domingo, 13 de janeiro de 2013

A busca por Ele.


 Ele havia decidido viajar da Geórgia para Califórnia. Cruzaria a América levando a palavra de Deus. Em Atlanta diziam que pregador melhor não existia. Com uma moto e uma bíblia seguiu pela estrada. Numa pequena cidade do Texas ele a conheceu. Seu nome era Adriana.
 A moça morena de uma beleza que ele não conhecia muito na Geórgia, era cantora. Sim, cantora e católica. Ela ficara deslumbrada com a multidão que assistia ao culto ao ar livre, na praça.
 Adriana era filha de Mexicanos. Seu estilo era o Blues. Ele deu uma carona para ela até o Arizona, aonde a prima de Adriana iria se casar. Nunca mais foram vistos. Era o ano de 1965.
Dois anos depois aconteceu o festival pop de música de Monterey. Eram 200.000 pessoas na plateia. Um ex-colega de ginásio dele, lá de Atlanta, disse ter visto o casal pelo festival. Mas como este colega de nome, John John Silva, alega que estava doidão na hora, por isso não tem total certeza de tê-los vistos.
  O povo do Tropicalismo, diz ter conhecido um sujeito com as mesmas descrições em Londres. Um bebia muito com o Ivan Lessa. Tanto que existe uma entrevista feita com ele para a revista Cruzeiro. Uma que ninguém assinou.
 Por isso quando o vi no Rock and Rio, eu tive dúvidas. Ele estava ao lado de uma senhora com um vestido Indiano. A senhora morena parecia uma índia dessas da América do Norte, tipo uma apache. O sujeito, um daqueles gringos derretidos, lembrava o Pereio dançando.  Não falava português, e deixou cair um cartão. Cosegui pegar o cartão do chão.  
 Liguei para um hotel em Copacabana. Mas eles me informaram que o casal descrito por mim, havia deixado às malas no hotel e sumido. Era uma pista.
 Pedi para revistar as e os objetos. Além de uma antiga bíblia, muitas roupas coloridas e sujas. Nenhuma foto, nada. Mesmo o registro no Hotel eram nomes falsos. Mas espere. Acho que eu vi algo.
 Esta é a mesma camisa que ele foi visto no Texas, em 1965. Ou é muito parecida. Espere de novo. Eu estou vestindo a camisa colorida. E tem uma senhora gringa morena, dessas velhas Hippies me dando uma bronca. Ela acabou de entrar no quarto aqui do Hotel.
 Mas ela é Adriana. Então? Eu sou ele. O pastor.
 Nossa!
 “Francis você precisa para com as drogas e de beber também! Ta ficando muito louco.” Diz Adriana.
 No dia seguinte acordo feliz por ter me encontrado. E rezo agradecendo. Cinquenta anos usando drogas. Mas parece que foi ontem, que eu conheci esta menina. Lá no Texas. Que música que tinha lá naquela época!
 Obrigada Senhor!
 Essa velha hippie aí quem é?
 Ah é. Lembrei. Nossa!  

Neverland.

 Hoje eu fui ao Masp (Museu de arte de São Paulo). Fui ver uma exposição chamada “Luzes do Norte.” Não era nada do que eu imaginava. Nem gostei nem desgostei. Ao sair chovia muito. Como todo domingo há uma feira embaixo da marquise.

 Vi uma aglomeração de pessoas e um som com músicas de Michael Jackson. Me aproximei mais e pude ver algo lindo. Era um fã clube do artista morto. Jovens, bem jovens, adolescentes de todos os tipos, tamanhos, gêneros e etnias. Eles realizavam coreografias do cantor e dançarino na chuva. Estavam todos caracterizados e se divertiam muito. Meninos e meninas. Quando saltavam ao voltarem com os pés no chão, a água do paralelepípedo espirrava. Parecido com o comercial da Coca Cola, ou Pepsi. Como queiram.
 Coincidentemente ontem meu amigo Marvin me falou da sua fascinação pela cena de Fred Astaire cantando e dançando no filme “Cantando na chuva”.  
 Lembrei de mim quando bem menino. Minha mãe me presenteou com uma Jaqueta igual a do Michael Jackson e com ela eu realizava meus passos nas festinhas do ginásio.
 Depois voltando pra casa, agora na garoa, refleti: “Por que será que tantas pessoas atacam a Igreja Católica”.
 Será que um mundo sem a Igreja, seria um mundo melhor? Não consigo achar nada, absolutamente nada de ruim no pensamento Cristão. Pelo contrário acho o cristianismo lindo. Como também não consigo achar nada de errado com a arte de Michael Jackson.
 Mas dizem que por baixo de tudo, está escondido um segredo de abusos em seres inocentes. Pode ser. Monstros existem. Mas a mensagem... A mensagem tanto da igreja, quanto de Michael Jackson, é tão somente o AMOR. E também a crença no Paraíso. Ou para alguns, a Terra do Nunca.
(O autor não é Católico praticante e nem tão pouco fã de Michael Jackson). 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nova antiga Praça. Para sempre Roosevelt.


