sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Augusta e Oscar Freire.


Sigo a noite pela Rua Oscar Freire, estou quase na esquina com a Rua Augusta. Uma mulher com três crianças me pede:
 “Moço tem um trocado?”
 Viro o rosto em sua direção e sem diminuir o passo, digo baixinho.
 “Não tenho.”
 Ma ela ainda insisti:
 “Deus lhe paga em dobro.”
 Estou indo encontrar 5 amigos homens num restaurante badalado dos jardins onde jantaremos e depois vamos a um cabaré. Para comemorar algo que não vem ao caso.
 Paro no sinal e espero para atravessar a faixa de pedestre, quando escuto uma menina, uma criança, com certeza a filha da mulher:
 “Moço dá um dinheiro pra gente!”
 Continuo dizendo que não tenho. O sinal não abre e ela nas minhas costas insiste:
 “Moço nós não temos onde morar, nós vamos dormir na rua.”
 A menina agora falava num tom de revolta, de desespero. Um ser que sabia que outro ser humano, no caso eu tinha condições de ajudá-la. Ela, a menina, uma criança, não podia entender como eu não queria ajudá-la. Por que será que aquele homem é tão ruim? Ela devia se perguntar.
 “Ajuda a gente moço.”
 Agora ela me seguia pela rua e ela queria provar pra ela mesma que existem almas boas. A menina queria acreditar na humanidade. Já eu comecei entrar em desespero queria gritar, queria que aquela menina desaparecesse.
 Lembrei das campanhas do rádio que dizem que não se deve dar dinheiro par crianças, porque isso estimula a exploração infantil.
 Não me ocorreu nenhuma piada. Aquilo não tinha graça. Poucas vezes na vida o humor me abandonou. O bairro com mais glamour de São Paulo. Butiques chiques e aquela menina e a família iria dormir ali na rua na frente de uma vitrine.
 Uma vontade de socialismo me invade. Eu dando as costas para a menina e seguindo para um restaurante quentinho onde eu iria comer e beber e rir. Rir?  Como eu iria rir agora?
 Na mesa ao lado, uma família rica jantava. Uma menina da mesma idade da moradora de rua dormia. Ela usava uma malha cara e lindas botas. Provavelmente já aprendia Inglês.
 De lá seguimos para um bordel como havíamos combinado. O lugar tinha luzes frias, e mulheres com risos forçados que circulavam entre homens tristes.
 Acho que só vão a bordeis homens tristes. Durante algum tempo eu chamei bordeis de cabarés. Mas em cabarés existem shows, música e circo.
 Logo penso por que eu vim aqui? Este lugar não tem nada comigo. Nada a ver comigo. Mas em cinco minutos começo a gostar.
 As luzes frias, de onde eu conheço um lugar parecido com esta atmosfera? Sem romance. Sem imprevistos. Os bordeis são cheios de regras. Te dão uma pulseira. E te dizem: "Não pode isso, não pode aquilo."
 Você tem de pagar uma bebida para a garota. Você tem exatamente uma hora, se passar tem de pagar tudo de novo.
 É quase um quartel de tanta disciplina. Não há espaço para surpresas.
 Eu começo a explicar para duas jovens prostitutas que elas são exploradas e que deveriam cobrar mais. Falo de Brecth, de Marquise e todas se dizem de Porto Alegre. Mesmo as com sotaque nitidamente nordestino.
 Eu não posso também fazer um retrato do lugar em apenas uma noite. De repente surge uma mulher dentro de um casaco preto. Ela está descalça. E me diz para eu tirar os copos da mesa.
 Meus amigos a tinham contratado para um striptease. O maitre puxa um dos bancos e o garçom recebe seu casaco. E a mulher com um corpo fantástico sobe na mesa e inicia uma dança do ventre.
 Aquele lugar inóspito torna-se confortável. E eu que era o que mais hesitou em ir lá dos amigos, começo a gostar.
 Me cai a ficha. Aquelas luzes frias, que não tinham nada de feminino, aquele lugar masculino. De homens que não gostam do feminino e tão pouco talvez gostem de mulher, e sim só transar com mulher. Aquele lugar me lembrou a minha casa. Minha coleção de revistas.
 “Quanto custa para você fazer um strip só pra mim?”
 Meus amigos com exceção de um começaram a querer fugir dali. E fugiram. 
 Quando a mulher subiu comigo e conversamos dentre outras coisas sobre dança. Ela aos poucos deixava de ser uma mulher e ia se tornando uma menina.
 “O que você faz?”
 “Sou polícia.” Eu disse.
 “Já namorei um policial.”
 A velinha do caixa diz que sou um homem muito bonito para freqüentar ali. A dançarina me da o número do telefone e me mostra o RG.
 “Este é o meu nome.”
 Mas desconfio que ela queira só um cliente. Um nerd como ela me definiu. Ela não conhecia nem Bob Dylan, nem Moliere, nem tão pouco falava inglês. Mas conhecia algo que eu não conheço: Lisboa.
 Atravesso a Avenida Rebouças de banho tomado e venho voltando para casa. Caminhando pela Rua Oscar Freire. Chego à esquina da Rua Augusta. É madrugada. Já tomei muito wisky.
 Venho pensando em escrever uma peça com dois personagens, um cliente e uma prostituta.
 Já não me lembro mais da pequena menina que me pedira um gesto há poucas horas.
 Um gesto só. Para ela continuar na infância. Para ela acreditar na bondade. Para ela acreditar no que a mãe me disse:
 “Deus te da em dobro.”

