domingo, 7 de agosto de 2011

De onde eu conheço este pé?


“O trabalho do ator é arrumar trabalho. Depois é diversão.” 
Morgan Freeman

 Quando eu faço um teste para ator, dependendo do trabalho, eu fico nervoso. Uma vez fiz um teste para “Romeu e Julieta”. Deram-me o papel do conde Paris que é o prometido de Julieta. Com quem a família quer que ela se case.
 Nossa como eu estudei para o teste. Convenci-me até que tinham me dado o personagem do conde Paris porque o diretor queria um grande e bonito ator, para fazer com que a união do jovem casal tornar-se ainda mais surpreendente. 
 Descobri também que em todas as adaptações do cinema e do teatro que havia assistido tinham sido diminuídas, quase excluídas, as cenas do conde Paris.
 Caramba! Como foi ruim o teste que eu fiz. Mas na época eu achei que estava certo. Eu era obstinado e muito inteligente. E este foi o problema. Eu acreditava que o pobre diretor pensava as coisas que eu pensava. Na verdade eu estava era fazendo um projeto de encenação paralelo e não sendo um garoto de vinte anos.
 As pessoas não esperam uma compreensão de Shakespeare de alguém com vinte anos. 
 Por outro lado as pessoas se esquecem que Shakespeare tinha uns vinte anos quando escreveu “Romeu e Julieta.”   
 Semana passada eu e um diretor estávamos escolhendo dentre 18 atrizes de vinte anos uma personagem para o nosso filme. É muito difícil escolher entre tantas Julietas. São tantas possibilidades e corpos e vozes e talentos. Não há a certa, e sim a escolhida.
 Mas não é para este tipo de pensamento que estamos aqui. 
 Eu a vi passando do lado de fora pela janela. Um perfil forte.
 Já no estúdio estava sentada enquanto o diretor a entrevistava. O diretor pediu que eu perguntasse alguma coisa.
 “De que diretor ou grupo de teatro você gosta?”
 Fui seco e rápido. E fiz uma pergunta fora do contexto. Afinal estamos fazendo um filme e não um espetáculo de teatro. 
 Ela se virou para o meu lado e como alguém que já viveu muito, no alto dos seus vinte anos me disse as suas preferências artísticas. Fez isso com uma confiança que pessoas de quarenta ainda não têm.
 Encarava-me não pedindo aprovação do que havia dito, nem provocando, apenas feliz por ter me dito. Por ter compartilhado. 
 E então veio a improvisação e aquele ser ria como uma criança. Um riso forte e honesto, cheio de vida.  
 Eu não sei ao certo que sentimentos eram aqueles que eu estava em relação ela. A Julieta. Digo a garota. É como se eu a conhecesse. Conhecesse de outra vida quem sabe? Quem sabe? Era como se conhecesse seus defeitos. Conhecesse suas qualidades. 
 A inteligência dela me era familiar. A velocidade precisa do que ela dizia. A falta de senso que faz todo sentido na arte. E uma paixão tranqüila.
 O pé dela me era muito familiar. O pé. Meus olhos foram para o pé dela. Me deu uma paz aqueles pés. 
 No outro dia, ela voltou. Eu não sei se ela gostou de mim. Eu sei é que ela gostou de estar lá.
 Aí eu fiquei uma semana pensando. Por que o pé? Conversei com muitas pessoas a respeito. Todas as pessoas me disseram: 
 "Ué Leo? Você ficou a fim da menina". Mas não era isso.
 O mundo é ainda mais simples do que isto.
 Daí eu entendi. Eu reconheci aquilo. Ela tem a mesma ambição. A mesma ambição artística que eu tinha.  
 Eu me vi naquela menina. Eu vi o menino que eu fui, nela.
 Um pé rebelde que não se prende. Mas ao mesmo tempo, um pé de moleca.
 Ok, ela tem também outras coisas. Uns olhos maravilhosos... E sabe-se lá o que eles enxergam. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Alguém aí, por favor, me ensine a chorar.


