domingo, 19 de dezembro de 2010

Aeroporto internacional de Salvador

5 ou 4 atores.

Personagens:


Funcionário 1

Funcionário 2

Dom Quixote

Sancho Pança

Jesus

Rei da Espanha

Turista Alemão



(Guichê de alfândega do aeroporto, um funcionário graduado conversa com seu inferior.)



SUPERENTENDENTE- Com toda a opinião pública em cima, temos de usar a lei de reciprocidade. Está me entendendo?



FUNCIONÁRIO- Sim senhor.



SUPERENTENDENTE- Qualquer vôo vindo da Espanha os passageiros têm de estar com todos os requisitos básicos necessários para adentrar no Brasil: Passagem de volta, cartões de crédito, quatrocentos reais por dia, documentos que provem laços fortes com o país de origem, no caso a Espanha.



FUNCIONÁRIO- Sim senhor. Mas se me permite chefe tenho de ser assim tão rigoroso? Afinal aqui é Salvador.



SUPERENTENDENTE- É para barrar mesmo. Não interessa! E digo mais, se gringo fazer barulho, achar injusto leva para salinha e mete o braço. (Olha para o público.) É ou não é? Não é assim eles fazem com a gente?



FUNCIONÁRIO- O senhor mandou ta mandado. Pode levar para salinha mesmo?



SUPERENTENDENTE- Pode não, é para levar. Fez barulho mete a mão. (Sai, voz em off.)



AUTO FALANTE- Vôo vindo do aeroporto de Barrados em Madri acaba de pousar. (O funcionário do guichê mimetiza estar vendo uma fila.)



FUNCIONÁRIO- Próximo! (Eis que Dom Quixote e Sancho Pança se aproximam, Dom Quixote age como se aquilo fosse algo trivial, como que acostumado a viagens internacionais. Já Sancho vem bem nervoso com a situação nada casual, ele sabe que o funcionário percebe sua origem humilde, os dois param em frente ao funcionário que aguarda os documentos, porém nada acontece.) E então?



DOM QUIXOTE- Pois não?



FUNCIONÁRIO- Passaportes e documentos! Vamos! Vamos! Que gente lerda.



DOM QUIXOTE- (Dá um passo atrás e começa uma falação descritiva.) Meu caro servidor do estado. Eu sou o fidalgo Dom Quixote, proveniente de La Mancha. Este, que aqui vos encontra, é Sancho Pança, meu fiel escudeiro...



FUNCIONÁRIO- Sei. Sei! Mas não está faltando alguma coisa?



SANCHO- Ah! O Rocinante, o cavalo do patrão, como não. Nós despachamos em Madri.



FUNCIONÁRIO- O que diabos é isso? Cadê os documentos?



SANCHO- (Pegando o passaporte.) É esse doutor?



FUNCIONÁRIO- E o do velho?



SANCHO- Ele é um cavaleiro andante..



DOM QUIXOTE- Sou o Fidalgo...



FUNCIONÁRIO- Lamento, mas assim não será possível a sua entrada. Que hotel vão ficar?



SANCHO- Bem o senhor conhece alguma boa pousada?



FUNCIONÁRIO- Cartão de crédito, passagem de volta? (Se irrita com a demora de Sancho.) Vamos é para hoje! (Sancho procurando numa sacolinha.) Dêem licença à fila é grande aguardem no canto aí ao lado. (Os dois vão para o lado.) Próximo! (Surge um travesti espanhol.) Documentos, por favor?



TRAVESTI- (Colocando tudo sobre o balcão.) Passapoerte, cartones, dineiro, documentos, reserva de hotele... (Funcionário checa tudo.) Me poedo ir?



FUNCIONÁRIO- Motivo da viagem?



TRAVESTI- Me voi a uno congresso de travestis em Salvador e depois sigo para Gay parede em San Paolo.



FUNCIONÁRIO- (Olhando o travesti de cima a baixo.) Como eu posso acreditar que você é realmente um profissional?



TRAVESTI- Tieno cá a carta de meu cafeton assinada, fotos... (Dá um álbum com fotos que o funcionário começa a ver.)



FUNCIONÁRIO- Há quanto tempo você está com este cafetão?



TRAVESTI- No copreendi?



FUNCIONÁRIO- Entendeu sim. Quanto tempo? É ponto próprio ou paga aluguel?



TRAVESTI- No, a mas de oitcho anhos que trabarro em lá mesma avevida.



FUNCIONÁRIO- Sinto muito, mas a senhora não vai poder entrar no Brasil, deve retornar a Espanha?



TRAVESTI- Piero, por que no? Tieno toda la documentacion, o dinheiro, soi una profissional...



FUNCIONÁRIO- Insuficiência de provas que atestem o seu vinculo com seu país de origem.



TRAVESTI- Mas ta piensando o que? Los travecos brasilenhos é que van a Espanha.



FUNCIONÁRIO- Quanto o senhor cobra pelo mixe?



TRAVESTI- Pelo programa? Mas isto é uma cosa particular, donde está la dignidade humana?



FUNCIONÁRIO- Abaixa a voz!



TRAVESTI- Exijo ver um funcionário do consulado imediatamente.



FUNCIONÁRIO- Não vai ver.



TRAVESTI- (Levantando a voz.) Diga-me por que razion no me poedo adentrar?



FUNCIONÁRIO- Não interessa! (Dom Quixote intervem.)



DOM QUIXOTE- (Para o travesti.) Donzela o que este infame lhe disse?



TRAVESTI- (Se assusta.) Es uno covarde. Faltou-me com o respeito!



DOM QUIXOTE- Vais ver seu mouro, como respeitar uma donzela ingênua.



SANCHO- Calma meu senhor.



DOM QUIXOTE- Calma porra nenhum.