  

sábado, 17 de setembro de 2011

Complicada e perfeitinha.


 Quando estamos apaixonados parece que as outras mulheres percebem. A garçonete me olha a cada dez segundos. Peço uma ajuda:
 “Pra beber. O que você sugere?”
 “Olha, nesse frio, eu to quase sentando com você e tomando um vinho.” Ela me diz sorrindo. Deve ter uns vinte anos.
 De repente uma outra mulher senta-se na mesa e para surpresa dos meus amigos me pergunta se eu sou Libanês. Diz que é por conta dos meus traços. Deixa-me um cartão e pede para eu ligar.
 O gordinho com uma mochila nas costas atravessa a Avenida Paulista correndo. Os carros quase o pegam. Sua barriga vai à frente.
 À noite vou ao concurso de Miss Universo.
 Ela é mais linda do que qualquer miss.
 “Quando eu te vejo de novo?”
 “Nunca mais.”
 Ela me diz assim. Depois de passarmos a noite juntos.
 “Você é doida.”
 “Não Leo. Você é que é doido por mim.”
 “Sabia que eu nunca abri a porta do carro para mulher nenhuma?”
 “Todos os homens sempre abrem à porta do carro pra mim!”
 Quando estamos apaixonados os mesmos lugares tão cotidianos se tornam tão interessantes.
 “Nossa como você está gatinho! Adoro o seu cheiro!”
 “Você também está... Bem bonita.”
 “To indo viajar.”
 “Pra onde?”
 “Outro País.”
 “E volta quando?”
 “Não sei. Mas você ainda tem algumas horas.”
 Quando estamos apaixonados nós vemos uma beleza até no gordinho que atravessa a Avenida Paulista. Adoramos o filme comercial. Amamos o prato feito, com arroz feijão. Eu pelo menos me sinto mais homem. Vou beber com meus amigos. Fico até com vontade de ter um time de futebol.
 O mundo começa a fazer todo sentindo. A profissão dos meus amigos deixa de ser um assunto monótono.
 As amigas dizem para eu usar camisinha.
 “Mas se eu usar camisinha como eu vou ser pai?”
 E ela vai cantando um samba.
 E eu descubro que gosto muito de mulher. Ainda mais esta, que é complicada e perfeitinha. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Me conta uma história.


