terça-feira, 12 de abril de 2011

A Trupe. Capítulo final.


  
 Às vezes eu comparo um grupo de teatro a uma banda de música pop. Temos nossas brigas, nossos rituais, nosso estilo. Só não temos o mesmo número de fãs. Já tentei fazer drama. Mas o que move minha pele e alma é a comédia.
 Sempre foi e sempre me esqueço.
 Depois de tomar nossa bebida secreta subimos no palco.
 “Vamos passar vários corridos até não podermos mais.” Duda nos orientou.
 Nas primeiras três passagens eu ainda estava mecânico, cérebro, razão. Já na quarta vi os primeiros franceses na platéia, minutos depois a casa estava cheia. Delírio absoluto. Nesta alucinação lembrei do teatro Romano porque é dela que vem a minha estrutura. Plauto.
 Napoleão estava excelente, Mari, um furacão em cena e nós outros nos agüentávamos. Foram dez horas de ensaio e delírios. Trabalhamos com a exaustão. Quem disse que teatro é fácil?
 No dia seguinte, deixamos Tiradentes em direção a São Paulo. Éramos notícia, uma notinha no jornal contava sobre a minha briga com Rodolfo. Paramos em Carrancas e passamos o dia na cachoeira. Acho que é perda de tempo contar o quanto o corpo de Mari é lindo num biquíni. Sorte de quem fosse seu amante. Sua amante provavelmente.
 De volta a São Paulo. Vejo uma vizinha na Rua. Uma menina do clube que há anos eu conheço, mas que agora estava uma mulher de 23 anos como depois eu vim saber. Eu voltava da padaria e ela passava carregando um skate.   
 “E o teatro? Como anda?” Ela arriscou.
 Partimos para um café e depois para a minha casa. Foi tudo rápido. Eu estava mesmo precisando de outra mulher. E uma bem diferente tanto de Bia como de Mari.
  Diferente como? Veterinária, menina... E novidade na minha vida amorosa. Eu já tinha colocado os olhos nela há muito tempo, e agora ela estava na minha cama. Uma molequinha.
 “Vamos ao cinema?” E fomos.
 Ligia era o que chamamos hoje em dia de underground. Amava a baixa Augusta. Acabamos na Loka.
 Dia seguinte ressaca e ensaio no Teatro do Banco Brasiliense. O lugar era ainda maior do eu imaginava e com mais funcionário também. Eu tinha um camarim só para mim. Pessoas a minha disposição e 1.200 lugares na platéia e não 800.
 A semana passou voando, ensaios e entrevistas na televisão e rádios. O cenário da Ale realmente havia ficado esplendido.
 Quarenta e oito horas antes da estréia. Bia e eu mal nos falávamos. Resolvi atender Lídia a skatista e fui ao encontro dela de madrugada, depois do ensaio.
 Acho que eu estava neste dia apaixonado. Lá pelas cinco da madrugada Duda me liga.
 “O que foi?” Pergunto temeroso.
 “Nada.” Ele diz. Pela primeira vez estava tudo sob controle. A produção eficiente, os ensaios em dia e o espetáculo pronto.
 Nossa primeira estréia fora num teatro para cinqüenta pessoas. No dia colocamos 60, muitos no chão e fomos comemorar no bar Empanadas na Vila Madalena. Só nós, e mais um ou outro agregado, namorado ou namorada de alguém. Uma mesa com cerveja de garrafa grande, foi isso.
 Cheguei ao Teatro do Banco Brasiliense quatro horas antes. Quase todos já estavam lá. Mil e duzentos lugares! Que medo.
 O terceiro sinal foi dado e as cortinas se abriram. Fiquei aliviado quando vieram as primeiras risadas. Nós loucos não havíamos feito ensaio aberto. Duda acha que dá na mesma chamar de estréia ou ensaio aberto.
 Todos estavam no seu melhor desempenho da carreira. E ao final eu vi o teatro todo nos aplaudir.
 Éramos a Trupe do Sol. Um grupo de comédia, de teatro. Ao final Bia pediu silencio e falou.
 “Hoje eu quero agradecer a seis pessoas muito especiais para mim.”
 No que nos olhamos, demos pela falta de Mari.
 Dario veio dos bastidores e pedindo para os seguranças abrirem caminho. Ele e outros técnicos carregavam Mari pelo corredor do teatro.
 Neste dia não houve festa. Estava programada uma enorme festa. Cancelemos e seguimos para o hospital.