TRAVESTI- Joi soi castelhana tieno sangue caliente.



FUNCIONÁRIO- Com uma enorme chave. Vai tudo para salinha. Vão já! (Vai empurrando eles para fora do palco e dá uns cascudos em Dom Quixote.)



TRAVESTI- Donde está o consulado de Espanha. Joi no soi de Costa Rica ou Bolívia cabron! Joi soi espanhola! Uma potencia européia.



FUNCIONÁRIO- (Sancho em pânico, travesti e Dom Quixote tentando argumentar.) Para salinha. (Saem, ouvem-se gritos, funcionário volta.) Próximo! (Surge Jesus cristo.)



JESUS- Salve irmão!



FUNCIONÁRIO- Bom dia, passaporte?



JESUS- Perdi.



FUNCIONÁRIO- Nacionalidade?



JESUA- Cidadão Romano.



FUNCIONÁRIO- Idade?



JESUS- Não me reconhece? (Funcionário olha para Jesus sem mostrar reação amigável). Eu sou Jesus.



FUNCIONÁRIO- Ah me desculpe, é que a gente fica atordoado e temos ordens de pedir identificação mesmo para celebridades, o senhor me entende não é?



JESUS- (Feliz, se divertindo.) Mas eu sou eu. Sou Jesus.



FUNCIONÁRIOS- Mas não tem aí nada que prove que você é você? Uma carteirinha da igreja?Um milagre?



JESUS- (Pensando.) Não. A cruz eu despachei.



FUNCIONÁRIO- Cartões? Reserva em hotel?



JESUS- Não tenho posses, não me preocupei com o hotel.



FUNCIONÁRIO- Sinto muito, vai ter de voltar para Espanha.



JESUS- Mas eu cansei de lá, quero pegar uma praia aqui.



FUNCIONÁRIO- Sinto muito, relaxa e goza. Além do que o antigo dono aqui da Bahia não gostava de você o Toninho Malvadeza.



JESUS- Ah ta bom então. Eu volto para Espanha. (Vai saindo depois para.) Mas tem de ser de primeira? (Sai.)



FUNCIONÁRIO- Próximo! (Entra Juan Carlo, rei da Espanha.) Passaporte, documentos, passagem de volta, cartões, dinheiro, reserva em hotel, vamos ligeiro.



REI- Joi soi rei de Espanha, tonto?



FUNCIONÁRIO- Sei, mas aqui é o Brasil.



REI- Es mui petulante em dirigir la palavra a minha persona!



FUNCIONÁRIO- Olha Seu rei, ou mostra os requisitos necessários, prove que não vai ficar ilegal no Brasil, ou de volta para a aeronave!



REI- Posso lhe fazer una pegunta?



FUNCIONÁRIO- Sim, claro.



REI- Piero, por que no te calas!



FUNCIONÁRIO- (Para a platéia.) Tão achando que é fácil trabalhar em aeroporto? (Para o Rei.) Para a salinha já. (Leva o Rei que é pego desprevenido, pois não esperava este desfecho, funcionário voltando.) Próximo! (Aparece um alemão.) Passaporte? (O alemão mostra o passaporte alemão.) Está liberado senhor, boas férias.



ALEMÃO- Eu vir fazer turismo sexual em salvador! Pedofilia!



FUNCIONÁRIO- Ótimo seja bem vindo a salvador. Permite-me uma pergunta?



ALEMÃO- Clara?



FUNCIONÁRIO- Menininhos ou menininhas?



ALEMÃO- Eu gosta menininhos!



FUNCIONÁRIO- Então leva esse cartão. Meu cunhado o Mauro, trabalha com isso, tem uns meninos lindos, diz que foi o Maciel que indicou. (Alemão pegando o cartão.)



ALEMÃO- Poda deixar, Maciel. E cunhado Maura trabalha pedofilia?



FUNCIONÁRIO- Isso. Isso até logo e boas férias! . (Alemão sai.)

(Pano.)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Vinte e cinco de março

Cena: Passa-se na rua vinte cinco de março


Tempo: manhã.



Personagens: 3 atores



Comerciante

Funcionário

Fiscal



(Loja de rua, bem cedo de manhã. O funcionário já esta trabalhando quando surge o patrão.)



COMERCIANTE- Bom dia! Tudo tranqüilo, já abriu a loja?



FUNCIONÁRIO- Parece que hoje vai ser calmo patrão.



COMERCIANTE- Que nada esses urubus da fiscalização tão tudo rondando. (Sente a perna). Aí que dor. (Comerciante leva a mão até o joelho.)



FUNCIONÁRIO- Nossa! Que é que houve?



COMERCIANTE- Acho que foi ontem jogando bola, recebi uma entrada de um babaca.



FUNCIONÁRIO- Acho melhor ir ao médico.



COMERCIANTE- Não é para tanto mas eu vou dar uma passada na farmácia e comprar alguma coisa para dor. Você fica de olho na loja?



FUNCIONÁRIO- Oh! Patrão não precisa nem perguntar.



COMERCIANTE- (Já saindo.) Mas olha lá. Nada de conversas, chega de histórias com as pessoas.



FUNCIONÁRIO- Pode deixar comigo patrão não se preocupe! (Comerciante sai, logo depois entra um fiscal que vem sorrindo com maldade no olhar.)



FISCAL- (Gritando.) Fiscal! Fiscal! (Bate palmas.) Fiscal!



FUNCIONÁRIO- (Tranquilo). Já ouvi.



FISCAL- Você quem é?



FUNCIONÁRIO- Funcionário.



FISCAL- Cadê o patrão?



FUNCIONÁRIO- Não está.



FISCAL- Eu espero. (Vai se sentando, ainda eufórico.)