  “Leo me conta uma história”.
 Eu estava ali com aquela menina ouvindo o mar. No meu quarto em Juquehy.
 A luz da lua entrando e eu completamente apaixonado. Mas e agora?
 Não era a primeira vez que uma menina me pedia uma história. Minha sobrinha sempre me pede. Acontece que a minha sobrinha tem 3 anos. E acredito que ela se prende mais aos gestos e sons improvisados que eu faço, do que na trama propriamente dita.
 E como minha sobrinha não tem ainda um repertório grande, ela nem pode saber se a minha história é realmente boa.
 Mas a outra menina, não a sobrinha, mas a de 1,77 metros virou-se e ficou me olhando:
 “E então? Conte-me uma história pra eu dormir.”
 E agora Leo? Você diz que cantar não sabe. Não escreve poesia, não pinta nem toca violão. Logo ou você diz que está cansado e prepara um super almoço amanhã, finja ser um grande Chef, ou pense logo numa história. Sem nada é que não dá para ficar. 
 Não que eu não saiba muitas histórias, mas eu precisava uma original. Não quero que ela se apaixone por um outro escritor, mesmo se for um morto. Respirei fundo e me lembrei de uma história. Mas uma história que aconteceu ali mesmo em Juquehy. Me lembrei? 
 “Eu estava com o meu amigo Teco, no carrinho de coco dele. Eu já tinha andado a praia toda e agora estava sentado numa cadeira de praia com ele ao meu lado e ambos víamos o mar, num lindo domingo azul.
 O movimento do carrinho estava devagar, pois era inverno. Dois casais se aproximam. Eram quatro jovens na casa dos 20 ou dezoito. Vinham de mãos dadas. Um menino com um corpo perfeito, sem gordura, alto e uma menina mais baixa, também maravilhosa se aproximaram, enquanto o outro casal ficou um passo para trás. 
 -Quanto é o coco? Perguntou o rapaz. No que Teco respondeu 4 reais. -Eu quero 4 cocos, mas vou pagar só 10 reais. É melhor você aceitar os 10 porque você não vai vender mais nada hoje e vai acabar jogando os cocos fora.
 O rapaz ia dizendo estas teorias econômicas de mercado e Teco ia retrucando que não, que os cocos eram 4 reais cada um. -Dezesseis reais. Se não eu não tenho lucro. 
 Eu percebi que quanto mais o rapaz falava mais a menina ficava sem graça. E notei ainda mais. Pelo jeito de falar, os modos e o tom de voz, percebi que se tratavam não de classe média alta, mas de classe alta mesmo.
 O rapaz queria impressionar a garota, como se ele estivesse negociando milhões. O outro casal ficava apático ao lado só observando. Mas durante as negociações que já se estendiam e o rapaz já ia querer ensinar matemática financeira ao Teco, o outro rapaz tirou vinte reais do bolso da bermuda e disse:
 -To fica aí com o troco. Teco então guardou o dinheiro, sorriu e cortou os cocos.”
 Minha amiga me interrompeu:
 “Teco é aquele cara meio surfista que você conversou no carrinho de coco hoje?”
 “É ele mesmo.”
 “Um que tava com uma menina sarada e bronzeada bem bonita?”
 “Esta é a menina que estava com o rapaz do coco.”
 “Então ela largou o carinha mauricinho e agora está com o vendedor de coco?”
 “Isso. Não é uma história de amor linda?” Eu perguntei.
 “Não.” Ela disse.
 “Como não? A patricinha gostar de um cara duro e não de mauricinho? Não é bonito isso?” Eu quis saber.
 “Leo, isto aí não é uma história. É uma fofoca.”
 Minha amiga então se virou puxou o cobertor e disse baixinho.
 “Boa noite Leo. História de amor... Até parece.”
 Mas daí já era tarde demais. E eu não consegui dizer a verdade.
 Que nunca vi nenhum Teco. Nem conhecia o cara do carrinho hoje. Nem a menina bronzeada. Nem nunca vi casais de mauricinhos, comprando coco. E nem sei teorias econômicas.
 E pensei em silencio: O que eu queria menina era me acertar com você. Igual o cara com a menina bronzeada que vimos hoje. Os dois riam, e ninguém nem comprava coco nenhum.
 Juventude, beleza, praia e céu azul já bastam para uma história de amor. Trama pra que? 
 E já no escuro ouvi:
 “Leo eu gosto de você. Mas ainda quero saber o fim desta história.”
 Eu também. Eu também quero menina. E nela você é a protagonista. Minha protagonista.
 E antes de dormir ainda mandei um torpedo pra minha tia.
 “Querida tia, amanhã logo cedo vou te ligar pra saber a receita daquele peixe. Caso de vida ou morte.”
 E no dia seguinte depois do almoço.
 “Leo, suas histórias são ruins, mas já o seu peixe... Delicioso.”
 Será que ela soube que eu atravessei a rua e peguei o prato pronto com o Chef de cozinha do meu restaurante? Que não fui eu, nem minha tia? Essa que aliás sumiu.  
 Então ela suspirou e disse:
 “Depois deste almoço me deu um sono". Bocejou, virou o rosto pra mim:
 "Me conta outra história para eu dormir a sesta?”
 “Não prefere uma massagem no pé?”
 “Pode ser." Fui indo pegar o pé dela.
 "Pode ser uma massagem com histórias." 
 Ufa! Leo, ou bem você começa a cozinhar ou arrume mulheres menos lindas e mandonas. E pra minha sorte, acho que ela não conhecia Giovanni Boccaccio. Ou fingiu não conhecer.
 “Que histórias lindas Leo! Eu não vou nem dormir para ouvir o final.”
 “No final ela lava a louça.”
  E ambos rimos. Ouvindo jazz e vendo o mar. 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fim da primeira jornada.


