quinta-feira, 5 de abril de 2012

Os falsificadores. Integra.


Os falsificadores.

  Primeira parte
 Foi uma coincidência, fui almoçar no árabe perto de casa. Sentei numa mesa na calçada. Na mesa vizinha um senhor na casa dos sessenta, vestido com uma camisa marrom tomava uísque com mais dois senhores de uns cinquenta anos cada um.
 Era um sujeito magro, careca e sua roupa parecia dos anos setenta. Os outros dois, vestiam roupas contemporâneas. O de marrom acendeu um cigarro, desses que parecem pequenos charutos. Eu já estava quase desistindo de ficar ali fora e ia pedir para me mudar para dentro, quando ouvi o nome de Ismael Neto.
 Aquilo me chamou a atenção, porque Ismael Neto é o meu pintor brasileiro preferido. Eles falavam sobre uma onda de falsificação.  Eu havia lido qualquer coisa nos jornais. Mas a coincidência foi outra.
 Tempos antes, uma estudante de artes plásticas, esquecera sua carteira no meu carro. Foi depois de uma carona que eu a havia dado da balada de volta para sua casa. Ela devia ter uns vinte e um anos. Mas aparentava uns dezoito talvez. Enfim uma jovem. Piercing no nariz, cabelos curtinhos e um corpinho de bailarina. Um tipo alternativo.
 Quando ela foi buscar a carteira no dia seguinte, almoçamos no mesmo árabe, e depois fomos à livraria. Ela falava muito sobre artes plásticas, balé e artes em geral. Tinha uma cultura extensa para a idade. Vendo alguns livros junto com ela, na livraria, me chamou a atenção um do Ismael Neto.
 Começamos a folhar as páginas do livro e em determinada telas do pintor, Marta começou a rir. Eu quis saber o por que ? E ela disse simplesmente porque a tela da foto era ela quem tinha pintado e não Ismael Neto. Na hora eu achei que ela estivesse querendo fazer graça e não dei muita atenção.
 “Então você é uma falsificadora senhorita Callieri?”
 Callieri era o seu sobrenome. Marta Callieri.   Saímos da livraria e a levei pra casa.
 Como Marta é muito jovem, acabei que não a procurei mais. Ficamos de nos falar, mas nenhum dos dois se aproximou de novo.
 Aqueles três tomando uísque e fumando cigarros de charuto, no meio da tarde de um dia de semana, começou a me inervar. Mas a curiosidade fazia com que eu continuasse a prestar atenção. Ele o homem da camisa marrom, disse que os três casos vieram de um mesmo escritório de arte. Mas que havia outros, que foram abafados.
 Afinal tanto um comprador, como um marchand não gostam que este tipo de informação vaze. O primeiro para não parecer bobo e o segundo porque prejudicaria os negócios, claro.
 Talvez eu tivesse esquecido toda aquela história. Pedi a conta para a minha amiga dona do árabe. Segui para o ensaio. Os atores já estavam lá. Terminado o ensaio, eu e um dos atores fomos tomar uma cerveja na Vila Madalena.
 Escolhemos o bar de sempre, um lugar frequentado por artistas e boêmios. Não estava abarrotado, afinal era segunda feira. Marcelo, o ator da minha peça e também amigo, estava apaixonado pelo nosso produtor. Falávamos disso, quando surgiu Carol. 
 Uma amiga publicitária, ótima companhia, na casa dos trinta. Sabe sempre o que está rolando. O tipo de solteira que ainda tem um pé na vida universitária, apesar de ter se formado há anos. Ela quis saber como estava a minha vida. Contei que iríamos em breve estrear um clássico. Uma peça do Shaw, Bernard Shaw. Bebíamos e riamos. Mas Carol lembrou algo. Arregalou os olhos. Me olhou, como quem vai contar uma bomba, mas não sabe qual será a reação do outro. De repente ela me da à notícia:
 “Você viu o que aconteceu com aquela ninfetinha que você catou na festa do Dado?”
 Foi então que fiquei sabendo, a menina havia sido atropelada por um ônibus. Há uns cinco dias talvez. Ela morava com outra amiga em Santa Cecília, um bairro de São Paulo.
 Aquilo me deixou chocado. Eu pouco sabia da vida de Marta. Ela era uma menina interessante, seria em breve uma bela mulher. Inteligente, articulada. Verdade que eu havia visto só duas vezes. Mas deu pra fazer um bom retrato.
 Como Carol não tinha detalhes, voltamos a falar de outras coisas. Quando nos despedimos Carol quis saber se aquilo não me abalara. Imagina, mal conhecia a menina. Eu fico comovido afinal...
 Marcelo notou que eu ficara mais que comovido. A sensibilidade dele dizia que eu nem sabia ao certo, o que eu estava sentindo. Não falei sobre a coincidência do almoço do pintor Ismael Neto, mesmo porque muito provavelmente eles nem conheceriam Ismael Neto. E teriam a impressão de que eu delirava.
Só fui lembrar de Marta no dia seguinte. Ao sair de casa a pé o porteiro me entregou um DVD. Disse que um moto-boy havia deixado para mim. Pedi que o porteiro me lembra-se dele na volta.
 Tomei café na padaria. Depois resolvi passar na galeria de uma amiga. A Marina. Era uma galeria nova. Marina tinha mais duas sócias. Elas trabalhavam com artistas jovens. Não sei o que eu estava interessado ainda. Se minha curiosidade era em relação à Marta, as falsificações ou ainda o atropelamento em si.
 Eu havia beijado aquela menina há poucos dias, umas costas maravilhosas, zero de gordura. Também com vinte poucos anos. Uma voz doce, meiga, feminina. Gestos duros ao mesmo tempo suaves. Como de um menino afetado. Sei lá. Agora Marta não saia da minha cabeça.
 Marina não estava e foi sua sócia Renata que me recebeu. Uma menina de 1,80 metros e 25 anos, muito sorridente. Depois de me mostrar o trabalho de um fotógrafo que elas estavam expondo, fomos tomar um café no seu escritório. Eu contei o motivo da minha visita para Renata.
 “Mas Leo! Quem não conhece Marta Callieri no mundo das artes?”
 Aparentemente Renata não sabia que ela, Marta havia sido atropelada.
 “Há quanto tempo?”
 Eu disse o pouco que sabia:
 “Há alguns dias.”
 “Engraçado, eu pensei tela vista anteontem. Você não usa Google não, Leo?”
 Foi então que Renata me contou sobre Marta. Sim ela realmente era uma das maiores falsificadoras do mercado de arte de São Paulo. Era tão boa que nunca havia sido pega. Na verdade me disse que só se você assinar a tela é que se considera crime de falsificação.
 Marta não era boa só porque conhecia as cores certas. Como construir cores antigas, ou fazer a tela parecer envelhecida. Ela também captava o estilo do artista a ser falsificado.
  “Pelo que eu sei Leo, que é baseado no que eu escutei, a menina é um gênio. Você estava saindo com ela? Ou também tomou um golpe de algum falsário?”
 “Renata, deixe um beijo para Marina. Obrigado pelas informações.”
 Voltei para casa. Ao chegar à portaria, novamente o porteiro me lembrou do DVD. Sem outra prioridade, resolvi assistir ao DVD.
 Qual não foi a minha surpresa. Um ator fazia uma cena de Nelson Rodrigues de dois minutos. Claro que isto não tem novidade nenhuma. Atores interpretam Nelson. Acontece que o ator era eu. Tentei me lembrar de quando eu havia feito uma cena de Nelson Rodrigues na vida. A resposta era nunca. Nunca fiz Nelson Rodrigues.
 Eu estava ainda atordoado com aquilo. Meu celular tocou. Na tela do celular surgiu o nome: Marta Callieri.
 “Alo.”
 “Gostou da cena?”
 “Marta?”
 “Eu mesma Leo.”



