Dez anos depois, tudo fica tão óbvio.
Rubens já estava na mesa sozinho esperando há uns quinze minutos. Quando viu o Delegado Fiúza entrar. Era hora do almoço e o lugar estava cheio. Fiúza não teve dificuldade em identificar Rubens. O delegado era um homem forte não muito alto por volta de cinqüenta anos. Ele não era nem muito simpático, nem muito agressivo. Mas passava a imagem de um policial, ou engenheiro, ou até quem sabe um comerciante. Vestia jeans, sapato e camisa social.
-Então o que você quer saber? Você falou sobre um livro?
Rubens explicou então que se demitira do excelente emprego que tinha em uma grande empresa. Disse ao delegado que a família da sua esposa Carla era muito rica e a sua própria também. Logo ele ainda dispunha de algum tempo livre para um livro. Um intervalo até decidir o que iria fazer no futuro.
-Sociólogo.
O delegado confessou que chegou a cogitar uma faculdade de sociologia. Enfim, há muitos anos ninguém o procurava para falar do caso Gabriela Chavez. Fora o caso em que ele mais se empenhara e nunca mais seu nome saiu tanto na mídia depois daquilo. Seu maior desejo na época era resolver o mistério. Empenhou-se ao máximo. Lembrou até de Rubens e Carla. Mas a vida continua novos casos vieram e esse fora arquivado.
Depois de muito falarem Rubens chegou ao ponto:
-Delegado, é verdade que os três irmãos mais velhos de Gabriela eram os maiores suspeitos?
Para a surpresa de Rubens, Fiúza disse que nunca suspeitou de nenhum dos irmãos. Mas Rubens insistiu e perguntou o que na época rondava todos os ouvidos. Gabriela tinha um caso com o namorado de seu irmão Guilherme. Sabia que Jéssica, namorada de Duda esperava um filho e que Duda não queria que isso viesse a público. Sendo que a única pessoa que sabia da gravidez fora Duda era Gabriela.
Fiúza interropeu. Disse que aqueles fatos não caracterizavam motivo nenhum.
-Essa menina foi uma vítima, mas ela era um demônio libidinoso. Seduziu quem quis homens e mulheres.
-Até o irmão o senhor diz?
-Se você Rubens se refere ao caso entre os jovens Cristiano Chavez e Gabriela Chavez, saiba que eles nunca foram irmãos.
Aquilo assustou Rubens. A revelação o pegou de surpresa. Por outro lado sua teoria agora ganhava mais força.
-E sobre os álibis? Nenhum dos irmãos tinha um álibi.
-Rubens, na época segredos não foram expostos publicamente. Cristiano estava no quarto dormindo. Um quarto no mesmo apartamento em que Gabriela foi assassinada. Na mesma noite.
Rubens olhou pela janela a garoa fina lá fora. Fiúza cortava o bife. Rubens não teve mais dúvidas se ele cruzasse as informações com o delegado Fiúza o mistério estaria desvendado. Provavelmente naquela mesma tarde. E aquilo não o deixava feliz, muito pelo contrário.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Capítulo 12- Os irmãos Chavez
Aventura
De dia o local é um sacolão e à noite se transforma em um enorme e interessante restaurante japonês que mais lembra o bairro da Liberdade e o Mercado Municipal, misturados à essência boemia da Vila Madalena.
Rubens e Beto foram para o tudo ou nada.
— Você não faz PUC? — perguntou Beto, e como ele nem sabia direito para qual das três se dirigir, as três não souberam tão pouco para quem era a pergunta.
— Eu faço.
Foi o que respondeu a terceira.
— Então é de lá.
— De lá o que?
As três que antes fizeram cara feia por serem interrompidas no papo onde resolveriam o que fariam no próximo feriado, agora depois do “então é de lá”, tiveram crise de risos, o que as deixou muito antipáticas.
Os dois deram sorte, pois a mais feinha das três consentiu que os dois sentassem. Logo o trio e a dupla tornou-se uma agradável mesa de cinco.
Beto disparou a falar. Rubens estava um tanto inseguro e constrangido, só observando calado. Beto quis saber o que elas faziam, mas antes que as meninas entre goles de saquê respondessem, ele já declarou em bom tom que o amigo era sociólogo da USP, veja bem: USP, com maiúscula. As três se impressionaram com o tímido. Talvez ele realmente fosse um intelectual e as estava desprezando, quem sabe?
Na empolgação Beto não escondeu seu entusiasmo por Freud e soltou:
— Já leram o mal estar na civilização? Novamente Beto errou feio. As três eram estudantes de psico e o que alguém acharia pedante e cômico como Rubens achou, para elas soou ofensivo. Como se ele estivesse brincando com algo sagrado sem ritual ou iniciação. Bola fora! Tudo bem, fora uma vitória, ao menos conseguiram sentar-se à mesa das três.
Rubens percebeu que o amigo ia afundar e tentou impedir o nocaute.
— Vocês estavam combinando o feriado? Faz um ano nesse feriado que eu e o Beto preparamos uma super festa com vinho, fondue, queijos. Foi à gente mesmo que fez. Convidamos uma turminha e várias gatas. O resultado do investimento foi que as gatas levaram os cachorros e nós dois sobramos tomando vinho e vendo os outros se beijarem.
As três agora se arrependiam muito de tê-los chamado para a mesma mesa. Não há mal nenhum em bater papo sem compromisso, porém as estudantes de psico não se entusiasmavam com o drama dos dois perdedores. Mas qual não foi o espanto dos cinco ao ouvirem:
— Rubens! Venha sentar com a gente.
Era com certeza a menina mais linda que elas já haviam visto. Seu nome? Gabriela Chavez. Lógico!
Neste momento a cotação dos dois subiu a mil por cento e as três psico, quer dizer, estudantes, permaneciam com os queixos caídos.
Beto mal pode crer que não era sonho. De uma mesa com três meras desconhecidas e sem importância fora agora sentar-se com a famosa Gabriela Chavez, a gata mais cobiçada de São Paulo.
Quando o amigo lhe contou que havia estado na ilha dos Chavez, ele desconfiou, porém sentia orgulho de Rubens e se esbaldava em ver as três psico tentando disfarçar a curiosidade do que agora rolava ali naquela mesa de celebridades formadas por Flavinha, Pedro Paulo, a Chavez e Rubens.
Enquanto Pedro Paulo expunha seus comentários sobre o lugar, Rubens se indagava onde estariam Carla e Ícaro.
— São tempos de esquerda, esses nossos. Este lugar é a própria tradução do militantismo descolado paulistano. Que apesar de não me fascinar tanto, posso dizer que é realmente um ambiente genuinamente latino-americano.
— Como assim? Desenvolva. — Pediu Beto.
— Ora, até os lugares ditos GLS são colonizados. Ainda não se firmou a figura do bissexual latino-americano. Hoje os gays têm hábitos nórdicos.
— Talvez exista uma necessidade de a comunidade gay mundial ser uma unidade e tornar a minoria mais forte. — Foi o que Gabriela disse.
— Onde está Ícaro? — Perguntou Rubens à Gabi.
— Saiu com a gelara do circo.
---E a Carla, onde foi?
Rubens percebeu que algo não cheirava bem e por isso desviou o assunto.
Despediam-se os cinco e Gabriela disse a Pedro Paulo que levaria Flavinha em casa. Beto assustou-se quando num surto, ao caminharem em direção ao carro Rubens lhe pedisse que fosse rápido. Deram três reais ao guardador de carro.
— Vai logo, vamos segui-la.
— Quem?
— Gabriela Chavez.
— Por quê?
— No caminho eu te falo. Olha lá o valet entregando a Cherokee preta e elas entrando. Vai!
Rubens estranhou a calma de Gabriela em relação ao seu namorado sumir e a sua melhor amiga também. Percebeu que Gabriela recebera uma ligação e quando Flavinha e Pedro Paulo que viram a amiga sorrir e falar baixinho, indagaram-na de quem era e ela disse: “Meu irmão”, sem explicar qual deles. O nosso detetive pensou: “tem coisa errada aí”. Fora Gabriela quem pedira a conta e estava ansiosa para quem disse que iria dormir. Não dizer o que levou Rubens a essa excitação; se realmente a curiosidade de saber o que uma deusa como Gabriela apronta por aí, o que aliás milhões de seres têm, vide os paparazzi, ou a relação que talvez isso tivesse com a sua amada Carla.
Gabriela deixou Flavinha em sua casa, naquele prédio na Cidade Jardim onde teve a festa de Flavinha no início da história, o primeiro beijo de Ícaro e coisa e tal. Seguiu pela Augusta e o carro sempre atrás da Cherokee.
— Tem certeza que ela não virou na Brasil?
— Absoluta!
Os dois estranharam muito que Gabriela permanecesse na Rua Augusta. Então, quando ela cruzou a Paulista os dois se deliciaram. “Vamos realmente ter aventura hoje à noite”, foi o quem pensaram.
A Cherokee passou pelo Anhangabaú, contornou a Praça da Sé e foi estacionar em um banco financeiro no largo de São Bento.
Eu sei leitor, que não é horário comercial, logo, o que ela estaria fazendo lá? É que agora é costume fazer festas no centro de São Paulo. Os dois pararam na própria rua. A música que vinha de um pequeno prédio de cinco andares no calçadão era animada. A Chavez misturou-se com um grupo que estava chegando e subiu as escadas com outras meninas que se vestiam no estilo dito “retro”.
O prédio com certeza era da década de quarenta e possuía um elevador desses de grade que se fecha manualmente.
