Certa vez numa palestra da escritora Tatiana Belinky, a primeira autora e adaptadora da obra de Monteiro Lobato para a televisão, ela perguntou para a platéia:
“Vocês sabem quem era o Monteiro Lobato?”
E logo em seguida ela mesma respondeu.
“Monteiro Lobato é a Emília”.
Ontem li para a minha sobrinha a história de Ariel, uma princesa sereia que se apaixona por Eric, um príncipe. Venho aprendendo muito com minha sobrinha sobre o universo feminino. Eu não tive irmã. Sobre Branca de Neve e outras ditas princesas meninas. Aprendi que essas princesas vão à luta. No caso de Ariel, ela é quem vê e vai atrás do tal príncipe, esse que não diz ao que veio. A única qualidade dele é a beleza. Mas ela a sereiazinha fica obcecada por ele e se dispõe a qualquer prova para telo.
Eu assim como minha sobrinha me identifico muito mais com Ariel do que com o príncipe.
Certa vez no colegial eu contava as minhas inúmeras piadas para as pessoas numa roda, quando se aproximou “Boquinha”, que era um outro estudante e me deu uma cabeçada. Ele tinha o meu peso e o meu tamanho. Foi um golpe totalmente gratuito e que me pegou de surpresa, porem o coloquei no chão e quando ia dar um chute na cabeça dele, fiz tanta força que me desequilibrei e cai. A briga foi parar na diretoria.
Meu nariz, eu tenho quase certeza ficou torto desde então. Para a diretora, “Boquinha” alegou que havia me batido, pois eu era bonito, segundo ele. E ele feio, segundo também ele. A diretora se sensibilizou com o desgraçado.
Logo eu que pra falar a verdade ultimamente notei que tenho sim uma cabeça de Cearense Também minha mãe deu pra repetir isso...
“Você fala sempre do lado libanês, italiano e o cearense? Você tem vergonha?”
“Não mãe, eu não tenho”.
Ando notando também que uma das faces do meu rosto é maior que a outra. Mas sempre esqueço se é à direita ou à esquerda.
Voltando, talvez a mulher que eu mais gostei na vida, é muito mais parecida com uma Emília do que com uma princesa. Alias, eu me apaixono por meninas Emílias, por clowns e não por princesas. Defeitos, excentricidades, humor, loucura e talento me atraem.
E princesas nunca são cantoras, nem atrizes, nem bailarinas e escritoras. Não digo isso por dizer não. Penso e sinto assim.
Claro que se eu pegar uma princesa será um triunfo e quando algumas falam comigo eu travo.
Mas as Emílias... Ah! As Emílias são e sempre serão as verdadeiras protagonistas. Pouco ou nada sei sobre a Narizinho. O Pedrinho eu conheço bem até demais.
Aquele dia o “Boquinha” mentiu. Ele não me agrediu porque eu era um príncipe e sim porque eu era uma Emília. As pessoas aturam e gostam de príncipes, mas Emílias incomodam.
Aquele chute? Um príncipe não teria dado um chute no Boquinha. Mas eu não sou príncipe. Por outro lado eu sou super coordenado. Como eu fui cair? Por que eu errei aquele chute?
Bem Seu Boquinha imbecil, se você ainda estiver vivo, espero que não esteja, saiba que eu tenho 36 anos e já apanhei muito na vida. De mulheres principalmente. Mas nunca agredi gratuitamente nenhum ser humano.
E sei que muitos príncipes e sapos assim como você o fazem todos os dias.
A verdade é que eu tenho uma total indiferença por príncipes, princesas, bruxas, sapos e boquinhas.
Já as Emílias são toda a fonte do meu sofrimento. E das alegrias também.
P s: Não conheço tão a fundo a obra de Monteiro Lobato. Falo de Emília por memória de infância.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Capítulo final- Os Irmãos Chavez
Love Story
Ela está na pista de dança da boate Love Story no centro de São Paulo. Agora é mais linda do que nunca. Não é mais aquela menina de periferia insegura e fujona. É uma mulher com estilo, com brilho, poderosa e muito, mas muito sensual.
Jair vem dançando pela frente e da um beijo em Jéssica. Entrega-lhe uma taça de champanhe e eles brindam e dançam e se beijam.
Há dez anos essa linda negra era uma menina frágil. Não fora difícil para ela enganar um delegado que por um lado era um esquerdista preocupado com a sociedade injusta brasileira, e por outro lado um bajulador de poderosos.
Mas um jovem esperto criado nos confins da ZL como Jair se refere à zona leste, ela não enganou e depois de alguns tapas abriu o jogo.
Jéssica esperava um filho de Ricardo Freitas. Gabriela soube pelo próprio Ricardo, da boca dele. Há tempos ela procurava um playboy pelas ruas de Paraty. Conheceu Ricardo antes de Duda. Mas Ricardo apesar de ser de uma família influente e prestigiosa, era um duro.
Quando ela e Duda transaram pela primeira vez, ela já estava grávida de Ricardo. Gabriela chamou a menina em casa para conversarem. Disse que ela Jéssica, deveria dizer imediatamente a Duda a verdade. Depois ainda deveria arrumar um emprego e trabalhar como ela mesma Gabriela vinha fazendo numa loja no Iguatemi. Trabalhar? Continuar pobre? E ainda ter um filho de um duro e playboy nojentinho que ela nem gostava de transar. Jéssica ainda não era uma assassina profissional por isso depois de dar as facadas Gabriela ainda agonizou horas.
Pegou o elevador de serviço. Uma outra empregada estava nele e as duas saíram juntas. Um porteiro preocupado só com a bonitinha da Gabriela e o “garoto” que entrara com ela. Nem percebeu aquelas duas empregadas negras indo embora. Jéssica com o boné na bolsa.
Jair desenvolveu uma teoria da conspiração tão realista em relação à Carla, que o delegado Fiúza foi entrando cada vez mais fundo. E sempre acreditando, mesmo sem evidencia nenhuma. Jair e Jéssica são amantes desde então.
E quando Rubens numa arrumação achou um diário antigo de Carla, onde leu confissões de ciúme em relação à amiga, caiu na mesma teoria. Acontece que Jair desconfiou o contrário. De que Rubens tivesse descoberto Jéssica. O casal teve de agir rápido. E agiram. Jéssica esperou dentro do mini cooper. Quando viu Fiúza atravessando a rua acelerou.
A música era alta e os dois amantes estavam animados na pista. Passara-se dois dias do ocorrido no Ibirapuera. Em uma mesa afastada um pouco da pista, na escuridão um homem via Jair passando a mão na bunda de Jéssica. Era Rubens. Ele pegou o telefone e ligou.
-Eles estão aqui.
Guilherme Chavez no outro lado da linha então deu a ordem ao secretário de segurança:
-Fecha o centro.
Viaturas da policia bloquearam todos os acessos à região do edifício Copan e da Love Story. Desta vez Gui não pensou duas vezes em ajudar Rubens, afinal à situação dizia tanto respeito a ele quanto a Rubens.
Na porta da boate Duda ia entrando. Mas um dos seguranças, um negro gigante o brecou.
-Você quem é?
-Átila, rei dos Hunos. –Ele sorriu.
Um outro segurança negro aproximou-se e disse:
-Algum problema?
-Desculpem, mas hoje eu não gosto de negros!
O delegado atrás de Duda mandou os seguranças recuarem e liberarem. Nisso Duda foi dar um empurrão neles. Os dois vieram bater em Duda. Porém se há dez anos Eduardo já provocava muito estrago agora então que ele estava com dez quilos mais e em forma somado com um ódio acumulado há anos, em minutos deitou os dois.
-A casa é de vocês deu o sinal o delegado que comandava dezenas de agentes a paisana.
Foi quando Cris saiu da escuridão entrou na pista, tirou um cordão de couro do bolso e passou em volta do pescoço de Jéssica apertando com toda força.
Ela era minha irmã. –Disse no ouvido de Jéssica que ia desmaiando.
Mal Jair teve tempo de reagir, Rubens levantou e deu dois tiros um em cada joelho. Cris chutou o corpo de Jéssica pra fora da pista e todos abriram espaço para Duda entrar e bater em Jair até a morte.
No enterro de Gabriela Chavez, seus irmãos choraram muito e juraram um para o outro que se vingariam do assassino da irmã, fosse quem fosse.
Ricardo Freitas, já quase careca e ainda mais duro. Abriu a porta de casa e viu um motorista dos Chavez. Ele o motorista trazia um garoto de dez anos, com duas malas.
-Seu Ricardo este é o Gabriel.
Finalmente pai e filho viveriam juntos.
Se o leitor chegou até aqui espero que tenha gostado da saga dos Chavez.
