sexta-feira, 27 de maio de 2011

O assédio.


 Meu amigo Thomas me liga:
 “Assediei uma personagem de Camilo Castelo Branco!”
 “Você o que? São três da manhã.” Eu digo.
 “Desce que eu estou passando.”
  Fomos para um bar e ele me conta tudo.
 “Uma atriz foi em casa, fazer uma leitura de um texto meu. Um amigo indicou. Ela é talentosa, inteligente, pura, livre e boa de coração. Sabe uma pessoa boa? Uma personagem romântica? Uma pessoa que faz tudo correto, e todos querem se aproveitar dela? Uma menina dedicada, que não sabe o quanto é linda. Uma menina... Uma menina... Sei lá uma personagem de melodrama romântico, sabe?” Ele pergunta.
 “Mas por que Camilo Castelo Branco? E não Júlio Dinis? Ou ainda Alexandre Dumas?”
 “Não sei. Só sei que eu a assediei.”
 “E como foi este assédio? Grave? Você tentou abusar dela?” Eu querendo detalhes.
 “Não. Eu escrevi um e-mail.”
 “Escreveu o que?”
 “Débora, sabe ontem quando você disse que quando vai há um espetáculo de dança ou ainda de teatro e você tem vontade de levantar da platéia e se jogar lá. De fazer. Então Débora esta é a mesma sensação que eu tenho quando te vejo.” Vira-se para mim. “Não é grave?”
 “Olha Thomas, grave... Grave, eu não diria. É cafona. É uma cantada ruim. Mas não é assédio.”
 “Não.”
 “Andy Warhol já dizia: Estamos nisso também pelo sexo.”
 Thomas de repente fica aliviado, bebe o chope e me encara com um sorriso.
 “Sábio o Andy Warhol.” Depois fecha a cara e se vira de novo para mim. “Onde você leu isso do Andy Warhol?”
 Eu não me lembrava mais. Nem se era do Andy, nem se era verdade. Me deu foi um sono.
 “É mesmo. Eu lembrei! É do Andy mesmo.” Disse o Thomas.
 Me levantei e fui pagar a conta. A menina do caixa estava com uma maquiagem muito bem feita. Cabelos presos e lindos olhos azuis. Quer dizer verdes. Lindos. Então eu digo.
 “Estes olhos lindos são de verdade?” Ela balança a cabeça, não sorri e responde.
 “São”.
 “Parabéns.” Por fim eu falo. Depois percebo que ela embora tenha se contido por fora, ela amou o elogio por dentro.
 Minha sorte foi ela não me perguntar:
 “E este Thomas é de verdade ou é um personagem que você inventou?”
 Não, ele não é de verdade. Eu inventei. Fui eu que escrevi aquilo para atriz. E provavelmente ela não é a pequena pastora das “Pupilas do senhor reitor.” Nem é menina, é uma mulher séria e determinada.
 Chegando ao carro Thomas me disse:
 “Leo se você pretende ser um grande dramaturgo vá se acostumando. As atrizes não vão se apaixonar por você. E os personagens são tão delas quanto seu.” No que eu me defendo:
 “Thomas a cantada seria muito boa se fosse dentro de uma peça.”
 DEBÓRA- Quando eu vou ao teatro ou a um espetáculo de dança, me dá uma vontade de levantar e me juntar a eles.
 ROBERTO- E eu quando vejo a tua boca Débi, me dá uma vontade de.... (Débora beija Roberto.)
 Thomas depois de ouvir.
 “Posso te perguntar uma coisa Leo?”
 “Claro Thomas.”
 “Você já pensou em escrever comédias?”
 “O tempo todo.” 

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O lado italiano delas.