Permaneceram em um local mais escuro observando a Chavez que dançava com alguns meninos. Ela dirigiu-se até a outra extremidade do andar onde havia um bar com as antigas enormes janelas abertas para o centro da metrópole e as estrelas. Enquanto pegavam cervejas Gabriela passou bem perto deles muito apressada, mas por sorte não os viu. Correram para o carro e puderam ver a Cherokee saindo. Dessa vez não era Gabriela que dirigia e sim um homem com um gorrinho azul.
A Cherokee deu muitas voltas até parar em um posto de gasolina com loja de conveniência vinte e quatro horas. Os dois desligaram o farol e estacionaram o carro na outra extremidade do posto fingindo verificar os pneus. Gabriela permaneceu no carro e a pessoa que dirigia desceu para comprar cigarros, agora sem o gorro; era um menino muito bonito, de cabelos loiros lisos e brilhantes.
Foi tudo muito rápido e quando Giovanni e Gabriela iam saindo Rubens e Beto... Sim, leitor, com certeza era Giovanni.
Rubens ia fechar a porta do carro, mas sentiu uma mão em seu ombro e viu um homem com olhos sofridos fingindo sorrir:
— Você por aqui, Rubens?
Pronto, não dava mais tempo. A Cherokee sumira e os dois detetives foram tomar uma cerveja com Guilherme Chavez na loja de conveniência. Nenhum dos três mencionou a Cherokee e seus ocupantes e eles fingiram ser apenas uma coincidência. Um encontro casual nessa enorme cidade. E foi só conversa jogada fora. Depois de se despedirem, Beto, que conduzia o amigo para casa, não dormiu aquela noite depois do nosso detetive lhe revelar o escândalo da irmã ser amante do namorado do irmão.
Para Beto que nunca teve amante e único risco sexual que já tivera fora o de ir à Love Story, aquela informação equivaleu à ida do homem à lua ou ao início da terceira guerra mundial.
Na cama, olhando para o teto ele se lamentava: “Por que não acontece nada na minha vida?” E Rubens que a todo instante era acordado pelo telefone, desistiu de atender na terceira vez:
— Não acredito! Dizia Beto do outro lado. — Não acredito!
— Pois então creia. Como diz o filósofo francês, aposte que é verdade, que existe, porque se apostar que não existe, existe mesmo de qualquer jeito. Boa noite... Quer dizer.
Rubens vê a rua iluminada através da janela.
--- Bom dia! E desliga.
De dia o local é um sacolão e à noite se transforma em um enorme e interessante restaurante japonês que mais lembra o bairro da Liberdade e o Mercado Municipal, misturados à essência boemia da Vila Madalena.
Rubens e Beto foram para o tudo ou nada.
— Você não faz PUC? — perguntou Beto, e como ele nem sabia direito para qual das três se dirigir, as três não souberam tão pouco para quem era a pergunta.
— Eu faço.
Foi o que respondeu a terceira.
— Então é de lá.
— De lá o que?
As três que antes fizeram cara feia por serem interrompidas no papo onde resolveriam o que fariam no próximo feriado, agora depois do “então é de lá”, tiveram crise de risos, o que as deixou muito antipáticas.
Os dois deram sorte, pois a mais feinha das três consentiu que os dois sentassem. Logo o trio e a dupla tornou-se uma agradável mesa de cinco.
Beto disparou a falar. Rubens estava um tanto inseguro e constrangido, só observando calado. Beto quis saber o que elas faziam, mas antes que as meninas entre goles de saquê respondessem, ele já declarou em bom tom que o amigo era sociólogo da USP, veja bem: USP, com maiúscula. As três se impressionaram com o tímido. Talvez ele realmente fosse um intelectual e as estava desprezando, quem sabe?
Na empolgação Beto não escondeu seu entusiasmo por Freud e soltou:
— Já leram o mal estar na civilização? Novamente Beto errou feio. As três eram estudantes de psico e o que alguém acharia pedante e cômico como Rubens achou, para elas soou ofensivo. Como se ele estivesse brincando com algo sagrado sem ritual ou iniciação. Bola fora! Tudo bem, fora uma vitória, ao menos conseguiram sentar-se à mesa das três.
Rubens percebeu que o amigo ia afundar e tentou impedir o nocaute.
— Vocês estavam combinando o feriado? Faz um ano nesse feriado que eu e o Beto preparamos uma super festa com vinho, fondue, queijos. Foi à gente mesmo que fez. Convidamos uma turminha e várias gatas. O resultado do investimento foi que as gatas levaram os cachorros e nós dois sobramos tomando vinho e vendo os outros se beijarem.
As três agora se arrependiam muito de tê-los chamado para a mesma mesa. Não há mal nenhum em bater papo sem compromisso, porém as estudantes de psico não se entusiasmavam com o drama dos dois perdedores. Mas qual não foi o espanto dos cinco ao ouvirem:
— Rubens! Venha sentar com a gente.
Era com certeza a menina mais linda que elas já haviam visto. Seu nome? Gabriela Chavez. Lógico!
Neste momento a cotação dos dois subiu a mil por cento e as três psico, quer dizer, estudantes, permaneciam com os queixos caídos.
Beto mal pode crer que não era sonho. De uma mesa com três meras desconhecidas e sem importância fora agora sentar-se com a famosa Gabriela Chavez, a gata mais cobiçada de São Paulo.
Quando o amigo lhe contou que havia estado na ilha dos Chavez, ele desconfiou, porém sentia orgulho de Rubens e se esbaldava em ver as três psico tentando disfarçar a curiosidade do que agora rolava ali naquela mesa de celebridades formadas por Flavinha, Pedro Paulo, a Chavez e Rubens.
Enquanto Pedro Paulo expunha seus comentários sobre o lugar, Rubens se indagava onde estariam Carla e Ícaro.
— São tempos de esquerda, esses nossos. Este lugar é a própria tradução do militantismo descolado paulistano. Que apesar de não me fascinar tanto, posso dizer que é realmente um ambiente genuinamente latino-americano.
— Como assim? Desenvolva. — Pediu Beto.
— Ora, até os lugares ditos GLS são colonizados. Ainda não se firmou a figura do bissexual latino-americano. Hoje os gays têm hábitos nórdicos.
— Talvez exista uma necessidade de a comunidade gay mundial ser uma unidade e tornar a minoria mais forte. — Foi o que Gabriela disse.
— Onde está Ícaro? — Perguntou Rubens à Gabi.
— Saiu com a gelara do circo.
---E a Carla, onde foi?
Rubens percebeu que algo não cheirava bem e por isso desviou o assunto.
Despediam-se os cinco e Gabriela disse a Pedro Paulo que levaria Flavinha em casa. Beto assustou-se quando num surto, ao caminharem em direção ao carro Rubens lhe pedisse que fosse rápido. Deram três reais ao guardador de carro.
— Vai logo, vamos segui-la.
— Quem?
— Gabriela Chavez.
— Por quê?
— No caminho eu te falo. Olha lá o valet entregando a Cherokee preta e elas entrando. Vai!
Rubens estranhou a calma de Gabriela em relação ao seu namorado sumir e a sua melhor amiga também. Percebeu que Gabriela recebera uma ligação e quando Flavinha e Pedro Paulo que viram a amiga sorrir e falar baixinho, indagaram-na de quem era e ela disse: “Meu irmão”, sem explicar qual deles. O nosso detetive pensou: “tem coisa errada aí”. Fora Gabriela quem pedira a conta e estava ansiosa para quem disse que iria dormir. Não dizer o que levou Rubens a essa excitação; se realmente a curiosidade de saber o que uma deusa como Gabriela apronta por aí, o que aliás milhões de seres têm, vide os paparazzi, ou a relação que talvez isso tivesse com a sua amada Carla.
Gabriela deixou Flavinha em sua casa, naquele prédio na Cidade Jardim onde teve a festa de Flavinha no início da história, o primeiro beijo de Ícaro e coisa e tal. Seguiu pela Augusta e o carro sempre atrás da Cherokee.
— Tem certeza que ela não virou na Brasil?
— Absoluta!
Os dois estranharam muito que Gabriela permanecesse na Rua Augusta. Então, quando ela cruzou a Paulista os dois se deliciaram. “Vamos realmente ter aventura hoje à noite”, foi o quem pensaram.
A Cherokee passou pelo Anhangabaú, contornou a Praça da Sé e foi estacionar em um banco financeiro no largo de São Bento.
Eu sei leitor, que não é horário comercial, logo, o que ela estaria fazendo lá? É que agora é costume fazer festas no centro de São Paulo. Os dois pararam na própria rua. A música que vinha de um pequeno prédio de cinco andares no calçadão era animada. A Chavez misturou-se com um grupo que estava chegando e subiu as escadas com outras meninas que se vestiam no estilo dito “retro”.
O prédio com certeza era da década de quarenta e possuía um elevador desses de grade que se fecha manualmente.
Permaneceram em um local mais escuro observando a Chavez que dançava com alguns meninos. Ela dirigiu-se até a outra extremidade do andar onde havia um bar com as antigas enormes janelas abertas para o centro da metrópole e as estrelas. Enquanto pegavam cervejas Gabriela passou bem perto deles muito apressada, mas por sorte não os viu. Correram para o carro e puderam ver a Cherokee saindo. Dessa vez não era Gabriela que dirigia e sim um homem com um gorrinho azul.