 Tempos atrás eu e o meu amigo Antonio fomos ver uma peça de uns amigos na Rua 13 de Maio. Um Shakespeare. Depois de termos comprado os ingressos Antonio olhou no relógio e disse:
 “Vamos até a rua para eu fumar um cigarro? Faltam ainda dez minutos”.
 Estávamos então na calçada quando ouvi um carro brecar e atropelar uma criancinha que atravessava a rua correndo de um bar num lado da rua, para uma padaria do outro lado. Foi exatamente na minha frente. 
 Era sábado e a rua estava cheia de moradores e turistas. Não lembro do sexo da criancinha. Só lembro dos parentes e amigos. Eles, ou melhor, elas gritavam e choravam e gemiam. Eu não consegui chorar e Antonio tão pouco. Fizemos uma cara de lamentação um pro outro, olhamos o relógio e fomos ver a peça.
 Claro que nenhum ator do mundo iria conseguir chegar ao grau trágico e frescor que os parentes da criancinha estavam. Mesmo assim eu gostei de ter visto Shakespeare.
 Hoje no parque do Ibirapuera escutei um som, gemidos e uma espécie de choro misturado com latido. Várias pessoas em volta de um cachorro, um Pastor Alemão que segurava um outro pequeno, bem pequeno cachorro pela boca.
 O Pastor Alemão ia trucidando o cachorrinho e ninguém conseguia o fazer parar. Éramos uns vinte humanos testemunhando um assassinato. Um cachorro matando outro.
 Acho que foi a primeira vez que eu vi alguém matando com a intenção de matar. No caso o alguém era um cachorro.
 Virei o olho e as vi. Duas meninas de uns 20 anos. Elas choravam como duas cachoeiras. O corpo, a respiração delas, tudo estava livre para o choro. Nenhum canal estava impedido. Um estilo, uma força, uma naturalidade.
 Eu nunca vou saber chorar assim. Nunca. Não sei se não aprendi ou desaprendi.
 Homem não chora. Nós temos vergonha de chorar? Não sei. Temos. Temos sim. Homem não chora. É o que elas sempre dizem da gente. 
 Ver aquelas duas meninas chorando me deu um prazer enorme. Não tenho a mínima idéia do por que.
 Não sei se foi a de ver uma humanidade tão forte nas duas?
 De ver talvez duas meninas de 20, parecidas com muitas outras meninas de vinte, que já me fizeram sofrer. Só que agora sofrendo elas mesmas?
 Alguém aí me ensine a chorar pelo amor de Deus!
 Por que depois de presenciar um cachorro ser morto de maneira tão bárbara eu ainda consigo jantar um filé?
 De me sentir bem, porque a criança atropelada não era meu parente. Não fui eu quem atropelou.
 O cachorro que morreu não era meu. Não era eu.
 E me deu uma pena do Pastor Alemão. A carinha dele. Ele não tinha a mínima idéia do que havia cometido. Uma cara meiga.
 E o choro das meninas completamente tomadas pela emoção, com nenhuma razão. Será que é assim? O homem só perde a razão para agredir e a mulher só perde a razão quando é testemunha ou vítima de agressão?
 Eu nunca vi meninos chorarem daquele jeito. E nunca vou ver. Já vi meninos num conflito entre não posso chorar e preciso chorar. Não posso e preciso. Não posso e preciso.
 E quando choramos é escondido de nós mesmos. Que inveja daquelas meninas. 
 Se cachorro chora, mulher chora, por que eu nunca aprendi? Que inveja daquelas duas meninas. Nasceram com um talento que eu nunca vou ter. Nasceram mulheres.  
  

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

23 Capítulo VIII


O leitor deve ler os capítulos I, II, III, IV, V, VI e VII, postados anteriormente, antes de prosseguir pelo VIII. Grato.
  
