele prático. Objetivo. Ele pega o texto, destrincha ele todo. Quando reúne o elenco, ele lê cada personagem, para cada ator, que fará o personagem especifico.
 Define todos os gestos, o volume de cada fala, cada intenção, é extremamente matemático, metódico.
 A palavra que ele mais gosta é método. E é claro, ele tem o método dele. Que na verdade seria um método mais clássico desenvolvido para os dias atuais, para o ator contemporâneo. Mas é dele.
 O diretor Técnico, obviamente é professor. Já foi diversas vezes para Europa. Já morou em Moscou, em Londres e até estudou teatro oriental na Índia e no Japão. Ou pelo menos diz, que já fez tudo isso.
 Suas influências são Freud, Stanislavski, Lacan e Buda. Tudo parte do ator, e seu método. Até o cenógrafo tem que fazer os laboratórios do método. Porque tudo parte do ator, o cenário, o texto, o figurino, a luz, a direção, partem do ator.
 O ator é o centro do seu teatro. Aliás, centro do universo. Bonito, né? As atrizes jovens adoram.
 Deus é o método, e o método é Deus. E o ator sem ele, diretor técnico, não é nada. Pois ele, o diretor técnico, estudou com o discípulo do grande outro mestre.
 Ele possui a mágica que fará você, ator e atriz, serem grandes. Sem ele, e sem o método, vocês não são verdadeiros. Vocês não são nada.
 O diretor técnico cria então uma seita. Promete um fazer um teatro que nunca foi feito antes. Grita para o mundo que todos os outros teatros não estão certos. A não ser alguns trabalhos do Antunes, e do Grotowski.
 Geralmente este tipo de diretor, não sabe fazer comédia. E nem quer. Pois comédia não se encaixa nos seus laboratórios.
 Adora colocar atores andando para trás, esbugalhando os olhos. Em silêncio. Atores sentindo. Com desequilíbrio.
 Dizem que seus atores sentem muito. A plateia também sente. Sente arrependimento de estar lá.
 Muitos deles no Brasil colocam guardas chuvas em cena, em tentativa de copiar o mestre Antunes Filho, este realmente um diretor técnico. Técnico, mas genial.
 Por mais que o diretor técnico se torne uma caricatura dele mesmo, são eles que topam enfrentar a profunda busca no ator dentro dele mesmo.
 Acaba que o ator realmente sai valorizado do processo. O ruim é quando o ator não sai do processo.
 Muitos atores tendem a se apaixonar pelas teorias de teatro. Uma bobagem, pois teatro é prático e físico. Mas acaba que muitos atores se apaixonam também pelo seu mestre, o diretor Técnico. E não poucas vezes se tornam fanáticos, como em qualquer seita.
 A estreia geralmente é sem plateia. Pois o diretor técnico está em busca de um teatro puro.
 E as plateias nunca são puras, pois não estão preparadas para o seu teatro. Na verdade, os atores também não estão.























segunda-feira, 13 de julho de 2015

Tipos de ricos.

Tipos de Ricos:

 O conceito de rico é relativo. Para alguém com uma renda de 15.000 reais mensais, que convive com pessoas, com renda de até 2 mil, este alguém, é rico para os demais. E para ele mesmo.
 Já alguém com renda de 30 mil, mas que convive com pessoas com renda de 80 mil reais, também mensais, este alguém vai se sentir pobre.
 Uma curiosidade, existem uns 150.000 milionários no Brasil, destes, só uns poucos 35, tem um patrimônio maior do que um bilhão de dólares. Mas não é necessariamente dinheiro, que faz uma pessoa entrar nos nossos tipos. Às vezes, a postura, a caricatura, e a atitude, vem desacompanhadas de patrimônio. Basicamente, o que faz um rico existir, é a presença de um pobre.
 Se enxergarmos o indivíduo, e não o grupo à qual ele pertence, teríamos que ser complexos na descrição de cada ser. Por isso, isto aqui é um retrato das qualidades, características mais comuns, e não pretende ser a definição final.
 Tento também, apenas colocar uma visão talvez, mais para a artística, e não cientifica, nem marxista, muito menos religiosa.     
 Agora, chega de desculpas e vamos aos tipos:


O rico simples:


 Este tipo é aquele que realmente aprecia a pobreza. Quando vê pedreiros, pintores de paredes, jardineiros, faxineiros... trabalhando, lá vai o rico-simples puxar conversa. Seus assuntos basicamente são de temática cristã. Posta-se ao lado do trabalhador, e fala, fala, fala sem parar.
 Debocham de empresários, políticos, e falam da beleza de São Francisco de Assis. Da necessidade de ricos aprenderem a servir, para respeitar os pobres. Da inutilidade do consumo. Raramente quer saber a opinião do pobre. Trata o pobre como criança, animal de estimação. Adora chamar o pobre para sentar à mesa, tomar café.
 Leva os funcionários para almoçar, e até para beber junto. O rico-simples aprecia realmente a companhia do pobre. Gosta de verdade da comida, arroz feijão, pinga e piadas infames. Geralmente este tipo não trabalha, é herdeiro.
 Podem ser encontrados em clubes, hotéis de veraneio, principalmente fora de temporada, condomínios na praia e em classe turística em viagens de avião. Se veste com camisetas, tênis, e sem cores, nem luxo. Adoram ônibus vazios, onde apresentam notas de cem para os cobradores.




O rico babaca:


 Existe em qualquer país do mundo. Mas aqui, falo dos brasileiros. Quer sempre tudo do bom e do melhor. Adora a divisão de classe social. Perde muito tempo fiscalizando pessoas de classes inferiores, fazendo, agindo fora das regras, estas regras, por sua vez, que geralmente são delírios, do próprio rico-babaca.
 Ou repreender simplesmente, quando o pobre, ou indivíduo de classe inferior, localiza-se em lugares, ditos “fora da cozinha”.  
 Da pelo menos uma carteirada por dia. Nunca anda a pé, nem de ônibus. Seu carro é sempre blindado. E vê sujeira em tudo. Tem pavor de sol, pois tem pavor de sua pele escurecer. Não assiste nem filmes, nem peças de teatro, nacionais.  Aliás, não vai a cinemas, pra que? Se pode ver series americanas em casa?
 Se veste basicamente com roupas importadas e novas. Geralmente seu trabalho é chefiar, ou ainda ser puxa saco de poderoso. No caso, alguém maior que ele na escala das classes.



O rico- Moema:


 Como o próprio nome diz, trata-se de alguém que mora num bairro como o de Moema. E não, em um bairro dito mais aristocrático, Morumbi, Jardins e Higienópolis. O rico-Moema, não dá a mínima para tradição, sobrenomes e carteiradas.
 Ele é alguém que trabalha muito, quer qualidade de vida, mora próximo ao parque, é contido, quer um bom vinho, mas não o mais caro.
 Num país desenvolvido, ele seria alguém da classe média. Mas aqui no Brasil é rico.
 É visto com desdém tanto por ricos, quanto por pobres. Os primeiros dirão que é uma pessoa com ambições pequenas de classe média. Já os pobres, os acusarão de ser um fracassado.
 Ele sempre estará fora dos livros de história. É o chamado setor médio urbano. Não possui terras, nem fábricas, nem empresas.
 Geralmente são profissionais liberais. Ou trabalham em grandes empresas.
 No vestir, tentam seguir algo chamado “estilo”. Mas sempre desanda para algo sem muita criatividade. Politicamente são os mais conservadores. Pois querem conservar o pouco que têm.






O rico- Ipanema:


 Este tipo, apesar do nome, pode estar em qualquer grande Capital do Brasil. Recife, Rio, Belo Horizonte, Curitiba.  Trata-se do rico descolado. O famoso culturetes. Se considera melhor que um rico, ou intelectual Americano, ou mesmo o Europeu, pois o rico- Ipanema, seria o mais completo.
 Tem a mesma educação que os gringos, geralmente fez até colégio Americano, mas alega que conhece também a maravilhosa cultura Popular Brasileira.
 Antigamente eram fanáticos pela França, hoje eles têm uma ligação, ou predileção maior por Nova Iorque.
 Não se relacionam com funcionários. Adoram diaristas, e gostam de trabalhar com pobre que faz faculdade. Incentivam o pobre a estudar, mas ironicamente o rico- Ipanema autêntico, não tem muita formação acadêmica.
 Tem sim uma boa base. Geralmente os pais o mandam estudar fora, na Suíça, na Califórnia, em Londres.
 Se vestem com roupas dos amigos estilistas, são criativos, e até muito originais.
 Não produzem nada, seu trabalho é transformar a herança em ONGs, ou editoras de arte, reformas de apartamento, festas, vernissages...




O rico de verdade.