Cai o pano.
Ela está na pista de dança da boate Love Story no centro de São Paulo. Agora é mais linda do que nunca. Não é mais aquela menina de periferia insegura e fujona. É uma mulher com estilo, com brilho, poderosa e muito, mas muito sensual.
Jair vem dançando pela frente e da um beijo em Jéssica. Entrega-lhe uma taça de champanhe e eles brindam e dançam e se beijam.
Há dez anos essa linda negra era uma menina frágil. Não fora difícil para ela enganar um delegado que por um lado era um esquerdista preocupado com a sociedade injusta brasileira, e por outro lado um bajulador de poderosos.
Mas um jovem esperto criado nos confins da ZL como Jair se refere à zona leste, ela não enganou e depois de alguns tapas abriu o jogo.
Jéssica esperava um filho de Ricardo Freitas. Gabriela soube pelo próprio Ricardo, da boca dele. Há tempos ela procurava um playboy pelas ruas de Paraty. Conheceu Ricardo antes de Duda. Mas Ricardo apesar de ser de uma família influente e prestigiosa, era um duro.
Quando ela e Duda transaram pela primeira vez, ela já estava grávida de Ricardo. Gabriela chamou a menina em casa para conversarem. Disse que ela Jéssica, deveria dizer imediatamente a Duda a verdade. Depois ainda deveria arrumar um emprego e trabalhar como ela mesma Gabriela vinha fazendo numa loja no Iguatemi. Trabalhar? Continuar pobre? E ainda ter um filho de um duro e playboy nojentinho que ela nem gostava de transar. Jéssica ainda não era uma assassina profissional por isso depois de dar as facadas Gabriela ainda agonizou horas.
Pegou o elevador de serviço. Uma outra empregada estava nele e as duas saíram juntas. Um porteiro preocupado só com a bonitinha da Gabriela e o “garoto” que entrara com ela. Nem percebeu aquelas duas empregadas negras indo embora. Jéssica com o boné na bolsa.
Jair desenvolveu uma teoria da conspiração tão realista em relação à Carla, que o delegado Fiúza foi entrando cada vez mais fundo. E sempre acreditando, mesmo sem evidencia nenhuma. Jair e Jéssica são amantes desde então.
E quando Rubens numa arrumação achou um diário antigo de Carla, onde leu confissões de ciúme em relação à amiga, caiu na mesma teoria. Acontece que Jair desconfiou o contrário. De que Rubens tivesse descoberto Jéssica. O casal teve de agir rápido. E agiram. Jéssica esperou dentro do mini cooper. Quando viu Fiúza atravessando a rua acelerou.
A música era alta e os dois amantes estavam animados na pista. Passara-se dois dias do ocorrido no Ibirapuera. Em uma mesa afastada um pouco da pista, na escuridão um homem via Jair passando a mão na bunda de Jéssica. Era Rubens. Ele pegou o telefone e ligou.
-Eles estão aqui.
Guilherme Chavez no outro lado da linha então deu a ordem ao secretário de segurança:
-Fecha o centro.
Viaturas da policia bloquearam todos os acessos à região do edifício Copan e da Love Story. Desta vez Gui não pensou duas vezes em ajudar Rubens, afinal à situação dizia tanto respeito a ele quanto a Rubens.
Na porta da boate Duda ia entrando. Mas um dos seguranças, um negro gigante o brecou.
-Você quem é?
-Átila, rei dos Hunos. –Ele sorriu.
Um outro segurança negro aproximou-se e disse:
-Algum problema?
-Desculpem, mas hoje eu não gosto de negros!
O delegado atrás de Duda mandou os seguranças recuarem e liberarem. Nisso Duda foi dar um empurrão neles. Os dois vieram bater em Duda. Porém se há dez anos Eduardo já provocava muito estrago agora então que ele estava com dez quilos mais e em forma somado com um ódio acumulado há anos, em minutos deitou os dois.
-A casa é de vocês deu o sinal o delegado que comandava dezenas de agentes a paisana.
Foi quando Cris saiu da escuridão entrou na pista, tirou um cordão de couro do bolso e passou em volta do pescoço de Jéssica apertando com toda força.
Ela era minha irmã. –Disse no ouvido de Jéssica que ia desmaiando.
Mal Jair teve tempo de reagir, Rubens levantou e deu dois tiros um em cada joelho. Cris chutou o corpo de Jéssica pra fora da pista e todos abriram espaço para Duda entrar e bater em Jair até a morte.
No enterro de Gabriela Chavez, seus irmãos choraram muito e juraram um para o outro que se vingariam do assassino da irmã, fosse quem fosse.
Ricardo Freitas, já quase careca e ainda mais duro. Abriu a porta de casa e viu um motorista dos Chavez. Ele o motorista trazia um garoto de dez anos, com duas malas.
-Seu Ricardo este é o Gabriel.
Finalmente pai e filho viveriam juntos.
Se o leitor chegou até aqui espero que tenha gostado da saga dos Chavez.
Cai o pano.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Capítulo 16- Os irmãos Chavez
Olga Benário
É fim de tarde, a garoa parou e um lindo por do sol se abre no parque do Ibirapuera. Rubens aguarda Carla na porta do prédio da Bienal de artes de São Paulo. Eles tinham combinado de visitá-la juntos. Seu celular toca:
-Alo Rubens?!
-Sim quem é?
-Preste muita atenção. Aqui é o investigador Jair, foi muito difícil conseguir seu celular.
-Você parece ansioso.
-Caralho! Escute você não é suspeito de nada. Eu quero protegê-lo! Vá imediatamente a uma delegacia.
-O que está acontecendo?
-Eu sei que você ficou mais tempo no restaurante lá da Faria Lima, falamos com os funcionários, logo não se preocupe. Repito quero protegê-lo você não é suspeito. O delegado Fiúza foi atropelado hoje às duas e meia da tarde.
-Ele está bem?
-Não Rubens ele morreu. Vá imediatamente para uma delegacia.
-Ele me disse que ia para uma operação policial.
-Ele mentiu. Fui eu quem ligou quando vocês almoçavam...
-Desculpe, seja lá quem for você eu vou desligar.
-Rubens não tinha operação nenhuma, ele me disse que eu estava certo sobre o caso Gabriela Chavez.
-Certo em que?
-Sobre Caio Haddad.
-O que é que tem esse Caio Haddad?
-Ele foi encontrado morto meses antes de Gabriela Chavez. Ele era o vocalista da banda “Tapete voador”. A mesma banda em que Cris Chavez tocava. Na época foi dado como suicídio. Ele teria pulado do nono andar de sua casa.
-Desculpe Jair, mas eu vou desligar...
-Rubens, o delegado foi atropelado por um mini cooper grafite prata. Testemunhas afirmam terem visto uma mulher ao volante.
Aquilo foi demais para Rubens. Agora era certeza, Carla tinha um mini cooper grafite prata.
-Rubens não fale com ninguém. Não fale de jeito nenhum com sua esposa. Vá para uma delegacia.
Foi quando Rubens avistou Carla chegando e sorrindo.
-Inspetor preciso desligar...
-Onde você está? Onde você está?
-Bienal Ibirapuera.
Foi o tempo de Rubens desligar o celular e cumprimentar Carla com um beijo.
-O que foi? Você está estranho.
-Nada.
-Então vamos entrar que eu estou louca pra ver a bienal há semanas. Eu tenho uma novidade pra te contar. Aliás, como foi seu dia? Onde você almoçou?
O casal passou pelo detector de metais e entraram no prédio que estava lotado de visitantes. Turistas, escolas, jovens... Carla estava sorridente e deu a mão para Rubens.
Jair e mais dez policiais rumaram com as sirenes ligadas para o parque do Ibirapuera.
Carla e Rubens estavam no primeiro andar.
-Vamos tomar um café? –Disse Carla puxando Rubens.
-Carla quem é Caio Haddad mesmo?
Carla contou de quem se tratava rapidamente.
No caminho Jair que já havia sacado a arma se lembrava de dez anos atrás. De quanto ele e Fiúza seguiram Carla meses esperando qualquer desdize que nunca aconteceu. Mas agora ele poderia provar. O carro que matou Fiúza era o dela. O próprio marido já percebera que estava casado com uma homicida em série. Pegou o rádio e disse:
-Atenção todos: A suspeita é uma mulher de um metro e oitenta, perigosa. É treinada no exército israelense. O prédio está cheio. É para derrubá-la. Repito: É pra derrubá-la. Acertem na cabeça ou peito. Ela é canhota.