 Meu pai não me ensinou nada sobre a arte da sedução de mulheres. Esta arte milenar que os italianos são mestres. Claro meu pai não é italiano, mas meu avô materno era.
 “Meu neto veja bem, tem uma freirinha que eu estou de olho.”
 Meu avô morava em frente a uma igreja católica, como um bom italiano.
 “Ela, a freirinha, é parecida com a sua prima, minha neta. Um pouco mais rechonchuda.”
 “Sei vô...”
 “Então onde é que compra a tal da camisinha?”
 “Olha vô, eu mesmo não sei nem o tamanho que eu uso.”
 “Ah! Tem este negócio de tamanho? Bom.” E deu de ombros.
 Verdade é que tanto se fala da pizza e do spaguetti contribuições da Itália pelo mundo, que esquecemos de dizer que a arte da conquista também se espalhou.
 Difundiu-se tanto que mesmo por aqui em terras brasileiras não só os homens a dominam, mas também as mulheres que eu ando saindo.
 Elas aprenderam a cozinhar uma deliciosa massa. Perguntam do que gostamos na cama. Escolhem um vinho. Elas nos ligam no dia seguinte. Tanto que ultimamente elas andam me lembrando meu avô. É.
 Mas o que eu queria mesmo falar aqui agora, como o próprio título da crônica diz é o lado italiano delas. Das italianas. Que são umas injustiçadas, porque os homens italianos têm uma fama de conquistadores e sedutores pelo mundo e para elas sobra o que?
 Eu estava no Fórum Romano que são as ruínas do antigo império Romano. Os banheiros ficam ao ar livre. São pequenas construções entre árvores que tentam ser as mais discretas possíveis. Em frente ao banheiro feminino umas dez jovenzinhas universitárias conversavam algo relacionado à Van Gogh. Sei disso porque a única palavra que entendi foi essa, Van Gohg.
 Então a vejo de longe. Eu mesmo esperava o banheiro masculino ser liberado. E estava até sem pressa porque aquelas italianinhas eram bem bonitinhas, descoladas e sofisticadinhas.
 Mas ela não se movia. Ela tinha a mesma idade das outras italianinhas. Mas esta era chinesinha.
 Ela ao mesmo tempo queria perguntar sobre o banheiro, se era uma fila e tal e ao mesmo tempo pedia desesperadamente um contato visual com uma das italianinhas. Definitivamente o povo italiano é o mais extrovertido do mundo. Um italiano não sabe o que significa timidez, por outro lado um italiano, não faz questão absoluta em se comunicar bem.
 Mas por um instante vi que uma das italianas percebeu a chinesa. Acho que a italiana pensou: “Minha avozinha tem orgulho enorme do nosso país, mas estes chineses do outro lado do mundo, estes bárbaros vão mandar em tudo. E com certeza esta chinesa nunca ouviu falar no Império Romano.”   
 E a chinesa por sua vez: “Nossa minha avó nunca saiu da China, nem minha mãe e nem ninguém da minha família veio tão longe. Veja os narizes destas meninas. É algo grande e bonito. Mas nossas roupas são as mesmas. Aliás, estas roupas são feitas na China. Mas estes narizes destas tais italianas são tão lindos.”
 Eu tentei olhar para a chinesa e poder falar que eu também era de longe. Que eu não era romano. Que eu sabia o que era ser de um país gigante e mesmo assim ser desprezado.
 Ela fazia o caminho inverso de Marco Pólo. Enfrentar aquelas meninas da sua idade que tinham aqueles narizes grandes e poderosos era um esforço gigantesco. Pensou em desistir do banheiro.
 A italianinha engoliu todo o orgulho encarou a chinesinha e perguntou num inglês todo cheio de ginga e com aquele excesso de gestos pontuais dos italianos, se era o banheiro que a outra procurava. E antes que a chinesa pudesse responder à italiana se apressou em dizer que ela a chinesa poderia passar na frente delas. Que elas estavam só fazendo hora.
 A chinesinha tirou forças sabe-se lá de onde e disse: “Thank you”.  Na verdade ela não entendera absolutamente nada do que a italiana dissera. Nem ela nem eu. Mas uma italiana é sempre tão expressiva com os gestos que ela a chinesinha foi passando pela roda das meninas.
 Parou na minha frente e eu abri caminho. Ela sorriu e me disse: “ Grazie.” E entrou no banheiro.
 As meninas italianas se animaram e começaram a falar comigo em italiano. Deveria ser algo a respeito da chinesinha que era linda. Eu sorria enquanto um menino italiano saia do banheiro e me liberava o acesso.
 Não sei se fui eu que fantasiei tudo e a atração pelos narizes das meninas italianas era, e é uma coisa minha. E não da chinesa. Elas tinham o meu nariz, a minha cor, a minha afetação gestual, meu jeito malandro, cafajeste, debochado e feliz.
 Outras meninas chinesas vieram atrás da chinesinha que saiu do banheiro num movimento leve e encontrou com as outras que riam e saíram alegres para tirar fotos pelo antigo e milenar fórum romano.
 Quando eu saio do banheiro não havia nem mais chinesas e nem mais italianas. Um vento frio soprou e parecia que se encerraria a visitação as ruínas.
 Restava ir jantar num bom restaurante sozinho e comer um spaguetti ao pesto quem sabe.
 Que vergonha se meu avô me visse nesta miséria humana. E que inveja os Romanos antigos teriam de mim. Eles viram leões, gladiadores, feiticeiros, corridas de bigornas e até o grande circo. Por outro lado nunca puderam ver um narizinho de uma chinesinha.
 E tão pouco o incrível charme de uma italiana de calça jeans e tênis All Star.
 “Scuzzi!”
 Olho para trás e lá estão elas as italianas. Perguntam-me se eu sei a que horas fechava a exposição do Van Gohg?
 “Van Gogh? I just love him.”
 Eu disse, enquanto as três italianas riam de um jeito sacaninha igual meu avô me ensinara.     
 “Love?” Disse a mais baixa de um jeito muito, mas muito sarcástico.
 Tchau bella. 

domingo, 8 de maio de 2011

Meu lado mais que gay.