FUNCIONÁRIO- Eu se fosse você não esperava.



FISCAL- (Espantado.) Como é que é rapaz?



FUNCIONÁRIO- Disse que se fosse você saia correndo sem olhar para trás.



FISCAL- Do que é que você ta falando?



FUNCIONÁRIO- Disso que você ouviu. Quem avisa amigo é.



FISCAL- (Imitando a passividade do funcionário.) Quem avisa amigo é. Ora bolas quem deve ter medo é o seu patrão. Eu não devo nada ao estado. Já o seu patrão... (Olha ao redor da loja.) Aí, aí, aí. Está feia a coisa para o lado dele. (Cai na gargalhada.)



FUNCIONÁRIO- (Sem modificar a expressão.) Se você quer acreditar nisso. (Dá de ombros.) Quem sou eu para dizer o contrário.



FISCAL- Mas afinal do que se trata tanto rodeio?



FUNCIONÁRIO- Estou só dizendo que o último fiscal esteve aqui não teve muita sorte.



FISCAL- O que vai dizer que ele teve uma parada cardíaca aqui mesmo na loja. (Ri.) Eu não sou supersticioso.



FUNCIONÁRIO- Se você chama apanhar até morrer de superstição. (Dá de ombros novamente.)



FISCAL- (Fecha a cara.) Logo de manhã a gente recebe umas amolações dessas.



FUNCIONÁRIO- O senhor aceita um copo de água, um café?



FISCAL- Não.



FUNCIONÁRIO- Um bolinho?



FISCAL- Olha rapaz essa sua brincadeira não vai ficar assim vou relatar isso para o seu patrão.



FUNCIONÁRIO- (Sorrindo.) O senhor não esta acreditando mesmo em mim? (Fiscal permanece mudo.) O cara levou tanto chute na cabeça que acabou morrendo.



FISCAL- Há! Há! Há! Até parece. Chega de conversa.



FUNCIONÁRIO- Faz o que seis anos que estou aqui? É isso seis sete anos. No começo achei o patrão até simpático. Calmo conversa direito, mas faz alguma coisa para irrita-lo? Ele se transforma, fica descontrolado e é muito violento. Bom, cada um com sua índole. (Olha para o fiscal que parece não estar prestando atenção. Fiscal pega um jornal e finge ler assobiando.) Coitado deste último, chamava até pela mãe o senhor acredita? Ele gritava: “Mamãe! Mamãe! Eu quero minha mãe!” E o meu patrão chutando a cabeça dele. (Para o fiscal.) Como é que não quebra o pé chutando alguém assim? Bom deixa eu ir trabalhar.



FISCAL- (Fecha o jornal, está um tanto quanto preocupado, ameaça falar alguma coisa, faz um não com a cabeça, vai voltar a ler o jornal, mas desiste, levanta e diz.) Olha eu tenho outros lugares para ir depois eu volto. (vai sair.)



FUNCIONÁRIO- Por que? Logo, logo o patrão está de volta. Espere só um pouquinho.



FISCAL- (Olhando o relógio.) Não poss. Preciso ir.



FUNCIONÁRIO- Tranqüilize-se. Também não é assim. O patrão está de bom humor, depois que chutou tanto a cabeça do outro relaxou está mais calmo.



FISCAL- Nem é nada disso. Você acha que eu não escuto essas estórias todo dia? Eu preciso realmente ir.



FUNCIONÁRIO- Olha o patrão aí. (Comerciante entra na loja mancando.) Oh, patrão este doutor quer falar com o senhor.



COMERCIANTE- Pois não.



FISCAL- Imagina, outra hora eu falo. Já estou indo.



FUNCIONÁRIO- Disse que é fiscal...



COMERCIANTE- Ah claro vamos para o meu escritório. (Fiscal vai se afastando e comerciante o segue pela loja mancando.) Desculpe é que eu chutei tanto ontem que meu pé doi.



FISCAL- Chutou?



COMERCIANTE- Eu devia ter parado, mas estava com uma raiva do filha da puta e continuei chutando.



FISCAL- Espero que tenha valido a pena.



COMERCIANTE- Ah sempre vale, depois que eu vi o estado que ele ficou, me alegrei.



FISCAL- Bem daqui dois anos eu volto. Quer dizer? Quem sabe nem volto.



COMERCIANTE- Como preferir.



FISCAL- Adeus. (Sai correndo.)



COMERCIANTE- Quanto louco. (Para funcionário.) Não tinha nada na farmácia, vou seguir o seu conselho e vou ao médico. Olha tudo até eu voltar, o médico é aqui do lado.



FUNCIONÁRIO- Pode deixar.



COMERCIANTE- (Vai saindo, depois para, tira um chaveiro do bolso.) Ah, quase me esqueço, vai passar o Ricardo para lavar o meu carro. (Baixo.) Manda ele tirar bem o cheiro sangue do porta-malas que ficou daquele babaca do outro fiscal. Manda esfregar bastante, cretino aquele cara ainda deixou cheiro ruim no meu Vectra. (Dá a chave ao funcionário.) E uma última coisa.



FUNCIONÁRIO- Pois não doutor.



COMERCIANTE- Chega de histórias.



(pano.)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O anel.

Personagens:



Susana

Paulo

Garota que mora com Susana

Sonia, paciente do médico

Doutor Cássio, médico.





(O palco está dividido em duas partes. Uma sala de visitas onde uma garota dorme num sofá, ao som de uma música dançante alta e um consultório médico onde um médico aguarda um paciente. As duas estão com meia luz, ao subir o pano a sala de visitas sobe a luz, entra um rapaz.)