 Segunda parte

“O que aconteceu? Onde você está Marta?”
“Não se preocupe, apenas escute. Eles vão tocar sua campainha a qualquer momento. Não diga que eu telefonei. Entrarei em contato mais tarde. Leo, não aceite trabalhar para eles.”
 “Eles quem? Alo!”
 “Confie em mim Leo, você não vai se arrepender. Até mais tarde.”
 Marta desligou o telefone. Pouco depois a campainha tocou. Era um casal. Uma mulher de uns quarenta anos e um cara de uns trinta e cinco. A mulher parecia estrangeira e o cara era bem grande. Convidei os para entrar. Não tenho ideia de como passaram pelo porteiro sem serem anunciados. A mulher me parecia bem esperta e ótima negociadora.
 “Leo sem rodeios, onde estão as telas?”
 Eu entendi rápido, aquele casal por algum motivo acreditava que eu estava fazendo parte da quadrilha de falsificadores. Maldita Renata da galeria, deve ter espalhado a notícia bem rápido.
 “Me desculpe a senhora está me confundindo. Não sou colecionador, nem tão pouco negocio arte.”
 “Leo sabemos que ela acabou de te telefonar.”
 “Ela?”
 “Isabella Cordiolla.”
 “Desculpe. Quem são vocês?”
  Desta vez foi o grandalhão quem falou.
 “Policia federal.”
 “Olha gente, eu não conheço nenhuma Isabella Cordiolla.”
 A mulher sorriu, estava calma, ao mesmo tempo parecia maternal.
 “Você a conhece por Marta Calliere. Este é sobrenome da mãe, Calliere.”
 “Talvez eu conheça. Mas alguém pode me explicar o que está acontecendo.”
 Mal terminei de falar e outro homem entrou na minha sala. Ele e a mulher cochicharam por estantes. Depois ele se virou para mim.
 “Senhor Chacra, temos tudo para acreditar que o senhor está envolvido numa quadrilha de falsificação de telas. Acontece que nossa especialidade não é falsificação de arte. Aliás, pouco me importa.”
 “Do que estamos falando então?” Eu perguntei. O homem me encarou com dúvidas e me perguntou:
 “Meu nome é Armando Gentil. Sou chefe da divisão antiterrorismo do Brasil. Uma agencia secreta dentro da policia federal. Agora me diga, pois não temos muito tempo, o que há de especial no DVD que você acabou de assistir?”
 Armando parecia realmente honesto. Então expliquei. Tudo, como eu conheci, Marta, agora Isabella. De nunca ter feito aquela cena do DVD. Mas então quem seria? Um irmão gêmeo? Armando, talvez por falta de tempo, foi bem objetivo:
 “Isabella vem de uma família de oito gerações de falsificadores. Os Cordiollas. Eles agiam na Itália até se mudarem para o Brasil nos anos cinquenta, depois da guerra. Os que ficaram na Itália partiram para outros ramos de atividade, mas os daqui do Brasil continuam. Acontece que a única realmente talentosa é Isabella. Talvez a mais talentosa das oito gerações. A Interpol diz que a menina é um gênio. Mas o tempos mudam, as tecnologias se aperfeiçoam. E Isabella sempre foi procurada por muita gente. Criminosos de todos os tipos, sempre se interessaram pelo talento da menina. Este vídeo que você acabou de ver é uma falsificação de você mesmo, senhor Chacra. Estela, esta linda policial que está aqui com Marcos, acreditavam que você tivesse algo a ver com estes criminosos. Mas a minha experiência diz que você só um contato desta menina com o mundo real. Ou ainda com o mundo artístico. De alguma forma ela precisa de você, senhor Chacra.”
 Aquilo me deixou atordoado, eram muitas informações.
 “Mas afinal quem morreu atropelada pelo ônibus?”
 Armando deu de ombros e disse.
 “Um boneco, ou ainda boneca. A falsificação dos tecidos, dos órgãos era tão perfeita, que os médicos legistas quase deixam escapar.”
 “Você está me dizendo que esta menina pode falsificar seres humanos?”
 “Mais ou menos. Ela pode fazer vídeos conseguir impressões digitais... Verdade que até hoje ela, e seus cúmplices não haviam conseguido ir tão longe. Mas agora ela nos amedronta.”
 Desta vez Estela foi quem falou:
 “Ela, ou eles, podem falsificar uma autoridade, um rico empresário, desviar dinheiro, entrar em salas de segurança... A vida da própria presidente da república corre perigo. Precisamos agarra-la o quanto antes, Mesmo porque este tipo de tecnologia que ela desenvolveu não pode cair em mãos erradas.”
 “Outras nações você diz?”
 “Sim”.
 Eu não tive escolha a não ser aceitar trabalhar para a polícia. Me disseram que eu seria vigiado vinte quatro horas por dia, para deixar o meu celular ligado. E não se preocupar, o celular estava grampeado, e todos meus passos monitorados.
  “Acontece que ela sabe que vocês entraram em contato comigo.”
 Armando Gentil me olhou e disse:
 “Sabemos disso senhor Chacra. E se ela o fez é porque existe um motivo. Como eu lhe disse anteriormente você deve ter algo de que ela precise.”
 O celular de Estela tocou. Sua cara deixou de ter o tem maternal. Ela parecia apavorada.
 “Senhor acharam a casa onde estavam as telas falsificadas.”
 “Ótimo.”
 “Um homem estava armado e foi rendido.”
 “E já o identificaram?”
 “Sim. É o senhor.”