A Cherokee deu muitas voltas até parar em um posto de gasolina com loja de conveniência vinte e quatro horas. Os dois desligaram o farol e estacionaram o carro na outra extremidade do posto fingindo verificar os pneus. Gabriela permaneceu no carro e a pessoa que dirigia desceu para comprar cigarros, agora sem o gorro; era um menino muito bonito, de cabelos loiros lisos e brilhantes.
Foi tudo muito rápido e quando Giovanni e Gabriela iam saindo Rubens e Beto... Sim, leitor, com certeza era Giovanni.
Rubens ia fechar a porta do carro, mas sentiu uma mão em seu ombro e viu um homem com olhos sofridos fingindo sorrir:
— Você por aqui, Rubens?
Pronto, não dava mais tempo. A Cherokee sumira e os dois detetives foram tomar uma cerveja com Guilherme Chavez na loja de conveniência. Nenhum dos três mencionou a Cherokee e seus ocupantes e eles fingiram ser apenas uma coincidência. Um encontro casual nessa enorme cidade. E foi só conversa jogada fora. Depois de se despedirem, Beto, que conduzia o amigo para casa, não dormiu aquela noite depois do nosso detetive lhe revelar o escândalo da irmã ser amante do namorado do irmão.
Para Beto que nunca teve amante e único risco sexual que já tivera fora o de ir à Love Story, aquela informação equivaleu à ida do homem à lua ou ao início da terceira guerra mundial.
Na cama, olhando para o teto ele se lamentava: “Por que não acontece nada na minha vida?” E Rubens que a todo instante era acordado pelo telefone, desistiu de atender na terceira vez:
— Não acredito! Dizia Beto do outro lado. — Não acredito!
— Pois então creia. Como diz o filósofo francês, aposte que é verdade, que existe, porque se apostar que não existe, existe mesmo de qualquer jeito. Boa noite... Quer dizer.
Rubens vê a rua iluminada através da janela.
--- Bom dia! E desliga.
Capítulo 11- Os irmãos Chavez
Herói
Era a primeira vez que esse trapezista viajava de avião. Não havia tempo. Sua namorada estava morrendo no hospital em São Paulo e ele fora passar o natal em Londrina. Sentiu certo começo de pânico misturado com prazer quando a aeronave acelerou na pista para a decolagem. Depois olhou no bolso do assento à sua frente e achou graça no nome da revista. Era o mesmo que o seu. “Pois então não sabem que este nome é ruim para voar e bom para sonhar e acidentar-se”.
Já lá em cima, no silêncio, lembrou-se de Gabriela. Como ela estava? Há alguns meses viviam juntos, dormindo todos os dias na mesma cama. E a paixão continuava a mesma. Pelo menos para ele. De repente o céu se abriu e veio o sol. Essa seria uma manhã quente. Tão quente quanto aquela em que Gabriela e Carla foram visitar a sua antiga pensão. Uma espécie de república estudantil de jovens provenientes da província.
Uma vila de casas que se localiza na fronteira de Pinheiros e Vila Madalena.
Gabriela achou as paredes e o chão um tanto abandonados em umas partes onde se encontravam buracos, às vezes preenchidos por uma massa sem pintura que já pulavam para fora como fruta madura. Apesar disso gostou da liberdade e do colorido criativo que os estudantes iam decorando o espaço.
Era uma comuna e todos na verdade, uns vinte moradores e mais alguns agregados em um terreno com três pequenas casas pareciam tão diferentes, nenhum foi arisco, aliás todos que passavam se cumprimentavam com um “oi” e falavam de suas vidas como em um documentário. Será que eles tratavam bem de Ícaro lá? Foi o que Gabi pensou.
— Você sente falta da sua família? Da sua mãe?
— Lógico!
Ele respondeu, depois mostrou sua cama e a menina se assustou quando viu o banheiro e pensou: “Tadinho, com esse chuveirinho elétrico e esse espelhinho que embaça, parece uma maloquinha”.
Do resto adorou e prometeu a si mesma de trabalhar no restaurante onde começara e com isso ganhar independência e morar por sua conta, como Ícaro.
A aeromoça serviu-lhe um suco de laranja.
Meu Deus, como ela estaria? Mas no final tudo daria certo. E não fora tão grave, lhe disseram por telefone. Passariam o natal junto.
Mas ele não entendeu bem: foi um assalto? Uma tentativa de estupro? O que houve com Gabi? Será que ela está bem? Ela precisa de mim.
E o sono veio. Só que ele não podia dormir.
As duas amigas sentaram-se na cama de Ícaro e ele deitou em uma rede que estava do outro lado da janela. “Por que será que Carla está de tão mau humor?” — ele se indagou.
— Tem um filme aí, vocês querem ver?
— Acende um, depois a gente assiste. — respondeu Gabi.
Então os três foram para uma salinha com um sofazinho, que na verdade era mais uma cama improvisada do que um sofá propriamente dito e um pufe. Dois moradores vieram se juntar ao grupo. Shakespeare in love era o nome da fita.
— Esse filme é irado. Já assisti, mas vou adorar ver de novo. — disse a Chavez, e depois se encostou a Ícaro que estava entre ela e Carla.
— Pode colocar a cabeça no meu ombro, Gabi.
Logo que o filme terminou abriram à porta da cozinha e dois estudantes prepararam um cheiroso macarrão com salsichas, e eles, ao verem Gabi não tiveram dúvida em insistir num convite para que todos jantassem juntos naquele começo de noite. A larica era forte e aceitaram.
Era o começo do começo do início do namoro do trapezista e a garota, mas por um descuido de amizade Ícaro beijou a boca das duas amigas muitas vezes, com o que Gabi parecia não se importar.
Carla não estava muito sorridente, mas sorriu na hora das duas irem embora e disse baixinho no ouvido de Ícaro:
— Você acha que vai ter essa princesinha, mas ela ama outro.
— O que é que você está falando aí, Carla?
— Nada não, Gabizinha.
— Se fica doidona... Ah! Me abraça amiga e promete que nunca vai me roubar namorado.
— E como? Mesmo que eu quisesse amiga, todos os homens do mundo são loucos por você. Até os feinhos! Olha aí esse aí.
Carla se referia a Ícaro que achava muita graça em tudo. Mas agora a ficha caíra. Carla realmente devia ser apaixonada por ele como ela mesma em segredo já lhe insinuara.
Teria Carla alguma coisa a ver com o acidente de Gabriela? Era o que Ícaro se indagava enquanto a aeronave se preparava para pousar em São Paulo.
Era a primeira vez que esse trapezista viajava de avião. Não havia tempo. Sua namorada estava morrendo no hospital em São Paulo e ele fora passar o natal em Londrina. Sentiu certo começo de pânico misturado com prazer quando a aeronave acelerou na pista para a decolagem. Depois olhou no bolso do assento à sua frente e achou graça no nome da revista. Era o mesmo que o seu. “Pois então não sabem que este nome é ruim para voar e bom para sonhar e acidentar-se”.
Já lá em cima, no silêncio, lembrou-se de Gabriela. Como ela estava? Há alguns meses viviam juntos, dormindo todos os dias na mesma cama. E a paixão continuava a mesma. Pelo menos para ele. De repente o céu se abriu e veio o sol. Essa seria uma manhã quente. Tão quente quanto aquela em que Gabriela e Carla foram visitar a sua antiga pensão. Uma espécie de república estudantil de jovens provenientes da província.
Uma vila de casas que se localiza na fronteira de Pinheiros e Vila Madalena.
Gabriela achou as paredes e o chão um tanto abandonados em umas partes onde se encontravam buracos, às vezes preenchidos por uma massa sem pintura que já pulavam para fora como fruta madura. Apesar disso gostou da liberdade e do colorido criativo que os estudantes iam decorando o espaço.
Era uma comuna e todos na verdade, uns vinte moradores e mais alguns agregados em um terreno com três pequenas casas pareciam tão diferentes, nenhum foi arisco, aliás todos que passavam se cumprimentavam com um “oi” e falavam de suas vidas como em um documentário. Será que eles tratavam bem de Ícaro lá? Foi o que Gabi pensou.
— Você sente falta da sua família? Da sua mãe?
— Lógico!
Ele respondeu, depois mostrou sua cama e a menina se assustou quando viu o banheiro e pensou: “Tadinho, com esse chuveirinho elétrico e esse espelhinho que embaça, parece uma maloquinha”.
Do resto adorou e prometeu a si mesma de trabalhar no restaurante onde começara e com isso ganhar independência e morar por sua conta, como Ícaro.
A aeromoça serviu-lhe um suco de laranja.
Meu Deus, como ela estaria? Mas no final tudo daria certo. E não fora tão grave, lhe disseram por telefone. Passariam o natal junto.
Mas ele não entendeu bem: foi um assalto? Uma tentativa de estupro? O que houve com Gabi? Será que ela está bem? Ela precisa de mim.
E o sono veio. Só que ele não podia dormir.
As duas amigas sentaram-se na cama de Ícaro e ele deitou em uma rede que estava do outro lado da janela. “Por que será que Carla está de tão mau humor?” — ele se indagou.
— Tem um filme aí, vocês querem ver?
— Acende um, depois a gente assiste. — respondeu Gabi.
Então os três foram para uma salinha com um sofazinho, que na verdade era mais uma cama improvisada do que um sofá propriamente dito e um pufe. Dois moradores vieram se juntar ao grupo. Shakespeare in love era o nome da fita.
— Esse filme é irado. Já assisti, mas vou adorar ver de novo. — disse a Chavez, e depois se encostou a Ícaro que estava entre ela e Carla.