 Mariana morreu naquela madrugada. Agüentou o mais que pode, e escondido da gente, já havia treinado uma substituta. Não queria nos prejudicar.
 Fizemos o segundo dia de espetáculo com a nova atriz em seu lugar. Veio o enterro, a missa de sétimo dia e os três meses de temporadas.
 Eu continuei vendo Ligia, a garota de 23. Rodolfo e Bia ao final da temporada voltaram para o Rio.
 Duas semanas depois saiu o resultado do prêmio Shell de um ano antes. O ano de 2009. Mari havia ganhado o prêmio.
 Comecei a receber vários pedidos de textos meus com a condição de que Bia estivesse no elenco. Eu fui ao Rio ver o nascimento do meu filho, claro. Mas depois voltei para São Paulo.
 Um grupo de jovens atores me convidou para dirigi-los. Ao mesmo tempo em que Duda me dirigiu com Napoleão e outros numa comédia de Georges Feydeau.
 A vida foi passando. Eu sempre me lembrava do dia que Bia me pegara no Santos Dumont e estava tão linda. Por que eu não disse isso pra ela?
 A Ligia acabou me largando, também eu estava cada vez mais depressivo.
 Minha campainha toca. Abro a porta e é Ale a cenógrafa. Ela tinha uma carta para mim. Explicou-me que Mari lhe pedira que me entregasse:
 “Leo mentimos pra você.”
 “Como assim?”
 “Eu e Mari já namorávamos há dois anos. Rodolfo nunca teve nada com meu irmão, simplesmente porque eu não tenho irmão. Inclusive Rodolfo é Heterossexual.”
 “Do que é que você está falando?”
 “Ela até me pediu permissão pra transar com você para você perceber... Que não havia nada a ser feito. Ela fora apaixonada por Beatriz sim. Disse-me que no início tinha grandes ambições e só aceitou entrar no grupo porque fora chamada por Beatriz. Depois mais velha ela percebeu que você talvez tivesse sido o mais talentoso do grupo e não ela. Enfim... Mari queria fazer um texto seu sim, mas também queria que você e Bia se entendessem. Ela falava às vezes com Rodolfo e Frederica, logo sabia que Bia e Rodolfo não estavam mais juntos. Todos nós fizemos um pacto para tentar unir vocês de novo. Seu filho é um esforço quase que de toda a Trupe. O tonto do Matheus quase colocou tudo a perder. Esta carta aqui prova isso. Ela disse que se vocês continuassem juntos eu não deveria dar-lhe a carta. Mas como vocês não estão. Tome”.
 A carta de Mari dizia:
 “Leo, a fé da Trupe é o seu amor por Bia.”
 Depois páginas e páginas relembrando nossa trajetória e tentando me convencer do meu amor por Bia.
 Abracei Ale, chorei dois dias e a vida voltou ao normal. Recebera um outro convite para voltar a fazer palhaço, na verdade um show de Clown.
 Um dia ligo para um amigo ator: “Vamos beber uma cerveja?”
 “Leo, eu estou indo numa festa, quer ir?”
 Fomos. Era na casa de uma conhecida dramaturga e seu marido diretor. Umas duzentas pessoas. No alto da Lapa. No jardim rindo alto e de vestido verde vi uma figura linda, com pessoas em volta. Quando ela virou o rosto eu reconheci a mãe do meu filho.
 Ela veio falar comigo:
 “Você engordou.”
 “Você está linda.”
 “Onde está a menina veterinária?”
 “Você sabia dela?”
 Bia deu de ombros. “Claro que sabia.”
 “Não estamos nos vendo mais. E você? Como está o Francisco?”
 “Parou de mamar finalmente. Não se preocupe ele está com uma babá e a minha mãe.”
 “E ele está bem? Digo... Eu morro de saudades. Posso velo amanhã”.
 “Leo agora você vai poder velo quando quiser. Eu mudei para São Paulo!”
 “E nem me falou?"
 " Estou dizendo agora.”
 Continuamos ali, bebendo cerveja, falando de teatro. De cinema, de comida e até política. Entre as árvores.
 “Leo, se eu nunca te disse isso, lá vai... Você é o melhor amigo que eu tive.”
 “Tive ou tem?”
 “Fazemos assim, amanhã vá à casa da minha mãe nos ver. Almoçar, combinado?”
 “Combinado.”
 Já ia indo embora e ela me parou:
 “Aquela nossa cenógrafa a Ale...”
 Eu sorri. “Que é que tem?”
 “Ela também te deu alguma carta por estes dias?”
 Ao invés de responder, eu me aproximei de Bia, olhei nos olhos dela. Nossa como ela é linda! E nos beijamos.
 Fecham-se as cortinas. 