 João Synge era um homem nos seus setenta anos. Mas ainda era forte e enérgico. Quando percebeu que os agentes já não mais se ocupavam de Marcel, ele se aproximou do engenheiro que o prontamente o seguiu.
 Há cinco anos João era o presidente da Petrobrás. A plataforma X fora um projeto dele que começara já com o presidente da republica anterior. 
 Era uma tecnologia de extração de óleo no pré-sal que nunca fora concebida antes na história. Por isso a espionagem não era só entre países, mas também industrial. E enorme.
 Os dispositivos de segurança eram grandes. Ricardo Larkin era anunciado como o grande engenheiro e criador da plataforma X. Porém a verdade é que Marcel era o responsável. Marcel era o verdadeiro nome que era mantido em sigilo. Claro que Ricardo tinha uma posição de destaque, era braço direito de Marcel.
Ricardo expôs os códigos secretos para Mariana. Não que ele tivesse percebido quando ela se apoderou do seu computador em uma das noites de luxúria em seu apartamento. O que Mariana não sabia é que aqueles códigos de segurança poderiam ser facilmente quebrados por outras senhas que na verdade Ricardo Larkin não conhecia.
 Por isso o único homem capaz de deter esta tragédia nuclear e de vazamento de óleo era Marcel.
 João o levou para um dos portões do estádio. Depois seguiram a pé entre a multidão em direção a um pequeno carro, onde um motorista a paisana os aguardava.
 Camila pode ouvir pelo rádio que ela fora responsabilizada, pela agora morte do comandante Alfredo Ferraz. A mensagem dizia para todas as unidades atirarem pra matar. Ao mesmo tempo ela telefonava para casa, enquanto acelerava o carro e passava os sinais vermelhos:
 “Alo Gordo! Segura a picanha que eu hoje vou demorar mais do que eu imaginei. Fala para as crianças dormirem e não me esperarem. E outra coisa... Gordo eu não sei quando foi à última vez que eu te disse, mas... Eu te amo!”
 Gordo desligou o telefone. Sabia que aquilo não podia ser coisa boa. Ele já estava ligado na televisão e sabia do desaparecimento dos jogadores doa seleção americana. Aliás, o assunto era acompanhado por todo o mundo. E se o planeta já para quando na final de uma Copa, imagine quando a final é da maior potencia com a maior nação futebolística. E quando dois jogadores misteriosamente evaporaram. 
 A audiência mundial subiu cinqüenta por cento. Os presidentes e assessores pareciam se estranhar no estádio. Esta pressão fez com que a presidente desse a ordem para dois caças bombardearem a plataforma X.
 Felipe mandou que Torres descesse no gramado do Maracanã. Os agentes informaram Mariana que já estava no estádio que o helicóptero se aproximava.
 “Mandem os atiradores para o gramado, se eles tentarem descer atirem no helicóptero!”
 Cerca de quarenta agentes e policiais foram para o gramado. Era como um show para a já grande platéia que estava presente no Maracanã.