Minha estréia profissional no teatro se deu como iluminador. Eu era o técnico que iluminava o espetáculo, ou ainda o operador de luz. Ao meu lado na cabine, ficava a operadora de som. Hoje, aliás, excelente diretora de teatro.
 Ocorre que certo dia, casa lotada, lá pro meio do espetáculo, o contra-regra entra na cabine e diz que a atriz que fazia a personagem da velha senhora havia desmaiado. Mas que ele tinha ordem de mandar continuarmos, porém que não estranhássemos nada que pudesse ser diferente em cena.
 Diferente? Lembrei disso esta semana que passou. Eu bebia com uma amiga que mora no Rio e outra menina que trabalha com ela. Tomamos muitos chopes e cachaças e lá pelas tantas as duas me xingaram de homem.
 “Ah você diz isso porque é homem. Você faz isso porque é homem e age como um homem.”
 Pra mim não existe ofensa maior do que me chamar de homem.
 “Mas eu sou tão sensível e feminino! Eu sou diferente de um homem heterossexual chato.”
 Daí a minha amiga lembrou que a minha toalha continuava intacta e que logo fazia já dois dias que eu não tomava banho.
 “Claro é porque eu tenho ido à praia. Então pra que banho?” Argumentei.
 “E você não escova também os dentes antes de dormir.” Ela ainda somou mais esta característica. “Hetero e hippie!”
 “E desde quando você se tornou tão mulher assim?” Minha amiga não gostou da grosseria. E baixou o olhar.

 O contra-regra volta e diz: “Ela morreu! A atriz que faz a velha senhora morreu. Mas o espetáculo vai até o fim.”

 Chegando ao apartamento minha amiga e eu, ambos em silencio. Eu servia-me ainda de outra dose de cachaça, e ela quebrou a paz:
 “Desde quando eu não sou mulher?”

 O piano da temporada era lindo. Até hoje escuto a música tema na cabeça. Também foi uma temporada toda. E chega à hora final da peça, o grande monólogo da velha senhora. Dou a luz e ninguém entra.

 “Eu quis dizer que você está parecendo uma daquelas mulheres do interior.”
 “Leo eu sou mulher.”
 Eu adoro e amo muito a minha amiga. Mas ela é tão mulher quanto eu sou homem.

 Uma jovem atriz do elenco entra em cena. Era uma menina que depois vim, a saber, que ela assim como eu de tanto ouvir, dia após dia o monólogo já o sabia de cor.  
 Não havia diferença naquela menina e na atriz mais velha. Claro que uma distancia de anos. Acontece... Acontece que ambas eram mulheres. Assim como eu sou tão homem quanto um homem gay. Nem mais e nem menos.  

 No dia seguinte jantávamos eu, a minha amiga e mais quatro amigos homens e gays na casa de um deles em Copacabana. Foi o dia em que o STF aprovou a união estável homoafetiva por unanimidade. Um deles, dos amigos tocou na notícia que os deixara felizes. Mas logo mudaram de assunto.

 Com certeza fui eu quem ficou mais emocionado com este acontecimento. Eu até chorei. Porque eu tenho este meu lado. Este meu lado que é mais que gay.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Primeira namorada