— Pode colocar a cabeça no meu ombro, Gabi.
Logo que o filme terminou abriram à porta da cozinha e dois estudantes prepararam um cheiroso macarrão com salsichas, e eles, ao verem Gabi não tiveram dúvida em insistir num convite para que todos jantassem juntos naquele começo de noite. A larica era forte e aceitaram.
Era o começo do começo do início do namoro do trapezista e a garota, mas por um descuido de amizade Ícaro beijou a boca das duas amigas muitas vezes, com o que Gabi parecia não se importar.
Carla não estava muito sorridente, mas sorriu na hora das duas irem embora e disse baixinho no ouvido de Ícaro:
— Você acha que vai ter essa princesinha, mas ela ama outro.
— O que é que você está falando aí, Carla?
— Nada não, Gabizinha.
— Se fica doidona... Ah! Me abraça amiga e promete que nunca vai me roubar namorado.
— E como? Mesmo que eu quisesse amiga, todos os homens do mundo são loucos por você. Até os feinhos! Olha aí esse aí.
Carla se referia a Ícaro que achava muita graça em tudo. Mas agora a ficha caíra. Carla realmente devia ser apaixonada por ele como ela mesma em segredo já lhe insinuara.
Teria Carla alguma coisa a ver com o acidente de Gabriela? Era o que Ícaro se indagava enquanto a aeronave se preparava para pousar em São Paulo.
Capítulo 10- Os irmãos Chavez
Barroco
Se me perguntassem por que os cabelos de Gabriela Chavez, loiros eram tão bonitos, eu não saberia dizer. Esses pêlos eram diferentes e o jeito que ela gingava ao andar e o barulho de sua respiração que podia ser ouvida por Cris em uma noite tão quieta e que nós sabemos também tão agitada. Às vezes tenho a sensação de que os opostos realmente se atraem como diz o ditado, que erroneamente é creditado aos amantes. Mas o pequeno segue o grande, o comprido só o é na presença do curto. Noite segue o dia, e o dia a noite, a vigília segue o sono e o sono a vigília. E a vida segue a morte.
Mas o preto virará branco e o branco virará preto, e o tempo passa e o tempo passa e o jovem torna-se velho e o velho, criança. O barroco, antigo e o rock, moderno.
— Eles desistiram, todo mundo desistiu, Gabriela! Não tem mais banda, eu acho ótimo. Sabe por quê? Eu quero aprender flauta barroca.
E a menina resolveu se sentar em um pequeno muro onde Cris colocou o pé e deu um gole na cerveja, olhou para cima e viram estrelas, as mesmas que estavam lá desde o século XVII. Depois viu a cruz na torre da catedral, essa que já foi testemunha de muitos beijos naquela praça que dava para o mar, onde a uns cinqüenta metros existia um píer de onde os marinheiros viriam para buscá-los e conduzi-los de volta à ilha dos Chavez.
— Você está me dizendo que quer mudar de estilo musical, Cris? Por que a galerinha não quer mais tocar?
— A gente tem que ser algo na vida, não tem?
— Mas o começo é sempre difícil!
— Não estou falando só disso.
Cris se irritou, mas Gabi permanecia ali, linda, com os joelhos indo e voltando, batendo-se, ora abriam-se. A boquinha aberta e os olhinhos encarando, mas com a testinha apontada. Apesar de Cris ser seu irmão... Bem, uma saia, uma garota bebendo cerveja, o barulho do mar, as estrelas, a igreja, o vento, que eram espíritos boêmios que passavam e subiam, e os irmãos.
— Gabi, eu quero ser amado!
— Eu te amo, Cris!
— E eu estou cansando.
— Cris, nós não fomos os primeiros nem os últimos a... Fazer... A literatura está cheia disto. Um monte de gente é que nem eu e você, mas ninguém fica sabendo. E esse é o jeito que eu te amo e é sincero. Vem cá!
Gabriela tentava explicar a Cris enquanto ao mesmo tempo lhe fazia um cafuné, que não era a intensidade do amor dela, que era pouca, o problema real é que Cris quer outra coisa.
— Concordo carinha, eu não te conheci num bar. Nós não temos um roteiro juntos. Você não me viu atravessando a rua e se apaixonou. Qual é? Eu nunca vou te perder. A gente vai se amar sempre! Então qual é o grilo? Você não é careta, eu menos ainda. Só que o que pega é que eu conheço cada pedacinho seu essa mãozinha, esse narizinho, essa boca que eu adoro beijar, esse cabelo!
Gabriela tentou mudar de assunto e passava os dedos pelos cabelos de Cris. De repente ele se levantou e foi embora para dentro da escuridão da noite. Ela não foi atrás dele porque era óbvio que ele voltaria. Talvez só tivesse ido fazer xixi. Nunca que ele a deixaria ali sozinha, a sua irmãzinha amada.
O vento aumentou e as nuvens fecharam-se de novo. Gabriela ouviu um barulho ao longe e começou a chorar. “Cris não faria isso comigo, Duda sim, mas não meu doce irmão”. E agora aquela praça que parecia tão calma tornara-se sinistra. Um terror. A caçula dos Chavez se lembrou da história do estuprador de Paraty, a qual os empregados da ilha vinham contando.
Do outro lado da praça, Gabriela viu a silhueta de um homem. Na verdade era o Puritano que se adiantara do grupo para alcançar Cris e Gabriela e por sorte talvez pegá-la sozinha e declarar o seu amor, pois já estava desesperado. A praça ficou escura; por causa da tempestade a luz acabara no centro histórico todo, por isso quando o Puritano foi em sua direção, Gabriela fugiu. Correu pela escuridão. Já estava cansada e não sabia mais para onde ir. Olhava para trás, mas não tinha certeza se alguém ainda a seguia. Foi quando ouviu uma voz conhecida, parou e reconheceu aquele menino. Sentiu-se salva, porém o menino não sorriu e tinha alguma coisa na mão. Uma faca talvez?
— Tem alguém caído ali! — Duda avistara um contorno na rua deserta, que poderia ser de uma pessoa caída, como também um tronco de árvore trazido pela chuva que agora diminuía de intensidade. Mas era ela e os três altos irmãos pegaram-na e ajudaram-na a levantar.
Gabriela tinha sangue nas roupas, mas nenhum corte. Ela estava desmaiada e acordou assim que os irmãos a levantaram. O dia amanhecia. E uma chuva agora caia.
Nosso detetive Rubens foi o primeiro a ver os quatro Chavez, molhados, chegando a uma padaria do centro histórico. Carla, Pedro Paulo e o resto das pessoas admirarem-se com aquela cena dos quatro esgotados e o sol nascendo.
Entraram no barco e partiram em direção à ilha no que seria um dia de céu azul e quente. Ninguém se lembrou do casal de Puritanos, que também como Gabriela se perdera durante a tempestade.
Gabriela não contou a ninguém sobre o menino. Quando Carla disse achar ter visto Caio no centro, ela se fingiu de esgotada e fez que nem ouviu. E o barco seguia em direção a ilha, ela adormeceu, mas Cris pode ouvi-la ainda dizer: ---Ícaro.
Se me perguntassem por que os cabelos de Gabriela Chavez, loiros eram tão bonitos, eu não saberia dizer. Esses pêlos eram diferentes e o jeito que ela gingava ao andar e o barulho de sua respiração que podia ser ouvida por Cris em uma noite tão quieta e que nós sabemos também tão agitada. Às vezes tenho a sensação de que os opostos realmente se atraem como diz o ditado, que erroneamente é creditado aos amantes. Mas o pequeno segue o grande, o comprido só o é na presença do curto. Noite segue o dia, e o dia a noite, a vigília segue o sono e o sono a vigília. E a vida segue a morte.
Mas o preto virará branco e o branco virará preto, e o tempo passa e o tempo passa e o jovem torna-se velho e o velho, criança. O barroco, antigo e o rock, moderno.
— Eles desistiram, todo mundo desistiu, Gabriela! Não tem mais banda, eu acho ótimo. Sabe por quê? Eu quero aprender flauta barroca.
E a menina resolveu se sentar em um pequeno muro onde Cris colocou o pé e deu um gole na cerveja, olhou para cima e viram estrelas, as mesmas que estavam lá desde o século XVII. Depois viu a cruz na torre da catedral, essa que já foi testemunha de muitos beijos naquela praça que dava para o mar, onde a uns cinqüenta metros existia um píer de onde os marinheiros viriam para buscá-los e conduzi-los de volta à ilha dos Chavez.
— Você está me dizendo que quer mudar de estilo musical, Cris? Por que a galerinha não quer mais tocar?
— A gente tem que ser algo na vida, não tem?
— Mas o começo é sempre difícil!
— Não estou falando só disso.
Cris se irritou, mas Gabi permanecia ali, linda, com os joelhos indo e voltando, batendo-se, ora abriam-se. A boquinha aberta e os olhinhos encarando, mas com a testinha apontada. Apesar de Cris ser seu irmão... Bem, uma saia, uma garota bebendo cerveja, o barulho do mar, as estrelas, a igreja, o vento, que eram espíritos boêmios que passavam e subiam, e os irmãos.
— Gabi, eu quero ser amado!
— Eu te amo, Cris!
— E eu estou cansando.
— Cris, nós não fomos os primeiros nem os últimos a... Fazer... A literatura está cheia disto. Um monte de gente é que nem eu e você, mas ninguém fica sabendo. E esse é o jeito que eu te amo e é sincero. Vem cá!