 Este tipo, meu leitor, é o rico, que é dono do banco que você deve. Do canal de televisão que você assiste. Da cerveja que você bebe. Do ônibus que você toma.
 Ele muitas vezes acorda, e passa o dia todo sem ver uma pessoa mais rica do que ele. Ou seja, com certeza, se ele não tem uma reunião, um jantar, um evento, onde seus pares vão comparecer, o rico- de verdade, só irá conviver com pessoas mais pobres do que ele.
 O sonho do rico de verdade, é ser mais rico dos que os Chineses. Comprar mais bancos, mais cervejas, mais televisões, mais construtoras.
 Seu medo, por sua vez, é perder dinheiro e deixar de ser rico de verdade.  E de algumas semanas para cá, alguns têm também medo de serem presos, detidos.
 Certa vez ouvi que este tipo, nunca fica louco. Pois o rico de verdade fica é no máximo excêntrico.
 Inexplicavelmente este tipo, também possui uma motivação, um desejo, assim como o rico- simples, de conviver com pobres, bem mais pobres do ele.
 E também uma propensão para consumir coisas simples. Como arroz e feijão.
 Para não dizer uma vontade de fazer atividades simples, como pegar uma enxada, fazer churrascos, pintar paredes.
 Por incrível que pareça, o rico de verdade, pode ser confundido com um pobre, pelo seu portar, e vestir.
 Porque a verdade é que as pessoas mais elegantes e educadas que existem são os ricos de verdade, e os pobres. 




O rico Golfe. 


 Este tipo, é aquele rico brasileiro, que decide viver no Brasil, mas como se estivesse nos Estados Unidos. Ele surge com o desenvolvimento da indústria Aeronáutica. Faz milhagem no cartão, por isso está sempre em Orlando, ou esquiando em Aspen.
 Conhece toda a Califórnia, no Brasil, mora em condomínios de casas, com nomes Americanos, que em nada diferem dos originais.
 O interior de suas casas seriam perfeitamente cópias dos subúrbios americanos, não fossem a quantidade de câmeras de segurança, e quartinhos de empregadas.
 O Rico Golfe, odeia samba, feijoada, é um verdadeiro cameleão, não fosse algo que o trai.
 Ele é mais colorido no vestir do que um americano comum. Uma calça vermelha, as vezes uma meia amarela, um tênis roxo, de resto até seus carros são aqueles enormes, iguais aos americanos
  O Rico Golfe, gosta de fartura. Louças grandes, muita comida, casa extremamente espaçosas, em condomínios ao lado de imensos campos de golfes.
 Ele vive no Brasil, como se o Brasil fosse marte. Tudo ao seu redor é blindado, carros, casas, shoppings.
 O Rico Golfe, nunca, mais nunca mesmo, foi ao centro de São Paulo, ou andou numa calçada fora de condomínio.
 Ele anda de ônibus, só em aeroportos, mesmo assim, com uma claustrofobia imensa.
 Metrô, nunca andou. Mesmo em NY, ele alugou limusines blindadas.
 Hoje ele vai numa reunião de condomínio, para tentar colocar ar condicionado no campo de golfe, afinal o Brasil ainda é um país tropical.




O rico saudosista.


 O rico saudosista, bem da verdade nunca foi rico. Ele aquele indivíduo que tem uma enorme vocação para rico, mas não tem dinheiro. Nem sabe como ganhá-lo. Tem amigos ricos, maneiras de ricos, gestual, oratória, de ricos, conhece tradições.
 Geralmente usa algumas palavras em francês. Sabe quem são as famílias tradicionais, e não raras vezes é monarquista.
 Tem loucura por brasões, e adora os anos 50. Cria toda uma fantasia de que sua família até os anos 50, teria um grupo empresarial. Fazendas, palacetes, criados, e faziam festas enormes. Ah! Os bons tempos, suspira o rico- saudosista.
 Depois passa a viver de saudosismo, pois começa a acreditar nesta fantasia. Tem um discurso de que se acostumou com a nova vida, de menos dinheiro, e menos glamour.
 Geralmente aluga um apartamento um dormitório, bem pequeno, mas muito bem localizado. No bairro dos Jardins de preferência. Compra algumas peças, objetos em feirinhas do Bixiga, e decora seu espaço como um fiel representante da decadência.
 Os amigos ricos então, revezam-se para leva-lo a bons restaurantes e casas de praias e fazendas aos finais de semana.
 Ele acaba sendo sempre convidado para vernissages, e eventos da alta sociedade. Sai em colunas sociais. E é sempre consultado sobre arte moderna, pintores principalmente, até os anos 60. Ele sempre alega que teve uma enorme coleção. E que seu avô era o melhor amigo e conselheiro de Juscelino Kubitschek.
 Mas numa entrevista, disse que sua família, originaria da França, foi rica mesmo, rica de verdade no período de Dom Pedro II.




O novo rico.