Ontem eu fui visitar um grande amigo de vinte anos que acabou de ter uma filha que se chama Paulinha. Cheguei bem na hora do jantar. Ele estava com a mulher, à sogra e a Paulinha num berço.
 Perguntaram-me o que eu achava da menina. Se ela não tinha o nariz e os olhos do meu amigo e bochecha da mãe?
  Fiquei lá imaginando se não se trocam as crianças em maternidades como fazem às vezes em chapelarias.
 Sentamos para jantar e depois toca o meu celular. 
 Era ela. Mais de dez anos depois. Fico sempre feliz em ouvir a voz dela. Há algum tempo não nos falávamos. Não acho que um relacionamento de amor acabe por completo. E antes que isso fique filosófico demais vamos ao ponto.
 Qual é o ponto mesmo? Eu não sei o que me faz nostálgico. 
 Seria talvez aquele menino que ela dizia ter se apaixonado, por não trocar a mesma calça nunca? Por não cortar as unhas e não tomar banho? Por ser um desocupado que acreditava que seria um grande ator de teatro? Ou seria por aquela menina apaixonada por mim e por arte? Qual dos dois eu sinto falta?
 Acho que dei sorte. Até hoje quando vejo uma linda menina de 20 anos, eu penso: Nossa! A minha primeira namorada era ainda mais linda e mais estilosa. Era não. É.
 Meu amigo está com a mulher dele há dezesseis anos. Tem a minha idade e se eu estivesse com a minha primeira namorada estaríamos provavelmente com isso também.
 Eu tive muitas outras namoradas e ele sempre à mesma. Temos a exatamente mesma idade eu e ele.
 Será que se eu tivesse passado no teste do CPT do Antunes a minha vida seria outra? Para o leitor que não sabe, tanto hoje como há dez anos, trabalhar com o diretor Antunes Filho, era um sonho e uma ambição para os jovens atores.
 Onde eu estaria se eu tivesse passado no teste? De uma coisa eu sei com certeza. Eu não teria este blog e nem seria dramaturgo. Seria sim um ator realizado.
 Mas ela não me abandonou. Ela diz que fui eu que a abandonei muito antes. Mulheres...
 E se nós nos conhecemos hoje? Eu e ela. Será que iríamos nos apaixonar? Minha opinião é que sim. E se o Antunes montasse um texto meu hoje?  Daria certo? Seria igual à emoção de ter passado no CPT?  
 Agora em qual circunstancias eu poderia conhecê-la? Como?
 Será que se eu lesse Dom Quixote hoje, eu gostaria do livro? Será que se eu assistisse Antunes Filho hoje eu gostaria? Será que já gostei de Antunes?
 Nesta época há mais de dez anos eu tinha esta primeira namorada. Mas tinha também uma melhor amiga. Uma atriz. Ficávamos para cima e para baixo. E para todos os lados. Quando eu não estava com a namorada eu estava com a melhor amiga.
 Ela, a amiga, me levava assistir ao grupo TAPA. E deste eu sempre gostei, hoje e ontem.
 Um dia eu e amiga brigamos. Éramos da mesma classe na escola de Teatro. Como não existe ex-amiga, concluo que estamos brigados até hoje. Um dia nós ficaremos de bem.
 Agora o que é uma primeira namorada? No fundo uma professora, uma amiga, um obstáculo. Eu tive sorte.
 Mas meu amigo eu acredito, mais sorte ainda. Casou com a primeira namorada.
 “Eu não vou mais namorar você.”
 Estávamos na cama dela. Eu ri. Nunca até hoje uma mulher foi tão apaixonada. Tão visceral. Tão ciumenta. Tão sensível. Tão violenta. Tão generosa. E tão corajosa.
 Sim ela já tinha outro. Sofri. Agradeci. Não tenho nenhum ressentimento. Tenho saudades daqueles tempos. Mas tenho a alegria de ter deixado passar tudo isso.
 Só não sabia que três outras primeiras namoradas viriam depois da primeira.
 Confuso leitor? Digo, está confuso isto, leitor? Não é não. É um eterno retorno. Mudam-se os olhos, o nariz, a boca, a voz, mas ela está lá. Sempre a primeira.
 E nos damos conta de que não aprendemos nada. Não apanhamos o suficiente. E achamos que nunca amamos tão intensamente.
 E um dia sem querer não sei de onde você chamará uma pelo nome da outra.
 E vai ter frio na barriga. E vai fazer as mesmas perguntas. E ouvirá as mesmas reclamações e discutirá a relação como se fosse a sua primeira relação.
 E um dia desses sairá com a sua primeira namorada, que para mim é ainda uma menininha e ouvirá dela:
 “Leo você não mudou nada.”
 “E isso é bom ou ruim?” Pergunto.
 E ela: “Nada. Não mudou nada. Absolutamente nada." 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Despedida de solteira.