Gabriela tentava explicar a Cris enquanto ao mesmo tempo lhe fazia um cafuné, que não era a intensidade do amor dela, que era pouca, o problema real é que Cris quer outra coisa.
— Concordo carinha, eu não te conheci num bar. Nós não temos um roteiro juntos. Você não me viu atravessando a rua e se apaixonou. Qual é? Eu nunca vou te perder. A gente vai se amar sempre! Então qual é o grilo? Você não é careta, eu menos ainda. Só que o que pega é que eu conheço cada pedacinho seu essa mãozinha, esse narizinho, essa boca que eu adoro beijar, esse cabelo!
Gabriela tentou mudar de assunto e passava os dedos pelos cabelos de Cris. De repente ele se levantou e foi embora para dentro da escuridão da noite. Ela não foi atrás dele porque era óbvio que ele voltaria. Talvez só tivesse ido fazer xixi. Nunca que ele a deixaria ali sozinha, a sua irmãzinha amada.
O vento aumentou e as nuvens fecharam-se de novo. Gabriela ouviu um barulho ao longe e começou a chorar. “Cris não faria isso comigo, Duda sim, mas não meu doce irmão”. E agora aquela praça que parecia tão calma tornara-se sinistra. Um terror. A caçula dos Chavez se lembrou da história do estuprador de Paraty, a qual os empregados da ilha vinham contando.
Do outro lado da praça, Gabriela viu a silhueta de um homem. Na verdade era o Puritano que se adiantara do grupo para alcançar Cris e Gabriela e por sorte talvez pegá-la sozinha e declarar o seu amor, pois já estava desesperado. A praça ficou escura; por causa da tempestade a luz acabara no centro histórico todo, por isso quando o Puritano foi em sua direção, Gabriela fugiu. Correu pela escuridão. Já estava cansada e não sabia mais para onde ir. Olhava para trás, mas não tinha certeza se alguém ainda a seguia. Foi quando ouviu uma voz conhecida, parou e reconheceu aquele menino. Sentiu-se salva, porém o menino não sorriu e tinha alguma coisa na mão. Uma faca talvez?
— Tem alguém caído ali! — Duda avistara um contorno na rua deserta, que poderia ser de uma pessoa caída, como também um tronco de árvore trazido pela chuva que agora diminuía de intensidade. Mas era ela e os três altos irmãos pegaram-na e ajudaram-na a levantar.
Gabriela tinha sangue nas roupas, mas nenhum corte. Ela estava desmaiada e acordou assim que os irmãos a levantaram. O dia amanhecia. E uma chuva agora caia.
Nosso detetive Rubens foi o primeiro a ver os quatro Chavez, molhados, chegando a uma padaria do centro histórico. Carla, Pedro Paulo e o resto das pessoas admirarem-se com aquela cena dos quatro esgotados e o sol nascendo.
Entraram no barco e partiram em direção à ilha no que seria um dia de céu azul e quente. Ninguém se lembrou do casal de Puritanos, que também como Gabriela se perdera durante a tempestade.
Gabriela não contou a ninguém sobre o menino. Quando Carla disse achar ter visto Caio no centro, ela se fingiu de esgotada e fez que nem ouviu. E o barco seguia em direção a ilha, ela adormeceu, mas Cris pode ouvi-la ainda dizer: ---Ícaro.
domingo, 28 de novembro de 2010
Capítulo 9- Os irmãos Chavez
Ele abriu a porta do apartamento. Sua jovem esposa estava vendo um seriado americano na televisão. Era domingo à noite. Ele olhou para ela e lembrou de como ele sempre a amara.
Vindo do bar ele pensou nesse passado, de quando eram jovens. De quando ele fazia faculdade de sociologia. Hoje trabalhava em uma grande empresa. Havia se tornado um executivo.
Mas no carro lhe ocorrera algo que nunca havia pensado. Talvez por amar tanto a esposa.
---Eu vi o Ícaro no Genésio agora.
Carla mal tirou os olhos da televisão. Rubens repetiu:
---O Ícaro. Ele está tão diferente. Acho que faz uma década que eu não o via.
---O Ícaro?
Carla agora olhava séria para Rubens. ---Como ele está? Falou com ele?
---Chegou da Europa. Disse que viveu lá por seis anos, fazendo circo. Tomamos alguns chopes.
Carla se levantou e ia dormir. ---Bem estou cansada, amanhã conversamos. Eu estava só te esperando. Boa noite.
Ela ia saindo. Quando Rubens a puxou pelo braço. Ele sentou numa poltrona.
---No carro vindo para cá eu pensei numa coisa Carla.
A esposa disse que era tarde e que não queria conversar. Ainda mais aquele assunto de dez anos atrás, de Paraty, almoço de natal ela não lembrava mais daquilo. Depois que sua amiga fora assassinada ela tentou esquecer de tudo. Nunca pegaram o criminoso, foi horrível. O processo todo, fora dolorido. Pelo menos é o que Rubens achara até então. Até aquele domingo em que ele encontrara Ícaro sem querer num bar da Vila Madalena e ouvira algo quase sem importância. Fato que lhe revelou tudo.
---Estávamos todos em Paraty. Era para um almoço de natal. Um ano antes de Gabriela morrer. O que eu não sabia é que ele também estava lá.
---Ele quem Rubens? Já são duas da manhã.
---Carla eu acho que sei quem matou Gabriela Chavez.
Ela sentou-se no sofá. Deu um olhar para Rubens que ele estranhou. Um olhar que ela nunca dera. Mas ele já tinha certeza.
Vindo do bar ele pensou nesse passado, de quando eram jovens. De quando ele fazia faculdade de sociologia. Hoje trabalhava em uma grande empresa. Havia se tornado um executivo.
Mas no carro lhe ocorrera algo que nunca havia pensado. Talvez por amar tanto a esposa.
---Eu vi o Ícaro no Genésio agora.
Carla mal tirou os olhos da televisão. Rubens repetiu:
---O Ícaro. Ele está tão diferente. Acho que faz uma década que eu não o via.
---O Ícaro?
Carla agora olhava séria para Rubens. ---Como ele está? Falou com ele?
---Chegou da Europa. Disse que viveu lá por seis anos, fazendo circo. Tomamos alguns chopes.
Carla se levantou e ia dormir. ---Bem estou cansada, amanhã conversamos. Eu estava só te esperando. Boa noite.
Ela ia saindo. Quando Rubens a puxou pelo braço. Ele sentou numa poltrona.
---No carro vindo para cá eu pensei numa coisa Carla.
A esposa disse que era tarde e que não queria conversar. Ainda mais aquele assunto de dez anos atrás, de Paraty, almoço de natal ela não lembrava mais daquilo. Depois que sua amiga fora assassinada ela tentou esquecer de tudo. Nunca pegaram o criminoso, foi horrível. O processo todo, fora dolorido. Pelo menos é o que Rubens achara até então. Até aquele domingo em que ele encontrara Ícaro sem querer num bar da Vila Madalena e ouvira algo quase sem importância. Fato que lhe revelou tudo.
---Estávamos todos em Paraty. Era para um almoço de natal. Um ano antes de Gabriela morrer. O que eu não sabia é que ele também estava lá.
---Ele quem Rubens? Já são duas da manhã.
---Carla eu acho que sei quem matou Gabriela Chavez.
Ela sentou-se no sofá. Deu um olhar para Rubens que ele estranhou. Um olhar que ela nunca dera. Mas ele já tinha certeza.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Capítulo 8- Os irmão Chavez
Giovanni
Guilherme é homossexual. Eu ia iniciar falando de infância, vestiário masculino, rumos marginais, masturbações. Para quê? Ele é e pronto. E depois Gui é um Chavez, logo desde cedo pôs sua libido em prática ao invés de se questionar, e por ser bonito não teve maiores dificuldades.
Agora se segure leitora. Abriu a porta do quarto 14 da Pousada Constantinopla, e deu de cara com um gatinho de boné preto virado para trás e sem camisa, de nome Giovanni.
— Oi, Gui! Entra aí.
Giovanni, que estava deitado na cama de lado com a mão direita segurando a cabeça e o joelho esquerdo levantado, não parecia furioso pela demora de Gui. Em verdade fumara um baseado e acordara a pouco, sem ao menos saber que horas eram. Assistia TV, mas com certeza a leitora acharia a barriga de Giovanni que lembrava um tanque de lavar roupa com as entradinhas na altura da cintura que folgava espaço entre a pele e a bermuda, muito superior à programação televisiva de sempre.
Com os peitos durinhos e um braço perfeito com tatuagens tribais, ele se arrepiou todo quando Gui começou a lambê-lo.
— Desculpe, aquela nojentinha ficou me segurando!
— Eu só aceito você falar assim de sua irmã porque eu estava com saudades. Mas eu não gosto que você a chame assim. E para falar sério eu quero conhecê-la para ver se ela é gostosa igual ao irmão. Será que ela transa igual ao irmão?
E como Giovanni que começou, Gui emendou:
— Ela me apresentou um amigo, que, aliás, está dormindo em casa e nós fomos jantar todos juntos. Vê? Ficou putinho? Não é você que gosta de bacanal?
— Da boca para fora, que eu não gosto de dividir o que é meu.
— Seu trouxa! É um caretão gordinho!
— E vocês ficaram por aí de mãos dadas procurando peças pro seu antiquário, não é?
Enquanto os dois rolavam na cama Giovanni ficou por cima e emendou um beijo em Gui e esse quando percebeu que o amante já tinha relaxado concluiu com gestos pornográficos.