 Longe dali no estacionamento, João reconheceu o carro, mas quando chegou bem perto viu que não era o conhecido motorista e sim um desconhecido no banco do motorista. Não teve dúvida tirou sua arma, mas foi alvejado antes que pudesse atirar. Pedro e dez homens os tinham surpreendido. Preparavam-se para agarrar Marcel, quando ouviram um carro arrebentar a entrada de veículos e vir atirando.
 Camila deu um cavalo de pau e quase tocou Marcel com o carro, sempre atirando. Abriu a porta e ordenou:
 “Entre! Eu sou a verdadeira polícia!”
 Ele ao ouvir os tiros vindo de um lado, e aquela baixinha louca, mas mulher do outro, só teve tempo de pular para dentro. Camila acelerou para cima dos agentes e fugiu do estacionamento. Seguiram pelo bairro da Tijuca e poucos minutos deixavam o Maracanã para trás.
 “Ele fugiu, o tal engenheiro Marcel. A Camila o resgatou.” Informou Pedro para Mariana.
 “Não se preocupe acabei de falar com o Venezuelano e vão colocá-lo no caça. A presidente deu a ordem”. Respondeu Mariana.
 “Então qual é o próximo passo?”
 “Solte os americanos e fuja do estádio o mais rápido possível!”
 Quando o piloto do helicóptero viu que os homens atiravam lá de baixo, levantou. Já em boa altura um outro helicóptero surgiu e junto com ele, tiros. Felipe começou a atirar de volta respondendo aos disparos. Pediu para Letícia e Lucas atirarem.
 Os dois jovens claro se negaram. Então não teve jeito passou a arma para Torres que assustado com tanto fogo amigo passou a atirar também contra a outra aeronave. Uma perseguição começou no céu. 
 Felipe pode ouvir o celular tocar.
 “Rulfo é Camila, a encomenda está comigo. Onde está você?”
 “Olhe para cima.” Ele brincou.
 Do Maracanã o piloto tentou fugir para a zona sul. O helicóptero recebeu vários tiros e começou a perder altitude já perto de Copacabana.
 “Alguém quer pegar uma praia?” Perguntou piloto, numa tentativa de acalmar o desespero. 
 Felipe avisou Camila para ela ir para Copacabana com a, encomenda, que era o engenheiro Marcel.
 Rulfo teve receio de estar sendo ouvido, mas que outro jeito ele teria. Mariana queria agora pegar Marcel de qualquer maneira. Era o que ele achava. Eles não sabiam que o plano dela estava indo totalmente de acordo e Marcel estar livre ou não tanto fazia.  
 Camila já na Avenida Atlântica com duas viaturas a perseguindo, viu o helicóptero aterrissar na praia.
 A Presidente do Brasil reunida com o ministro de defesa deu a ultima palavra. Desta maneira o óleo iria vazar, mas a usina de Angra estaria salva.
 “Ministro os faça decolarem, mas só eu darei a ordem de fogo. Antes eu quero a plataforma evacuada e a cidade de Angra dos Reis também. Não quero um civil morto ou ferido”.
 Na base da aeronáutica, um dos pilotos já estava morto pelos agentes criminosos a serviço de Mariana. Juares um piloto das forças Venezuelanas pegou o seu lugar e roupas. Já com capacete, ele entrou num caça Brasileiro e decolou antes do outro piloto. Desta vez Rubens Figueiredo, um legítimo e honesto piloto militar Brasileiro.  
 Juares tinha ordens claras. Seu alvo não era a plataforma X e sim outro lugar. Outro lugar com milhares de civis. O estádio do Maracanã. 
  