O casal tomou o café e seguiram. Carla disse que queria ver a obra do Nuno Ramos. Para Rubens tudo estava claro. Lembrou-se de Caio em Paraty. De quando viu Carla beijando ele num show do “Tapete voador”. Primeiro Gabi roubou Caio. Depois ficou com Ícaro e ainda tentava ficar com ele Rubens. Aquele era o motivo. Ela devia guardar um ódio de Gabi. Um ódio profundo e silencioso.
Domingo passado quando viu Ícaro no Genésio não o reconheceu. Achou que era uma menina por causa da tiara e os longos cabelos de Ícaro. Então também podia ser o contrário, uma mulher ser confundida com um homem. Meu Deus, seria ele realmente marido de uma serial killer?
-Rubenzinho você vai ser pai!
Carla disse isso e deu um beijo em Rubens.
-O que? Ele ainda estava avoado.
- Estou grávida.
Realmente Jair tinha razão Carla fora muito bem treinada. Ela percebeu olhando pelos lados quando quatro homens se aproximavam com pistolas na mão. Num movimento rápido ela puxou Rubens e o empurrou em direção ao chão.
Jair não pensou, nem ele nem um outro policial. Antes de gritarem “policia”, de se identificarem, dispararam contra Carla pra derrubá-la. E derrubaram. A multidão corria. Rubens abraçava a mulher que sangrava. Morreu na hora e o rádio de Jair tocou:
-Jair? Gusmão estou no estacionamento com o mini cooper.
-Prossiga Gusmão.
-Sinto muito inspetor. O carro está intacto.
-Como assim?
-A vítima é inocente. Abortar a operação.
Jair ficou tonto. Deixou a pistola cair no chão. Olhou para Rubens e disse sem som. Só movendo os lábios.
-Desculpe.
E o sol se pos.
É fim de tarde, a garoa parou e um lindo por do sol se abre no parque do Ibirapuera. Rubens aguarda Carla na porta do prédio da Bienal de artes de São Paulo. Eles tinham combinado de visitá-la juntos. Seu celular toca:
-Alo Rubens?!
-Sim quem é?
-Preste muita atenção. Aqui é o investigador Jair, foi muito difícil conseguir seu celular.
-Você parece ansioso.
-Caralho! Escute você não é suspeito de nada. Eu quero protegê-lo! Vá imediatamente a uma delegacia.
-O que está acontecendo?
-Eu sei que você ficou mais tempo no restaurante lá da Faria Lima, falamos com os funcionários, logo não se preocupe. Repito quero protegê-lo você não é suspeito. O delegado Fiúza foi atropelado hoje às duas e meia da tarde.
-Ele está bem?
-Não Rubens ele morreu. Vá imediatamente para uma delegacia.
-Ele me disse que ia para uma operação policial.
-Ele mentiu. Fui eu quem ligou quando vocês almoçavam...
-Desculpe, seja lá quem for você eu vou desligar.
-Rubens não tinha operação nenhuma, ele me disse que eu estava certo sobre o caso Gabriela Chavez.
-Certo em que?
-Sobre Caio Haddad.
-O que é que tem esse Caio Haddad?
-Ele foi encontrado morto meses antes de Gabriela Chavez. Ele era o vocalista da banda “Tapete voador”. A mesma banda em que Cris Chavez tocava. Na época foi dado como suicídio. Ele teria pulado do nono andar de sua casa.
-Desculpe Jair, mas eu vou desligar...
-Rubens, o delegado foi atropelado por um mini cooper grafite prata. Testemunhas afirmam terem visto uma mulher ao volante.
Aquilo foi demais para Rubens. Agora era certeza, Carla tinha um mini cooper grafite prata.
-Rubens não fale com ninguém. Não fale de jeito nenhum com sua esposa. Vá para uma delegacia.
Foi quando Rubens avistou Carla chegando e sorrindo.
-Inspetor preciso desligar...
-Onde você está? Onde você está?
-Bienal Ibirapuera.
Foi o tempo de Rubens desligar o celular e cumprimentar Carla com um beijo.
-O que foi? Você está estranho.
-Nada.
-Então vamos entrar que eu estou louca pra ver a bienal há semanas. Eu tenho uma novidade pra te contar. Aliás, como foi seu dia? Onde você almoçou?
O casal passou pelo detector de metais e entraram no prédio que estava lotado de visitantes. Turistas, escolas, jovens... Carla estava sorridente e deu a mão para Rubens.
Jair e mais dez policiais rumaram com as sirenes ligadas para o parque do Ibirapuera.
Carla e Rubens estavam no primeiro andar.
-Vamos tomar um café? –Disse Carla puxando Rubens.
-Carla quem é Caio Haddad mesmo?
Carla contou de quem se tratava rapidamente.
No caminho Jair que já havia sacado a arma se lembrava de dez anos atrás. De quanto ele e Fiúza seguiram Carla meses esperando qualquer desdize que nunca aconteceu. Mas agora ele poderia provar. O carro que matou Fiúza era o dela. O próprio marido já percebera que estava casado com uma homicida em série. Pegou o rádio e disse:
-Atenção todos: A suspeita é uma mulher de um metro e oitenta, perigosa. É treinada no exército israelense. O prédio está cheio. É para derrubá-la. Repito: É pra derrubá-la. Acertem na cabeça ou peito. Ela é canhota.
O casal tomou o café e seguiram. Carla disse que queria ver a obra do Nuno Ramos. Para Rubens tudo estava claro. Lembrou-se de Caio em Paraty. De quando viu Carla beijando ele num show do “Tapete voador”. Primeiro Gabi roubou Caio. Depois ficou com Ícaro e ainda tentava ficar com ele Rubens. Aquele era o motivo. Ela devia guardar um ódio de Gabi. Um ódio profundo e silencioso.
Domingo passado quando viu Ícaro no Genésio não o reconheceu. Achou que era uma menina por causa da tiara e os longos cabelos de Ícaro. Então também podia ser o contrário, uma mulher ser confundida com um homem. Meu Deus, seria ele realmente marido de uma serial killer?
-Rubenzinho você vai ser pai!
Carla disse isso e deu um beijo em Rubens.
-O que? Ele ainda estava avoado.
- Estou grávida.
Realmente Jair tinha razão Carla fora muito bem treinada. Ela percebeu olhando pelos lados quando quatro homens se aproximavam com pistolas na mão. Num movimento rápido ela puxou Rubens e o empurrou em direção ao chão.
Jair não pensou, nem ele nem um outro policial. Antes de gritarem “policia”, de se identificarem, dispararam contra Carla pra derrubá-la. E derrubaram. A multidão corria. Rubens abraçava a mulher que sangrava. Morreu na hora e o rádio de Jair tocou:
-Jair? Gusmão estou no estacionamento com o mini cooper.
-Prossiga Gusmão.
-Sinto muito inspetor. O carro está intacto.
-Como assim?
-A vítima é inocente. Abortar a operação.
Jair ficou tonto. Deixou a pistola cair no chão. Olhou para Rubens e disse sem som. Só movendo os lábios.
-Desculpe.
E o sol se pos.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Capítulo 15- Os irmãos Chavez
Fiúza fora quem marcara naquele restaurante. Ele almoçava umas duas, às vezes três vezes por semana lá. Estava em casa por assim dizer. Sabia os nomes dos garçons. Cumprimentava os clientes assíduos. Talvez por isso e também por ele, Fiúza ser um policial, percebeu que Rubens já tinha uma história. E que os fatos que ele ia contando não modificavam em nada a conclusão de Rubens. Só temperavam, como um molho. Por isso resolveu guardar munição e saber o que aquele sociólogo tinha para lhe falar.
-Escute Rubens antes de continuar eu quero lhe dizer que estudei muito esse caso. Por tratar de pessoas bem relacionadas e poderosas, pode parecer um clichê, mas foi por isso que me colocaram no caso. Desculpe-me a prepotência, mas eu sou um dos melhores. As coisas não podiam vazar.
-Mas você mesmo disse agora a pouco delegado, lá se vão dez anos.
-Rubens, na época eu calculei distancias. Fiz mapas, perfis psicológicos. Investiguei álibis. Procurei motivos... A verdade é que nunca desconfiei de nenhum irmão da vítima.
Fiúza disse ainda acreditar que o assassino fosse alguém de fino trato. Alguém, aliás, da convivência dos Chavez. Um tipo de assassino que poderia estar num período de silencio, mas poderia como um vulcão ser acionado rapidamente. É uma pessoa comum, finalizou.
-Esse assassino, poderia estar quieto por conta de um evento como um casamento? Ou nascimento de um filho?
-Ou um emprego novo. Sim exatamente. –Disse o delegado. Ele o assassino pode ser acordado em qualquer instante. Rubens o que eu vou lhe dizer pode ser estranho, mas lembre-se é o meu trabalho. O delegado esperou um momento, repirou e falou:
-Você foi um grande suspeito.