 Este talvez seja o mais clássico, e o que mais desperta a curiosidade das pessoas. O novo rico, seria o indivíduo que até uma semana atrás ainda era classe baixa. Logo todo seu comportamento se transforma, num curto período de tempo. E nem tudo pode ser tão rapidamente assimilado.
 O novo rico, com certeza é o mais excêntrico de todos os ricos. E bem da verdade ele quer frequentar a classe alta, não por gostar de ricos antigos, mas para se exibir para os antigos amigos pobres.
 Sua frase predileta é: “Antes novo, do que nunca”.
 Ele vai agora comprar tudo bom e do melhor, ou seja, vai adquirir o que é caro. Vai comprando tudo, misturando as coisas caras. Somando-se a isso uma estética que destaque ainda mais. Suas casas são ostentosas, suas festas também.
O som é alto, a felicidade é enorme, as risadas sem limites, seus closets labirintos infinitos de cores, e fantasias.
 Sua casa possui pomar, pianos de caldas, esculturas gregas, colunas romanas, com arquitetura moderna, formas e mais formas, sem unidade.
 Chafarizes, fontes, cascatas e escorregadores nas piscinas. Música sertaneja, pagodes, e televisões de última geração em todos os 15 banheiros de sua casa.
 Botões que fazem a sala girar. O novo rico tem uma propensão ao estilo Las Vegas de ser, misturado com o Shopping Internacional de Guarulhos.
 Ou ainda, não tem estilo algum. Só coisas extremamente caras, desajustadas, confusas e sobrando.
 Outra frase, e que serviria bem para este tipo, é: “O mais é menos”.




 O Rico Avarento.



 Este é fácil, existiu muito no século XX. São geralmente migrantes ou imigrantes. O Português da padaria, que se tornou milionário. O comerciante Turco. Fizeram dinheiro trabalhando muito, e economizando mais ainda.
 Eles nunca têm mais do que precisam em casa. Na própria casa digo. Porque alguns chegam a ter tantos imóveis, que nem sabem quantos são ao todo.
 Estão sempre reclamando de que a vida está difícil. É são extremamente desconfiados. Desconfiam de todos os prestadores de serviços. Têm pesadelos constantes de que foram roubados.
 Geralmente por não terem formação, morrem de medo de serem enganados.
 Não têm timidez nenhuma em pedir desconto, e possuem uma energia sobrenatural para uma negociação, nem que seja um desconto num café expresso.
 Desconfiam que a nova privada da reforma, de um de seus imóveis foi trocada. Que a faxineira está roubando cuecas usadas.
 Andam com as chaves de toda a casa e gavetas na cintura. Tudo está sempre trancado.
 Em hotéis, dormem com um dos olhos abertos.
 Em restaurantes, que só vão, se extremamente necessário, dão um show à parte.
 Se o garçom simplesmente pronunciar a palavra couvert, é capaz do rico avarento passar mal.
 Sempre leva as sobras para viagem. A água só é boa se for da torneira. E não se enganem, o rico avarento não aceita cortesias, nem presentes. Pois é muito desconfiado.
 A não ser um presente de casamento, que quando não considera bom o suficiente, devolve o presente e cobra um melhor.
 Se você leitor, considera isso muito exagerado, saiba que eu tive e ainda tenho parentes assim. E quando você tem acesso a lógica deles, as privações e as perseguições que passaram, tudo faz sentido.
 Este tipo não admira ninguém, não inveja ninguém, não odeia ninguém. Só tem medo. Muito medo e desconfiança. Seria cômico, se não fosse trágico.
 O rico avarento, geralmente começa a trabalhar aos oito anos de idade, e só para quando morre.




O rico- Forbes.



 E finalmente o rico Forbes. Este tipo, que na minha opinião deveria comprar a revista Forbes, e assim fazer com que seu nome constasse sempre da lista, mas não. Ao invés disso, o rico- Forbes, sofre todo ano.
 Será que meu nome vai estar na lista este ano? Será que cai de posição?
 É um ilusionista. É rico claro. Mas ele faz com que pensemos que ele é dez, as vezes até cem vezes mais rico do que ele realmente é.
 Por isso tudo na sua vida, tem de ter um significado de marketing. Não basta ser bilionário, tem de parecer bilionário, é o seu lema.
 O rico Forbes, faz selfies na frente de navios, edifícios novos de 50 andares. Sempre possuem carros milionários, helicópteros, festas extravagantes milionárias, e sempre pagam para serem rodeados de celebridades.
 Vivem intensamente. Perdem cem milhões num dia, ganham 150 milhões no outro dia.
 São adrenalina pura. Mas nem sempre a frase do 007: “Eu nunca perco”. Funciona.

 Mas a verdade é que as mulheres lindas tendem a gostar dos ricos Forbes.