Terceira parte

 A situação parecia agora for a do controle. Aqueles três intrusos começaram a se estranhar dentro da minha própria casa. Até que Armando tirou do bolso da camisa um pequeno cigarrinho. E o ascendeu. Eu o reconheci. Era o mesmo senhor que esteve no Árabe almoçando no dia anterior. O mesmo que falava das telas falsas de Ismael Neto.
 Estela sacou a pistola. Seu parceiro o grandão fez o mesmo. Eles não sabiam em quem mirar as armas, se em mim, ou em Aramando. Este mantinha a calma e dava pequenas baforadas no cigarro.
 Acho que pensou que eu o ofereceria um cinzeiro, mas há muito não havia um cinzeiro na minha casa.
 “Me diga senhor Leo Chacra. Você inventou esta história de cena de Nelson Rodrigues. Não inventou?”
 Como eu não respondi ele continuou a olhar pela minha sala. Levantou e começou a procurar alguma coisa nos meus livros.
  “Você leu todos estes livros, estes romances policiais, senhor Leo Chacra?”
 “A maioria deles”. Eu respondi.
 Estala interrompeu Aramando. A outra detetive queria saber aonde o interrogatório iria nos levar.
 “Abaixe a arma e tenha calma Estela” Pediu Aramando. Então virou-se para mim e perguntou, ou ainda me acusou.
 “Estes contos você escreve...”
 “O que têm eles?”
“Até que ponto eles são seus?” Como eu e os o casal também fizeram cara de não estar entendendo nada, ele prosseguiu. “Vou me explicar.” Deu uma risada.
 “Você escreve tramas. Muitas vezes que não dizem nada. Só prendem a atenção do leitor. Um estilo que não é naturalmente seu. Você coloca o suspense pelo suspense.”
 “Por isto que este tipo de escrita é chamado de gênero.” Eu me defendi.
 “Você senhor Leo Chacra é apenas um falsificador”.
 Os três riram de mim. E começaram a folhear os romances policiais. Estavam distraídos. Não tive dúvidas. Fugi pela porta. Desci as escadas e corri para rua. Em frente a minha casa estava aquele mesmo bar da Vila Madalena.
 Entrei e pedi um chope. O mesmo chope que todos os bares de São Paulo têm. Minha amiga Carol surgiu e sentou-se a mesa. Marcelo voltou do banheiro.
 Mas como poderia ser o mesmo bar? Se eu nem na Vila Madalena moro. Bebemos, bebemos e bebemos.
 Quando atravessei a rua e cheguei em casa o porteiro me deu um livro. Embrulhado para presente. Havia um cartão.
 “Foi uma menina que passou e deixou. Bem menina. Não quis dizer o nome, disse que você saberia quem é.”
 Livros, livros, livros, livros.
 Cheguei em casa comi uma trufa e fui para quarto. Antes de dormir peguei um romance policial para ler.
 No dia seguinte, acordei fui à padaria tomar café. Na volta passei na galeria de arte. Desta vez foi Marina quem me recebeu. Fomos a sua sala tomar um café.
 “Eu nunca havia observado esta foto Marina.”
  Era uma foto na parede. Nela Armando e Estela, os detetives estavam num restaurante árabe, envoltos por fumaças de cigarro.
 Me despedi. Voltei pra casa. Abri o livro da noite anterior. Um livro de Ismael Nery.
 Junto com um cartão que dizia:
 “Obrigado pelo almoço. Saiba que agora também sou fã do Ismael. Beijos Marta”.
 Fechei os olhos e escutei o ônibus freando. A menina ria. Puxei-a pelo braço e fomos para a calçada. Mesmo dentro da livraria ela ainda ria.
“Você conhece Ismael Nery?”
 E ela ria. “Você sabia que você poderia ter morrido atropelada?” E aquela linda menina de cabelos curtos ria.
 “Leo, a bicicleta estava a dez por hora, Não tinha como ter morrido. Você tem uma imaginação Leo!”
 E ela continuava sorrindo. 

Os falsificadores. Terceira parte.