Rubens abriu os olhos. Não podia acreditar no que ouvira. Ele um suspeito?
-Sim. Num depoimento, Guilherme Chavez me contou que você certa vez o procurou em uma pousada em Paraty. E lhe disse estar loucamente apaixonado por Gabriela e que faria uma besteira do tipo se matar, se ela não correspondesse.
Aquilo era verdade. E Giovanni confirmou a história ao ver uma foto de Rubens.
-Eu sempre amei minha esposa. Mas qual mortal não se apaixonaria por Gabriela? Eu sei, ela não era para mim. Queria me usar e depois jogar fora.
-Ela te usou Rubens e te jogou fora, mas você não desistiu. O próprio Guilherme Chavez te viu certa vez num posto de gasolina seguindo Gabriela.
-Mas ele também a estava seguindo.
-Na verdade não.
Foi ai a revelação. Guilherme já não mais namorava Giovanni. Aquele era o posto em que a família Chavez tinha conta. Por isso tudo não passou de uma coincidência. Guilherme e Gabriela no mesmo lugar.
Giovanni já não mais entusiasmava Guilherme que na verdade havia começado um romance com a sua grande paixão, seu companheiro até hoje. Um ministro do Supremo, que na época já era um ministro do supremo. Para um rapaz clássico como Guilherme aquele homem representava poder, cultura e sei lá mais o que. O fato é que Giovannis se acham em qualquer balada, ministros não.
Rubens entendeu então o que o delegado queria dizer com cair a republica. Um ministro Gay? Há dez anos atrás? Seria um assunto maior do que o próprio crime. Foi quando o celular de Fiúza tocou e ele levantou-se e foi atender num lugar em pé em que Rubens não pode ouvi-lo. Ao retornar se desculpou, mas disse que era chamado com urgência em uma operação policial.
-Rubens eu ainda quero terminar nossa conversa. Falta esclarecer muita coisa a você. Adianto-te algo que lhe disse. Gabriela era adotada. Cris sabia. Não sei com certeza se Gabriela sabia. Mas devia imaginar três irmãos e pais altos e morenos e ela loira de olhos verde e era baixa...
-Delegado antes de você ir, me responda: Você nunca cogitou de o assassino ser ela e não ele?
-Ser uma mulher você diz?
-Sim o porteiro pode ter se enganado. Algumas mulheres são altas e tem cabelos curtos.
-Eu sei. Sua esposa, Carla Tornemberg tem a mesma altura que você, um metro e oitenta.
Rubens tomou um susto. Aquilo o atravessou. Era talvez uma confirmação?
-Sociólogo, não se esqueça, eu sou um dos melhores, talvez o melhor.
Despediram-se e prometeram continuar a conversa. Ainda naquela semana. Rubens permaneceu sentado no restaurante.
Fiúza se dirigiu a Rua Gabriel Monteiro da Silva, tinha estacionado dois quarteirões para baixo. Pegou o celular e discou para Jair seu investigador há doze anos.
-Jair sou eu escute. Acho que fizemos uma burrada há dez anos atrás. Gabriela Chavez. Você tinha razão. Espera aí to atravessando a rua.
O investigador Jair pode ainda ouvir o celular cair no chão.
-Fiúza! Fiúza!
Mas ninguém respondeu e o carro não parou seguiu em frente. A rua tranqüila a garoa caindo e molhando o corpo do delegado.
-Escute Rubens antes de continuar eu quero lhe dizer que estudei muito esse caso. Por tratar de pessoas bem relacionadas e poderosas, pode parecer um clichê, mas foi por isso que me colocaram no caso. Desculpe-me a prepotência, mas eu sou um dos melhores. As coisas não podiam vazar.
-Mas você mesmo disse agora a pouco delegado, lá se vão dez anos.
-Rubens, na época eu calculei distancias. Fiz mapas, perfis psicológicos. Investiguei álibis. Procurei motivos... A verdade é que nunca desconfiei de nenhum irmão da vítima.
Fiúza disse ainda acreditar que o assassino fosse alguém de fino trato. Alguém, aliás, da convivência dos Chavez. Um tipo de assassino que poderia estar num período de silencio, mas poderia como um vulcão ser acionado rapidamente. É uma pessoa comum, finalizou.
-Esse assassino, poderia estar quieto por conta de um evento como um casamento? Ou nascimento de um filho?
-Ou um emprego novo. Sim exatamente. –Disse o delegado. Ele o assassino pode ser acordado em qualquer instante. Rubens o que eu vou lhe dizer pode ser estranho, mas lembre-se é o meu trabalho. O delegado esperou um momento, repirou e falou:
-Você foi um grande suspeito.
Rubens abriu os olhos. Não podia acreditar no que ouvira. Ele um suspeito?
-Sim. Num depoimento, Guilherme Chavez me contou que você certa vez o procurou em uma pousada em Paraty. E lhe disse estar loucamente apaixonado por Gabriela e que faria uma besteira do tipo se matar, se ela não correspondesse.
Aquilo era verdade. E Giovanni confirmou a história ao ver uma foto de Rubens.
-Eu sempre amei minha esposa. Mas qual mortal não se apaixonaria por Gabriela? Eu sei, ela não era para mim. Queria me usar e depois jogar fora.
-Ela te usou Rubens e te jogou fora, mas você não desistiu. O próprio Guilherme Chavez te viu certa vez num posto de gasolina seguindo Gabriela.
-Mas ele também a estava seguindo.
-Na verdade não.
Foi ai a revelação. Guilherme já não mais namorava Giovanni. Aquele era o posto em que a família Chavez tinha conta. Por isso tudo não passou de uma coincidência. Guilherme e Gabriela no mesmo lugar.
Giovanni já não mais entusiasmava Guilherme que na verdade havia começado um romance com a sua grande paixão, seu companheiro até hoje. Um ministro do Supremo, que na época já era um ministro do supremo. Para um rapaz clássico como Guilherme aquele homem representava poder, cultura e sei lá mais o que. O fato é que Giovannis se acham em qualquer balada, ministros não.
Rubens entendeu então o que o delegado queria dizer com cair a republica. Um ministro Gay? Há dez anos atrás? Seria um assunto maior do que o próprio crime. Foi quando o celular de Fiúza tocou e ele levantou-se e foi atender num lugar em pé em que Rubens não pode ouvi-lo. Ao retornar se desculpou, mas disse que era chamado com urgência em uma operação policial.
-Rubens eu ainda quero terminar nossa conversa. Falta esclarecer muita coisa a você. Adianto-te algo que lhe disse. Gabriela era adotada. Cris sabia. Não sei com certeza se Gabriela sabia. Mas devia imaginar três irmãos e pais altos e morenos e ela loira de olhos verde e era baixa...
-Delegado antes de você ir, me responda: Você nunca cogitou de o assassino ser ela e não ele?
-Ser uma mulher você diz?
-Sim o porteiro pode ter se enganado. Algumas mulheres são altas e tem cabelos curtos.
-Eu sei. Sua esposa, Carla Tornemberg tem a mesma altura que você, um metro e oitenta.
Rubens tomou um susto. Aquilo o atravessou. Era talvez uma confirmação?
-Sociólogo, não se esqueça, eu sou um dos melhores, talvez o melhor.
Despediram-se e prometeram continuar a conversa. Ainda naquela semana. Rubens permaneceu sentado no restaurante.
Fiúza se dirigiu a Rua Gabriel Monteiro da Silva, tinha estacionado dois quarteirões para baixo. Pegou o celular e discou para Jair seu investigador há doze anos.
-Jair sou eu escute. Acho que fizemos uma burrada há dez anos atrás. Gabriela Chavez. Você tinha razão. Espera aí to atravessando a rua.
O investigador Jair pode ainda ouvir o celular cair no chão.
-Fiúza! Fiúza!
Mas ninguém respondeu e o carro não parou seguiu em frente. A rua tranqüila a garoa caindo e molhando o corpo do delegado.
Capítulo 14- Os irmãos Chavez
Fúria!
Fiúza quis organizar as coisas.
-Vamos falar de um irmão por vez.
Disse que Duda poderia ser sim um homicida em potencial. Foram necessários na época 5 policiais para imobilizá-lo. Mas seu álibi começou bem antes. Meses antes, em Paraty mesmo. Em um outro final de semana. Em que desta vez só Gabriela e os amigos encontravam-se na Ilha. Rubens mesmo estava lá.