sábado, 9 de abril de 2011

A Trupe. Capítulo 10


As Minas Gerais

Na estrada vendo as árvores e todo aquele verde comecei pensar sobre a peça, não só a montagem, mas meu texto também. Qual foi a primeira vez em que eu ouvi falar em São Francisco de Assis?
 Não leitor, não se trata de um texto religioso ou mala, eu parti de São Francisco para falar de amor, amizade e principalmente política. Francisco de Assis tinha um jeito especial de fazer política. Era um subversivo pacifista, vegetariano, incentivador da sexualidade, do respeito à ecologia... Enfim ninguém é tão atual. Poderia ser Tiradentes, mas era Francisco de Assis. Será que teríamos tempo de visitar as cachoeiras de Carrancas? Cidade próxima a Tiradentes e um parque, reserva florestal com dezenas de cachoeiras.
 Na estrada Duda começou a ficar insuportável proibiu todos de fumar, o que eu achei ótimo. Acontece que ele também proibiu carboidratos, bebidas e qualquer outra droga até a estréia. A não ser o "chá" que tomaríamos em Tiradentes. O que me deixou puto, porque estávamos em Minas e eu queria comer e beber todas aquelas coisas que sobem o colesterol, mas que por outro lado me fazem tão feliz.
 Bem da verdade, ninguém estava mais aturando ninguém. Natural, já tínhamos matado as saudades e convivência em excesso é difícil. Uma hora as desavenças começam.
 E Duda é louco, não esqueçamos disso. Ele começou colocar uma disciplina tal, que até os soldados do Bope se submetidos a ela, iriam pedir para sair.   
 Na recepção do hotel, Bia foi imprevisível. Puxou Mari e disse que as meninas ficariam no mesmo quarto. Às vezes eu sou mesmo um cretino:
 “Quem tem mais de trinta anos não é menina, vamos combinar?”
 “Agora ele está assim Mari. Anteontem fomos a um vernissage e ele ao invés de me elogiar... O meu vestido verde e tal... Disse-me que verde só cai bem na natureza”.
 “Você falou isso para ela Leo? Seu babaca.”
 As duas me olharam como se eu não fosse também um ser sensível às palavras delas. Porque elas podem dizer o que querem e eu não? Também custava  ter sido menos orgulhoso e dizer para a Bia que ela era linda? Mas também para que? O Brasil inteiro já dizia isso para ela.
 A piscina do hotel boutique era sensacional e foi para lá que eu fui. Eu não ia ficar no quarto com o Rodolfo. Conversar o que com ele? Era um dia off, também horas na estrada.
 Foi só o sol se por, que eu e Napoleão fomos beber cachaça. Fugidos claro. Depois já bêbados encontramos todos num excelente restaurante estrelado da cidade turística. Não sei o que eu falei, também não era o único inconveniente da noite. Mas a porrada do Rodolfo me pegou em cheio. Tudo ficou preto e eu fui direto para o chão.
 “Você não vai falar assim com a Bia na minha frente! Ela foi minha mulher durante oito anos seu cretino!”
 Leo quando você vai achar o meio termo, ou você é o cara mais doce do mundo ou você é o cara mais amargo da terra. Acabei no quarto do Napoleão. Frederica mudou-se para o quarto de Rodolfo. E todo mundo se xingou e acabaram todos bebendo e Matheus gravando tudo no vídeo.
 De manhã no café, eu estava sozinho na mesa e Mari chegou. Ficamos quietos por algum tempo, ela riu.
 “Caiu ontem igual dragão de papel, me mata de vergonha.”
 “Mari, o Rodolfo é bem grande já reparou?” Continuamos comendo os pães de queijo sempre, olhando para ver se o Duda não aparecia. No fundo tínhamos medo é do Duda.
 “Sei...” Depois de um silencio, ela falou ainda:
 “Ela me disse que você gosta de mim. Você falou que me ama para a Bia?”
 “Eu não amo nem ela e nem você.” E concluí por último. “E nem mulher nenhuma.”
 “Nem aquela cantora que te largou por um músico?”
 “A cantora não me largou, quer dizer ela foi morar com o músico dela. Acontece que eu achei ótimo. E você Mariana há quanto tempo está abandonada sabe-se lá por quem?”
 “Talvez eu tenha um amante secreto. Alguém conhecido, uma pessoa pública que não possa se assumir.”  
 “Pessoa pública, tipo uma cenógrafa carioca?”  
 “A Ale é arquiteta. Rolou uma noite e só.”
 Nós dois rimos.
 “Vai dizer que você não comia Leo?”
 “Mari eu já transei com tanta gente nesta vida...”
 “Comigo eu não lembro. Transamos?”
 “Tudo tem uma primeira vez. Mas eu não transo com meus amigos.”
 “E com as amigas?”
 Aquilo estava ficando tão aborrecido. O problema não era a falta de vontade nem de transar com Mari e nem com Bia. O problema é que eu não sabia qual de verdade eu queria. Eu queria as duas, e percebia que elas queriam que eu desejasse só uma. E quanto mais eu demorasse, mais elas iam deixando de gostar de mim.
 Definitivamente elas não me entendiam. E eu para me salvar me agarrava numa máscara machista, cruel e monótona.
 Antes de eu me desentender de vez com Mari e isso seria a sim a primeira vez, nós nunca tínhamos brigado, Duda apareceu e começou a nos xingar e dizer que deveríamos comer frutas e queijo branco. Um hóspede um homem de uns cinqüenta anos e jeitão de turista americano, ainda brincou e disse que ali não era SPA e nem eu, nem Mari éramos gordos. Duda disse:
 “Eles não, mas o senhor é e bem gordo”. Depois ainda jogou suco no hóspede.
 “Nos meus atores mando eu!”
  Realmente estávamos todos a flor da pele. Seguimos para "cerimônia".
 Em frente à fonte e logo mais adiante o Teatro barroco. Nós nos olhávamos. Dez anos depois e estávamos de volta. Faríamos um ensaio para uma platéia de franceses do século dezoito que só nós poderíamos enxergar.
 Rodolfo veio me abraçar e pedir perdão. Com aquele gesto todos suspiraram e demos as mãos. Foi bonito da parte dele. Uniu a Trupe. 
 O administrador do teatro veio e disse que estava tudo a nossa disposição.
 “O teatro está pronto.”
 Frase que eu não entendi, porque naquele instante eu só entendia francês.
 Mágica? Veremos.   
   