Terceira parte

 A situação parecia agora for a do controle. Aqueles três intrusos começaram a se estranhar dentro da minha própria casa. Até que Armando tirou do bolso da camisa um pequeno cigarrinho. E o ascendeu. Eu o reconheci. Era o mesmo senhor que esteve no Árabe almoçando no dia anterior. O mesmo que falava das telas falsas de Ismael Neto.
 Estela sacou a pistola. Seu parceiro o grandão fez o mesmo. Eles não sabiam em quem mirar as armas, se em mim, ou em Aramando. Este mantinha a calma e dava pequenas baforadas no cigarro.
 Acho que pensou que eu o ofereceria um cinzeiro, mas há muito não havia um cinzeiro na minha casa.
 “Me diga senhor Leo Chacra. Você inventou esta história de cena de Nelson Rodrigues. Não inventou?”
 Como eu não respondi ele continuou a olhar pela minha sala. Levantou e começou a procurar alguma coisa nos meus livros.
  “Você leu todos estes livros, estes romances policiais, senhor Leo Chacra?”
 “A maioria deles”. Eu respondi.
 Estala interrompeu Aramando. A outra detetive queria saber aonde o interrogatório iria nos levar.
 “Abaixe a arma e tenha calma Estela” Pediu Aramando. Então virou-se para mim e perguntou, ou ainda me acusou.
 “Estes contos você escreve...”
 “O que têm eles?”
“Até que ponto eles são seus?” Como eu e os o casal também fizeram cara de não estar entendendo nada, ele prosseguiu. “Vou me explicar.” Deu uma risada.
 “Você escreve tramas. Muitas vezes que não dizem nada. Só prendem a atenção do leitor. Um estilo que não é naturalmente seu. Você coloca o suspense pelo suspense.”
 “Por isto que este tipo de escrita é chamado de gênero.” Eu me defendi.
 “Você senhor Leo Chacra é apenas um falsificador”.
 Os três riram de mim. E começaram a folhear os romances policiais. Estavam distraídos. Não tive dúvidas. Fugi pela porta. Desci as escadas e corri para rua. Em frente a minha casa estava aquele mesmo bar da Vila Madalena.
 Entrei e pedi um chope. O mesmo chope que todos os bares de São Paulo têm. Minha amiga Carol surgiu e sentou-se a mesa. Marcelo voltou do banheiro.
 Mas como poderia ser o mesmo bar? Se eu nem na Vila Madalena moro. Bebemos, bebemos e bebemos.
 Quando atravessei a rua e cheguei em casa o porteiro me deu um livro. Embrulhado para presente. Havia um cartão.
 “Foi uma menina que passou e deixou. Bem menina. Não quis dizer o nome, disse que você saberia quem é.”
 Livros, livros, livros, livros.
 Cheguei em casa comi uma trufa e fui para quarto. Antes de dormir peguei um romance policial para ler.
 No dia seguinte, acordei fui à padaria tomar café. Na volta passei na galeria de arte. Desta vez foi Marina quem me recebeu. Fomos a sua sala tomar um café.
 “Eu nunca havia observado esta foto Marina.”
  Era uma foto na parede. Nela Armando e Estela, os detetives estavam num restaurante árabe, envoltos por fumaças de cigarro.
 Me despedi. Voltei pra casa. Abri o livro da noite anterior. Um livro de Ismael Nery.
 Junto com um cartão que dizia:
 “Obrigado pelo almoço. Saiba que agora também sou fã do Ismael. Beijos Marta”.
 Fechei os olhos e escutei o ônibus freando. A menina ria. Puxei-a pelo braço e fomos para a calçada. Mesmo dentro da livraria ela ainda ria.
“Você conhece Ismael Nery?”
 E ela ria. “Você sabia que você poderia ter morrido atropelada?” E aquela linda menina de cabelos curtos ria.
 “Leo, a bicicleta estava a dez por hora, Não tinha como ter morrido. Você tem uma imaginação Leo!!!!”
 E ela continuava sorrindo. E rindo. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os falsificadores. Segunda parte.


  O leitor deve antes ler a primeira parte. Que é o post anterior a este. 