Eu estava numa mesa de bar na Vila Madalena ela chegou e sentou.
 “Lembra de mim?” Ela perguntou sorrindo.
 Claro que eu me lembrava, uns cinco meses antes eu tinha emprestado dinheiro para ela pagar uma conta numa balada. Ela e uma amiga, a mesma que logo veio nos acompanhar.
 Agora éramos quatro na mesa. Eu, ela, sua amiga e Flávio.
 “Posso te pagar uma cerveja?”
 “Uma cachaça. Pode sim, claro.”
 "Então você se lembra ou não?" 
 Aquela boyzinha achava que eu ia esquecer a cara de pau dela. Detesto povo que passa o dia sério em algum escritório, faculdade, estágio e a noite vai para um bar bancar o transgressor. Dar o golpe na balada? Sair sem pagar, roubar um copo, nossa como eu estou chato e acho que é pessoal com essa menina.
 “Lembro. Você se chama Paula, estudou na GV, trabalha num banco, e tem propensão para alcoolismo.”
 “E você continua escrevendo teatro?” 
 “Eu não gosto de você, sabia?”
 Quando eu digo isto para uma menina muito bonita, pode ter certeza que eu estou mentindo. E era este o caso, eu estava louco de desejo por ela. Eu não gostava do que ela era, mas dela, eu adorava. Aquela pele morena, cabelos compridos, e uma boca carnuda.
 “Então eu vou embora.” Foi se levantando.
 “Espera você ia me pagar uma bebida.”
 “Como é o seu nome mesmo?”
 “Leo.”
 “Pois é Leo, eu te acho um cara legal, mas você faz questão de ser grosso. Será que não dá pra gente conversar numa boa?”
 “Que assunto que eu posso ter com você?”
 Desta vez foi à amiga dela quem disse.
 “A Paula tem um blog sabia?”
 “E quem não tem? Ter blog é que nem ter e-mail.”
 Paula fechou a cara, deixou cinqüenta reais na mesa e se mandou, a amiga foi logo atrás.
 “Você sabe quem é esta menina?” Me perguntou Flávio.
 “Uma bêbada que se chama Paula.”
 “Acontece que esta bêbada não só é uma das maiores fortunas do Brasil, como também vai se casar com um dos maiores playboys de São Paulo.”
 “E como você sabe tudo isso?”
 “Eu leio coluna social. Além do que eu já a vi de biquíni em Maresias, e acredite-me ela tem um corpo que nem dá para descrever de tão gostosa!”
 “Dá sim Flávio, dá sim. Mas quanta vulgaridade, ela nunca nem respondeu meus telefonemas.”
 “Você tem o número dela?”
 “Nem sei se tenho mais.”
 “Tente de novo. Ligue e peça desculpas.”
 “Por que ela é rica?”
 “O fato de ela ser rica, significa meu amigo que você tem chance. Porque se ela fosse dura, ela nunca com este corpão iria dar para um autor de teatro. Aliás, nem viria neste boteco na Vila.”
 “Nunca mais quero ver na vida!”
 “Sei...” Flávio vai até o banheiro. Acha uns amigos e vai fumar. Minutos se passam, começo a conversar com um garçom. 
 De repente Paula volta. Senta-se e pega na minha mão.
 “Eu fui levar a Renata até o carro dela. Não quero que ela saiba o que eu vou fazer hoje.”
 “Nem ela e nem eu.”
 “Vamos até ali fora.”
 Em pouco mais de cinco minutos eu estava beijando Paula. Fomos para minha casa e transamos a noite toda. De manhã ela me disse que se casaria dali a dois dias. Mas que agora estava na dúvida.
 Disse que seu namorado andava com dois seguranças. Que não tinha o mínimo de sensibilidade. Que ela gostava de arte e queria escrever um livro, quem sabe um romance. E não esta vida fútil e sem sentido. 
 “Você pode ir para Maresias comigo?”
 Claro que eu podia, se bem que vê-la de biquíni agora depois de tê-la visto nua, não seria nenhuma surpresa.  
 Fomos para a praia. Rolamos na areia, entramos no mar e na piscina da casa dela.
 “Paula você não vai desistir do seu casamento por mim, vai?”
 “Não Leo, não é por você é por mim. Eu quero amar. Trabalhar com arte. Eu não tenho tempo de trabalhar nos negócios da família e ao mesmo tempo me dedicar a escrever. Eu conheci o Marino eu era muito criança, não sabia de nada. Não sabia o que eu queria. E ao contrário de você ele é um puta gato, sarado, feliz, carinhoso e meigo, mas ele não gosta das coisas que você gosta.”
 Eu só queria entender o que estava acontecendo. Por acaso aquilo ali era despedida de solteira? Paula tinha desligado o celular. E eu comecei a ficar com medo de que aparecesse ali o tal Marino, namorado com seus dois seguranças. A noite chegou e eu a convenci de irmos para Juquehy, uma praia próxima, na minha casa.
 Fomos. No dia seguinte quando eu acordei, ela não estava mais lá, nem ela nem o carro. Eu descobri que não tinha o mais o celular dela. E que também não pedira. 
 Fiquei meses sem saber notícias. Um dia meu telefone toca.
 “Oi, você não quer ir beber hoje na Vila?”
 Era Paula. Aceitei o convite, mesmo bar à noite. Quando eu cheguei, ela já estava lá, sozinha numa mesa. Linda como sempre e uns cinco caras em volta, loucos por ela.
 “E aí maluquinha. Vai me contar o que houve aquele dia e como está a sua vida?”
 “Desculpe Leo, eu precisei voltar da praia.”
 “Então você se casou?” 
 Ela deu uma pausa antes de responder.
 “Casei. Mas isso não quer dizer que eu não gosto de você e que a gente não vai poder ficar se vendo. Quando você quiser me ligar eu também vou atender.”
 “Mas e o seu marido?”
 “Olha Leo, querido, o negócio é esse... Vamos até ali fora um pouco?”
 Sei que você leitor vai dizer que eu sou um idiota, e que ela não me ama. Mas por outro lado, talvez seja por isso que de certo. Ela me faz companhia no bar, depois na cama. Nunca vai me cobrar casamento. Não acha ruim o que eu faço ou deixo de fazer. Nunca mais depois daquela primeira vez me pediu dinheiro. Quer coisa melhor?
Acontece que ontem à noite ela me disse algo no ouvido, eu fingi que não ouvi que eu estava dormindo, mas ouvi:
 “Leo, se você tivesse me pedido, eu não casava. Juro que não casava. Mas você nunca me diz nada. Nunca diz que me ama.”
 Eu fiquei por alguns minutos quieto na cama. Repassando toda aquela história. Desde a primeira vez que ela fingiu que não tinha dinheiro. De como ela sempre quis que eu a salvasse e eu que sempre achei que era um fraco perto daquela mulher tão forte. Então abri os olhos e disse:
 “Paula eu te amo.”
 Mas ela já dormia.  
 
     


terça-feira, 12 de abril de 2011

A Trupe. Capítulo final.