Certa vez lendo Peter Brook, um diretor de teatro, eu entendi quando se deve terminar um espetáculo.
 Ele diz que quando não sentimos mais o impulso, a motivação, a coisa viva, devemos encerrar.
 Este meu BLOG, crônicas censuradas fez um ano. Com 60 crônicas, 1 novela, 3 contos e algumas peças (cenas) curtas e uma peça de teatro média.
 Quando tive a idéia de ter um blog eu pensava em escrever humor, textos cômicos. Sempre tive em mente trabalhar a ficção e às vezes fatos autobiográficos em forma de ficção.
 Colocar minha visão de mundo não em opiniões claras, mas em situações, narrativas e nas falas dos personagens. Mais um retrato do mundo e menos uma crítica social.
 O que aconteceu logo no início e se seguiu foi que os meus textos não se mostraram humorísticos e todos, praticamente todos, tem um só tema: Meninas.
 Eu nunca poderia imaginar.
 Acho que estes textos falam da minha relação com essas meninas. De como elas me enxergam, ou eu acho que elas me enxergam. Do que eu sinto por elas. Da indiferença delas. Às vezes do amor delas. Muitas vezes do meu amor por elas.
  Mas eu acredito que esta fase está terminada, concluída. Eu quero agora escrever de outras coisas, novos temas.
 Por isso encerro por enquanto este período. E voltarei, não sei quando, com algo diferente, que ainda nem sei o que é.
 Eu nunca reli meus textos. Mas sei que as últimas crônicas caíram em qualidade.
 A última inclusive é um desabafo e não um texto literário. “Homem a beira de um ataque de nervos”.
 Até aqui este blog se mostrou universal. Mas de um tempo pra cá, ele começou a querer seguir para uma forma de diário.
 Enfim. Acho que hoje começa o início da segunda jornada. Valeu! Obrigada leitor. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Homem a beira de um ataque de nervos.

 ADVERTÊNCIA: Isto não tem qualidade para ser uma crônica, é na verdade um desabafo. 