 Segunda parte

“O que aconteceu? Onde você está Marta?”
“Não se preocupe, apenas escute. Eles vão tocar sua campainha a qualquer momento. Não diga que eu telefonei. Entrarei em contato mais tarde. Leo, não aceite trabalhar para eles.”
 “Eles quem? Alo!”
 “Confie em mim Leo, você não vai se arrepender. Até mais tarde.”
 Marta desligou o telefone. Pouco depois a campainha tocou. Era um casal. Uma mulher de uns quarenta anos e um cara de uns trinta e cinco. A mulher parecia estrangeira e o cara era bem grande. Convidei os para entrar. Não tenho ideia de como passaram pelo porteiro sem serem anunciados. A mulher me parecia bem esperta e ótima negociadora.
 “Leo sem rodeios, onde estão as telas?”
 Eu entendi rápido, aquele casal por algum motivo acreditava que eu estava fazendo parte da quadrilha de falsificadores. Maldita Renata da galeria, deve ter espalhado a notícia bem rápido.
 “Me desculpe a senhora está me confundindo. Não sou colecionador, nem tão pouco negocio arte.”
 “Leo sabemos que ela acabou de te telefonar.”
 “Ela?”
 “Isabella Cordiolla.”
 “Desculpe. Quem são vocês?”
  Desta vez foi o grandalhão quem falou.
 “Policia federal.”
 “Olha gente, eu não conheço nenhuma Isabella Cordiolla.”
 A mulher sorriu, estava calma, ao mesmo tempo parecia maternal.
 “Você a conhece por Marta Calliere. Este é sobrenome da mãe, Calliere.”
 “Talvez eu conheça. Mas alguém pode me explicar o que está acontecendo.”
 Mal terminei de falar e outro homem entrou na minha sala. Ele e a mulher cochicharam por estantes. Depois ele se virou para mim.
 “Senhor Chacra, temos tudo para acreditar que o senhor está envolvido numa quadrilha de falsificação de telas. Acontece que nossa especialidade não é falsificação de arte. Aliás, pouco me importa.”
 “Do que estamos falando então?” Eu perguntei. O homem me encarou com dúvidas e me perguntou:
 “Meu nome é Armando Gentil. Sou chefe da divisão antiterrorismo do Brasil. Uma agencia secreta dentro da policia federal. Agora me diga, pois não temos muito tempo, o que há de especial no DVD que você acabou de assistir?”
 Armando parecia realmente honesto. Então expliquei. Tudo, como eu conheci, Marta, agora Isabella. De nunca ter feito aquela cena do DVD. Mas então quem seria? Um irmão gêmeo? Armando, talvez por falta de tempo, foi bem objetivo:
 “Isabella vem de uma família de oito gerações de falsificadores. Os Cordiollas. Eles agiam na Itália até se mudarem para o Brasil nos anos cinquenta, depois da guerra. Os que ficaram na Itália partiram para outros ramos de atividade, mas os daqui do Brasil continuam. Acontece que a única realmente talentosa é Isabella. Talvez a mais talentosa das oito gerações. A Interpol diz que a menina é um gênio. Mas o tempos mudam, as tecnologias se aperfeiçoam. E Isabella sempre foi procurada por muita gente. Criminosos de todos os tipos, sempre se interessaram pelo talento da menina. Este vídeo que você acabou de ver é uma falsificação de você mesmo, senhor Chacra. Estela, esta linda policial que está aqui com Marcos, acreditavam que você tivesse algo a ver com estes criminosos. Mas a minha experiência diz que você só um contato desta menina com o mundo real. Ou ainda com o mundo artístico. De alguma forma ela precisa de você, senhor Chacra.”
 Aquilo me deixou atordoado, eram muitas informações.
 “Mas afinal quem morreu atropelada pelo ônibus?”
 Armando deu de ombros e disse.
 “Um boneco, ou ainda boneca. A falsificação dos tecidos, dos órgãos era tão perfeita, que os médicos legistas quase deixam escapar.”
 “Você está me dizendo que esta menina pode falsificar seres humanos?”
 “Mais ou menos. Ela pode fazer vídeos conseguir impressões digitais... Verdade que até hoje ela, e seus cúmplices não haviam conseguido ir tão longe. Mas agora ela nos amedronta.”
 Desta vez Estela foi quem falou:
 “Ela, ou eles, podem falsificar uma autoridade, um rico empresário, desviar dinheiro, entrar em salas de segurança... A vida da própria presidente da república corre perigo. Precisamos agarra-la o quanto antes, Mesmo porque este tipo de tecnologia que ela desenvolveu não pode cair em mãos erradas.”
 “Outras nações você diz?”
 “Sim”.
 Eu não tive escolha a não ser aceitar trabalhar para a polícia. Me disseram que eu seria vigiado vinte quatro horas por dia, para deixar o meu celular ligado. E não se preocupar, o celular estava grampeado, e todos meus passos monitorados.
  “Acontece que ela sabe que vocês entraram em contato comigo.”
 Armando Gentil me olhou e disse:
 “Sabemos disso senhor Chacra. E se ela o fez é porque existe um motivo. Como eu lhe disse anteriormente você deve ter algo de que ela precise.”
 O celular de Estela tocou. Sua cara deixou de ter o tem maternal. Ela parecia apavorada.”
 “Senhor acharam a casa onde estavam as telas falsificadas.”
 “Ótimo.”
 “Um homem estava armado e foi rendido.”
 “E já o identificaram?”
 “Sim. Este é problema."
 "Por que Estela?"
 "É o senhor. O homem rendido é o senhor."

 (fim da segunda parte).  

terça-feira, 3 de abril de 2012

Os falsificadores.