  
 Às vezes eu comparo um grupo de teatro a uma banda de música pop. Temos nossas brigas, nossos rituais, nosso estilo. Só não temos o mesmo número de fãs. Já tentei fazer drama. Mas o que move minha pele e alma é a comédia.
 Sempre foi e sempre me esqueço.
 Depois de tomar nossa bebida secreta subimos no palco.
 “Vamos passar vários corridos até não podermos mais.” Duda nos orientou.
 Nas primeiras três passagens eu ainda estava mecânico, cérebro, razão. Já na quarta vi os primeiros franceses na platéia, minutos depois a casa estava cheia. Delírio absoluto. Nesta alucinação lembrei do teatro Romano porque é dela que vem a minha estrutura. Plauto.
 Napoleão estava excelente, Mari, um furacão em cena e nós outros nos agüentávamos. Foram dez horas de ensaio e delírios. Trabalhamos com a exaustão. Quem disse que teatro é fácil?
 No dia seguinte, deixamos Tiradentes em direção a São Paulo. Éramos notícia, uma notinha no jornal contava sobre a minha briga com Rodolfo. Paramos em Carrancas e passamos o dia na cachoeira. Acho que é perda de tempo contar o quanto o corpo de Mari é lindo num biquíni. Sorte de quem fosse seu amante. Sua amante provavelmente.
 De volta a São Paulo. Vejo uma vizinha na Rua. Uma menina do clube que há anos eu conheço, mas que agora estava uma mulher de 23 anos como depois eu vim saber. Eu voltava da padaria e ela passava carregando um skate.   
 “E o teatro? Como anda?” Ela arriscou.
 Partimos para um café e depois para a minha casa. Foi tudo rápido. Eu estava mesmo precisando de outra mulher. E uma bem diferente tanto de Bia como de Mari.
  Diferente como? Veterinária, menina... E novidade na minha vida amorosa. Eu já tinha colocado os olhos nela há muito tempo, e agora ela estava na minha cama. Uma molequinha.
 “Vamos ao cinema?” E fomos.
 Ligia era o que chamamos hoje em dia de underground. Amava a baixa Augusta. Acabamos na Loka.
 Dia seguinte ressaca e ensaio no Teatro do Banco Brasiliense. O lugar era ainda maior do eu imaginava e com mais funcionário também. Eu tinha um camarim só para mim. Pessoas a minha disposição e 1.200 lugares na platéia e não 800.
 A semana passou voando, ensaios e entrevistas na televisão e rádios. O cenário da Ale realmente havia ficado esplendido.
 Quarenta e oito horas antes da estréia. Bia e eu mal nos falávamos. Resolvi atender Lídia a skatista e fui ao encontro dela de madrugada, depois do ensaio.
 Acho que eu estava neste dia apaixonado. Lá pelas cinco da madrugada Duda me liga.
 “O que foi?” Pergunto temeroso.
 “Nada.” Ele diz. Pela primeira vez estava tudo sob controle. A produção eficiente, os ensaios em dia e o espetáculo pronto.
 Nossa primeira estréia fora num teatro para cinqüenta pessoas. No dia colocamos 60, muitos no chão e fomos comemorar no bar Empanadas na Vila Madalena. Só nós, e mais um ou outro agregado, namorado ou namorada de alguém. Uma mesa com cerveja de garrafa grande, foi isso.
 Cheguei ao Teatro do Banco Brasiliense quatro horas antes. Quase todos já estavam lá. Mil e duzentos lugares! Que medo.
 O terceiro sinal foi dado e as cortinas se abriram. Fiquei aliviado quando vieram as primeiras risadas. Nós loucos não havíamos feito ensaio aberto. Duda acha que dá na mesma chamar de estréia ou ensaio aberto.
 Todos estavam no seu melhor desempenho da carreira. E ao final eu vi o teatro todo nos aplaudir.
 Éramos a Trupe do Sol. Um grupo de comédia, de teatro. Ao final Bia pediu silencio e falou.
 “Hoje eu quero agradecer a seis pessoas muito especiais para mim.”
 No que nos olhamos, demos pela falta de Mari.
 Dario veio dos bastidores e pedindo para os seguranças abrirem caminho. Ele e outros técnicos carregavam Mari pelo corredor do teatro.
 Neste dia não houve festa. Estava programada uma enorme festa. Cancelemos e seguimos para o hospital.
 Mariana morreu naquela madrugada. Agüentou o mais que pode, e escondido da gente, já havia treinado uma substituta. Não queria nos prejudicar.