RAPAZ- (Vendo a menina dormindo.) Você desligou o celular? (A garota continua dormindo.) Cheguei! Eu me perdi foi difícil achar sua rua por isso que eu demorei, ta um puta transito. Você está me ouvindo? (Ele chacoalha a menina com as mãos.) Ei? Ta me ouvindo? Acorda Susana! (Vai até o som e desliga, tenta novamente chacoalha-la e acorda-la, mas não obtém nenhum resultado. Começa a ficar desesperado, saca o celular e liga.) Alo Renata, eu vim na casa da menina que eu falei. Acho que ela esta morta que é que eu faço? (Ouve.) Como ir embora eu toquei em tudo, com certeza alguém me viu entrar, meu carro esta na porta, vai ficar parecendo que fui eu que matei ela. (A luz muda para o consultório médico.)



MÉDICO- (Abrindo a porta.) Olá dona Sonia, faça o favor. (Ele dá passagem uma senhora que entra com uma pequena cadela.)



SONIA- Olá doutor Cássio. (Os dois sentam à mesa do médico, a paciente segura a cadela no colo.)



MÉDICO- Você parece ótima, como andam as coisas?



SONIA- Eu não poderia estar melhor.



MÉDICO- Pois então?



SONIA- O problema é com a Monique.



MÉDICO- Monique?



SONIA- Sim. Ela vem sentindo dores e não está comendo direito. Talvez tenha sido por causa do fim de semana que estive fora, pensei que ia passar quando eu voltei, mas na verdade Monique piorou.



MÉDICO- E onde esta ela?



SONIA- Ela quem doutor?



MÉDICO- Monique.



SONIA- O senhor está se sentindo bem?



MÉDICO- Quem eu?



SONIA- Estou achando o senhor meio confuso.



MÉDICO- Desculpe dona Sonia... Não estou realmente me lembrando, Monique é sua filha? Neta?



SONIA- Neta? Como ela poderia ser minha neta.



MÉDICO- Desculpe claro. Agora lembrei a sua filha Monique. (Ri.) Estava brincando, claro a Monique. Onde ela está?



SONIA- (Sem entender.) Aqui no meu colo.



MÉDICO- (Parando de rir.) A cachorrinha é Monique? (A luz troca para a sala de visita.)





RAPAZ- Espere Renata estou ouvindo alguém chegando. Acho que pode ser o assassino. (Ele desliga e se esconde atrás do sofá. A porta se abre e entra uma outra garota.)



GAROTA- (Vendo Susana aparentemente dormindo.) Susana! O que é que você esta fazendo? Não vinha um p.a. hoje aqui? (Vai até Susana e a chacoalha.) Susana acorda? Cadê o tal de Paulo? (O rapaz sai da trás do sofá.)



PAULO- Como você sabe o meu nome?



GAROTA- Que susto. O que é que você está fazendo ai atrás?



PAULO- Me escondendo não sabia quem poderia ser. (Garota vê Susana que continua dormindo.)



GAROTA- Por que a Susana não acorda?



PAULO- Não sei acho que ela morreu.



GAROTA- (Em pânico.) Não me mate por favor, pode me estuprar mas não me mate!



PAULO- Mas não fui eu. Quando eu cheguei, ela já estava morta, achei que você poderia ser o assassino.



GAROTA- Morta? Você já revistou a casa?



PAULO- Você vem comigo, revistar?



GAROTA- Não é melhor chamar a polícia. (Pega o celular.)



PAULO- Não! Espera, eles podem achar que fomos nós.



GAROTA- Tem certeza de que ela está morta?



PAULO- como é que eu posso ter certeza, nunca vi um morto, quer dizer um morto novo. Já vi avó e avô morrerem, menina eu nunca vi.



GAROTA- Tem um consultório médico vizinho, bem aqui do lado, muro com muro poderíamos leva-la até lá. (A luz volta para o consultório do médico.)





MÉDICO- Impossível! Isto não é uma clínica veterinária. Peço para a senhora se retirar.



SONIA- Vou denunciá-lo a sociedade protetora dos bichinhos além do que para mim Monique é gente. (A cachorra começa a se sentir mal, ou melhor a atriz finge que a cachorra esta mal.) Meu deus a Monique não esta bem, o senhor tem de operá-la imediatamente.



MÉDICO- Operá-la? Mas ela nem foi examinada. (Levanta e vai abrir a porta, Sonia puxa um revolver da bolsa.) Mas o que é isso? A senhora é maluca?



SONIA- O senhor é um médico e vai fazer o que eu estou mandando. Vai rasgar a barriga desta cachorra!



MÉDICO- Mas isso vai mata-la?



SONIA- Problema dela, já dei purgante ela não devolve a jóia que comeu. Eu tenho um casamento hoje e pretendo usar este anel na festa à noite. (Dá uma faca ao médico.)



MÉDICO-(Ainda relutante.) Cortar a pobre cachorrinha, que crueldade vamos esperar um pouco mais logo ela vai ao banheiro.



SONIA- Não há tempo, ainda tenho ,de ir ao cabeleireiro me maquiar. Vamos pegue um bisturi ou uma faca.



MÉDICO- Onde eu vou conseguir uma faca?



SONIA- Este abridor de envelopes em cima da mesa deve servir. (Médico pega o abridor de envelopes, Sonia coloca a cadela em cima da mesa. Médico fica parado acreditando que Sonia vá desistir da estupidez.) Vamos eu não estou brincando! (Aponta o revolver. Médico vai cortar a barriga da cadela quando surgem Paulo e a garota carregando Susana.)



GAROTA- Desculpe doutor, mas acho que minha amiga não esta bem. (Paulo vê Sonia armada e solta os pés de Susana.)



PAULO- A assassina!



SONIA- Vocês dois fechem a porta e entrem.



MÉDICO- Meu deus o que houve com sua amiga?