— Não, eu e Pedro Paulo não fomos atrás de peças, só fomos tomar sorvete juntos, assim ó!
Os dois amantes tinham muitas horas de paixão, digo de sexo mesmo, mas se conheciam pouco, estavam juntos apenas há algumas semanas e como transaram desde a primeira mordida que foi onze minutos depois da primeira vista, ambos se assustaram quando o telefone tocou. Era da recepção e foi Giovanni quem atendeu.
— Diz que é um rapaz querendo falar com você.
— Mas ninguém sabe onde eu estou!
A princípio Gui teve medo e o mesmo se deu com Giovanni como já disse, mas como estavam em um hotel relativamente grande e cheio, portanto quem quer que fosse não os tornaria vítimas sem alternativas; logo o medo se tornou cautela que se transformou em desconfiança e essa última foi mútua, e como um acusava o outro de estar tramando algo, o que lhes deu além da desconfiança o sentimento que sempre segue e se adiciona à confiança: a curiosidade. Portanto, ambos resolveram deixar o rapaz subir até o quarto. O que levou certo tempo, e enquanto esperavam iam se encarando e calados o que provocava ainda mais tesão em ambos.
Ouviram o barulho de água, muita água caindo. Uma tempestade que começou no mesmo instante em que bateram na porta. Giovanni acendeu as luzes. Gui ficou esperando seu garotinho abrir a porta, mas Giovanni não se mexia. Ele então, irritado, abriu-a com força e depois veio para a cama e se sentou. Giovanni cruzou os braços e ficou perto da janela. Não se via direito o rosto do rapaz que permanecia ainda no corredor escuro. Como o barulho da chuva era intenso não se tinha a sensação de silêncio e o rapaz entrou dizendo “Oi” ou “com licença”, alguma palavra para dentro e depois fechou a porta.
O estranho tinha os olhos vermelhos e marejados de água; sentou-se em uma poltrona e abaixou o olhar para o chão. Não se mexia. Os outros dois trocavam olhares do tipo “Quem é esse?”.
Uma camiseta que estava no braço da poltrona caiu. Giovanni abaixou-se para pegá-la, mas o intruso foi mais veloz, levantou o rosto e deu a camiseta para Giovanni que estendera a mão e depois começou a andar pelo quarto. Gui já ia interrompê-lo e pedir-lhe para ir embora pois era óbvio que Giovanni não o conhecia e também estava claro que o rapaz estava com problemas graves e parecia poder ficar violento. Mas antes que conseguisse abordá-lo, ouviu:
— Guilherme Chavez, eu não sei mais o que fazer e preciso da sua ajuda.
Guilherme é homossexual. Eu ia iniciar falando de infância, vestiário masculino, rumos marginais, masturbações. Para quê? Ele é e pronto. E depois Gui é um Chavez, logo desde cedo pôs sua libido em prática ao invés de se questionar, e por ser bonito não teve maiores dificuldades.
Agora se segure leitora. Abriu a porta do quarto 14 da Pousada Constantinopla, e deu de cara com um gatinho de boné preto virado para trás e sem camisa, de nome Giovanni.
— Oi, Gui! Entra aí.
Giovanni, que estava deitado na cama de lado com a mão direita segurando a cabeça e o joelho esquerdo levantado, não parecia furioso pela demora de Gui. Em verdade fumara um baseado e acordara a pouco, sem ao menos saber que horas eram. Assistia TV, mas com certeza a leitora acharia a barriga de Giovanni que lembrava um tanque de lavar roupa com as entradinhas na altura da cintura que folgava espaço entre a pele e a bermuda, muito superior à programação televisiva de sempre.
Com os peitos durinhos e um braço perfeito com tatuagens tribais, ele se arrepiou todo quando Gui começou a lambê-lo.
— Desculpe, aquela nojentinha ficou me segurando!
— Eu só aceito você falar assim de sua irmã porque eu estava com saudades. Mas eu não gosto que você a chame assim. E para falar sério eu quero conhecê-la para ver se ela é gostosa igual ao irmão. Será que ela transa igual ao irmão?
E como Giovanni que começou, Gui emendou:
— Ela me apresentou um amigo, que, aliás, está dormindo em casa e nós fomos jantar todos juntos. Vê? Ficou putinho? Não é você que gosta de bacanal?
— Da boca para fora, que eu não gosto de dividir o que é meu.
— Seu trouxa! É um caretão gordinho!
— E vocês ficaram por aí de mãos dadas procurando peças pro seu antiquário, não é?
Enquanto os dois rolavam na cama Giovanni ficou por cima e emendou um beijo em Gui e esse quando percebeu que o amante já tinha relaxado concluiu com gestos pornográficos.
— Não, eu e Pedro Paulo não fomos atrás de peças, só fomos tomar sorvete juntos, assim ó!
Os dois amantes tinham muitas horas de paixão, digo de sexo mesmo, mas se conheciam pouco, estavam juntos apenas há algumas semanas e como transaram desde a primeira mordida que foi onze minutos depois da primeira vista, ambos se assustaram quando o telefone tocou. Era da recepção e foi Giovanni quem atendeu.
— Diz que é um rapaz querendo falar com você.
— Mas ninguém sabe onde eu estou!
A princípio Gui teve medo e o mesmo se deu com Giovanni como já disse, mas como estavam em um hotel relativamente grande e cheio, portanto quem quer que fosse não os tornaria vítimas sem alternativas; logo o medo se tornou cautela que se transformou em desconfiança e essa última foi mútua, e como um acusava o outro de estar tramando algo, o que lhes deu além da desconfiança o sentimento que sempre segue e se adiciona à confiança: a curiosidade. Portanto, ambos resolveram deixar o rapaz subir até o quarto. O que levou certo tempo, e enquanto esperavam iam se encarando e calados o que provocava ainda mais tesão em ambos.
Ouviram o barulho de água, muita água caindo. Uma tempestade que começou no mesmo instante em que bateram na porta. Giovanni acendeu as luzes. Gui ficou esperando seu garotinho abrir a porta, mas Giovanni não se mexia. Ele então, irritado, abriu-a com força e depois veio para a cama e se sentou. Giovanni cruzou os braços e ficou perto da janela. Não se via direito o rosto do rapaz que permanecia ainda no corredor escuro. Como o barulho da chuva era intenso não se tinha a sensação de silêncio e o rapaz entrou dizendo “Oi” ou “com licença”, alguma palavra para dentro e depois fechou a porta.
O estranho tinha os olhos vermelhos e marejados de água; sentou-se em uma poltrona e abaixou o olhar para o chão. Não se mexia. Os outros dois trocavam olhares do tipo “Quem é esse?”.
Uma camiseta que estava no braço da poltrona caiu. Giovanni abaixou-se para pegá-la, mas o intruso foi mais veloz, levantou o rosto e deu a camiseta para Giovanni que estendera a mão e depois começou a andar pelo quarto. Gui já ia interrompê-lo e pedir-lhe para ir embora pois era óbvio que Giovanni não o conhecia e também estava claro que o rapaz estava com problemas graves e parecia poder ficar violento. Mas antes que conseguisse abordá-lo, ouviu:
— Guilherme Chavez, eu não sei mais o que fazer e preciso da sua ajuda.
Capítulo 7- Os irmãos Chavez
Jéssica
À noite estavam todos os irmãos Chavez e outros jovens da casa arrumados para irem ao continente jantar. Iriam a um lugar sugerido por Gui e Pedro Paulo. Dona Mercedes em vão tentou persuadi-los a ficarem; ela temia que eles pudessem beber ou que o mar virasse ou ainda qualquer outro imprevisto que prejudicasse o almoço do dia seguinte. E para se mostrar para alguns hóspedes que já haviam chegado juntamente com o Dr. Américo, ela mandou que os filhos fizessem uma coluna, onde ela, na frente de todos os fez prometerem que retornariam cedo e sóbrios depois do jantar. Depois ela suspirou, deu com os ombros e foi acabar os telefonemas e arranjos finais da véspera.
Puritana era a mais arrumada e estava com uma luz diferente da de ontem. Também estava revigorada. Ao chegarem ao píer da vila Duda comunicou que não iria acompanhar o resto do grupo ao restaurante, e antes que alguém pudesse questionar tal precipitada ação tão inesperada ele já havia sumido.
Nessa noite Duda estava atrás de liberdade, de poder ir aonde quisesse sem estar constrangido dos seus movimentos, sem ninguém que o irritasse ou soubesse quem ele era. Decidiu então ir a uma boate de Paraty, freqüentada pelos locais, lugar que raramente um turista se arriscava a entrar.
Muitas garotas bonitas passaram por Duda antes que Jéssica cruzasse seu caminho.
Ela usava uma saia branca e passou com uma postura muito recatada apesar de aparentar muita simpatia. Nada em Jéssica lembrava vulgaridade. Sua pele era negra, seus cabelos longos, sua boca sensual remetia a um frescor de frutas, seus dentes perfeitos e branquíssimos e um corpo esbelto redondíssimo na bunda e nos seios.
Ele foi babando em cima dela e ela, apesar de ter dado um sorriso, se esquivou. Duda não desistiu e a abordou. Ele perguntou seu nome e onde ela morava, mas tudo ia em um tom não natural até então desconhecido de Duda. A intenção dela era parecer normal e no momento que achou o registro certo:
— Eu vou para lá, tá? Tchau!