 Fizemos o segundo dia de espetáculo com a nova atriz em seu lugar. Veio o enterro, a missa de sétimo dia e os três meses de temporadas.
 Eu continuei vendo Ligia, a garota de 23. Rodolfo e Bia ao final da temporada voltaram para o Rio.
 Duas semanas depois saiu o resultado do prêmio Shell de um ano antes. O ano de 2009. Mari havia ganhado o prêmio.
 Comecei a receber vários pedidos de textos meus com a condição de que Bia estivesse no elenco. Eu fui ao Rio ver o nascimento do meu filho, claro. Mas depois voltei para São Paulo.
 Um grupo de jovens atores me convidou para dirigi-los. Ao mesmo tempo em que Duda me dirigiu com Napoleão e outros numa comédia de Georges Feydeau.
 A vida foi passando. Eu sempre me lembrava do dia que Bia me pegara no Santos Dumont e estava tão linda. Por que eu não disse isso pra ela?
 A Ligia acabou me largando, também eu estava cada vez mais depressivo.
 Minha campainha toca. Abro a porta e é Ale a cenógrafa. Ela tinha uma carta para mim. Explicou-me que Mari lhe pedira que me entregasse:
 “Leo mentimos pra você.”
 “Como assim?”
 “Eu e Mari já namorávamos há dois anos. Rodolfo nunca teve nada com meu irmão, simplesmente porque eu não tenho irmão. Inclusive Rodolfo é Heterossexual.”
 “Do que é que você está falando?”
 “Ela até me pediu permissão pra transar com você para você perceber... Que não havia nada a ser feito. Ela fora apaixonada por Beatriz sim. Disse-me que no início tinha grandes ambições e só aceitou entrar no grupo porque fora chamada por Beatriz. Depois mais velha ela percebeu que você talvez tivesse sido o mais talentoso do grupo e não ela. Enfim... Mari queria fazer um texto seu sim, mas também queria que você e Bia se entendessem. Ela falava às vezes com Rodolfo e Frederica, logo sabia que Bia e Rodolfo não estavam mais juntos. Todos nós fizemos um pacto para tentar unir vocês de novo. Seu filho é um esforço quase que de toda a Trupe. O tonto do Matheus quase colocou tudo a perder. Esta carta aqui prova isso. Ela disse que se vocês continuassem juntos eu não deveria dar-lhe a carta. Mas como vocês não estão. Tome”.
 A carta de Mari dizia:
 “Leo, a fé da Trupe é o seu amor por Bia.”
 Depois páginas e páginas relembrando nossa trajetória e tentando me convencer do meu amor por Bia.
 Abracei Ale, chorei dois dias e a vida voltou ao normal. Recebera um outro convite para voltar a fazer palhaço, na verdade um show de Clown.
 Um dia ligo para um amigo ator: “Vamos beber uma cerveja?”
 “Leo, eu estou indo numa festa, quer ir?”
 Fomos. Era na casa de uma conhecida dramaturga e seu marido diretor. Umas duzentas pessoas. No alto da Lapa. No jardim rindo alto e de vestido verde vi uma figura linda, com pessoas em volta. Quando ela virou o rosto eu reconheci a mãe do meu filho.
 Ela veio falar comigo:
 “Você engordou.”
 “Você está linda.”
 “Onde está a menina veterinária?”
 “Você sabia dela?”
 Bia deu de ombros. “Claro que sabia.”
 “Não estamos nos vendo mais. E você? Como está o Francisco?”
 “Parou de mamar finalmente. Não se preocupe ele está com uma babá e a minha mãe.”
 “E ele está bem? Digo... Eu morro de saudades. Posso velo amanhã”.
 “Leo agora você vai poder velo quando quiser. Eu mudei para São Paulo!”
 “E nem me falou?"
 " Estou dizendo agora.”
 Continuamos ali, bebendo cerveja, falando de teatro. De cinema, de comida e até política. Entre as árvores.
 “Leo, se eu nunca te disse isso, lá vai... Você é o melhor amigo que eu tive.”
 “Tive ou tem?”
 “Fazemos assim, amanhã vá à casa da minha mãe nos ver. Almoçar, combinado?”
 “Combinado.”
 Já ia indo embora e ela me parou:
 “Aquela nossa cenógrafa a Ale...”
 Eu sorri. “Que é que tem?”
 “Ela também te deu alguma carta por estes dias?”
 Ao invés de responder, eu me aproximei de Bia, olhei nos olhos dela. Nossa como ela é linda! E nos beijamos.
 Fecham-se as cortinas. 