 Fim de semana passado eu fui a um almoço de uma amiga. Uma feijoada. Sábado lógico. Fazia tempo que não via o pai dela. Ele me perguntou o que eu andava fazendo.
 “Bem eu ando a beira de um ataque de nervos!!!”
 “Por quê?” Ele quis saber.
 Claro que eu não contei tudo. Mas o pai da minha amiga é que nem um detetive. Ele é um grande psicanalista. Vai sacando.
 Eu não disse que a minha relação com as mulheres lésbicas anda muito estreita. E que uma delas me convenceu de que eu sou uma “mulherzinha”. Isso eu não conto para ninguém, nem para você leitor.
 O que pega é que quando eu tinha sei lá... Era adolescente o que eu queria eram todas as mulheres do mundo.
 Na verdade eu queria era ser o 007. Nem muito por conta de Mônaco, Itália, Caribe, carrões e bebidas. Eu queria era ser 007 por causa das mulheres que são apaixonadas por ele. Mulheres lindas, e que nunca ficam de TPM.
 Quando eu tinha vinte anos, meus pais diziam que eu era gordo. Eu me achava gordo e velho. Já hoje em dia, com trinta e seis anos, os meus pais continuam me achando gordo. E agora eles me acham gordo e velho.
 Mas agora eu não me acho mais velho. Eu me acho gordo e baixinho.
 “Eu estou fazendo um curta metragem. A história de um cara com 36 que se apaixona por uma menina de vinte. Mas em 15 minutos de filme, ele se descobre apaixonado pela esposa de trinta. Ele percebe que não ama a menina de vinte e sim a mulher de trinta. E se aceita como adulto. O problema é que eu estou confundindo ficção com realidade e acho que me apaixonei por uma menina de vinte. Na verdade por uma só não. Mas por três. Uma de vinte, uma de vinte um e outra de vinte e quatro.”
 Foi aí que ele me disse a frase:
 “O eterno sair e voltar.”
 Acho que ele quis dizer que passamos à vida entrando e saindo da infância. Entrando e saindo da adolescência e da vida adulta. Não só em relacionamentos, mas em tudo.
 Acontece que eu fujo ao padrão. Eu não terminei a faculdade, eu nunca trabalhei num escritório e eu nunca quis ser jogador de futebol. Vocês conseguem imaginar o 007 jogando futebol?
 O que eu quero dizer é que eu não sinto falta da turma da faculdade, do primeiro emprego, primeira namorada, eu não tenho este tipo de nostalgia.
 Eu sinto falta daquele cara, que se acha alto, magro, cafajeste, seguro e sedutor. Que consegue pegar a mulher que quiser.
 Acontece que ele vem só às vezes, e tem fases que ele demora a aparecer.
 No mais sou obrigado a conviver com este aqui. Que escreve blog, afetado, inseguro e apaixonado pela primeira criatura que cruza a sua vida.
 Outro dia saí com uma mulher de trinta. Engraçada, louca, linda, segura, promíscua, sensual, um puta papo e sofisticada. Uma pele e um corpo lindos.
 Me bateu uma saudades dela. Daquela bunda, daquela informalidade. Das risadas. De beber com ela.
 Mas eu queria era eu ser o 007 e não ter uma mulher 007.
 “Acho que você quer dormir sozinho, não é? Vou te deixar dormir a vontade na sua cama e vou embora.”
 E se foi.
 Liguei então para uma amiga lésbica e contei a história.
 “Leo são quatro da manhã e você está me contando sobre uma mulher que você acabou da transar e foi embora. Sabe o que você é?”
 “Sei um homem a beira de um ataque de nervos.”
 “Não. Você não é um homem a beira de um ataque de nervos. Não. Você é uma mulherzinha.”
 “Na verdade minha amiga, todos nós homens somos. Eu só não disfarço.”
 “Leo você é uma lésbica e boa noite.”  
 Então sozinho comecei a lembrar do diálogo. Do que ela a menina, a mulher tinha falado. O que será que ela quis dizer? Será que eu tinha que ter insistido para ela ficar? Será que eu ligo? Será que ela gostou de mim? Será que eu estou gordo? Será que eu estou velho? Nossa Leo...
 Será que o 007 fica se perguntando essas coisas? Não. Acho que não.
 Ah se eu fosse um pouquinho mais alto! Ah se eu tivesse olhos verdes! Uns cinco centímetros a mais, de altura... E não tivesse alguns fios brancos. O que mata é um ossinho que eu tenho aqui... Ah! Se eu fosse mais jovem... Amanhã começo um regime. Será que eu tinha que ter insistido? Será que o problema é a minha barba? Será que eu falei alguma bobagem? Algumas? Devo ter falado. Eu sempre falo. Daí eu bocejei.  
 E peguei no sono. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A foto do beijo.


 Combinaram num bar. Ele chegou antes. Pediu uma cerveja e ficou olhando pra rua, folhando um jornal.
 Ela com seu jeitão de moleca vinha tranqüila fumando um cigarro. Como se não estivesse em São Paulo e sim no Rio. Ela veio a pé, morava ali perto.
Deu um sorriso e mostrou o cigarro. Ele entendeu. Ela queria terminá-lo na rua. Ele fingiu que voltara a ler o jornal.
 “Oi.”
 “Oi.” Ele riu.
 “Que foi algum problema?”
 “Você é engraçada.”
 “Engraçado é ler jornal de ontem.” Ela disse.
 Foi aí que ele percebeu que o jornal era de ontem.
 “Você é bem inteligente sabia?”
 “Inteligente? Só porque eu vi que o jornal era de ontem?” Ela disse e fez um não com a cabeça. Depois riu.
 “Quer tomar alguma coisa?”
 “Não”. Pausa. "Você é engraçado.”
 “Um amigo meu diz que quando um casal de namorados ri um do outro, é porque eles se amam.”
 “Acho que quero uma cerveja.”
 “Traz mais um copo.” Ele pediu ao garçom. E ela riu de novo. “Já te disseram que você se parece com...”
 “Já.”
 “Quem disse?”
 “Você.”
 “Nossa, como eu estou repetitivo.” Ela riu.
 “Você é engraçado.”
 “Você não costuma tomar muito sol?”
 “Nós não somos namorados.” Ninguém riu.
 Ele pediu a quinta cerveja. Estavam agora falando de religião.
  “Você está rindo porque eu vou numa igreja?”
 “Não, eu estou rindo porque não somos namorados.” Ele disse.
 “Na verdade eu nunca tive um namorado.”
 O garçom trouxe a conta.
 “Estamos fechando.”
 Já não tinha mais ninguém e as portas quase todas abaixadas.  Pagaram à conta. E quando estavam quase na rua, ele parou, olhou as paredes e perguntou para o garçom e o caixa:
 “Cadê o quadro da foto do beijo?”
 “O que?” Fez o garçom. Olhando para parede também. Havia várias fotos, mas não aquela. A foto de um casal que se beijava, enquanto um garçom que já colocara as cadeiras em cima das outras mesas observava pronto para fechar o bar.
 “Eles tiraram.” Disse com tranqüilidade o caixa.
 Ele deu de ombros. Estava frio.
 “Eu ando um pouco com você.” Ele disse a ela.
 “Você que sabe.”
 Começaram a caminhar. Ele a olhava, ela realmente era uma moleca.
 Chegaram à esquina. Uma noite estrelada e fria.  
 “Tinha um quadro lá que era uma foto de um beijo. Linda a foto. Um beijo de fim de noite.” Ele disse.
 “É... Tem gente que espera uma noite toda para dar um beijo.” Ela riu.
 “Do que é que você está rindo?”
 “De nada, eu estou cansada.”
 Despediram-se. Com um abraço. E ele ainda disse:
 “Eu acho que o trabalho vai ficar ótimo. Eu gosto de trabalhar com você.”
 “Eu também. Você é legal.”
 E cada um foi para um lado.    