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

23 Capítulo VII


 O leitor deve ler os capítulos I, II, III, IV, V e VI antes de prosseguir pelo VII. Grato.

 Felipe começou uma relação amorosa com o casal Letícia e Lucas. Tanto que em dois meses se mudou para a casa deles. Isso não quer dizer que ele soubesse de tudo que se passava na ONG  clube 23.
 O jovem casal não gostava que Felipe entrasse no escritório que ficava numa edícula da casa. E ele todos os dias saía para o seu disfarce, o escritório de paisagismo.
 A casa tinha uma atividade social intensa. Era sempre Letícia quem cozinhava. Um cardápio vegan. Uma cozinheira assistente foi contratada para ajudar nos jantares. Felipe descobriu que tanto a família de Letícia quanto a de Lucas eram bem abastadas, logo os recursos eram enormes.
  Vivia-se com todo o conforto na casa. Os móveis de designes famosos, geralmente peças contemporâneas de madeiras eram simples, porém caros. O ambiente não raras vezes destoava do comportamento e atitudes dos freqüentadores.
 Enquanto os dois viviam como burgueses, discutiam a revolução com os convidados e associados. Nestes jantares apesar deles gastarem muito, acabavam por arrecadar muitas doações de jovens também preocupados em salvar o planeta. Jovens tão ou mais ricos do que eles.
 Ninguém recusava o convite. E logo os salões da casa Vegan ficaram concorridos pela cidade. Artistas, publicitários, empresários e toda a fauna de modernos e alternativos eram recebidos por lá. Até presença esportistas sofisticados. Como os jogadores juniores do São Paulo futebol clube, Thomas e Mark.
 Felipe, ou Rodrigo como era agora conhecido, chegou a ficar com ciúmes da atenção que Letícia dava a Mark. Mas ele mesmo nunca presenciou nada. Nenhuma infidelidade nem de Lucas e nem de Letícia.
 Era como se para eles os três bastassem. Um dia eles confessaram a Felipe o significado de vinte e três.
 O numero dois significava o bissexualismo e o três a vida a três. Este era o comportamento transgressivo dos dois. A revolução da nova geração. Por isso eles Lucas e Letícia não se consideravam burgueses. Eles tinham uma vida diferente. E Felipe era o numero três deste estilo de vida. Felipe participou de algumas ações. Uma contra o consulado da China. Outra onde ele, Lucas e Letícia ficaram pelados e o corpo coberto por tinta. Um de cada cor. Azul, amarelo e verde. As cores unidas. Um trocadilho com o slogan da marca de roupas que destratava os animais. A imprensa os fotografou assim parados na porta de uma boutique da marca nos jardins. 
 Eles ensinaram Felipe a usar a tinta vermelha para fingir sangue.
 Meses se passaram e Letícia falou do seu desejo de engravidar. Ela queria uma família a quatro.
 Verdade é que Felipe avançava pouco. Suas descobertas eram quase todas sobre os eventos sociais. E doações legais. Ele não conseguia fazer a ligação disso com Pablo, ou outros membros da juventude esquerdista da América Latina. Lucas e Letícia participavam de fóruns mundiais sociais e liam revistas esquerdistas, porem pareciam pessoas politizadas de maneira pacífica. Inclusive eram ambos contra armas de fogo e qualquer tipo de armas.
 Felipe tomava café num lugar movimentado da região da Avenida Berrini. Esperava por Mariana. Um homem de uns trinta anos entra no lugar. Felipe o percebe se aproximando. Felipe já há meses não usava uma arma. Nunca seria aceito na casa Vegan com uma.
 O homem saca um documento e joga na mesa. Com calma se senta:
 “Eu vou deixar as minhas duas mãos em cima da mesa.”
 Felipe se acalma ao perceber que o homem era também da polícia federal.
 “Afinal quem é você?”
 “Felipe meu nome é Antonio Sampaio. Ouça-me com atenção.”
 Antonio disse a Felipe que o conteúdo da conversa não poderia ser revelado a ninguém. Felipe ouvia enquanto Antonia dizia que membros da operação, “verde que te quero verde”, estavam ligados a ONG clube 23.
 Felipe achou aquilo tudo um absurdo e disse a Antonio que iria comunicar isto aos seus superiores imediatamente. 
 "Não você não vai."
 Como eu não vou? Pensou Felipe. Afinal o que era aquilo? 
 "Depois do que eu te mostrar, eu garanto que você vai trabalhar para o meu lado. O lado da polícia." 
 Ele só se acalmou quando Antonio retirou uma das mãos da mesa e deu para Felipe um envelope.
 Felipe abriu o envelope e quase perdeu os sentidos. Eram fotos de Lucas e Letícia em vários lugares com uma bela mulher mais velha. Em restaurantes, parques, e até na praia. Eles beijavam-se e pareciam estar se divertindo muito. Parecia o verdadeiro trio 23.
 O que deixou Felipe desesperado é que ele também já tinha sido amante desta mesma mulher. Ela era Mariana a sua superiora. A chefa da operação “verde que te quero verde.” 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