  Primeira parte

 Foi uma coincidência, fui almoçar no árabe perto de casa. Sentei numa mesa na calçada. Na mesa vizinha um senhor na casa dos sessenta, vestido com uma camisa marrom tomava uísque com mais dois senhores de uns cinquenta anos cada um.
 Era um sujeito magro, careca e sua roupa parecia dos anos setenta. Os outros dois, vestiam roupas contemporâneas. O de marrom acendeu um cigarro, desses que parecem pequenos charutos. Eu já estava quase desistindo de ficar ali fora e ia pedir para me mudar para dentro, quando ouvi o nome de Ismael Neto.
 Aquilo me chamou a atenção, porque Ismael Neto é o meu pintor brasileiro preferido. Eles falavam sobre uma onda de falsificação.  Eu havia lido qualquer coisa nos jornais. Mas a coincidência foi outra.
 Tempos antes, uma estudante de artes plásticas, esquecera sua carteira no meu carro. Foi depois de uma carona que eu a havia dado da balada de volta para sua casa. Ela devia ter uns vinte e um anos. Mas aparentava uns dezoito talvez. Enfim uma jovem. Piercing no nariz, cabelos curtinhos e um corpinho de bailarina. Um tipo alternativo.
 Quando ela foi buscar a carteira no dia seguinte, almoçamos no mesmo árabe, e depois fomos à livraria. Ela falava muito sobre artes plásticas, balé e artes em geral. Tinha uma cultura extensa para a idade. Vendo alguns livros junto com ela, na livraria, me chamou a atenção um do Ismael Neto.
 Começamos a folhar as páginas do livro e em determinada telas do pintor, Marta começou a rir. Eu quis saber o por que ? E ela disse simplesmente porque a tela da foto era ela quem tinha pintado e não Ismael Neto. Na hora eu achei que ela estivesse querendo fazer graça e não dei muita atenção.
 “Então você é uma falsificadora senhorita Callieri?”
 Callieri era o seu sobrenome. Marta Callieri.   Saímos da livraria e a levei pra casa.
 Como Marta é muito jovem, acabei que não a procurei mais. Ficamos de nos falar, mas nenhum dos dois se aproximou de novo.
 Aqueles três tomando uísque e fumando cigarros de charuto, no meio da tarde de um dia de semana, começou a me inervar. Mas a curiosidade fazia com que eu continuasse a prestar atenção. Ele o homem da camisa marrom, disse que os três casos vieram de um mesmo escritório de arte. Mas que havia outros, que foram abafados.
 Afinal tanto um comprador, como um marchand não gostam que este tipo de informação vaze. O primeiro para não parecer bobo e o segundo porque prejudicaria os negócios, claro.
 Talvez eu tivesse esquecido toda aquela história. Pedi a conta para a minha amiga dona do árabe. Segui para o ensaio. Os atores já estavam lá. Terminado o ensaio, eu e um dos atores fomos tomar uma cerveja na Vila Madalena.
 Escolhemos o bar de sempre, um lugar frequentado por artistas e boêmios. Não estava abarrotado, afinal era segunda feira. Marcelo, o ator da minha peça e também amigo, estava apaixonado pelo nosso produtor. Falávamos disso, quando surgiu Carol. 
 Uma amiga publicitária, ótima companhia, na casa dos trinta. Sabe sempre o que está rolando. O tipo de solteira que ainda tem um pé na vida universitária, apesar de ter se formado há anos. Ela quis saber como estava a minha vida. Contei que iríamos em breve estrear um clássico. Uma peça do Shaw, Bernard Shaw. Bebíamos e riamos. Mas Carol lembrou algo. Arregalou os olhos. Me olhou, como quem vai contar uma bomba, mas não sabe qual será a reação do outro. De repente ela me da à notícia:
 “Você viu o que aconteceu com aquela ninfetinha que você catou na festa do Dado?”
 Foi então que fiquei sabendo, a menina havia sido atropelada por um ônibus. Há uns cinco dias talvez. Ela morava com outra amiga em Santa Cecília, um bairro de São Paulo.
 Aquilo me deixou chocado. Eu pouco sabia da vida de Marta. Ela era uma menina interessante, seria em breve uma bela mulher. Inteligente, articulada. Verdade que eu havia visto só duas vezes. Mas deu pra fazer um bom retrato.
 Como Carol não tinha detalhes, voltamos a falar de outras coisas. Quando nos despedimos Carol quis saber se aquilo não me abalara. Imagina, mal conhecia a menina. Eu fico comovido afinal...
 Marcelo notou que eu ficara mais que comovido. A sensibilidade dele dizia que eu nem sabia ao certo, o que eu estava sentindo. Não falei sobre a coincidência do almoço do pintor Ismael Neto, mesmo porque muito provavelmente eles nem conheceriam Ismael Neto. E teriam a impressão de que eu delirava.
Só fui lembrar de Marta no dia seguinte. Ao sair de casa a pé o porteiro me entregou um DVD. Disse que um moto-boy havia deixado para mim. Pedi que o porteiro me lembra-se dele na volta.
 Tomei café na padaria. Depois resolvi passar na galeria de uma amiga. A Marina. Era uma galeria nova. Marina tinha mais duas sócias. Elas trabalhavam com artistas jovens. Não sei o que eu estava interessado ainda. Se minha curiosidade era em relação à Marta, as falsificações ou ainda o atropelamento em si.
 Eu havia beijado aquela menina há poucos dias, umas costas maravilhosas, zero de gordura. Também com vinte poucos anos. Uma voz doce, meiga, feminina. Gestos duros ao mesmo tempo suaves. Como de um menino afetado. Sei lá. Agora Marta não saia da minha cabeça.
 Marina não estava e foi sua sócia Renata que me recebeu. Uma menina de 1,80 metros e 25 anos, muito sorridente. Depois de me mostrar o trabalho de um fotógrafo que elas estavam expondo, fomos tomar um café no seu escritório. Eu contei o motivo da minha visita para Renata.
 “Mas Leo! Quem não conhece Marta Callieri no mundo das artes?”
 Aparentemente Renata não sabia que ela, Marta havia sido atropelada.
 “Há quanto tempo?”
 Eu disse o pouco que sabia:
 “Há alguns dias.”
 “Engraçado, eu pensei tela vista anteontem. Você não usa Google não, Leo?”
 Foi então que Renata me contou sobre Marta. Sim ela realmente era uma das maiores falsificadoras do mercado de arte de São Paulo. Era tão boa que nunca havia sido pega. Na verdade me disse que só se você assinar a tela é que se considera crime de falsificação.
 Marta não era boa só porque conhecia as cores certas. Como construir cores antigas, ou fazer a tela parecer envelhecida. Ela também captava o estilo do artista a ser falsificado.
  “Pelo que eu sei Leo, que é baseado no que eu escutei, a menina é um gênio. Você estava saindo com ela? Ou também tomou um golpe de algum falsário?”
 “Renata, deixe um beijo para Marina. Obrigado pelas informações.”
 Voltei para casa. Ao chegar à portaria, novamente o porteiro me lembrou do DVD. Sem outra prioridade, resolvi assistir ao DVD.
 Qual não foi a minha surpresa. Um ator fazia uma cena de Nelson Rodrigues de dois minutos. Claro que isto não tem novidade nenhuma. Atores interpretam Nelson. Acontece que o ator era eu. Tentei me lembrar de quando eu havia feito uma cena de Nelson Rodrigues na vida. A resposta era nunca. Nunca fiz Nelson Rodrigues.
 Eu estava ainda atordoado com aquilo. Meu celular tocou. Na tela do celular surgiu o nome: Marta Callieri.
 “Alo.”
 “Gostou da cena?”
 “Marta?”
 “Eu mesma Leo.”

(fim do capítulo 1). 

domingo, 1 de abril de 2012

O técnico dos olhos verdes.