A caseira abriu a porta do quarto aos berros. Eram sete da manhã e foi depois de muito custo que Gabriela, que ainda nem acordara direito, entendeu. Seu irmão recebera um telefonema que o deixara tão transtornado que o fez quebrar o aparelho, dizendo “Eu mato!” Com os olhos bem vermelhos correu até a lancha e seguiu para o continente.
Gabriela não acordou nenhum hóspede. Reuniu os empregados e perguntou se alguém sabia para onde poderia ter ido seu irmão. Nercito, o caseiro, respondeu-lhe que com certeza era coisa relacionada com a “neguinha”, que era como ele se referia a Jéssica, namorada de Duda.
Gabriela foi rápida, colocou um segurança e Nercito em outra lancha e partiu junto com eles para socorrer seu irmão, fosse qual fosse à encrenca na qual ele se metera.
Jéssica tinha uma amiga que a ajudava a enganar a mãe para que ela pudesse se encontrar com Eduardo. Ambas diziam a mãe de Jéssica que ela tomava conta de Laurinha, filha de Bianca, sua amiga, quando essa ia a um restaurante trabalhar como garçonete.
Quando a mãe descobriu a tramóia armada para que sua filha saísse por aí para “galinhar”, como ela se referia ao namoro com o jovem apaixonado Eduardo, jurou dar uma surra que deixaria a filha de cama.
Jéssica, ao saber através dos vizinhos da promessa da mãe, correu para a casa de Bianca e permaneceu lá por três dias na esperança da mãe se acalmar. Como Bianca morava embaixo do morro e a mãe de Jéssica não ir até lá há muito tempo, e também por não saber com exatidão o endereço de Bianca, foram três calmos dias, durante os quais a linda menina descobriu-se grávida.
Doce ilusão das amigas, pois a fuga, em vez de acalmar a mãe, só fez com que ela se tornasse ainda mais furiosa. Abandonou o tanque quando viu ao longe sua filha que chegava com cautela, mostrando os lindos dentes com um sorriso. Bianca, que também era mãe, entrou na frente e por não ser mais adolescente disse à outra que era crime bater em menor, o que daria cadeia, na certa.
Não foi a argumentação de Bianca que brecou a mãe de Jéssica, mas sim o tamanho e a confiança da amiga da filha. Só que por mais coragem que as amigas tivessem, ainda assim eram mulheres e quando o terrível padrasto de Jéssica, com seus noventa e cinco quilos, puxou-a pelos cabelos, a mãe não teve maiores dificuldades em espancá-la e humilhá-la na frente de toda a rua. Nem mesmo os histéricos avisos de Bianca de que a amiga estava grávida, detiveram o religioso casal. E uma não caridosa, porém bem paga vizinha, que ganhava muitos presentes de Duda, não vacilou e telefonou-lhe.
Já era tarde quando as buzinas da camionete que vinha subindo o morro como um trovão foram ouvidas. Jéssica, no colo de Bianca, já estava desmaiada na frente da humilde casa.
- Foi o padrasto e a mãe. Mas ela ficará boa, não foi à primeira vez. — disse Bianca para Duda.
- Mas foi à última vez. — ele emendou.
Chutou a porta e entrou. Duda vestia uma macia camiseta azul e calças bem leves, na cor cáqui ou creme. De resto, o que o casal de pedagogos viu foi Átila e eles nem conseguiam se mexer. Duda agarrou o pescoço do pai de Jéssica e levantou-o do chão, depois lhe deu um empurrão e mandou que ele fosse embora de Paraty e nunca mais voltasse, caso contrário o jovem Chavez prometeu matá-lo. O homem obedeceu e ao que consta nunca mais foi visto na cidade. Nunca mais foi visto em lugar nenhum.
Gabriela, avisada por Nercito de que a menina no chão com a amiga, que agora recobrava os sentidos e chorava, era sua cunhada, abaixou-se para ajudá-la e disse à Jéssica:
- Eu sou Gabi, sua cunhada.
Bianca disse à Gabriela que a menina delirava e estava grávida. Gabriela colocou-as no jipe em que viera e junto com o segurança seguiu para o pronto socorro. Deixou Nercito com Duda para que viessem atrás.
-Foi esse o começo de muitas encrencas Rubens. Jéssica é uma jovem extrovertida, gentil, linda e muito charmosa. Duda não foi o único playboy a se interessar por ela. Um amigo dele, Ricardo Freitas, tentou assediar a moça. No dia do assassinato de Gabriela, Duda foi preso em flagrante. Foi na porta do prédio de Ricardo. Duda quase o matou com uma surra. Dezenas de testemunhas. Não sei como a imprensa não soube. Acho que foi o pai de Ricardo que conseguiu abafar o caso. Quer um conselho? Nunca se aproxime de Jéssica.
Rubens quis então saber sobre Guilherme. Afinal esse sim tinha um motivo: Giovanini.
-Sociólogo, segure-se. O álibi de Guilherme Chavez na época poderia ter abalado a república do Brasil. Foi o ponto mais delicado da investigação. Toda a minha carreira esteve por um triz. Mas hoje, dez anos depois, um governo de oito anos de outro presidente, quem se importa.
Com essa revelação Rubens não contava. Realmente dissera que estava escrevendo um livro ao delegado, pura balela. Mas agora, não é que talvez desse algo grandioso.
Fiúza quis organizar as coisas.
-Vamos falar de um irmão por vez.
Disse que Duda poderia ser sim um homicida em potencial. Foram necessários na época 5 policiais para imobilizá-lo. Mas seu álibi começou bem antes. Meses antes, em Paraty mesmo. Em um outro final de semana. Em que desta vez só Gabriela e os amigos encontravam-se na Ilha. Rubens mesmo estava lá.
A caseira abriu a porta do quarto aos berros. Eram sete da manhã e foi depois de muito custo que Gabriela, que ainda nem acordara direito, entendeu. Seu irmão recebera um telefonema que o deixara tão transtornado que o fez quebrar o aparelho, dizendo “Eu mato!” Com os olhos bem vermelhos correu até a lancha e seguiu para o continente.
Gabriela não acordou nenhum hóspede. Reuniu os empregados e perguntou se alguém sabia para onde poderia ter ido seu irmão. Nercito, o caseiro, respondeu-lhe que com certeza era coisa relacionada com a “neguinha”, que era como ele se referia a Jéssica, namorada de Duda.
Gabriela foi rápida, colocou um segurança e Nercito em outra lancha e partiu junto com eles para socorrer seu irmão, fosse qual fosse à encrenca na qual ele se metera.
Jéssica tinha uma amiga que a ajudava a enganar a mãe para que ela pudesse se encontrar com Eduardo. Ambas diziam a mãe de Jéssica que ela tomava conta de Laurinha, filha de Bianca, sua amiga, quando essa ia a um restaurante trabalhar como garçonete.
Quando a mãe descobriu a tramóia armada para que sua filha saísse por aí para “galinhar”, como ela se referia ao namoro com o jovem apaixonado Eduardo, jurou dar uma surra que deixaria a filha de cama.
Jéssica, ao saber através dos vizinhos da promessa da mãe, correu para a casa de Bianca e permaneceu lá por três dias na esperança da mãe se acalmar. Como Bianca morava embaixo do morro e a mãe de Jéssica não ir até lá há muito tempo, e também por não saber com exatidão o endereço de Bianca, foram três calmos dias, durante os quais a linda menina descobriu-se grávida.
Doce ilusão das amigas, pois a fuga, em vez de acalmar a mãe, só fez com que ela se tornasse ainda mais furiosa. Abandonou o tanque quando viu ao longe sua filha que chegava com cautela, mostrando os lindos dentes com um sorriso. Bianca, que também era mãe, entrou na frente e por não ser mais adolescente disse à outra que era crime bater em menor, o que daria cadeia, na certa.
Não foi a argumentação de Bianca que brecou a mãe de Jéssica, mas sim o tamanho e a confiança da amiga da filha. Só que por mais coragem que as amigas tivessem, ainda assim eram mulheres e quando o terrível padrasto de Jéssica, com seus noventa e cinco quilos, puxou-a pelos cabelos, a mãe não teve maiores dificuldades em espancá-la e humilhá-la na frente de toda a rua. Nem mesmo os histéricos avisos de Bianca de que a amiga estava grávida, detiveram o religioso casal. E uma não caridosa, porém bem paga vizinha, que ganhava muitos presentes de Duda, não vacilou e telefonou-lhe.
Já era tarde quando as buzinas da camionete que vinha subindo o morro como um trovão foram ouvidas. Jéssica, no colo de Bianca, já estava desmaiada na frente da humilde casa.
- Foi o padrasto e a mãe. Mas ela ficará boa, não foi à primeira vez. — disse Bianca para Duda.
- Mas foi à última vez. — ele emendou.