A Trupe. Capítulo 9


 Papagaio de pirata.

 Bia ficou de me pegar no aeroporto. Mas quando cheguei ao Santos Dumont, nada dela. Meu celular toca.
 “Você não me reconhece mais?”
 Olhei para frente e vi a uns dez metros uma mulher incrivelmente linda. Cabelos, pele, peitos, num vestido verde e por um segundo pensei: “Conheço essa atriz”.
  Era ela Bia. “Temos um vernissage para ir.”
 E fomos eu e ela. Chegando à galeria, várias pessoas vinham fotografar e falar com ela. Eu tentava participar, mas parecia que o que eu falava não tinha importância. As pessoas se concentravam nela.
 Uma luz se ascendeu forte e uma repórter de TV veio entrevistá-la. Eu tentei sair de perto, mas ouvi a repórter dizer: “Pode ficar aqui junto.”
 Saindo da galeria, ela disse que tínhamos ainda um outro evento para ir. Era a comemoração de um espetáculo de globais num restaurante. O espetáculo estava novamente estreando no Rio.
 Eu não sabia a que horas eu deveria sair do lado dela, ou se deveria ficar com ela para as fotos. Até que uma hora depois.
 “Leo, nós precisamos conversar.”
 Sim eu concordei. Vamos ter um filho. Será que vamos casar? Eram várias dúvidas e soluções que precisávamos tomar, juntos.
 Neste dia percebi que existiam três mundos na minha vida, e foi o que eu disse a Bia.
 “Um mundo da criação, aonde tudo flutua. Eu escrevo, eu atuo. Durmo feliz, tudo fica mais bonito, o mar, as árvores, a cidade. Mas tem o mundo das contas, do dinheiro, tudo fica um horror, os dias são iguais, tudo é barulhento e insuportável. E hoje descubro este terceiro, que é o seu. Todos são prestativos, tudo é fácil, comemos de graça, em lugares bonitos, o seu carro é confortável, seu cabelo macio, e é como se eu fosse à esposa. Entende?”
 “E isso te incomoda? De eu ganhar dinheiro e você não? De eu ser bem tratada, idolatrada, ser uma pessoa pública?”
 Como eu responderia a isso? A palavra é famoso. Leo você gostaria de ser famoso? Claro que sim.
 “Eu te admiro Bia. E quero que o meu filho nasça parecido com você.”
 “Leo eu confesso que durante um tempo eu amei esta vida. Esse reconhecimento, esse conforto. Mas eu estou com medo. Porque este tempo já durou muito. Outras meninas virão. E eu há muito não subo num palco. Isto me apavora. Porque agora vai ser diferente. Não é como antigamente. Agora todos vão estar lá vendo cada deslize meu. E fora tudo isso eu estou grávida de um homem que nem sei se gosta de mim. Que nem sei se ele sabe o que ele quer da vida. Seja em relacionamento amoroso, ou da vida profissional.”
  O que mais eu poderia querer? A verdade é que Bia era alguém de sucesso. E eu? Será que ela me admirava? Será que toda essa coisa de voltar a fazer teatro, não era só uma folga daquele terceiro mundo? Ela pegou na minha mão, estávamos agora num bar, no Baixo Leblon.
 “Leo, ou você se resolve com a Mari, ou você se resolve com a Mari. Morar nós três juntos não vai dar.”
 “Do que é que você está falando? Eu e a Mari? Ficou louca?”
 “Resolva. Boa noite.”  
 E me deixou ali sozinho. Vai ver todo aquele mise en scene de evento e vernissage, era só para me mostrar o quanto ela era poderosa. E era mesmo.  
 No dia seguinte quando cheguei no ensaio estavam todos exaltados. Napoleão se aproximou de mim e disse: 
 “Faça a mala estamos indo para Tiradentes.”
 Rodolfo discutia com Dario o produtor que havia vindo de São Paulo. Falavam sobre o patrocínio do Banco Brasilense. Um patrocínio milionário.
 “Mas a produção do Teatro ao Lado já sabe do patrocínio?” Perguntou Bia ingenuamente.
 “E o que é que eles têm com isso?”
 “São nossos parceiros”.
 “Nós não vamos mais estrear no Teatro ao Lado.” Falou Rodolfo.
 “Não?” Eu perguntei no que Napoleão que parecia a par de tudo disse:
 “Não.”
 “Nós vamos estrear em São Paulo.” Desta vez foi Rodolfo. “No teatro do Banco Brasiliense.”
 Todos ficaram perplexos com a notícia.
 “Mas são oitocentos lugares!” Exclamou Duda.
 “Tanto melhor, se divertiu Rodolfo.”
 Eu adorei a novidade, afinal a Trupe era de São Paulo, nada mais natural.
 Rodolfo havia brigado com a administração do Teatro ao Lado. Coincidentemente abriu uma janela no Teatro do Banco Brasiliense em São Paulo. Eles se entusiasmaram muito com o nome de Bia no elenco. E resolveram não só patrocinar, como ainda colocar a produção do teatro e a assessoria de imprensa a nossa total disposição. Ale, nossa cenógrafa, embarcaria naquela noite mesmo para São Paulo.
 Tudo estava sendo resolvido com uma rapidez tremenda, só um detalhe nos deixou ansiosos, não digo preocupados, mas ansiosos.  
 A data deles em São Paulo é um mês antes do nosso cronograma aqui do Rio.
 “Meu Deus!” Exclamou Duda.
 “Nós conseguimos! Ou melhor, conseguiremos!” Fui rápido.
 Só sei que dois dias depois estávamos numa van, nós sete integrantes da Trupe, somados ao jornalista Matheus, que gravava tudo com uma câmera a caminho de Tiradentes, Minas Gerais. Numa manhã de céu aberto. 
 Estávamos a dez dias do dia D.  