PAULO- Quando eu cheguei, ela já estava assim.



GAROTA- Eu não vou agüentar. (Desmaia.)



MÉDICO- (Para Sonia.) Eu preciso examinar esta garota. (Aponta Susana.)



SONIA- Ache o anel e você cuida dela. (Celular de Sonia toca. Ela atende.) Oi Marquinhos. Eu sei estou no transito, mas estou chegando. (Ouvindo.) Não segura a minha vez, pelo amor de deus. Um beijo. (Para Paulo, apontando a arma.) Vamos era o meu maquiador, não posso me atrasar, você abre a barriga da cachorra e o médico examina a garota.



MÉDICO- Qual das garotas?



SONIA- Sei lá a que já chegou desmaiada. (Médico dá o abridor de correspondência a Paulo e vai examinar Susana.)



PAULO- Mas por que você quer matar a cachorrinha?



SONIA- Chega de pergunta! Vamos logo enfia na barriga da cadela! (Toca o celular de novo. Sonia atende.) Oi Marta, vamos. (Ouve.) Eu sei estou atrasada daqui a pouco era para estar na igreja. (Paulo enfia faca na barriga de Monique que geme.) Deixa eu ir que o marquinhos esta me esperando para maquiar. (Vai guardar o celular na bolsa.) Para tudo. Que é isso. (Tira o anel da bolsa.) Estava aqui o tempo todo. (Olha a cadela toda ensangüentada. Para Paulo.) Isso não vai ficar assim, sabe quanto custa uma cachorra igual à Monique seu cretino? (Levanta guarda a arma e sai correndo. O médico e Paulo trocam olhares.)



MÉDICO- Que louca. (Para Paulo.) Sua amiga não morreu. (Pausa.) Ela abusou de algum entorpecente. (Susana levanta e começa a dançar.)



PAULO- Já a cachorra acho que eu... A matei. Que horror. (Chora.)



MÉDICO- (Tentando recobrar a garota amiga da Susana.)



GAROTA- (Acordando.) Nossa onde eu estou. (Vê o anel que Sonia na correria deixou cair.) Que anel é esse? (Médico pegando o anel.) Que tonta.



PAULO- Doutor, muito obrigado. Acho que nós vamos indo.



GAROTA- Precisa marcar um retorno? Exame?



MÉDICO- Se algum de vocês voltar a ter algum sintoma marque com minha secretária.



PAULO- Acertar?



MÉDICO- Tenha bondade, com a minha secretária.



GAROTA- (Da porta com Paulo e Susana saindo.) Obrigado doutor. (Vozes em off.)



GAROTA- Bonito, o p. a. vem te visitar e você esta doidona Susana?



PAULO- Afinal o que é p. a?



AS DUAS JUNTAS- Pinto amigo. (Risadas.)



MÉDICO- (Pega Monique joga em uma gaveta. Telefone toca.) É... Cobre duas consultas e marque um retorno. Pode mandar entrar o próximo. (Olha para o anel.) Minha mulher vai adorar esse anel.



(Pano.)

São Francisco e a loteria

Personagens:


Amante

Poeta

Empregada

Marido

Esposa



Cenário: Rua, numa noite de inverno.



(Um homem está aguardando uma mulher casada para um encontro. Ele hora sopra as mãos e tampa as orelhas, hora coloca as mãos no bolso da calça.).



AMANTE- Onde está ela? Que gelo! (Se movimenta de um lado para o outro, para tentar passar o frio.) Marcou comigo às dez horas e já são dez e meia. (Tenta fazer uma ligação no celular.) Inútil esta desligado. (Guarda o celular). Vou-me embora. (Faz o movimento de ir, mas logo para.) Ah, não essa mulher vale a pena. Tem uns peitos, uma bunda e depois o melhor de tudo, é casada. Parece que o marido não dá no coro, então eu entro em ação. (Ri.) Até hoje nunca tive um problema com marido corno, acho que eles finalmente estão ficando mansos com a modernidade. Vivemos uma época de ouro, onde se pode realmente sair com mulheres casadas, o que é ótimo, pois não temos o dever de ligar no dia seguinte nem nos preocupar com os maridos cornos. Ainda mais eu que não posso ver sangue que desmaio. Não nasci para agressividade física, só para o amor. (Um vendedor de poesia se aproxima.).



POETA- Gosta de poesia? Quer ver um trabalho meu...



AMANTE- Não odeio, e dá licença que eu estou esperando alguém... (Vê alguém vindo.) Mas quem é essa louca que vem correndo? (Vendedor de poesia se afasta.) Será que é Pauline? (A empregada de Pauline entra correndo e ofegante mal consegue falar).



EMPREGADA- Salve-se meu senhor! O marido da patroa descobriu tudo e esta vindo para cá, logo aí atrás! (Sem parar passa correndo e sai de cena).



AMANTE- O marido? (Empregada sai de cena, o amante olha em volta.) Para onde eu fujo? (Vendedor de poesia dá de ombros.) E agora o que será de mim? (Corre pelo palco.) Onde eu me escondo? (O marido entra correndo no palco e para, respira, pois esta quase sem fôlego, ele é visivelmente mais forte e agressivo do que o amante).



MARIDO- (Se repondo.) Você? (Olha para o amante que agora disfarça).



AMANTE- Pois não?



MARIDO- Quero falar com você, sobre Pauline. (Amante tenta fugir, mas marido o segura pelo ombro).



AMANTE- Não é nada do que o senhor está imaginando, eu na verdade sou um primo distante de Pauline...



MARIDO- Filho da tia Márcia?



AMANTE- Isso filho da tia Márcia.



MARIDO- Eu detesto a tia Márcia.



AMANTE- Eu sou maquiador...