Eu estava feliz e ao mesmo tempo nervoso. Afinal a maioria deles, eu não os via há exatos 25 anos.
Desde a quinta série.  Era um colégio alternativo. Bem alternativo. O nome era “Soma”. Isso mesmo Soma.
 Alguns, já tinham filhos com dez anos. Um tornara-se médico. O outro um publicitário, uma nutricionista, outro grafiteiro, produtora musical... Judeus, japoneses, árabes, nordestinos. No "Soma" havia de tudo. Digo, era uma escola que refletia a própria cidade de São Paulo.
 Tiramos fotos. Bebemos umas cervejas. Verdade é que nos emocionamos, mas não tínhamos muito a dizer um para os outros.  
 Todos estavam iguaizinhos. Como pode uma criança de onze anos ser igual há um adulto de 36,37?
 As meninas me disseram que eu fora mais alto. Parecia mais alto há 25 anos. Meninas não. As mulheres. 
 Olhei o relógio, já era hora de ir para o teatro.
 Como é que eu posso começar esta história? Bem eu sou diretor de teatro. Estou tendo um caso com a minha atriz. Ela é casada. É a atriz que faz a minha peça.
 Aconteceu domingo retrasado. Ou domingo passado, já que ainda é domingo, são dez e trinta agora. Da noite.
 Letícia, este é o nome dela. Ficou uma fera porque eu quando cheguei ao camarim, perguntei:
 “Oi, dormiu bem?”
 Acontece que o resto do elenco ouviu e ela não gostou. Claro ela é casada. O marido trabalha numa multinacional. Sujeito bem sucedido, mas a verdade é que eles não têm nada em comum. Não sei o que ela disse, inventou pra ele, mas ela passou a noite anterior na minha casa.
 Deve ter dito que dormiria na irmã. Sei lá.
 “Não. Não dormi. E você?”
 Ela tentou disfarçar e uma atriz que estava ouvindo, riu alto.
 Naquele dia uma jovem, outra atriz que está num outro projeto comigo, uma futura comédia, bem esta menina apareceu para finalmente assistir ao nosso drama.
 Eu a vi descendo do taxi, que parou em frente ao teatro. Ela estava parecendo uma noviça. Não tinha um ar muito feliz. Me contou que terminara com o namorado. Um poeta, que nas horas vagas era músico, num teatro underground bem próximo dali.
 Na verdade fora o poeta quem terminara. Não sei por que o técnico de olhos verde nos observava no café do teatro. Faltavam 15 minutos e o técnico desceu. Quinze minutos para começar.
 Ao final do espetáculo eu e Fernanda, este era o nome da jovem atriz, fomos jantar. Não leitora, não aconteceu nada. Eu ainda estava, estou apaixonado pela atriz casada.
 Eu e Fernanda ficamos falando de autores norte americanos “clássicos” e montagens contemporâneas.
  Deixei Fernanda em casa e no dia seguinte ela havia desaparecido.
 O investigador da homicídios, não me achava um suspeito. O sujeito, uns 45 anos, era bom. Logo chegou a Letícia.
 Verdade é que não havia ainda um corpo. E que corpo Fernanda tinha. Mas já era quinta feira.
 O investigador Vieira, tinha o seguinte raciocínio, diretor de teatro envolvido com duas atrizes. Se uma sumiu é porque a outra a matou.
 Conversara com todos no teatro, os funcionários, elenco, técnicos, pipoqueiro, bilheteiro, segurança e também todos no restaurante em que eu e Fernanda havíamos jantado.
 Por via das duvidas resolveu conhecer o antigo namorado de Fernanda, o tal músico underground. Não é que ao perguntar no local pelo rapaz, o investigador Vieira achou ter reconhecido outro personagem?
 Na hora, o estiloso rapaz de olhos verdes, se despediu rápido.
 Deixando o investigador e Paulo a sós. Realmente aquele músico não tinha nada com a história. Depois de uma pequena conversa, o investigador seguiu para a casa de Letícia.  
 Já era noite quando o marido de Letícia abriu a porta. Seu nome era Rogério, e em pouco tempo o investigador Vieira, teve a certeza, se  é que já não tinha, de que Letícia realmente, tinha um caso comigo. Todos sabiam. 
 Rogério disse que há dois dias Letícia dormia na casa da irmã. O que Vieira já sabia ser mentira. Mas quando me procurou e eu lhe disse que desde domingo não vira mais Letícia. Foi então que ele entrou em contato com a irmã dela, que também tão pouco sabia o paradeiro dela.
 Vieira foi tomar um chope, e enquanto fumava um cigarro, de repente se lembrou do rapaz dos olhos verdes.
 “É isso! Mas como fui tolo! É o operador de luz e som do teatro”.
 O músico Paulo e o técnico dos olhos verdes eram amantes! São gays. Sabia que já o tinha visto antes. Mas onde estaria Letícia nesta história toda?  
 Ligou no teatro para saber qual era o endereço do técnico. Já não havia mais ninguém lá que pudesse ajuda-lo então voltou até a minha casa. E me contou tudo. Foi quando perguntei.
 “Mas como então explicar o sumiço da Letícia? Será que ela descobriu tudo isso antes de nós?”
 Neste momento o meu celular tocou era Letícia.
 “Leo me encontre no Bar Seleto em meia hora.”
 “Letícia, onde você está?”
 “Não posso falar agora, só vá até o bar em meia hora. E me encontre lá.”
 E desligou. Já estávamos saindo do meu apartamento quando damos de cara com o técnico de olhos verdes. Seu nome era Antonio.
 “Leo, investigador Vieira, tem algo que vocês precisam saber. Me falaram que vocês estão atrás de mim.”
  Aquele dia eu nem fui ao Bar Seleto. O técnico me mostro às fotos. Nada poderia desmentir aquilo.
 Fernanda e Letícia passaram o resto da temporada toda indo para praia, juntas.
 Sim leitor, os ciúmes que Letícia tinha de mim com Fernanda, era mais por conta do amor dela por Fernanda, do que sentimentos dela por mim.
 “E onde você conseguiu essas fotos?”
 Perguntou Vieira ao técnico dos olhos verdes.
 “No facebook.”
 Numa coisa o investigador Vieira acertou, ele o técnico, havia ido lá para mostrar as fotos para Paulo, o poeta e músico. E sim ele estava apaixonado por Paulo.
 E pensar que há 25 anos elas nem eram nascidas. E lá fomos os três: Eu, Vieirinha, e o técnico de luz e som, tomar um chope num bar muito longe do Seleto.
 “Saudades do meu tempo de colégio. A gente podia fumar em qualquer lugar”. Suspirou o investigador. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Um café e a Vila Madalena.