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Trupe. Capítulo 8


 Comédia ou drama?

 “Vocês estavam quase lá.”
 Foi o que Matheus disse enquanto tomávamos chopes, nós dois no Bar Balcão.
 Duda nos havia dado dois dias de folga. O espetáculo estava indo muito bem. É uma delicia para o autor quando o que ele imaginou começa a tomar forma. Será que um arquiteto sente o mesmo?
 Resolvi aproveitar e dar um pulo em São Paulo.  Matheus estava com uns trinta e poucos anos. Agora além de professor, teórico e pesquisador de teatro, ele também escrevia para vários lugares. Jornais e revistas.
 “Leo, vocês formaram um grupo no qual ninguém era a estrela. Foram jovens que se juntaram aleatoriamente. De repente começam a trabalhar, são apaixonados incondicionalmente por teatro, pela vida e por vocês mesmos. E então, com a mão na maçaneta, só precisavam girar e abrir a porta, mas ao contrário, desistem. 
 E ficam separados por dez anos. Cada um segue um caminho. Bem da verdade. Mari decola a carreira, Bia e Rodolfo ficam ricos e famosos, Frederico se vira muito bem em musicais. Napoleão trabalha muito, mas só faz porcaria. Você e Duda ainda tentam outro elenco, e é constrangedor de ruim. Por fim um dia resolvem voltar. Dez anos depois. Por incrível que pareça ainda são jovens, por incrível que pareça eu também ainda sou jovem e acredito que vocês podem fazer história. Não só pela formação talentosa do grupo, mas pela fé que vocês têm. 
 Vocês fazem um teatro que não é clássico, graças a você Leo. Que não é experimental graças ao Duda. Que não é canastrão, graças a Mari que é quem puxa a interpretação. Que tem um fôlego e disciplina graças aos outros quatro. E que tem uma das atrizes mais carismáticas dos últimos anos. Quem já viu Bia em cena, e faz tempo que não vemos, pode falar isso.
 Por isso digo que esta é a sua chance Leo. Talvez você não seja um grande dramaturgo, mas é o dramaturgo da Trupe e você escreve para eles. Talvez o meu livro sobre vocês também de certo. É isso que veremos em poucos dias, por isso não percamos tempo.”
 Aquilo tudo que Matheus disse, me fez bem. Há anos eu não era ninguém e agora me sentia igual quando comecei teatro. No meu primeiro trabalho.
 O Bar Balcão fechou e fomos nós dois para o Filial. Saímos do chope e entramos na cachaça. Matheus me contou do musico que ele estava saindo e eu acabei contando sobre Bia. O agora jornalista ria.
 “Você sabe Leo que eu monitoro vocês todos. Já faz muitos anos.”
 Claro que eu sabia. A da obsessão dele por Tiradentes, pela Trupe de Azul, por Bia... O que eu não sabia é que ele, Matheus, talvez soubesse mais de mim do eu mesmo.
 “Não é porque ela é Bissexual, que ela não possa te amar.”
 Depois disso pedi que ele me explicasse do que se tratava aquilo. Claro que ele se referia a Mari. E se ele tivesse razão? Na porta da casa de Matheus, ele ainda disse:
 “Bia é a mulher ideal, Mari é a que você ama de verdade.”
 Aquilo tudo me atordoava. Primeiro porque Mari para mim não era uma mulher, era, mas também não era. Como Fred era Frederica. E bem possivelmente, por ela, Mari, não ser uma mulher dita “comum” fosse o motivo de eu me interessar. Ou por amá-la.
 Acordei de manhã e segui para a piscina do clube. Prometi para mim mesmo.
 “Hoje nada de pensar nem em mulher e nem em teatro.”
 Foi a aí a minha triste constatação: Eu não sei pensar em outra coisa. Drama ou comédia? 
 Nem uma coisa nem outra. Feijoada e Fernando Pessoa. E o sol brilhava naquele sábado na cidade de São Paulo. 
 Abri o jornal passei os olhos e vi a parte de teatro. Me deu uma saudade deles. Delas. E se eu fosse assistir a uma dança? 
 Acabei indo ver Tchekcov, nem drama e nem comédia. 


terça-feira, 5 de abril de 2011

A Trupe. Capítulo 7


 Trianglinho francês.