23 Capítulo VI


O leitor deve antes ler os capítulos I, II, III, IV e V antes de prosseguir pelo VI. Grato.

 O trem bala estava realmente cheio. Era a primeira viagem da maioria dos passageiros, naquele trem. Todos com a cabeça no jogo, na final. Teriam duas horas e meia para chegar até o Maracanã.
 As pessoas observavam ainda atônitas enquanto o condutor chefe dizia pelo celular que haviam encontrado um passaporte venezuelano no atirador de Felipe Rulfo. Depois desligou. Disseram-lhe que uma equipe aguardava na estação de trem e levaria Felipe para um hospital.
 Uma mulher levantou no fim do corredor e veio em direção ao vagão onde Felipe estava no chão baleado e sangrando. Ela usava um vestido verde que combinava com seus lindos olhos também verdes e os cabelos soltos.  
 “Pode deixar comigo eu sou médica.”
 O condutor chefe estranhou, mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, um dos seguranças, um jovem atlético de boca carnuda lhe deu um choque elétrico que o fez perder os sentidos. Felipe quando percebeu que tudo havia sido feito como o planejado, abriu os olhos e se levantou. Na outra ponta do vagão o mesmo atirador apareceu, estava perfeitamente bem e vivo claro. Ele, o atirador, se juntou aos outros dois seguranças e seguiram atrás de Felipe, Letícia e Lucas.
 “Temos de descer do trem antes da estação!” Gritou Letícia.
 “Impossível.” Falou Felipe. No mesmo instante o trem começou a brecar. Puderam ver uns vinte agentes da central de segurança da Copa na estação.
 Felipe não teve dúvidas e pediu as algemas para um dos seguranças disfarçados. Na verdade eram todos do grupo 23. Antes que ele as colocasse em Letícia e Lucas, ela disse:
 “Você sabe que não temos nada a ver com isso. E só nós podemos salvar a plataforma.”
 “Eu sei”. Ele disse.
 Então passou as algemas nos dois. Saiu do trem com a carteira de Federal para fora. Disse que efetuara a prisão. Explicou que havia detido os dois fugitivos e que os levaria para a Central de segurança. Não deu tempo para que confirmassem na central. O agente Torres, responsável pela operação, os encaminhou para a cobertura do prédio da estação onde estava um helicóptero. Mal eles entraram na nave o piloto colocou as hélices em movimento. Já no ar Felipe abriu as algemas e ele e Letícia apontaram as armas para o piloto e para o agente Torres.
 “Mudança de curso!” Gritou Felipe. “Nós vamos para o estádio do Maracanã!”
 O agente Torres entregou a arma e pediu que o piloto cooperasse. A aeronave seguiu para o Maracanã.
 Camila comunicou ao comandante Alfredo Ferraz sobre o desvio e fuga de Felipe Rulfo. Mas Alfredo havia se lembrado de algo. Pediu para agente Camila entrar.
 “Camila você conhece o agente Pedro há quanto tempo?”
 “Alguns meses senhor, desde quando o treinamento para a Copa começou.”
 “Você lembra se ele é vegetariano?”
 “Nunca reparei comandante.”
 “Ontem, tivemos uns cachorros quentes e ele tirou a salsicha. Você lembra disso?”
 Sim Camila lembrava como também lembrava agora de ter visto Mariana fazer o mesmo. Nisso o comandante sentiu um cansaço e antes de desmaiar apontou o copo de suco para Camila.
 A agente Camila não teve dúvida ao ver o comandante desmaiar. Ele havia sido drogado. O agente Pedro era o segundo na hierarquia, mas agora tudo estava muito confuso. Se Mariana era a responsável por tanto tempo da operação “verde que te quero verde” como ela nada informou e não sabia como proceder? Ligou então para o agente Torres:
 “Me passa o Rulfo.”
 “É para você.”
 Correndo com o celular na mão, Camila entrou numa viatura e ela mesma dirigido acelerou em direção ao Maracanã.
 Ricardo Larkin sorriu ao ver sua bela amada entrar na sala. Ele estava sentado sendo vigiado por dois seguranças. Ela parecia diferente, fria. Chegou perto dele e foi quando ele viu a arma na mão dela. Depois não sentiu mais nada. Foi bem rápido. Depois ela virou-se e ainda caminhando com salto alto deixou a sala. 