Ele ainda teve tempo de se virar e ver a ninfa passar com sua saia e brincos compridos e um perfume bom, igual a nenhum outro. Decididamente Duda não abordaria nenhuma outra naquela noite; a decisão então foi beber. Pegou uma cerveja e sentou-se em uma das mesas. Passaram-se dez minutos e Jéssica reapareceu. Ela o puxou para um canto mais deserto e beijaram-se.
As mãos de Duda acariciavam os ombros da bela Jéssica, que pele macia e dura, que boca, apesar de feminina, musculosa. Virou então o corpo de Jéssica e a abraçou por trás, pegando em seus cabelos, e foi o cabelo dela que o fez se apaixonar. Mais tarde ele confessou que nunca vira nem sentira cabelos mais macios e cheirosos que os da menina. A barriga dela era negra e isso o deixou mais excitado, e a menina, percebendo as intenções de Duda em querer carregá-la para outro lugar, se soltou e deixou claro que iria embora. E que se ele ficasse menos atrevido que ligasse para o número do telefone, e assim que o anotou, ouviu:
— Duda, saía daqui! Por favor, senão ele te mata!
Mas Duda riu ao ver que se tratava de um menininho duas vezes menor que ele, e como o local veio para cima dele gritando, com uma ginga de malandro, não se conteve após o pivete apontar o dedo para Jéssica e chamá-la de vagabunda, deu um só soco no queixo do pivete, que ele desmaiou. Tudo foi tão rápido que o resto da boate nem percebeu a agilidade do movimento de Duda e deram o pivete como bêbado desmaiado ou coisa que o valha.
— Vamos embora que eu te levo para casa!
Pegou a menina pelo braço e deixaram o local, que ficava em uma zona neutra entre o centro histórico onde ficam os turistas e a periferia de Paraty. A menina, ao ser interrogada por Duda, sobre quem era aquele tratante vilão? Só disse que sua casa era seguindo em frente à rua de pedra, que tinha um muro antigo de um lado e casas abandonadas e comércio fechado. A vegetação era grande, havia trepadeiras no muro e árvores antigas em ambos os lados da rua que nesse horário encontrava-se deserta. O casal que ia de mãos dadas percebeu que três homens os seguiam e quanto mais eles apertavam o passo mais também os três se apressavam para alcançá-los. Jéssica sugeriu então que virassem à esquerda e saíssem correndo em busca de socorro, o que não foi possível, pois duzentos metros depois foram encurralados em beco pelos sujeitos.
Se o leitor imagina que o pobre fidalgo tremia as pernas ao ponto de desmaiar, vou desapontá-lo. Duda, além de não ter medo algum, sentia-se feliz.
— Oh, playboy! Tá com pressa? Apronta pros neguinhos e foge assim? Comer meu cu você quer, né? Chupar meu pinto você não quer!?
O sujeito que vinha gritando agora andava com um amigo de cada lado e os três eram amigos do outro que Duda derrubara.
— Ele só me defendeu, falou?! Ele agora é meu namorado e ele não quer mais encrenca. Vocês estão em três e eu sei que te conheço, que tu não és covarde e nós estamos indo nessa.
Duda nem ouvia o que Jéssica dizia. Partiu para cima dos três e quando o chefe se deu conta do tamanho do Chavez e da total falta de cautela, não teve outra opção após um soco na orelha e um pisão no peito que o fez voar do que levantar-se e correr.
No que os outros dois seguiram o exemplo do líder. Mas Duda era bom corredor e ainda o alcançou, e dando-lhe uma série de bordoadas só cessou quando teve o desconfiômetro de que poderia pegar mal e a garota considerá-lo perigoso.
A agressividade de Duda não era a de um herói romântico pressionado por algum tipo de injustiça e que favorece fracos e oprimidos; era o que se chama nesses tempos de gratuita, afinal ele não é mercenário.
— Saiba que agora você me causou sérios problemas!
— Mas eu só te defendi
— É, mas você não estará comigo para me defender novamente.
— Quem falou que não?
----E aquele carinha que você derrubou na discoteca me persegue e me amedronta há um ano. Por que você não apareceu antes, hein?
Deixemos de lado por um momento a bela Jéssica e o agora esforçado Duda, que juntos caminham pela rua na noite quieta.
Antes de irmos para a cama ou a lugar que o valha com os dois, voltemos à boate onde eles se conheceram. Se Duda não encontrou nenhum conhecido naquele lugar e se depois de se despedir e sumir de Jéssica sem deixar telefone, seria como se nunca tivesse ido ao lugar. Acontece que às vezes mesmo quando não conhecemos ninguém ao redor, não se pode afirmar que ninguém ao redor nos conhece tão pouco. E Rubens conhecia Duda muito bem, apesar de se cruzarem na multidão e Rubens ao dar um “oi!” nem fora notado pelo bárbaro.
Mas quem diabos é Rubens?— quer saber o leitor.
Ora, pois lhes respondo: Rubens é o detetive desta história. Ou não é isso um romance policial? E já estava mais do que na hora dele surgir. Embora Gabriela nem tenha morrido ainda nesse ponto da história, impossibilitando qualquer início de investigação e tão pouco Rubens deixe de ser um leigo no assunto de criminologia, o que ele é, porém é bom saber que são dessas e outras recordações que Rubens e nós usaremos para caçar o assassino de Gabriela Chavez.
Rubens é amigo de Carla que é amiga de Gabriela. Ele é um tipo magrinho, feinho, de barba mal feita, metade hippie e metade aristocrata. Vagabundo, desses que se vê aos montes em cursos de sociologia pelo país afora. Carreira, aliás, que ele estuda. Porém não pensem que Rubens não tinha também boas qualidades, além do engajamento em ONGs e viagens ao Fórum Social, quer dizer, as boas realmente só sobra duas: uma é a curiosidade e a outra é... Sinto muito, mas este neo-comunista nos será o guia, mais por coincidência de estar nos lugares certos do que por deduções geniais.
Tentou ainda ver Duda já do lado fora, para conseguir cumprimentá-lo direito e perguntar sobre o almoço na ilha dos Chavez no dia seguinte, para o qual dona Anita encontrava-se apreensiva como já dissemos anteriormente. Não vendo ninguém seguiu para o centro histórico no largo do Rosário, onde ficavam os vendedores ambulantes de pulseirinhas. A demora foi de cinco minutos para que Carla que combinara encontrá-lo nessa noite viesse correndo abraçá-lo. Rubens demorou mais tempo que o normal segurando-a entre os braços; era evidente que o futuro sociólogo era apaixonado por sua amiga e confidente. Depois Pedro Paulo, seguido dos irmãos Chavez saudaram Rubens e apresentaram-no ao casal puritano.
— Comemos em um restaurante persa, você deveria ter nos acompanhado.
Mal Carla dizia isso e Gui se apressava a dizer um cuide-se para Gabi, o que após Pedro Paulo perceber que o primogênito dos Chavez partia para uma empreitada solitária, o que o deixou além de constrangido perante os amigos por não ter dado certo, também um pouco magoado, pois havia se iludido na sedução inconsciente de Gui.
— Não fujas meu doce irmão e lembre-te que a minha custódia e segurança foi posta em tuas mãos por nossa responsável mãe.
— Gabriela, minha linda irmã! Deixo-te não sozinha e perdidamente abandonada, mas em melhores mãos e mais cuidadosos olhos do jovem Cris, que escolhe o teu bem estar em prioridade ao próprio. O que eu confesso e tu bem o sabeis, sou um egoísta e sendo mais franco, invejo a tua beleza que de tanta claridade rouba o pouco de colorido que tenho. E se não te convenci, o que noto por essa carinha meiga de cinismo, pois te vi nascer, contente-se em ter o nosso irmão que a bem da verdade em beleza não é menos profundo que vós, ao teu lado. Porque se Cris me desse um terço dos olhares que a ti presenteia, eu por mim seria o mais feliz antiquário da terra!
E fingindo rodar uma capa imaginária sumiu rua adentro, misturando-se à multidão.
— Não vá ainda, Gui. Só mais um minuto, eu ia te dizer...
Essa frase de Gabriela não foi ouvida por Gui, ele estava realmente atrasado. Aliás, como todos nós que estamos sempre por almoçar o que já devíamos ter feito. Mesmo quando em uma atividade o leitor se julga adiantado em outras áreas, há de concordar que muito ainda temos de passar a limpo. Digo isso para iniciarmos o próximo capítulo, mas não pense que Jéssica desaparecerá do mesmo modo quer surgiu.
À noite estavam todos os irmãos Chavez e outros jovens da casa arrumados para irem ao continente jantar. Iriam a um lugar sugerido por Gui e Pedro Paulo. Dona Mercedes em vão tentou persuadi-los a ficarem; ela temia que eles pudessem beber ou que o mar virasse ou ainda qualquer outro imprevisto que prejudicasse o almoço do dia seguinte. E para se mostrar para alguns hóspedes que já haviam chegado juntamente com o Dr. Américo, ela mandou que os filhos fizessem uma coluna, onde ela, na frente de todos os fez prometerem que retornariam cedo e sóbrios depois do jantar. Depois ela suspirou, deu com os ombros e foi acabar os telefonemas e arranjos finais da véspera.
Puritana era a mais arrumada e estava com uma luz diferente da de ontem. Também estava revigorada. Ao chegarem ao píer da vila Duda comunicou que não iria acompanhar o resto do grupo ao restaurante, e antes que alguém pudesse questionar tal precipitada ação tão inesperada ele já havia sumido.