 O rapaz vê a garota entrar no cinema. Ele levanta a mão para ser visto. O lugar não está cheio, ela então vem sorrindo e lhe cumprimenta. Senta ao seu lado e tira um pedaço de bolo de chocolate da bolsa. Com um garfo de plástico começa a comer, enquanto conversam banalidades.
 Ela diz então terminado o bolo:
 “Quero dar um tempo.”
 Ele, o rapaz, pego de surpresa nem ouve as explicações. As luzes se apagam e o filme começa.
 Ontem eu fui na Vila Madalena. Fui resolver uma questão. Era de tarde. Uma linda tarde. Terminado o compromisso, eu fui me arriscar no famoso Café recentemente aberto no bairro. Com fama de ser talvez o melhor da cidade.
 Fiquei decepcionado. Muito. Não havia nada no local que dialogasse com o bairro da Vila Madalena. Famoso, para os que não conhecem, pela suas galerias, pelo povo alternativo. Novos estilistas, livrarias, músicos, pequenos teatros e pelo seu ambiente boêmio e colorido.
 O lugar era como um espelho do próprio lugar. Fechado em si mesmo. Mas o café, realmente um dos melhores que já provei.
 Terminado o café, fui andar pelo bairro. Estava uma luz de fim de tarde bárbara. As galerias fechadas. Um vento gostoso. Peguei o carro e voltei para o meu bairro.
 Passaram-se anos e o rapaz do cinema, nem lembra o filme daquele dia. Mas lembra aquele dia. Os momentos antes da sessão.
 Aquele rapaz sou eu.
 Escrevi para a minha “amiga” a que me falou do Café, que eu havia achado o local fechado em si mesmo. Mas o café maravilindo.
 Momentos antes da sessão, é a hora na qual nós vamos trocar nossas fantasias com as fantasias do filme que virá. Às vezes elas não se batem. São tão distintas que a primeira reação é a de achar que as fantasias do filme é que são ruins.
 Afinal o que é o bairro da Vila Madalena? Muros coloridos? Lançamentos imobiliários descolados? O lugar que já serviu de moradia para artistas e intelectuais, mas que hoje se aburguesou?
 Existem seguranças de terno e manobristas para todo lugar que se olhe.
 Talvez os bairros sejam complexos como as pessoas. Talvez eu nunca entenda como possa existir um samba de frente para um cemitério. O túmulo do samba?
 Mas ele existe e é ao mesmo tempo portenho e carioca.
 Acho que é isso, a Vila Madalena é o encontro de Buenos Aires com o Rio de Janeiro.
 Uns três dias depois a garota do bolo de chocolate voltou atrás.
Há sim algo de mágico na Vila Madalena. E esta mágica talvez seja destruída antes que ela seja revelada. Talvez o Café seja mais Vila madalena, do que o meu pobre esteriótipo. 
 Assim como pessoas, existem bairros, dos quais seremos eternamente apaixonados. Mesmo depois de mortos. 
 "Sem açúcar." 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Esconderijo.


 Certo dia um produtor me procurou e me encomendou um texto. Ele queria algo que falasse de política aos jovens. Claro que adorei a proposta.
 Pensei então em escrever sobre as questões femininas. Verdade é que pensei em tanta coisa. Isso foi antes de termos uma presidenta. Eu estava eufórico com a idéia. Eu havia passado por um seqüestro relâmpago também, muito recente.
 Fui buscar lá onde pra mim tudo começou. No final dos anos 60 e início dos 70. Para as pessoas da minha idade e para mais velhos é um tema não muito sedutor. Eu sei. Acontece que pensei nestes jovens de hoje.
 Em como eu poderia falar de temas de tão jornalísticos e de certa forma didáticos históricos também, sem serem essas mesmas coisas? Digo como transformar pauta do momento em ficção? Como ter uma visão minha, que logo ninguém teve ainda. Sem maniqueísmos.
 Em três dias ou quatro eu tinha o rascunho. Um texto policial que instigava a curiosidade da platéia ao mesmo tempo em que colocava inúmeros elementos polêmicos e atuais. Principalmente o tema do desarmamento na sociedade civil.
 Eu fora “seqüestrado” logo após ter acabado de votar no plebiscito. Tinha saído do local de votação e estava procurando um churrasco, em plena luz do dia. Quando dois sujeitos entraram no meu carro armados. Dois criminosos. Mas esta é outra história.
 Acabou que criei três personagens, que amam tanto. Como eu gostaria de amar, um terço que fosse, do que eles amam.
 Com o texto pronto, percebi só um problema, não era uma comédia. E foi isso que o produtor, que havia encomendado, também notou. E desapontado disse:
 “Desculpe Leo, te procurei porque eu queria uma comédia.”
  Eu não sei classificar este texto. Policial, de idéias, drama, melodrama, suspense ou até mesmo comédia de suspense dramática?
 Ele ficou então anos na gaveta. Confesso que só me lembrei dele quando vi uma mulher ser empoçada presidente deste país.
 Que mais? Vocês acreditam que este texto me emociona toda vez que escuto os atores? Ora concordo com um, ora com outro.
 Alguns dirão: “O que tem isso a ver com a sua geração?”
 No que eu respondo que não acredito em geração. Em algum lugar do século xx estas pessoas, personagens, amaram, sonharam e caíram.
 Eu vim do século xx. Acredito que este trabalho, é também uma tentativa minha de entender um período tão intenso. Tão violento e tão pacifista ao mesmo tempo.
 Faça amor não faça guerra. Ou não faça nada. Ou faça os dois. Talvez em toda guerra haja um pouco de amor. E em toda paz, um pouco de ódio. Não sou matemático, mas constato que logo, paz e amor, é um resultado raro, em se tratando de seres humanos. 
 Leitor querido, se você chegou até aqui, venha nos assistir. A partir do dia 11 de fevereiro. No teatro Augusta. "Esconderijo".