 
 




 



































23 capítulo V


O leitor deve antes ler os capítulos I, II, III e IV antes de prosseguir pelo V. Grato.

 Felipe Rulfo acordou e seguiu para o escritório de paisagismo. A polícia federal tinha alugado uma casa numa vila e colocado além de Felipe e Mariana, mais cinco policiais na operação: “Verde que te quero verde.”
 Assim como os membros do grupo 23 saiam na Avenida Paulista pedindo doações, um disfarce para dar um tom amador nas ações terroristas, a polícia federal tinha também seu disfarce. A policia tinha que fazer eles, o grupo 23, entrar na de Felipe Rulfo.
 Por isso ele tinha sido escolhido. Felipe era também jovem e bonito. Tinha um aspecto descolado e de ser alguém com propensão à esquerda. Ou pelos menos parecer isso. Pois se sabia tratar-se de um grupo de esquerda.
 Já no atelier de paisagismo seu celular tocou. Todos agentes ouviram em silencio o convite de Letícia para que Felipe fosse jantar em sua casa. Ela passou no endereço e marcou para as oito horas.
 Mariana ficou muito animada. Ela imaginava que talvez fosse Felipe quem iria fazer o primeiro contato, mas depois ficou desconfiada. Não haviam afinal passado nem vinte e quatro horas do primeiro contato.
 Era uma casa grande na zona Sul de São Paulo. Um jardim bem arborizado. Foi Lucas quem abriu a porta e apresentou o casal de convidados. Um espanhol de nome Pablo e uma Argentina de nome Ana Laura.
 Letícia saiu da cozinha e veio dar um oi rápido e depois voltou para a cozinha. Lucas ofereceu uma cerveja que Felipe ou agora Rodrigo aceitou. A casa tinha vários livros e uma enorme mesa de madeira.
 Durante o jantar o casal de castelhanos contou da viagem que fizeram a Cuba. Eles tinham visto mais pontos positivos lá do que negativos. Verdade é que queriam mais ouvir as opiniões de Felipe do que falar das suas próprias.
 Pablo era um sujeito que sorria pouco. Disse a Felipe que odiou a Avenida Paulista porque lá só havia bancos.
 “Mas os bancos mudaram-se todos para a Avenida Faria Lima.”
 Pablo respondeu que esta Avenida Faria Lima então deveria ser também bem feia e desinteressante.
 A comida e o vinho eram maravilhosos. Felipe cogitou em se tornar até um vegetariano. Ele não podia parecer nem muito militante de esquerda e nem tão pouco a favor do sistema. Aqueles quatro jovens queriam testá-lo, mas também queriam recrutá-lo. E ele não podia mostrar-se pronto a se converter tão rápido. Aquilo traria desconfiança e não seria tão prazeroso para os outros.
 Lá pela meia noite, Pablo e Ana Laura se despediram. Felipe disse que também iria, mas Letícia o segurou.
 Lucas ofereceu mais vinho a Felipe enquanto Letícia aumentava o som. Quando o policial deu por si, ele estava beijando os dois Lucas e Letícia.
 Lucas tinha uma barriga durinha e era uma meiguice só. Pelo incrível que pareça aquela moça delicada e sofisticada era um furacão.
 Ora ele passava as mãos no corpo de Lucas que tinha uma boca carnuda, ora sentia a delicadeza de Letícia. Que embora muito feminina lhe dava umas pegadas mais agressivas, enquanto o doce Lucas ia bem de vagar.
 Letícia tinha uma boca fina e cabelos longos. Gostava de comandar, enquanto Lucas curtia ser comandado.
 Ele sentiu muito carinho daqueles dois e se perguntava como poderiam ser más pessoas se o abraçavam tanto. Com tanto afeto.
 Será que sempre fazem jantares e agarram os convidados depois? Toda semana? Dia sim, dia não?
  Acabou passando a noite lá. Teve receio de mandar um torpedo para Mariana e o resto da operação: “Verde que te quero verde.”
 Acordou com o jovem casal na grande cama deles. Na janela ele via as árvores enormes do jardim. Realmente era uma casa e tanto. Nem parecia que estavam em São Paulo. Lucas comentou que durante o café da manhã que Felipe poderia dar uns palpites no jardim.
 Mas Letícia o salvou. Dizendo que ele não faria uma consultoria de graça e que não cansassem o hóspede.
 “Mas o seu jardim já é lindo.”
 Letícia adorou aquilo. Felipe disse que tinha de ir trabalhar. Ele antes de sair perguntou:
 “E quando vocês irão à minha casa jantar?”
 Aquilo era bom. Mariana recomendou que ele retribuísse o convite. Letícia e Lucas sentiriam confiança em saber onde Felipe morava.
 Mas nenhum dos dois se animou em responder.
 “Nos falamos”. Disse simplesmente Letícia. De um jeito bem rica esnobe.
E logo depois Lucas começou a retirar a mesa. E disse um: “Tchau”.
 Felipe ligou o carro e se foi. Um outro carro logo em seguida o seguiu. E de novo Felipe não notou nada.
 Letícia fechou a porta, pegou o celular e ligou. 
 “Ele acabou de sair daqui.” A voz do outro lado disse.
 “O que você achou dele?”
 Lucas sorriu quando ouviu ela dizer:
 “Uma delícia.”
 “E o Lucas?”
 “Também gostou.”
 “Ótimo. Vamos prosseguir. O próximo a fazer contato será ele.”
 Letícia desligou o celular. Puxou Lucas pela camiseta.
 “Agora vamos cuidar do jardim.”  