 De manhã observava Mari tomando café, enquanto eu via as notícias do nosso novo projeto em vários sites e blogs.
 “Demos à partida!” Eu disse.  
 Mari estava mais interessada na minha noite com Bia do que nas notícias. Eu falei que tinha sido tudo muito bom. Incrível eu gostar de uma mulher da minha idade, geralmente eu gosto das mais jovens, mas com Bia era diferente, parecia que ela ia ficando melhor, cada vez melhor.
 “Mas me diga uma coisa Mari quando foi que você aprendeu francês?”
 “Eu não aprendi, eu não falo uma única palavra de francês, mona mour.”
 “Acontece que ontem você falou frases e frases em francês, enquanto dormia.”
 “Leo que obsessão, já vai falar em Tiradentes de novo!”
 “O Matheus ligou ontem. Ele já sabe de tudo.”
 Matheus há uns dez anos está escrevendo um livro sobre a Trupe do Sol. Junto com a nossa pequena história ele faz um panorama ou ainda uma comparação com a Trupe de Azul do século 18. 
 Sim ambas começaram o seu repertório com Molière. Ambas as Trupes ficaram uma década com os seus membros separados e ambas voltaram.
 Com a diferença que a Trupe de Azul é talvez a companhia de teatro mais conhecida da Europa durante todo o século 18.  Ou seja, uma delícia para um pesquisador e uma total falta de significado para qualquer leigo ou mesmo não leigo. Acontece que sempre há um.... Porém. Existe nisso tudo uma linda história de amor na Trupe de Azul.
 Vou resumir esta história, um jovem aristocrata, se envolveu com uma mulher casada em Paris e teve de fugir. Acontece que o marido ficou tão irado com o próprio corno, que perseguiu o causador, Jean Baptiste, mesmo pela província,
 Numa Vila quase prestes a ser capturado pela polícia e pelo marido da amante, ele conhece uma atriz. Armande Bejart. E é Armande que leva Jean Baptiste para a Trupe de Azul.
 Ele teve de se transformar num ator para salvar a própria vida. E tomou tamanho gosto pela atividade que ainda passou a ser diretor e autor da trupe de Azul. Casou com Armande e teve três filhos com ela. Mas certa vez descobre que seu antigo inimigo havia morrido e ele retorna para Paris em busca de sua antiga amante Violette. Abandona a Trupe e fica dez anos sem ver Armande.
 Verdade é que quando a Trupe retorna Jean Baptiste, segundo as pesquisas de Matheus, já não sabia se amava Armande ou Violette.
 No dia seguinte Duda colocou todos para correr no calçadão de Ipanema. Napoleão foi o que teve mais dificuldade, estava já bem gordo. Rodolfo disparou na frente. Muita água de coco depois e a noite nós começamos a leitura do texto.
 Os ensaios foram aumentando. Começamos a levantar as cenas. Passaram-se dias, depois semanas.
 Tínhamos alugado um apartamento no Flamengo, metade do elenco ficava lá e a outra metade na casa da Bia. Mari logo se tornou muito próxima de Ale a cenógrafa.
 “Leo acho que estou me interessando de verdade por ela.”
 “Como assim e o Rodolfo?”
 Aí foi Frederica quem respondeu: “Será que você é o único que não sabe que o Rodolfo está é com o irmão dela?”
 Acho que eu era o único sim. O Rodlfo? Eu pensei. Achava que o Rodolfo era hetero.
 “E tem hetero no teatro Leo?” Todos perguntaram. E já que estávamos numa mesa. Todos felizes, os sete. Foi Duda quem disse depois do almoço na casa da Bia.
 “Falta uma criança nesta família.” Todos permaneceram e silencio concordando com a cabeça.
 “Por pouco tempo Eduardo, eu estou grávida.” Bia disse isso olhou para os outros e começou a tirar os pratos.
 Todos deduziram que se Bia estava grávida, o pai era eu. Levantaram-se e metade dava os parabéns para ela e metade para mim. Eu pai? Me apavorei.
 Mas daí eu pensei, é da Bia, a mulher que eu amo. Mas quando Mari veio me abraçar, eu de novo tive dúvidas. Mari estava maravilhosa este dia.
 Meu conflito era grande. Ou começou a ficar. Tempos depois, Matheus, como eu era talvez o mais interessado no seu trabalho, me revelou novas descobertas da sua estadia na França.
 Tanto Armande como Jean Baptiste eram apaixonados por Violette. E Viollete também era atriz. O famoso triangulo. Ou como Sartre chamava: “Entre quatro paredes”.
 Será que é filho ou filha?  Foi o que eu pensei enquanto ria de felicidade. Porque eu estava com as pessoas que eu mais gostava no mundo. Fazendo o que eu mais amo na Terra. Teatro.     