sábado, 9 de abril de 2011

A Trupe. Capítulo 10


As Minas Gerais

Na estrada vendo as árvores e todo aquele verde comecei pensar sobre a peça, não só a montagem, mas meu texto também. Qual foi a primeira vez em que eu ouvi falar em São Francisco de Assis?
 Não leitor, não se trata de um texto religioso ou mala, eu parti de São Francisco para falar de amor, amizade e principalmente política. Francisco de Assis tinha um jeito especial de fazer política. Era um subversivo pacifista, vegetariano, incentivador da sexualidade, do respeito à ecologia... Enfim ninguém é tão atual. Poderia ser Tiradentes, mas era Francisco de Assis. Será que teríamos tempo de visitar as cachoeiras de Carrancas? Cidade próxima a Tiradentes e um parque, reserva florestal com dezenas de cachoeiras.
 Na estrada Duda começou a ficar insuportável proibiu todos de fumar, o que eu achei ótimo. Acontece que ele também proibiu carboidratos, bebidas e qualquer outra droga até a estréia. A não ser o "chá" que tomaríamos em Tiradentes. O que me deixou puto, porque estávamos em Minas e eu queria comer e beber todas aquelas coisas que sobem o colesterol, mas que por outro lado me fazem tão feliz.
 Bem da verdade, ninguém estava mais aturando ninguém. Natural, já tínhamos matado as saudades e convivência em excesso é difícil. Uma hora as desavenças começam.
 E Duda é louco, não esqueçamos disso. Ele começou colocar uma disciplina tal, que até os soldados do Bope se submetidos a ela, iriam pedir para sair.   
 Na recepção do hotel, Bia foi imprevisível. Puxou Mari e disse que as meninas ficariam no mesmo quarto. Às vezes eu sou mesmo um cretino:
 “Quem tem mais de trinta anos não é menina, vamos combinar?”
 “Agora ele está assim Mari. Anteontem fomos a um vernissage e ele ao invés de me elogiar... O meu vestido verde e tal... Disse-me que verde só cai bem na natureza”.
 “Você falou isso para ela Leo? Seu babaca.”
 As duas me olharam como se eu não fosse também um ser sensível às palavras delas. Porque elas podem dizer o que querem e eu não? Também custava  ter sido menos orgulhoso e dizer para a Bia que ela era linda? Mas também para que? O Brasil inteiro já dizia isso para ela.
 A piscina do hotel boutique era sensacional e foi para lá que eu fui. Eu não ia ficar no quarto com o Rodolfo. Conversar o que com ele? Era um dia off, também horas na estrada.
 Foi só o sol se por, que eu e Napoleão fomos beber cachaça. Fugidos claro. Depois já bêbados encontramos todos num excelente restaurante estrelado da cidade turística. Não sei o que eu falei, também não era o único inconveniente da noite. Mas a porrada do Rodolfo me pegou em cheio. Tudo ficou preto e eu fui direto para o chão.
 “Você não vai falar assim com a Bia na minha frente! Ela foi minha mulher durante oito anos seu cretino!”
 Leo quando você vai achar o meio termo, ou você é o cara mais doce do mundo ou você é o cara mais amargo da terra. Acabei no quarto do Napoleão. Frederica mudou-se para o quarto de Rodolfo. E todo mundo se xingou e acabaram todos bebendo e Matheus gravando tudo no vídeo.
 De manhã no café, eu estava sozinho na mesa e Mari chegou. Ficamos quietos por algum tempo, ela riu.
 “Caiu ontem igual dragão de papel, me mata de vergonha.”
 “Mari, o Rodolfo é bem grande já reparou?” Continuamos comendo os pães de queijo sempre, olhando para ver se o Duda não aparecia. No fundo tínhamos medo é do Duda.
 “Sei...” Depois de um silencio, ela falou ainda:
 “Ela me disse que você gosta de mim. Você falou que me ama para a Bia?”
 “Eu não amo nem ela e nem você.” E concluí por último. “E nem mulher nenhuma.”
 “Nem aquela cantora que te largou por um músico?”
 “A cantora não me largou, quer dizer ela foi morar com o músico dela. Acontece que eu achei ótimo. E você Mariana há quanto tempo está abandonada sabe-se lá por quem?”
 “Talvez eu tenha um amante secreto. Alguém conhecido, uma pessoa pública que não possa se assumir.”  
 “Pessoa pública, tipo uma cenógrafa carioca?”  
 “A Ale é arquiteta. Rolou uma noite e só.”
 Nós dois rimos.
 “Vai dizer que você não comia Leo?”
 “Mari eu já transei com tanta gente nesta vida...”
 “Comigo eu não lembro. Transamos?”
 “Tudo tem uma primeira vez. Mas eu não transo com meus amigos.”
 “E com as amigas?”
 Aquilo estava ficando tão aborrecido. O problema não era a falta de vontade nem de transar com Mari e nem com Bia. O problema é que eu não sabia qual de verdade eu queria. Eu queria as duas, e percebia que elas queriam que eu desejasse só uma. E quanto mais eu demorasse, mais elas iam deixando de gostar de mim.
 Definitivamente elas não me entendiam. E eu para me salvar me agarrava numa máscara machista, cruel e monótona.
 Antes de eu me desentender de vez com Mari e isso seria a sim a primeira vez, nós nunca tínhamos brigado, Duda apareceu e começou a nos xingar e dizer que deveríamos comer frutas e queijo branco. Um hóspede um homem de uns cinqüenta anos e jeitão de turista americano, ainda brincou e disse que ali não era SPA e nem eu, nem Mari éramos gordos. Duda disse:
 “Eles não, mas o senhor é e bem gordo”. Depois ainda jogou suco no hóspede.
 “Nos meus atores mando eu!”
  Realmente estávamos todos a flor da pele. Seguimos para "cerimônia".
 Em frente à fonte e logo mais adiante o Teatro barroco. Nós nos olhávamos. Dez anos depois e estávamos de volta. Faríamos um ensaio para uma platéia de franceses do século dezoito que só nós poderíamos enxergar.
 Rodolfo veio me abraçar e pedir perdão. Com aquele gesto todos suspiraram e demos as mãos. Foi bonito da parte dele. Uniu a Trupe. 
 O administrador do teatro veio e disse que estava tudo a nossa disposição.
 “O teatro está pronto.”
 Frase que eu não entendi, porque naquele instante eu só entendia francês.
 Mágica? Veremos.