MARIDO- Eu sou engenheiro civil, e daí? A conversa é outra primo.



AMANTE- Lamento, foi bom te conhecer, eu tenho uma cliente agora...



MARIDO- Eu não estou aqui para te agredir, eu sou um corno manso.



AMANTE- Como é que é?



MARIDO- É isso que você ouviu, eu sou um corno manso.



AMANTE- (Mais confiante e menos medroso.) Sei e em que eu posso ajudá-lo?



MARIDO- (Tira umas contas do bolso.) Está aqui oh! (Começa a dar as contas ao amante). Condomínio, seguro saúde, (Amante vai pegando as contas sem entender), cartão de crédito, celular...



AMANTE- Setecentos reais de celular?



MARIDO- Por que achou muito? Mês passado foram novecentos.



AMANTE- Novecentos?



MARIDO- E mês que vem vai ser mais, depois do feriado que vocês vão passar em Buenos Aires.



AMANTE- Mas o que significa tudo isso? De quem é esse celular? Essas contas?



MARIDO- Como de quem? De Pauline, quem mais? Quer dizer agora são suas e dela.



AMANTE- Como assim?



MARIDO- Eu estou caindo fora.



AMANTE- Como assim?



MARIDO- Fique tranqüilo, foi algo que eu refleti muito, não tem nada a ver com vocês. É uma decisão, claro que você vem em boa hora. Facilita, aí nessas contas. (Continua a tirar contas do bolso.) Clube, prestações do carro, (Para e olha o boleto bancário), puta carro caro! To vai pegando.



AMANTE- Mas... Nós só saímos uma vez. Você pode continuar com ela, eu não vou querer essas responsabilidades.



MARIDO- Tente entender, eu e Pauline não combinamos. Ela não vai ao cinema comigo.



AMANTE- Só por causa disso? Vá sozinho.



MARIDO- Mas é essa a idéia. Eu queria tanto ter visto “Tropa de elite 2”.



AMANTE- Eu assisti, gostei.



MARIDO- (Agora sem ouvir, só desabafando.) A exposição do Nuno Ramos que ela não me levou, o show do Geraldo Azevedo. Sem falar em outras coisas.



AMANTE- Ah é. Quais outras coisas?



MARIDO- A verdade é que Pauline é uma pessoa muito materialista. Já eu dou valor a outras coisas, jantares românticos... (Para o amante.) Você cozinha? Gosta de literatura?



AMANTE- Bem... Eu li um livro uma vez, não lembro o nome agora e faço bons sanduíches.



MARIDO- Sanduíches?



AMANTE- Saladinhas vez ou outra.



MARIDO- Sabe, eu tenho um sonho. Você pode até achar bobagem, como Pauline acha também.



AMANTE- E o que é?



MARIDO- (Com água nos olhos.) Eu gostaria de... Sabe aquele sonho de... Como eu posso explicar?



AMANTE- Não se acanhe, pode dizer.



MARIDO- Casar na Igreja. Eu gostaria de casar na igreja e de ter filhos sim senhor. (Entra o vendedor de poesia.)



POETA- Carlos?



MARIDO- Olha se não é o Guilherme.



POETA- (Dando um abraço no marido.) Carlos! Sumiu lá do Sarau, todo mundo ficou sem seu contato.



MARIDO- É que eu casei. Mas agora vou voltar... Descasar.



POETA- Ah que ótimo, anda escrevendo? (Entra Pauline, ela é só sorrisos logo atrás vem a empregada também só sorrisos).



PAULINE- Carlos, eu preciso te dizer algo.



MARIDO- Oh Pauline este é meu amigo Gui do Sarau de poesia.



PAULINE- (Sem ouvir). Nossa vida mudou Carlos, hoje eu descobri...



MARIDO- (Pega a mão do amante e junta com a dá mulher.) Não precisa me explicar nada já me entendi com o seu amante, ele até já assumiu as responsabilidades.



AMANTE- (Tirando sua mão da de Pauline.) Não é bem assim.



MARIDO- É assim sim. (Puxando o poeta.) Vamos Guilherme tomar uma cerveja.



PAULINE- Mas...



MARIDO- (Para todos.) Agora eu sou como São Francisco de Assis, amo o sol, a natureza e a poesia, as cabras... Sou livre... (Vai saindo.)



EMPREGADA- A patroa ganhou na loteria!



MARIDO- (Imediatamente volta.) Como é que é essa estória, Pauline?



PAULINE- É isso mesmo, ganhei sozinha o primeiro prêmio, sou uma milionária! (Pausa, todos se olham).



MARIDO- Vamos já para casa! (Vai puxá-la e o amante a segura).



AMANTE- Vai rodar o mundo, Alberto Caeiro, que esta agora é minha. (Cada um puxa um braço).



MARIDO- Pauline vamos embora! (A luz vai descendo).



PAULINE- Vocês estão me machucando.



MARIDO- É minha.



AMANTE- Você me deu. Junto com as contas. (Pano.)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A menina da classe de matemática

Eu tinha 17 anos e olhava pelas enormes janelas o frio do Colorado lá fora. Em quase um ano de intercambio eu tive uma vez só vontade de fugir para a Califórnia. Ser ator em Hollywood.


Acho que o que me impediu foi à menina da classe de matemática. Ela se sentava na minha frente. Atrás de mim e dos lados só mexicanos legítimos. Um deles Jesus (se pronuncia Resus) era um excelente aluno. Quase tão rápido nas operações matemáticas quanto o senhor Fischer. Um professor quieto e calmo. O qual era chamado carinhosamente de senhor Pescador pelos meus colegas.