terça-feira, 26 de julho de 2011

23 Capitulo IV


O leitor deve antes ler os capítulos I, II e III antes de prosseguir pelo IV. Grato.

 Pedro entra na sala do Comandante Alfredo e interrompe a narrativa de Mariana:
 “Senhor, o Ministro da defesa quer falar com você!”
 “Passe a ligação.”
 O comandante tentou explicar ao Ministro da defesa sobre a plataforma X. Estava claro que se não achassem uma solução rápida uma explosão da plataforma não só causaria um desastre ambiental sem precedentes como devido à profundidade da plataforma as usinas de Angra se abalariam e com isso soltando radiação para grande parte da região sudeste, incluindo a cidade do Rio a poucos quilômetros.
 Foi quando o Ministro quis saber sobre prováveis suspeitos e disse que todo o corpo de bombeiros, marinha, exército e policia estavam à disposição do comandante Alfredo.
 “Sim estamos investigando e caçando membros de um grupo de terroristas ambientalistas de nome 23. Ministro, eu acho melhor você pedir para tanto o presidente americano, bem como para a nossa presidenta Brasileira, seguirem para Brasília.”
 “Você está louco Alfredo. Eu quero que você encontre estes jogadores já! A marinha e a Petrobrás vão cuidar desta plataforma.”
 “Mas Ministro, eu insisto, não haverá tempo.”
 “Alfredo eu já falei com a assessoria da presidente. Eles querem que você encontre os jogadores antes da mídia saber do desaparecimento. Deixe a plataforma para os especialistas. Não há nada ali que você possa resolver. Já colocamos os melhores da área para resolver este problema." 
 “Sim senhor, entendido.”
 “E mais uma coisa, como um grupo ambientalista pode querer causar um desastre ecológico?”
 Aquilo era verdade, no fundo o Ministro tinha razão. Pedro interrompeu os pensamentos do comandante.
 “Senhor Mark Dahl e Thomas O’ Brien haviam jogado futebol em 2011 no juvenil do São Paulo”. E Camila completou.
 “Os dois são vegetarianos, ou melhor, vegans, que são pessoas que não comem nenhum derivado de animais. Nem leite, nem queijos, nada que tenha proteína animal.” 
  O comandante teve então um palpite. E perguntou pelo ônibus. Ninguém some assim. Desaparece na frente do mundo. A não ser que não houvessem sumido no túnel   
 A equipe no Maracanã, estava vasculhando o lugar atrás de Ricardo Larkin. E ninguém mais sabia do ônibus.
 “Quem liberou o ônibus? Quem revistou o ônibus?”
 Ninguém havia feito isso. Encontraram o ônibus no estacionamento do estádio. Os agentes perceberam que existia uma porta no chão do acento de onde estiveram os jogadores. Mal se podia notar o finíssimo corte. A equipe desvendou então que os próprios jogadores haviam aproveitado a escuridão, aberto a portinha, alçapão, e fugido para o subsolo do ônibus na parte de bagagem e com certeza se mantiveram abaixados até estarem em lugar deserto para sair. Para serem com certeza resgatados. 
 “Vocês estão dizendo que os Americanos fizeram uma espécie de Cavalo de Tróia, para enganarem eles mesmos?. Digo enganarem a própria delegação?" 
 “Exato comandante.”
 Neste instante o Ministro ligou novamente.
 “Alfredo a assessoria da Presidente recebeu um pedido de resgate dos jogadores Americanos. Os criminosos pedem que a Presidenta faça ao vivo na televisão para todo o mundo um discurso prometendo proibir não só a exportação de carne, mas também todo o consumo de carne no Brasil.”
 “Ministro. Temos evidencias de que os dois jogadores Americanos estão participando dessa ação. São cúmplices.”
 Alex correu o mais que pode, ao chegar à cadeira que estava reservada para Ricardo Larkin a encontrou vazia. A arquibancada já estava quase cheia e muitas pessoas vinham e sentar-se e levantavam-se atrás de comidas e bebidas. Outras cantavam. Neste tumulto, Alex notou que um senhor estava ao lado do lugar de Ricardo Larkin.
 “Você conhece o Ricardo Larkin?”
 O homem explicou que ele e Ricardo tinham vindo juntos. E que dois homens se identificaram como agentes do serviço de segurança da Copa. E o levaram. Alex se identificou e disse que ele sim era do serviço de segurança da copa. Agencia central. O homem que se chamava Marcel Oliveira e era também engenheiro, não da Petrobrás, mas civil acreditou em Alex, porque vinte homens o acompanhavam. Com um exército destes só pode ser o verdadeiro e os outros é que eram falsos. Não teve dúvidas em contar tudo.
 “Eles disseram que a plataforma X estava com problemas. O Ricardo não pareceu surpreso. Ele olhava para todos os lados antes mesmo dos homens chegarem.”
 “Marcel você deve me contar tudo. Muitas pessoas estão em perigo, inclusive você e sua família. Terroristas estão agindo e nós temos de impedi-los antes que eles cometam algum grande ato terrorista. Estamos correndo contra o relógio”.
 Marcel contou que o amigo conhecera há umas duas semanas uma mulher muito bonita. E que ele, Marcel, achava estranho.
 “Estranho por quê?” Quis saber o agente Alex.
 “Veja bem, eu e também Ricardo, não somos propriamente ricos e nem um exemplo de beleza e esta mulher além de ter uma aparência de classe média alta, era bem bonita para se interessar pelo meu amigo. Ele deveria ter comunicado a vocês. Mas o ser humano às vezes acredita em conto de fadas. Pobre Ricardo.”
 “Você sabe o nome desta menina?”
 “Sei sim. É Letícia. E um sobre nome árabe, como acho... Haddad.”
 Alex mostrou uma foto da líder do Grupo 23.  
 “É esta?”
 Marcel olhou a foto atentamente.
 “Só se ela estivesse bem mais nova nesta foto. A mulher que eu falo tem uns quarenta anos.” Ele olhou de novo para a foto. “Não definitivamente, não é esta mulher não.”
 Alex estava começando a ficar desanimado. E para o seu maior desespero o telão do estádio informava as ultimas notícias: Dois jogadores Americanos estavam desaparecidos. Agora o mundo todo já sabia.