Chutou a porta e entrou. Duda vestia uma macia camiseta azul e calças bem leves, na cor cáqui ou creme. De resto, o que o casal de pedagogos viu foi Átila e eles nem conseguiam se mexer. Duda agarrou o pescoço do pai de Jéssica e levantou-o do chão, depois lhe deu um empurrão e mandou que ele fosse embora de Paraty e nunca mais voltasse, caso contrário o jovem Chavez prometeu matá-lo. O homem obedeceu e ao que consta nunca mais foi visto na cidade. Nunca mais foi visto em lugar nenhum.
Gabriela, avisada por Nercito de que a menina no chão com a amiga, que agora recobrava os sentidos e chorava, era sua cunhada, abaixou-se para ajudá-la e disse à Jéssica:
- Eu sou Gabi, sua cunhada.
Bianca disse à Gabriela que a menina delirava e estava grávida. Gabriela colocou-as no jipe em que viera e junto com o segurança seguiu para o pronto socorro. Deixou Nercito com Duda para que viessem atrás.
-Foi esse o começo de muitas encrencas Rubens. Jéssica é uma jovem extrovertida, gentil, linda e muito charmosa. Duda não foi o único playboy a se interessar por ela. Um amigo dele, Ricardo Freitas, tentou assediar a moça. No dia do assassinato de Gabriela, Duda foi preso em flagrante. Foi na porta do prédio de Ricardo. Duda quase o matou com uma surra. Dezenas de testemunhas. Não sei como a imprensa não soube. Acho que foi o pai de Ricardo que conseguiu abafar o caso. Quer um conselho? Nunca se aproxime de Jéssica.
Rubens quis então saber sobre Guilherme. Afinal esse sim tinha um motivo: Giovanini.
-Sociólogo, segure-se. O álibi de Guilherme Chavez na época poderia ter abalado a república do Brasil. Foi o ponto mais delicado da investigação. Toda a minha carreira esteve por um triz. Mas hoje, dez anos depois, um governo de oito anos de outro presidente, quem se importa.
Com essa revelação Rubens não contava. Realmente dissera que estava escrevendo um livro ao delegado, pura balela. Mas agora, não é que talvez desse algo grandioso.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Capítulo 13- Os irmãos Chavez
Dez anos depois, tudo fica tão óbvio.
Rubens já estava na mesa sozinho esperando há uns quinze minutos. Quando viu o Delegado Fiúza entrar. Era hora do almoço e o lugar estava cheio. Fiúza não teve dificuldade em identificar Rubens. O delegado era um homem forte não muito alto por volta de cinqüenta anos. Ele não era nem muito simpático, nem muito agressivo. Mas passava a imagem de um policial, ou engenheiro, ou até quem sabe um comerciante. Vestia jeans, sapato e camisa social.
-Então o que você quer saber? Você falou sobre um livro?
Rubens explicou então que se demitira do excelente emprego que tinha em uma grande empresa. Disse ao delegado que a família da sua esposa Carla era muito rica e a sua própria também. Logo ele ainda dispunha de algum tempo livre para um livro. Um intervalo até decidir o que iria fazer no futuro.
-Sociólogo.
O delegado confessou que chegou a cogitar uma faculdade de sociologia. Enfim, há muitos anos ninguém o procurava para falar do caso Gabriela Chavez. Fora o caso em que ele mais se empenhara e nunca mais seu nome saiu tanto na mídia depois daquilo. Seu maior desejo na época era resolver o mistério. Empenhou-se ao máximo. Lembrou até de Rubens e Carla. Mas a vida continua novos casos vieram e esse fora arquivado.
Depois de muito falarem Rubens chegou ao ponto:
-Delegado, é verdade que os três irmãos mais velhos de Gabriela eram os maiores suspeitos?
Para a surpresa de Rubens, Fiúza disse que nunca suspeitou de nenhum dos irmãos. Mas Rubens insistiu e perguntou o que na época rondava todos os ouvidos. Gabriela tinha um caso com o namorado de seu irmão Guilherme. Sabia que Jéssica, namorada de Duda esperava um filho e que Duda não queria que isso viesse a público. Sendo que a única pessoa que sabia da gravidez fora Duda era Gabriela.
Fiúza interropeu. Disse que aqueles fatos não caracterizavam motivo nenhum.
-Essa menina foi uma vítima, mas ela era um demônio libidinoso. Seduziu quem quis homens e mulheres.
-Até o irmão o senhor diz?
-Se você Rubens se refere ao caso entre os jovens Cristiano Chavez e Gabriela Chavez, saiba que eles nunca foram irmãos.
Aquilo assustou Rubens. A revelação o pegou de surpresa. Por outro lado sua teoria agora ganhava mais força.
-E sobre os álibis? Nenhum dos irmãos tinha um álibi.
-Rubens, na época segredos não foram expostos publicamente. Cristiano estava no quarto dormindo. Um quarto no mesmo apartamento em que Gabriela foi assassinada. Na mesma noite.
Rubens olhou pela janela a garoa fina lá fora. Fiúza cortava o bife. Rubens não teve mais dúvidas se ele cruzasse as informações com o delegado Fiúza o mistério estaria desvendado. Provavelmente naquela mesma tarde. E aquilo não o deixava feliz, muito pelo contrário.
Rubens já estava na mesa sozinho esperando há uns quinze minutos. Quando viu o Delegado Fiúza entrar. Era hora do almoço e o lugar estava cheio. Fiúza não teve dificuldade em identificar Rubens. O delegado era um homem forte não muito alto por volta de cinqüenta anos. Ele não era nem muito simpático, nem muito agressivo. Mas passava a imagem de um policial, ou engenheiro, ou até quem sabe um comerciante. Vestia jeans, sapato e camisa social.
-Então o que você quer saber? Você falou sobre um livro?
Rubens explicou então que se demitira do excelente emprego que tinha em uma grande empresa. Disse ao delegado que a família da sua esposa Carla era muito rica e a sua própria também. Logo ele ainda dispunha de algum tempo livre para um livro. Um intervalo até decidir o que iria fazer no futuro.
-Sociólogo.
O delegado confessou que chegou a cogitar uma faculdade de sociologia. Enfim, há muitos anos ninguém o procurava para falar do caso Gabriela Chavez. Fora o caso em que ele mais se empenhara e nunca mais seu nome saiu tanto na mídia depois daquilo. Seu maior desejo na época era resolver o mistério. Empenhou-se ao máximo. Lembrou até de Rubens e Carla. Mas a vida continua novos casos vieram e esse fora arquivado.
Depois de muito falarem Rubens chegou ao ponto:
-Delegado, é verdade que os três irmãos mais velhos de Gabriela eram os maiores suspeitos?
Para a surpresa de Rubens, Fiúza disse que nunca suspeitou de nenhum dos irmãos. Mas Rubens insistiu e perguntou o que na época rondava todos os ouvidos. Gabriela tinha um caso com o namorado de seu irmão Guilherme. Sabia que Jéssica, namorada de Duda esperava um filho e que Duda não queria que isso viesse a público. Sendo que a única pessoa que sabia da gravidez fora Duda era Gabriela.
Fiúza interropeu. Disse que aqueles fatos não caracterizavam motivo nenhum.
-Essa menina foi uma vítima, mas ela era um demônio libidinoso. Seduziu quem quis homens e mulheres.
-Até o irmão o senhor diz?
-Se você Rubens se refere ao caso entre os jovens Cristiano Chavez e Gabriela Chavez, saiba que eles nunca foram irmãos.
Aquilo assustou Rubens. A revelação o pegou de surpresa. Por outro lado sua teoria agora ganhava mais força.
-E sobre os álibis? Nenhum dos irmãos tinha um álibi.
-Rubens, na época segredos não foram expostos publicamente. Cristiano estava no quarto dormindo. Um quarto no mesmo apartamento em que Gabriela foi assassinada. Na mesma noite.
Rubens olhou pela janela a garoa fina lá fora. Fiúza cortava o bife. Rubens não teve mais dúvidas se ele cruzasse as informações com o delegado Fiúza o mistério estaria desvendado. Provavelmente naquela mesma tarde. E aquilo não o deixava feliz, muito pelo contrário.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Capítulo 12- Os irmãos Chavez
Aventura
De dia o local é um sacolão e à noite se transforma em um enorme e interessante restaurante japonês que mais lembra o bairro da Liberdade e o Mercado Municipal, misturados à essência boemia da Vila Madalena.
Rubens e Beto foram para o tudo ou nada.
— Você não faz PUC? — perguntou Beto, e como ele nem sabia direito para qual das três se dirigir, as três não souberam tão pouco para quem era a pergunta.
— Eu faço.
Foi o que respondeu a terceira.