Nessa noite Duda estava atrás de liberdade, de poder ir aonde quisesse sem estar constrangido dos seus movimentos, sem ninguém que o irritasse ou soubesse quem ele era. Decidiu então ir a uma boate de Paraty, freqüentada pelos locais, lugar que raramente um turista se arriscava a entrar.
Muitas garotas bonitas passaram por Duda antes que Jéssica cruzasse seu caminho.
Ela usava uma saia branca e passou com uma postura muito recatada apesar de aparentar muita simpatia. Nada em Jéssica lembrava vulgaridade. Sua pele era negra, seus cabelos longos, sua boca sensual remetia a um frescor de frutas, seus dentes perfeitos e branquíssimos e um corpo esbelto redondíssimo na bunda e nos seios.
Ele foi babando em cima dela e ela, apesar de ter dado um sorriso, se esquivou. Duda não desistiu e a abordou. Ele perguntou seu nome e onde ela morava, mas tudo ia em um tom não natural até então desconhecido de Duda. A intenção dela era parecer normal e no momento que achou o registro certo:
— Eu vou para lá, tá? Tchau!
Ele ainda teve tempo de se virar e ver a ninfa passar com sua saia e brincos compridos e um perfume bom, igual a nenhum outro. Decididamente Duda não abordaria nenhuma outra naquela noite; a decisão então foi beber. Pegou uma cerveja e sentou-se em uma das mesas. Passaram-se dez minutos e Jéssica reapareceu. Ela o puxou para um canto mais deserto e beijaram-se.
As mãos de Duda acariciavam os ombros da bela Jéssica, que pele macia e dura, que boca, apesar de feminina, musculosa. Virou então o corpo de Jéssica e a abraçou por trás, pegando em seus cabelos, e foi o cabelo dela que o fez se apaixonar. Mais tarde ele confessou que nunca vira nem sentira cabelos mais macios e cheirosos que os da menina. A barriga dela era negra e isso o deixou mais excitado, e a menina, percebendo as intenções de Duda em querer carregá-la para outro lugar, se soltou e deixou claro que iria embora. E que se ele ficasse menos atrevido que ligasse para o número do telefone, e assim que o anotou, ouviu:
— Duda, saía daqui! Por favor, senão ele te mata!
Mas Duda riu ao ver que se tratava de um menininho duas vezes menor que ele, e como o local veio para cima dele gritando, com uma ginga de malandro, não se conteve após o pivete apontar o dedo para Jéssica e chamá-la de vagabunda, deu um só soco no queixo do pivete, que ele desmaiou. Tudo foi tão rápido que o resto da boate nem percebeu a agilidade do movimento de Duda e deram o pivete como bêbado desmaiado ou coisa que o valha.
— Vamos embora que eu te levo para casa!
Pegou a menina pelo braço e deixaram o local, que ficava em uma zona neutra entre o centro histórico onde ficam os turistas e a periferia de Paraty. A menina, ao ser interrogada por Duda, sobre quem era aquele tratante vilão? Só disse que sua casa era seguindo em frente à rua de pedra, que tinha um muro antigo de um lado e casas abandonadas e comércio fechado. A vegetação era grande, havia trepadeiras no muro e árvores antigas em ambos os lados da rua que nesse horário encontrava-se deserta. O casal que ia de mãos dadas percebeu que três homens os seguiam e quanto mais eles apertavam o passo mais também os três se apressavam para alcançá-los. Jéssica sugeriu então que virassem à esquerda e saíssem correndo em busca de socorro, o que não foi possível, pois duzentos metros depois foram encurralados em beco pelos sujeitos.
Se o leitor imagina que o pobre fidalgo tremia as pernas ao ponto de desmaiar, vou desapontá-lo. Duda, além de não ter medo algum, sentia-se feliz.
— Oh, playboy! Tá com pressa? Apronta pros neguinhos e foge assim? Comer meu cu você quer, né? Chupar meu pinto você não quer!?
O sujeito que vinha gritando agora andava com um amigo de cada lado e os três eram amigos do outro que Duda derrubara.
— Ele só me defendeu, falou?! Ele agora é meu namorado e ele não quer mais encrenca. Vocês estão em três e eu sei que te conheço, que tu não és covarde e nós estamos indo nessa.
Duda nem ouvia o que Jéssica dizia. Partiu para cima dos três e quando o chefe se deu conta do tamanho do Chavez e da total falta de cautela, não teve outra opção após um soco na orelha e um pisão no peito que o fez voar do que levantar-se e correr.
No que os outros dois seguiram o exemplo do líder. Mas Duda era bom corredor e ainda o alcançou, e dando-lhe uma série de bordoadas só cessou quando teve o desconfiômetro de que poderia pegar mal e a garota considerá-lo perigoso.
A agressividade de Duda não era a de um herói romântico pressionado por algum tipo de injustiça e que favorece fracos e oprimidos; era o que se chama nesses tempos de gratuita, afinal ele não é mercenário.
— Saiba que agora você me causou sérios problemas!
— Mas eu só te defendi
— É, mas você não estará comigo para me defender novamente.
— Quem falou que não?
----E aquele carinha que você derrubou na discoteca me persegue e me amedronta há um ano. Por que você não apareceu antes, hein?
Deixemos de lado por um momento a bela Jéssica e o agora esforçado Duda, que juntos caminham pela rua na noite quieta.
Antes de irmos para a cama ou a lugar que o valha com os dois, voltemos à boate onde eles se conheceram. Se Duda não encontrou nenhum conhecido naquele lugar e se depois de se despedir e sumir de Jéssica sem deixar telefone, seria como se nunca tivesse ido ao lugar. Acontece que às vezes mesmo quando não conhecemos ninguém ao redor, não se pode afirmar que ninguém ao redor nos conhece tão pouco. E Rubens conhecia Duda muito bem, apesar de se cruzarem na multidão e Rubens ao dar um “oi!” nem fora notado pelo bárbaro.
Mas quem diabos é Rubens?— quer saber o leitor.
Ora, pois lhes respondo: Rubens é o detetive desta história. Ou não é isso um romance policial? E já estava mais do que na hora dele surgir. Embora Gabriela nem tenha morrido ainda nesse ponto da história, impossibilitando qualquer início de investigação e tão pouco Rubens deixe de ser um leigo no assunto de criminologia, o que ele é, porém é bom saber que são dessas e outras recordações que Rubens e nós usaremos para caçar o assassino de Gabriela Chavez.
Rubens é amigo de Carla que é amiga de Gabriela. Ele é um tipo magrinho, feinho, de barba mal feita, metade hippie e metade aristocrata. Vagabundo, desses que se vê aos montes em cursos de sociologia pelo país afora. Carreira, aliás, que ele estuda. Porém não pensem que Rubens não tinha também boas qualidades, além do engajamento em ONGs e viagens ao Fórum Social, quer dizer, as boas realmente só sobra duas: uma é a curiosidade e a outra é... Sinto muito, mas este neo-comunista nos será o guia, mais por coincidência de estar nos lugares certos do que por deduções geniais.
Tentou ainda ver Duda já do lado fora, para conseguir cumprimentá-lo direito e perguntar sobre o almoço na ilha dos Chavez no dia seguinte, para o qual dona Anita encontrava-se apreensiva como já dissemos anteriormente. Não vendo ninguém seguiu para o centro histórico no largo do Rosário, onde ficavam os vendedores ambulantes de pulseirinhas. A demora foi de cinco minutos para que Carla que combinara encontrá-lo nessa noite viesse correndo abraçá-lo. Rubens demorou mais tempo que o normal segurando-a entre os braços; era evidente que o futuro sociólogo era apaixonado por sua amiga e confidente. Depois Pedro Paulo, seguido dos irmãos Chavez saudaram Rubens e apresentaram-no ao casal puritano.
— Comemos em um restaurante persa, você deveria ter nos acompanhado.
Mal Carla dizia isso e Gui se apressava a dizer um cuide-se para Gabi, o que após Pedro Paulo perceber que o primogênito dos Chavez partia para uma empreitada solitária, o que o deixou além de constrangido perante os amigos por não ter dado certo, também um pouco magoado, pois havia se iludido na sedução inconsciente de Gui.
— Não fujas meu doce irmão e lembre-te que a minha custódia e segurança foi posta em tuas mãos por nossa responsável mãe.
— Gabriela, minha linda irmã! Deixo-te não sozinha e perdidamente abandonada, mas em melhores mãos e mais cuidadosos olhos do jovem Cris, que escolhe o teu bem estar em prioridade ao próprio. O que eu confesso e tu bem o sabeis, sou um egoísta e sendo mais franco, invejo a tua beleza que de tanta claridade rouba o pouco de colorido que tenho. E se não te convenci, o que noto por essa carinha meiga de cinismo, pois te vi nascer, contente-se em ter o nosso irmão que a bem da verdade em beleza não é menos profundo que vós, ao teu lado. Porque se Cris me desse um terço dos olhares que a ti presenteia, eu por mim seria o mais feliz antiquário da terra!
E fingindo rodar uma capa imaginária sumiu rua adentro, misturando-se à multidão.
— Não vá ainda, Gui. Só mais um minuto, eu ia te dizer...
Essa frase de Gabriela não foi ouvida por Gui, ele estava realmente atrasado. Aliás, como todos nós que estamos sempre por almoçar o que já devíamos ter feito. Mesmo quando em uma atividade o leitor se julga adiantado em outras áreas, há de concordar que muito ainda temos de passar a limpo. Digo isso para iniciarmos o próximo capítulo, mas não pense que Jéssica desaparecerá do mesmo modo quer surgiu.
Assinar:
Postagens (Atom)