sábado, 20 de agosto de 2011

Só para você.


 Lembro-me que quando bem garoto eu amava as aulas de História e literatura. Às vezes geografia. As outras todas eu passava ora desenhando ora olhando as minhas colegas preferidas. Geralmente umas duas meninas, no máximo três delas.
 Certo dia, eu vi no jornal, no roteiro cultural a peça de um grupo do Paraná: “Aula que absurdo!” Eu ainda era estudante. Agora de teatro, lá se vai mais de década.
 Não sei quem é o autor do texto até hoje. Mas foi a única vez que a palavra, aula me interessou. Aula, seguida da palavra absurdo. 
 Cheguei ao teatro, era um dia frio como o de hoje. Não havia muita fila na bilheteria. Eram três salas. Numa delas estava à peça que eu fora assistir. Fui tomar um café. Vi o público das outras salas entrando.
 Dirigi-me a minha sala. Mas um funcionário pediu-me que eu ainda aguardasse um pouco. Ok, também eu nunca vi aula começar no horário. Sentei no hall do teatro. Deu nove e quinze e nada.
 Um rapaz e uma moça se aproximaram. O Rapaz me perguntou:
 “Então você é o tal que comprou o ingresso?”
 Foi aí que me dei conta. Eu era o único público. A única pessoa que estaria na platéia.
 “Você se incomodaria se nós devolvêssemos o seu dinheiro?” Ele falou isso e estendeu as pequenas notas. Peguei o dinheiro, coloquei no bolso e quando eu já estava na calçada, senti uma mão no meu ombro. Era a mesma moça, uma atriz.
 “Mudamos de idéia. Se você ainda quiser vamos fazer o espetáculo só para você.”
 Ela me olhava com os seus dois olhos verdes. Com uma seriedade. Naquele momento eu não responderia só por mim. Para aquela jovem atriz eu representava um público de mil pessoas.  
 Eles então colocaram uma cadeira no meio do palco. E me sentaram nela. A platéia inteira vazia. E eu lá sentado. Só eu, no meio do palco e aqueles cinco atores fazendo o espetáculo em volta de mim.
 Dizem que quando vamos ao teatro a gente se lembra de onde sentou. O lugar exato da platéia. Desta vez me senti mais que num teatro. Senti-me num sonho.
 Ontem fui numa grande sala. Um daqueles espetáculos de centenas de pessoas. Um sucesso. Eu com o meu eterno medo de chegar atrasado cheguei umas oito e quinze. O espetáculo começava as nove horas. Fui então tomar um café. Peguei o guia off e fui para a calçada folhear o livrinho. Então senti uma mão no meu ombro.
 Virei e vi uma mulher grande, linda. Sem seriedade alguma. Ela sorria. E tinha uns lindos, maravilhosos olhos verdes.
 “Hoje você não é o único.”
 Neste instante me lembrei de quinze anos antes. Era ela. Como eu nunca tinha percebido? Aquela atriz premiada, famosa, que eu tanto ouvia falar era ninguém menos que aquela menina persistente, obcecada que eu conhecera anos atrás. Ela conseguiu.
 Terminado o espetáculo, não sei como ela me viu e me mandou um beijo do palco.
 Talvez eu seja o seu público mais fiel. O mais antigo.
 Naquela noite quinze anos atrás. Ela me deu um beijo e voltou pro Paraná.
 Que história absurda. Uma verdadeira aula. Aula de perseverança.