— Então é de lá.
— De lá o que?
As três que antes fizeram cara feia por serem interrompidas no papo onde resolveriam o que fariam no próximo feriado, agora depois do “então é de lá”, tiveram crise de risos, o que as deixou muito antipáticas.
Os dois deram sorte, pois a mais feinha das três consentiu que os dois sentassem. Logo o trio e a dupla tornou-se uma agradável mesa de cinco.
Beto disparou a falar. Rubens estava um tanto inseguro e constrangido, só observando calado. Beto quis saber o que elas faziam, mas antes que as meninas entre goles de saquê respondessem, ele já declarou em bom tom que o amigo era sociólogo da USP, veja bem: USP, com maiúscula. As três se impressionaram com o tímido. Talvez ele realmente fosse um intelectual e as estava desprezando, quem sabe?
Na empolgação Beto não escondeu seu entusiasmo por Freud e soltou:
— Já leram o mal estar na civilização? Novamente Beto errou feio. As três eram estudantes de psico e o que alguém acharia pedante e cômico como Rubens achou, para elas soou ofensivo. Como se ele estivesse brincando com algo sagrado sem ritual ou iniciação. Bola fora! Tudo bem, fora uma vitória, ao menos conseguiram sentar-se à mesa das três.
Rubens percebeu que o amigo ia afundar e tentou impedir o nocaute.
— Vocês estavam combinando o feriado? Faz um ano nesse feriado que eu e o Beto preparamos uma super festa com vinho, fondue, queijos. Foi à gente mesmo que fez. Convidamos uma turminha e várias gatas. O resultado do investimento foi que as gatas levaram os cachorros e nós dois sobramos tomando vinho e vendo os outros se beijarem.
As três agora se arrependiam muito de tê-los chamado para a mesma mesa. Não há mal nenhum em bater papo sem compromisso, porém as estudantes de psico não se entusiasmavam com o drama dos dois perdedores. Mas qual não foi o espanto dos cinco ao ouvirem:
— Rubens! Venha sentar com a gente.
Era com certeza a menina mais linda que elas já haviam visto. Seu nome? Gabriela Chavez. Lógico!
Neste momento a cotação dos dois subiu a mil por cento e as três psico, quer dizer, estudantes, permaneciam com os queixos caídos.
Beto mal pode crer que não era sonho. De uma mesa com três meras desconhecidas e sem importância fora agora sentar-se com a famosa Gabriela Chavez, a gata mais cobiçada de São Paulo.
Quando o amigo lhe contou que havia estado na ilha dos Chavez, ele desconfiou, porém sentia orgulho de Rubens e se esbaldava em ver as três psico tentando disfarçar a curiosidade do que agora rolava ali naquela mesa de celebridades formadas por Flavinha, Pedro Paulo, a Chavez e Rubens.
Enquanto Pedro Paulo expunha seus comentários sobre o lugar, Rubens se indagava onde estariam Carla e Ícaro.
— São tempos de esquerda, esses nossos. Este lugar é a própria tradução do militantismo descolado paulistano. Que apesar de não me fascinar tanto, posso dizer que é realmente um ambiente genuinamente latino-americano.
— Como assim? Desenvolva. — Pediu Beto.
— Ora, até os lugares ditos GLS são colonizados. Ainda não se firmou a figura do bissexual latino-americano. Hoje os gays têm hábitos nórdicos.
— Talvez exista uma necessidade de a comunidade gay mundial ser uma unidade e tornar a minoria mais forte. — Foi o que Gabriela disse.
— Onde está Ícaro? — Perguntou Rubens à Gabi.
— Saiu com a gelara do circo.
---E a Carla, onde foi?
Rubens percebeu que algo não cheirava bem e por isso desviou o assunto.
Despediam-se os cinco e Gabriela disse a Pedro Paulo que levaria Flavinha em casa. Beto assustou-se quando num surto, ao caminharem em direção ao carro Rubens lhe pedisse que fosse rápido. Deram três reais ao guardador de carro.
— Vai logo, vamos segui-la.
— Quem?
— Gabriela Chavez.
— Por quê?
— No caminho eu te falo. Olha lá o valet entregando a Cherokee preta e elas entrando. Vai!
Rubens estranhou a calma de Gabriela em relação ao seu namorado sumir e a sua melhor amiga também. Percebeu que Gabriela recebera uma ligação e quando Flavinha e Pedro Paulo que viram a amiga sorrir e falar baixinho, indagaram-na de quem era e ela disse: “Meu irmão”, sem explicar qual deles. O nosso detetive pensou: “tem coisa errada aí”. Fora Gabriela quem pedira a conta e estava ansiosa para quem disse que iria dormir. Não dizer o que levou Rubens a essa excitação; se realmente a curiosidade de saber o que uma deusa como Gabriela apronta por aí, o que aliás milhões de seres têm, vide os paparazzi, ou a relação que talvez isso tivesse com a sua amada Carla.
Gabriela deixou Flavinha em sua casa, naquele prédio na Cidade Jardim onde teve a festa de Flavinha no início da história, o primeiro beijo de Ícaro e coisa e tal. Seguiu pela Augusta e o carro sempre atrás da Cherokee.
— Tem certeza que ela não virou na Brasil?
— Absoluta!
Os dois estranharam muito que Gabriela permanecesse na Rua Augusta. Então, quando ela cruzou a Paulista os dois se deliciaram. “Vamos realmente ter aventura hoje à noite”, foi o quem pensaram.
A Cherokee passou pelo Anhangabaú, contornou a Praça da Sé e foi estacionar em um banco financeiro no largo de São Bento.
Eu sei leitor, que não é horário comercial, logo, o que ela estaria fazendo lá? É que agora é costume fazer festas no centro de São Paulo. Os dois pararam na própria rua. A música que vinha de um pequeno prédio de cinco andares no calçadão era animada. A Chavez misturou-se com um grupo que estava chegando e subiu as escadas com outras meninas que se vestiam no estilo dito “retro”.
O prédio com certeza era da década de quarenta e possuía um elevador desses de grade que se fecha manualmente.
Permaneceram em um local mais escuro observando a Chavez que dançava com alguns meninos. Ela dirigiu-se até a outra extremidade do andar onde havia um bar com as antigas enormes janelas abertas para o centro da metrópole e as estrelas. Enquanto pegavam cervejas Gabriela passou bem perto deles muito apressada, mas por sorte não os viu. Correram para o carro e puderam ver a Cherokee saindo. Dessa vez não era Gabriela que dirigia e sim um homem com um gorrinho azul.
A Cherokee deu muitas voltas até parar em um posto de gasolina com loja de conveniência vinte e quatro horas. Os dois desligaram o farol e estacionaram o carro na outra extremidade do posto fingindo verificar os pneus. Gabriela permaneceu no carro e a pessoa que dirigia desceu para comprar cigarros, agora sem o gorro; era um menino muito bonito, de cabelos loiros lisos e brilhantes.
Foi tudo muito rápido e quando Giovanni e Gabriela iam saindo Rubens e Beto... Sim, leitor, com certeza era Giovanni.
Rubens ia fechar a porta do carro, mas sentiu uma mão em seu ombro e viu um homem com olhos sofridos fingindo sorrir:
— Você por aqui, Rubens?
Pronto, não dava mais tempo. A Cherokee sumira e os dois detetives foram tomar uma cerveja com Guilherme Chavez na loja de conveniência. Nenhum dos três mencionou a Cherokee e seus ocupantes e eles fingiram ser apenas uma coincidência. Um encontro casual nessa enorme cidade. E foi só conversa jogada fora. Depois de se despedirem, Beto, que conduzia o amigo para casa, não dormiu aquela noite depois do nosso detetive lhe revelar o escândalo da irmã ser amante do namorado do irmão.
Para Beto que nunca teve amante e único risco sexual que já tivera fora o de ir à Love Story, aquela informação equivaleu à ida do homem à lua ou ao início da terceira guerra mundial.
Na cama, olhando para o teto ele se lamentava: “Por que não acontece nada na minha vida?” E Rubens que a todo instante era acordado pelo telefone, desistiu de atender na terceira vez:
— Não acredito! Dizia Beto do outro lado. — Não acredito!
— Pois então creia. Como diz o filósofo francês, aposte que é verdade, que existe, porque se apostar que não existe, existe mesmo de qualquer jeito. Boa noite... Quer dizer.
Rubens vê a rua iluminada através da janela.
--- Bom dia! E desliga.
De dia o local é um sacolão e à noite se transforma em um enorme e interessante restaurante japonês que mais lembra o bairro da Liberdade e o Mercado Municipal, misturados à essência boemia da Vila Madalena.
Rubens e Beto foram para o tudo ou nada.