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A Trupe. Capítulo 6


A travessia

 Rodolfo pegou a direção enquanto eu e Bia entramos carregando Mari para dentro do Jipe. Rodolfo acelerou e ultrapassou vários carros.
 Na emergência do hospital eu passei o telefone do médioco de Mari em São Paulo. Não tardou para os outros chegarem e todos nós, os seis mais a nova cenógrafa, Ale, ficamos esperando novidades dos exames.
 O médico apareceu e nos tranqüilizou.
 “Apesar do tumor, esta jovem tem uma genética esplendida. Não há nada de errado com ela. Falei com o médico em São Paulo, o neurologista. Recomendo um dia de repouso e que ela reinicie suas atividades em seguida.”
 Não foi fácil explicar aos outros sobre a gravidade de Mari. Eu mesmo sabia daquilo há pouco. Foi uma choradeira. Até que Frederica quebrou aquilo com a pergunta:
 “Será que ela consegue fazer a travessia?”.
 Todos nos olhamos. Era óbvio que Ale a cenógrafa, não sabia do que estávamos falando. Afinal era um segredo nosso.
 Talvez você leitor me ache meio desequilibrado. Mas nós da Trupe do Sol somos mesmo. Não é só o Duda não. Certa vez um grupo de pessoas nos procurou. Eram três: Um antigo crítico de teatro paulistano, um jovem estudante e teórico de teatro e um homem esotérico, místico... Eles nos informaram de que nós tínhamos uma ligação espiritual com um antigo grupo francês de teatro do século 18, chamado a Trupe de Azul.
 Claro que convenceram Duda, Bia, Mari, Napoleão rapidamente, já eu e Rodolfo e Frederica demoramos um pouco. Aliás, eu só me convenci quando entrei no teatro em Tiradentes.
 Enfim até então era um segredo. Já com o espetáculo pronto seguíamos para um teatro secreto escondido atrás de uma fonte em Tiradentes, ambos do século 18. E no palco nos apresentávamos para uma platéia francesa, do século também 18. Loucura? Também acho, mas é verdade.
 Nesse instante no Hospital ocorreu à mesma pergunta a todos. Mas Rodolfo foi o primeiro a dizê-lo:
 “Será que isso que a Mari está, tem algo a ver com a Travessia?”
 E tinha. Mas naquele momento ninguém sabia de nada. E ainda não havíamos entrando em contato com aquele antigo grupo de mestres teóricos do teatro.
 Antes de alguém responder meu celular tocou.
 “Leo quem fala é Matheus. Quanto tempo querido. Já reservei o hotel para vocês em Tiradentes. Diga a todos que está tudo bem. Eu torno a ligar depois.”
 Matheus já não era um jovem e sim um homem. Naquele momento entendemos que a doença de Mari tinha sim um propósito ou talvez uma cura. Todos estavam naquele misto de medo e desejo, quando Duda ordenou:
 “Alguém fica com a Mari. O resto cama. Amanhã começamos os exercícios na praia. Quero todos em forma.”
 “Eu fico” Eu disse.  
 Neste momento inúmeros fotógrafos invadiram a sala de espera e começaram a fotografar Rodolfo e Bia. A informação tinha vazado e a notícia de tanto o casal divorciado estar num projeto juntos novamente,  como também a de trazerem uma atriz ao pronto socorro era notícia das grandes para os tablóides.
 Bia teve ao mesmo tempo vergonha e orgulho, por eu ver que ela era agora uma pessoa pública importante. O constrangimento foi notar que aquilo desequilibrava o grupo. Mas eu dei uma piscadinha para ela e acho que ela entendeu o: “Vai em frente, é bom para o projeto este marketing”.
 Deixei-os lá respondendo as perguntas dos jornalistas e entrei para ver a mulher de genética fenomenal e talento mais fenomenal ainda. Aquela atriz Mariana, que talvez estivesse apaixonado.

quinta-feira, 31 de março de 2011

A calcinha azul.