Era a classe mais fraca de matemática, mesmo assim eu tinha dificuldades em acompanhar aquele “Incrível exército de Brancaleone”. Sempre odiei duas coisas na infância e adolescência: Matemática e futebol. Mas lá estava ela, tentarei descrevê-la.

Era linda. Completamente americana, dessas que saltam dos filmes de Tarantino. Era branca tendendo para o ruivo, mas sem sardas. Uma das pessoas mais simpáticas que já vi. Sorria feliz obsessivamente. E devia ser muito feliz.

Eu a achava a menina mais linda do High School. E era com certeza. Mas nunca a vi fora da classe de matemática. Nem no refeitório, nem nos corredores, nos jardins... Só uma vez a vi caminhando pela rua arborizada indo embora depois da aula. Não sei para onde.

Nunca soube o seu nome. Nunca puxei conversa. Sentia-me bem em apenas vela.

Ela emanava uma energia muito especial. Uma luz. Hoje penso que talvez tenha sido uma ilusão, uma fantasia, um delírio. Talvez ela nunca nem tenha existido.

Acabei mudando de família americana. E para a minha infelicidade voltei a freqüentar não mais a igreja protestante aos domingos e sim a católica.

Ela estava lá na classe, sorrindo para mim. Uns olhos e um jeito de fada, de santa, de melhor amiga, de espelho, de louca, de irmã, de prima, de mãe. Então num suspiro disse:

“Lio você é da minha religião”. Disse isso em inglês. “Eu te vi domingo na igreja”.

Um medo e espanto subiram meu corpo. Eu não a tinha visto na igreja. Seria ela realmente um anjo?

Eu quis dizer a ela que sempre fui católico, que no Brasil alias somos todos católicos. No fundo eu sou metade cristão ortodoxo, mas e daí? Sou batizado na católica apostólica romana.

Nesse dia me senti tão orgulhoso de ser católico. Tão feliz por deixar ela tão feliz. Os americanos são para mim uns paradoxos. Eles sabem como ninguém que dois e dois são quatro. São selvagens ao mesmo tempo em que são fanáticos, conseguem ainda ser lógicos.

Aquela menina com certeza era a América. Seus defeitos eram todos lindos. Suas qualidades inalcançáveis. Mesmo Hollywood não conseguiria mostrar aquele estado bruto de americanidade. E ela era católica. Ou ainda um delírio católico.

Por que, quem iria reunir um Pescador, um J( r )esus, um Leonardo e uma santa americana, numa aula de matemática?

Menina da classe de matemática se você foi um delírio, uma fantasia, por favor, reapareça. Não para me namorar, mas para eu ter fé.

Não fé na igreja, mas essa fé que vocês americanos tem nos sonhos. Que vocês tem na criatividade fanática, selvagem e lógica.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Paradoxo de Emília

Certa vez numa palestra da escritora Tatiana Belinky, a primeira autora e adaptadora da obra de Monteiro Lobato para a televisão, ela perguntou para a platéia:


“Vocês sabem quem era o Monteiro Lobato?”

E logo em seguida ela mesma respondeu.

“Monteiro Lobato é a Emília”.

Ontem li para a minha sobrinha a história de Ariel, uma princesa sereia que se apaixona por Eric, um príncipe. Venho aprendendo muito com minha sobrinha sobre o universo feminino. Eu não tive irmã. Sobre Branca de Neve e outras ditas princesas meninas. Aprendi que essas princesas vão à luta. No caso de Ariel, ela é quem vê e vai atrás do tal príncipe, esse que não diz ao que veio. A única qualidade dele é a beleza. Mas ela a sereiazinha fica obcecada por ele e se dispõe a qualquer prova para telo.

Eu assim como minha sobrinha me identifico muito mais com Ariel do que com o príncipe.

Certa vez no colegial eu contava as minhas inúmeras piadas para as pessoas numa roda, quando se aproximou “Boquinha”, que era um outro estudante e me deu uma cabeçada. Ele tinha o meu peso e o meu tamanho. Foi um golpe totalmente gratuito e que me pegou de surpresa, porem o coloquei no chão e quando ia dar um chute na cabeça dele, fiz tanta força que me desequilibrei e cai. A briga foi parar na diretoria.

Meu nariz, eu tenho quase certeza ficou torto desde então. Para a diretora, “Boquinha” alegou que havia me batido, pois eu era bonito, segundo ele. E ele feio, segundo também ele. A diretora se sensibilizou com o desgraçado.

Logo eu que pra falar a verdade ultimamente notei que tenho sim uma cabeça de Cearense Também minha mãe deu pra repetir isso...

“Você fala sempre do lado libanês, italiano e o cearense? Você tem vergonha?”

“Não mãe, eu não tenho”.

Ando notando também que uma das faces do meu rosto é maior que a outra. Mas sempre esqueço se é à direita ou à esquerda.

Voltando, talvez a mulher que eu mais gostei na vida, é muito mais parecida com uma Emília do que com uma princesa. Alias, eu me apaixono por meninas Emílias, por clowns e não por princesas. Defeitos, excentricidades, humor, loucura e talento me atraem.

E princesas nunca são cantoras, nem atrizes, nem bailarinas e escritoras. Não digo isso por dizer não. Penso e sinto assim.

Claro que se eu pegar uma princesa será um triunfo e quando algumas falam comigo eu travo.

Mas as Emílias... Ah! As Emílias são e sempre serão as verdadeiras protagonistas. Pouco ou nada sei sobre a Narizinho. O Pedrinho eu conheço bem até demais.

Aquele dia o “Boquinha” mentiu. Ele não me agrediu porque eu era um príncipe e sim porque eu era uma Emília. As pessoas aturam e gostam de príncipes, mas Emílias incomodam.

Aquele chute? Um príncipe não teria dado um chute no Boquinha. Mas eu não sou príncipe. Por outro lado eu sou super coordenado. Como eu fui cair? Por que eu errei aquele chute?