— Você não faz PUC? — perguntou Beto, e como ele nem sabia direito para qual das três se dirigir, as três não souberam tão pouco para quem era a pergunta.
— Eu faço.
Foi o que respondeu a terceira.
— Então é de lá.
— De lá o que?
As três que antes fizeram cara feia por serem interrompidas no papo onde resolveriam o que fariam no próximo feriado, agora depois do “então é de lá”, tiveram crise de risos, o que as deixou muito antipáticas.
Os dois deram sorte, pois a mais feinha das três consentiu que os dois sentassem. Logo o trio e a dupla tornou-se uma agradável mesa de cinco.
Beto disparou a falar. Rubens estava um tanto inseguro e constrangido, só observando calado. Beto quis saber o que elas faziam, mas antes que as meninas entre goles de saquê respondessem, ele já declarou em bom tom que o amigo era sociólogo da USP, veja bem: USP, com maiúscula. As três se impressionaram com o tímido. Talvez ele realmente fosse um intelectual e as estava desprezando, quem sabe?
Na empolgação Beto não escondeu seu entusiasmo por Freud e soltou:
— Já leram o mal estar na civilização? Novamente Beto errou feio. As três eram estudantes de psico e o que alguém acharia pedante e cômico como Rubens achou, para elas soou ofensivo. Como se ele estivesse brincando com algo sagrado sem ritual ou iniciação. Bola fora! Tudo bem, fora uma vitória, ao menos conseguiram sentar-se à mesa das três.
Rubens percebeu que o amigo ia afundar e tentou impedir o nocaute.
— Vocês estavam combinando o feriado? Faz um ano nesse feriado que eu e o Beto preparamos uma super festa com vinho, fondue, queijos. Foi à gente mesmo que fez. Convidamos uma turminha e várias gatas. O resultado do investimento foi que as gatas levaram os cachorros e nós dois sobramos tomando vinho e vendo os outros se beijarem.
As três agora se arrependiam muito de tê-los chamado para a mesma mesa. Não há mal nenhum em bater papo sem compromisso, porém as estudantes de psico não se entusiasmavam com o drama dos dois perdedores. Mas qual não foi o espanto dos cinco ao ouvirem:
— Rubens! Venha sentar com a gente.
Era com certeza a menina mais linda que elas já haviam visto. Seu nome? Gabriela Chavez. Lógico!
Neste momento a cotação dos dois subiu a mil por cento e as três psico, quer dizer, estudantes, permaneciam com os queixos caídos.
Beto mal pode crer que não era sonho. De uma mesa com três meras desconhecidas e sem importância fora agora sentar-se com a famosa Gabriela Chavez, a gata mais cobiçada de São Paulo.
Quando o amigo lhe contou que havia estado na ilha dos Chavez, ele desconfiou, porém sentia orgulho de Rubens e se esbaldava em ver as três psico tentando disfarçar a curiosidade do que agora rolava ali naquela mesa de celebridades formadas por Flavinha, Pedro Paulo, a Chavez e Rubens.
Enquanto Pedro Paulo expunha seus comentários sobre o lugar, Rubens se indagava onde estariam Carla e Ícaro.
— São tempos de esquerda, esses nossos. Este lugar é a própria tradução do militantismo descolado paulistano. Que apesar de não me fascinar tanto, posso dizer que é realmente um ambiente genuinamente latino-americano.
— Como assim? Desenvolva. — Pediu Beto.
— Ora, até os lugares ditos GLS são colonizados. Ainda não se firmou a figura do bissexual latino-americano. Hoje os gays têm hábitos nórdicos.
— Talvez exista uma necessidade de a comunidade gay mundial ser uma unidade e tornar a minoria mais forte. — Foi o que Gabriela disse.
— Onde está Ícaro? — Perguntou Rubens à Gabi.
— Saiu com a gelara do circo.
---E a Carla, onde foi?
Rubens percebeu que algo não cheirava bem e por isso desviou o assunto.
Despediam-se os cinco e Gabriela disse a Pedro Paulo que levaria Flavinha em casa. Beto assustou-se quando num surto, ao caminharem em direção ao carro Rubens lhe pedisse que fosse rápido. Deram três reais ao guardador de carro.
— Vai logo, vamos segui-la.
— Quem?
— Gabriela Chavez.
— Por quê?
— No caminho eu te falo. Olha lá o valet entregando a Cherokee preta e elas entrando. Vai!
Rubens estranhou a calma de Gabriela em relação ao seu namorado sumir e a sua melhor amiga também. Percebeu que Gabriela recebera uma ligação e quando Flavinha e Pedro Paulo que viram a amiga sorrir e falar baixinho, indagaram-na de quem era e ela disse: “Meu irmão”, sem explicar qual deles. O nosso detetive pensou: “tem coisa errada aí”. Fora Gabriela quem pedira a conta e estava ansiosa para quem disse que iria dormir. Não dizer o que levou Rubens a essa excitação; se realmente a curiosidade de saber o que uma deusa como Gabriela apronta por aí, o que aliás milhões de seres têm, vide os paparazzi, ou a relação que talvez isso tivesse com a sua amada Carla.
Gabriela deixou Flavinha em sua casa, naquele prédio na Cidade Jardim onde teve a festa de Flavinha no início da história, o primeiro beijo de Ícaro e coisa e tal. Seguiu pela Augusta e o carro sempre atrás da Cherokee.
— Tem certeza que ela não virou na Brasil?
— Absoluta!
Os dois estranharam muito que Gabriela permanecesse na Rua Augusta. Então, quando ela cruzou a Paulista os dois se deliciaram. “Vamos realmente ter aventura hoje à noite”, foi o quem pensaram.
A Cherokee passou pelo Anhangabaú, contornou a Praça da Sé e foi estacionar em um banco financeiro no largo de São Bento.
Eu sei leitor, que não é horário comercial, logo, o que ela estaria fazendo lá? É que agora é costume fazer festas no centro de São Paulo. Os dois pararam na própria rua. A música que vinha de um pequeno prédio de cinco andares no calçadão era animada. A Chavez misturou-se com um grupo que estava chegando e subiu as escadas com outras meninas que se vestiam no estilo dito “retro”.
O prédio com certeza era da década de quarenta e possuía um elevador desses de grade que se fecha manualmente.
Permaneceram em um local mais escuro observando a Chavez que dançava com alguns meninos. Ela dirigiu-se até a outra extremidade do andar onde havia um bar com as antigas enormes janelas abertas para o centro da metrópole e as estrelas. Enquanto pegavam cervejas Gabriela passou bem perto deles muito apressada, mas por sorte não os viu. Correram para o carro e puderam ver a Cherokee saindo. Dessa vez não era Gabriela que dirigia e sim um homem com um gorrinho azul.
A Cherokee deu muitas voltas até parar em um posto de gasolina com loja de conveniência vinte e quatro horas. Os dois desligaram o farol e estacionaram o carro na outra extremidade do posto fingindo verificar os pneus. Gabriela permaneceu no carro e a pessoa que dirigia desceu para comprar cigarros, agora sem o gorro; era um menino muito bonito, de cabelos loiros lisos e brilhantes.
Foi tudo muito rápido e quando Giovanni e Gabriela iam saindo Rubens e Beto... Sim, leitor, com certeza era Giovanni.
Rubens ia fechar a porta do carro, mas sentiu uma mão em seu ombro e viu um homem com olhos sofridos fingindo sorrir:
— Você por aqui, Rubens?
Pronto, não dava mais tempo. A Cherokee sumira e os dois detetives foram tomar uma cerveja com Guilherme Chavez na loja de conveniência. Nenhum dos três mencionou a Cherokee e seus ocupantes e eles fingiram ser apenas uma coincidência. Um encontro casual nessa enorme cidade. E foi só conversa jogada fora. Depois de se despedirem, Beto, que conduzia o amigo para casa, não dormiu aquela noite depois do nosso detetive lhe revelar o escândalo da irmã ser amante do namorado do irmão.
Para Beto que nunca teve amante e único risco sexual que já tivera fora o de ir à Love Story, aquela informação equivaleu à ida do homem à lua ou ao início da terceira guerra mundial.
Na cama, olhando para o teto ele se lamentava: “Por que não acontece nada na minha vida?” E Rubens que a todo instante era acordado pelo telefone, desistiu de atender na terceira vez:
— Não acredito! Dizia Beto do outro lado. — Não acredito!
— Pois então creia. Como diz o filósofo francês, aposte que é verdade, que existe, porque se apostar que não existe, existe mesmo de qualquer jeito. Boa noite... Quer dizer.
Rubens vê a rua iluminada através da janela.
--- Bom dia! E desliga.
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