 “Você já ouviu que quando fazemos 30 a nossa pele muda?”
  Perguntei para ela enquanto nos beijávamos no sofá da sala na casa dos meus pais.
  Eu conhecera Mel, vamos chamá-la de Melissa, no teatro. Explico, usávamos o mesmo teatro para ensaiar. Ela ensaiava o espetáculo dela mais cedo. E eu o meu mais tarde. Impossível não se apaixonar por ela. Tanto que comecei a chegar mais cedo e lá do fundo da platéia assistir ao final do ensaio dela.
 Depois fui ver sua peça pronta e no final não sei de onde criei coragem para chamá-la para sair. Para minha surpresa ela topou na hora. 
 Foi ela quem me buscou em casa.
 Ambos tínhamos 29 anos e faríamos em pouco tempo os temidos 30. Ela que escolheu o restaurante e ela que pediu meu prato. Acho que fui eu que paguei conta. Não lembro, mas deve ter sido. Depois ela resolveu que iríamos ao “Urbano”, uma balada da época.
 Como você notou leitor, ela é que mandava. Por mim eu estava adorando. Achava ela muita areia para mim. Depois foi me deixar em casa e subiu.
 Foi uma noite maravilhosa. De manhã eu saio do quarto e trago alguns guias de cultura, dos inúmeros jornais que sempre assinamos, não é a toa que eu e meus irmãos temos este vício de ler jornais, um inclusive até os escreve. Mas voltemos.
 Fascinou-me ela ver tudo o que iria acontecer em Sampa, shows, peças, filmes e exposições. Será que eu tinha encontrado uma alma gêmea? Se tivesse que descrever na época como eu gostaria que fosse uma namorada era só descrever Melissa, ela era perfeita.
 Saímos do quarto e tomamos café da manhã, na cozinha. As empregadas da minha mãe também se impressionaram com o bom humor da menina, sua linda tatuagem que a Luciana que trabalhava em casa adorou e mostrou as dela para Mel também. Enfim uma perfeita harmonia. Depois do bolo de laranja e café ela foi embora.
 Eu na minha ansiedade liguei para ela no mesmo dia. E ouvi as seguintes frases:
 “Nossa vibe não bateu.”
 “Por quê?”
 “Olha só te dou um conselho nunca mais fale para uma mulher sobre pele de trinta.”
 Vi que era inútil. E meses depois tentei de novo. Ela achou ótimo eu ter ligado e perguntou se eu não tinha nenhuma cena de teatro para ela fazer um teste. Deveria ser uma cena romântica. Eu disse que tinha e fui escrever uma para ela ir buscar a noite. Combinamos umas nove. Deu dez, onze, uma e duas da manhã e ela não apareceu Nem nunca mais apareceu.
 Claro que durante estes sete anos eu a vi muito. Nunca nos cumprimentemos. E eis que um dia o Face-book começa a me sugerir ela como amiga. Claro são 142 amigos em comum.
 Ela nunca me aceitava. Resolvi mandar uma mensagem oculta.
 “Por que você não me aceita. Você tem 1600 amigos?”
 Ela continuou sem me aceitar e nunca respondeu.
 E eis que alguns dias depois, para dizer a verdade ontem. Eu saio com as minhas melhores amigas para beber no Genésio e ela a Mel senta exatamente na minha frente. Me dá uma encarada e eu, como ela mesmo veio a dizer depois, desvio os olhos. Claro eu tenho medo dela. Uma mulher que sempre me tratou tão mal, com indiferença. 
 Depois do Genésio eu e as três mosqueteiras fomos ainda ao bar Secreto.
 Imagine leitor o que eu fiz ao chegar em casa? Vomitei? Não. Escrevi para Mel. Bêbado e de madrugada.
 Disse que não entendia como e por que ela sempre me tratou tão mal e embora tenha dormido na minha cama, não me adicionava no Face-Book?
 Desta vez ela respondeu. Lembrou-me que dormiu na minha cama, mas nunca chegamos a vias de fato. Como se eu não lembrasse. E recordava de eu ter dito a tal frase sobre a pele que muda quando fazemos 30. Entre outras cretinices e grosserias minhas.
 Nossa que coisa longa. Foi quando eu pensei que se eu pudesse voltar no tempo eu nunca teria dito aquilo. Porque aquilo foi algo que compartilhei porque eu também iria fazer 30 anos dali a pouco.
 Vocês sabem o que é lembrar de uma noite sete anos depois? Lembrar tudo? Os diálogos. O tênis dela, a tatuagem, a pele branca, os peitos maravilhosos, a risada, ela dançando no Urbano e principalmente da calcinha azul.
 Aquela calcinha que eu não pedi para ela tirar. Porque eu achei que tínhamos a eternidade para tirar a calcinha azul. Pra que a pressa?
 Quando eu escuto pessoas dizendo sobre a promiscuidade masculina, ou de como os homens são insensíveis, durante anos eu lembrava da Mel e pensava: Esta pessoa que diz isso ainda não viveu o suficiente. Ou não conhece mesmo a natureza humana. E quem conhece essa natureza humana?
 Depois da troca insistente de mensagens ela Mel, hoje me relembrou a história da pele de 30. E disse que sempre acreditou que eu naquela noite tinha tirado da cara dela, debochado das suas imperfeições. O que deixara ela triste. Eu?
Mel era tudo o que eu poderia querer. E digo mais ela não mudou muito. Acho que nada. Continua, inteligente, alternativa, charmosa, estilosa e principalmente linda e sedutora.
 Como acreditar que atrás de um mulherão forte existe uma menininha insegura? A gente sempre tem uma baixa alto-estima.
 Ela resolveu finalmente hoje me aceitar no face-book, talvez por se livrar das minhas mensagens, talvez porque se deu conta de que realmente eu fui de verdade apaixonado por ela.
 Um trauma de sete anos que me fez evitar atrizes. E que com certeza ainda me fará tremer quando eu me deparar novamente com uma calcinha azul e uma pele branquinha. Que não será nunca, pois o mesmo quadro não pode ser pintado uma segunda vez. E máquinas do tempo não existem.