Bem Seu Boquinha imbecil, se você ainda estiver vivo, espero que não esteja, saiba que eu tenho 36 anos e já apanhei muito na vida. De mulheres principalmente. Mas nunca agredi gratuitamente nenhum ser humano.

E sei que muitos príncipes e sapos assim como você o fazem todos os dias.

A verdade é que eu tenho uma total indiferença por príncipes, princesas, bruxas, sapos e boquinhas.

Já as Emílias são toda a fonte do meu sofrimento. E das alegrias também.



P s: Não conheço tão a fundo a obra de Monteiro Lobato. Falo de Emília por memória de infância.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Capítulo final- Os Irmãos Chavez

Love Story

 Ela está na pista de dança da boate Love Story no centro de São Paulo. Agora é mais linda do que nunca. Não é mais aquela menina de periferia insegura e fujona. É uma mulher com estilo, com brilho, poderosa e muito, mas muito sensual.

Jair vem dançando pela frente e da um beijo em Jéssica. Entrega-lhe uma taça de champanhe e eles brindam e dançam e se beijam.

Há dez anos essa linda negra era uma menina frágil. Não fora difícil para ela enganar um delegado que por um lado era um esquerdista preocupado com a sociedade injusta brasileira, e por outro lado um bajulador de poderosos.

Mas um jovem esperto criado nos confins da ZL como Jair se refere à zona leste, ela não enganou e depois de alguns tapas abriu o jogo.

Jéssica esperava um filho de Ricardo Freitas. Gabriela soube pelo próprio Ricardo, da boca dele. Há tempos ela procurava um playboy pelas ruas de Paraty. Conheceu Ricardo antes de Duda. Mas Ricardo apesar de ser de uma família influente e prestigiosa, era um duro.

Quando ela e Duda transaram pela primeira vez, ela já estava grávida de Ricardo. Gabriela chamou a menina em casa para conversarem. Disse que ela Jéssica, deveria dizer imediatamente a Duda a verdade. Depois ainda deveria arrumar um emprego e trabalhar como ela mesma Gabriela vinha fazendo numa loja no Iguatemi. Trabalhar? Continuar pobre? E ainda ter um filho de um duro e playboy nojentinho que ela nem gostava de transar. Jéssica ainda não era uma assassina profissional por isso depois de dar as facadas Gabriela ainda agonizou horas.

Pegou o elevador de serviço. Uma outra empregada estava nele e as duas saíram juntas. Um porteiro preocupado só com a bonitinha da Gabriela e o “garoto” que entrara com ela. Nem percebeu aquelas duas empregadas negras indo embora. Jéssica com o boné na bolsa.

Jair desenvolveu uma teoria da conspiração tão realista em relação à Carla, que o delegado Fiúza foi entrando cada vez mais fundo. E sempre acreditando, mesmo sem evidencia nenhuma. Jair e Jéssica são amantes desde então.

E quando Rubens numa arrumação achou um diário antigo de Carla, onde leu confissões de ciúme em relação à amiga, caiu na mesma teoria. Acontece que Jair desconfiou o contrário. De que Rubens tivesse descoberto Jéssica. O casal teve de agir rápido. E agiram. Jéssica esperou dentro do mini cooper. Quando viu Fiúza atravessando a rua acelerou.

A música era alta e os dois amantes estavam animados na pista. Passara-se dois dias do ocorrido no Ibirapuera. Em uma mesa afastada um pouco da pista, na escuridão um homem via Jair passando a mão na bunda de Jéssica. Era Rubens. Ele pegou o telefone e ligou.

-Eles estão aqui.

Guilherme Chavez no outro lado da linha então deu a ordem ao secretário de segurança:

-Fecha o centro.

Viaturas da policia bloquearam todos os acessos à região do edifício Copan e da Love Story. Desta vez Gui não pensou duas vezes em ajudar Rubens, afinal à situação dizia tanto respeito a ele quanto a Rubens.

Na porta da boate Duda ia entrando. Mas um dos seguranças, um negro gigante o brecou.

-Você quem é?

-Átila, rei dos Hunos. –Ele sorriu.

Um outro segurança negro aproximou-se e disse:

-Algum problema?

-Desculpem, mas hoje eu não gosto de negros!

O delegado atrás de Duda mandou os seguranças recuarem e liberarem. Nisso Duda foi dar um empurrão neles. Os dois vieram bater em Duda. Porém se há dez anos Eduardo já provocava muito estrago agora então que ele estava com dez quilos mais e em forma somado com um ódio acumulado há anos, em minutos deitou os dois.

-A casa é de vocês deu o sinal o delegado que comandava dezenas de agentes a paisana.

Foi quando Cris saiu da escuridão entrou na pista, tirou um cordão de couro do bolso e passou em volta do pescoço de Jéssica apertando com toda força.

Ela era minha irmã. –Disse no ouvido de Jéssica que ia desmaiando.

Mal Jair teve tempo de reagir, Rubens levantou e deu dois tiros um em cada joelho. Cris chutou o corpo de Jéssica pra fora da pista e todos abriram espaço para Duda entrar e bater em Jair até a morte.

No enterro de Gabriela Chavez, seus irmãos choraram muito e juraram um para o outro que se vingariam do assassino da irmã, fosse quem fosse.

Ricardo Freitas, já quase careca e ainda mais duro. Abriu a porta de casa e viu um motorista dos Chavez. Ele o motorista trazia um garoto de dez anos, com duas malas.

-Seu Ricardo este é o Gabriel.

Finalmente pai e filho viveriam juntos.

Se o leitor chegou até aqui espero que tenha gostado da saga dos Chavez.

Cai o pano.