Antes de conhecer o Teatro do Satyros localizado na Praça Roosevelt eu conheci o
N.Ex.T. , um tetro próximo dali na Rua Rego Freitas. Na época o N.Ex.T. tinha outra proposta. Lá acontecia o Terça Insana, quando este espetáculo ainda era um tanto quanto off.
 Mas no fim tanto o Satyros quanto o N.Ex.T. têm mais ou menos a mesma configuração. Um bar na frente e um pequeno auditório nos fundos.
 A minha memória mais antiga da Praça Roosevelt foi quando meus pais me levaram num antigo cine clube que ficava onde hoje é o Teatro do Ator. Assistimos ao “Carteiro e o Poeta”. Acho que eram os anos 80. Lembro que gostei muito lugar.
 Meu pai sempre foi um pioneiro e garimpeiro cultural. Ele frequentava o Teatro de Arena nos anos 60, também ali perto. Outro dia descobriu um novo cine clube, acho que se chama “Matilha”, ali mesmo na Rego Freitas, galeria de arte na frente e cinema aos fundos.
 Mas voltando. Há uma década, o Satyros aportava na Praça Roosevelt. O lugar tem prédios que me lembram os de Buenos Aires.
 No começo ficávamos bebendo nos Satyros e depois também nos Parlapatões. Antes e após as apresentações de teatro.
 Eu achava a rua que separa os teatros e bares da Praça propriamente dita, uma fronteira do mundo encantado. De um lado a ficção da dramaturgia, feita com a luz do palco e os atores, do outro aquele lugar sinistro, com árvores antigas, construções que lembravam ruínas futuristas, nunca tínhamos a visão do todo da praça, pois a praça ficava elevada em relação aos teatros e bares.
 Terça feira passada fui à praça. Ver de perto a famosa e esperada revitalização. Não amei. Me lembrou vagamente o concreto do Memorial da América Latina.
 O lugar agora tem a mesma intensidade de luz à noite quanto de dia. Claro que para uma metrópole que sofre com o pesadelo da violência e das precárias condições dos aparelhos urbanos, a população sai ganhando.
 O lugar estava lotado, pela primeira vez vi mais gente na praça do que nos bares.
 Acontece que para mim, que era um frequentador que ia uma vez a cada duas semanas, quando não estava eu mesmo em cartaz, o pesadelo sumiu, mas sumiu também parte de um sonho.
 Aquele lugar sombrio, sinistro, fantástico, um bosque mágico e perigoso no centro de São Paulo, deu lugar a um horizonte que me lembra as orlas de Santos, Recife, Caraguatatuba... Só não há o mar no final. 
 E com isso tenho a certeza que aquele lugar nunca foi o que foi, por conta só da arquitetura e do urbanismo.
 Aquela praça é o que é por conta das pessoas. Por conta do acaso de juntar uma rua com prédios Portenhos, teatros alternativos, como o La Mama de NY, que não tem o mesmo charme do Satyros. Com o circo dos Parlapatões, com as atrizes gatinhas andando lado a lado com as garotas de programa bonitinhas.
 Com pessoas de todo o Brasil, com influencia, de arquitetos como Rino Levi, Niemeyer e  Artacho Jurado.
 Eu queria que algum Paulistano parecido em alma, como o Nova Yourquino Wil Eisner, autor da Avenida Dropsie, contasse todas as décadas da Praça da Roosevelt. Seus movimentos, sua arquitetura, e principalmente os personagens. Sonhadores, boêmios, prostitutas, viciados, poetas, descolados, moderninhos, políticos, curadores, dramaturgos, roqueiros, sambistas e belas moças.
 Que venha uma nova década, que venham outros jovens. Quero que daqui uns vinte, ou trinta anos, eu volte a Praça Roosevelt e veja jovens curtindo a noite, sem pressa de ir para casa, para ter acordar cedo no dia seguinte.  
 Vou lembrar das minhas noitadas. Lembrar do encantamento. E imaginar que na praça existam seres mágicos e segredos escondidos. Mesmo porque as mudas plantadas hoje serão árvores fortes, enormes e cheias de histórias para contar neste dia.
 Quem sabe neste dia, um texto meu, seja montado por um grupo destes jovens.  
 E que depois da apresentação, iremos ao Planeta`s jantar, na Rua Augusta e voltaremos para Praça, para beber. Beber até o sol nascer. Viva!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Testemunho de um arrastão.


Estávamos ainda aguardando os pratos. Eu e minha namorada, jantávamos num restaurante Árabe descolado na Vila Madalena. Eu a havia buscado no trabalho, uma produtora de vídeo, bem perto da Rua Girassol, onde agora nos encontrávamos.
 Era uma noite feliz. Não tínhamos brigado, a paixão estava rolando no ar. Nos entendíamos tão bem. Vi uma conhecida na mesa ao lado. Ela parecia estar num encontro. Dei um oi de longe.
 Como nossa mesa era na porta, e outra mesa ficara vaga, os garçons gentilmente nos ofereceram trocar de mesa. No caminho para nova mesa, agora encostada na parede, parei alguns segundos, para conversar um pouco com a minha velha conhecida. Noite calma. O lugar tem uma atmosfera que mistura oriente com Vila Madalena, de um jeito contemporâneo.
 Em filmes, ou mesmo no circo e no teatro, as atrações são anunciadas. Um arrastão, um assalto, são uma cena, com começo meio e fim. Independente do estilo. Causa tensão.
 Mesmo quando se é só uma foto, ou um pedaço de cena, a platéia, ou o espectador tem de entender, que um personagem está roubando o outro.
 Foram só três minutos. Sem anuncio, sem trama, sem líder, sem organização alguma.
 O que eu senti? Posso afirmar que não foi síndrome de Estocolmo. Sei lá o que as pessoas sentem. Mas pra mim... Como dizer?
 Eu posso reproduzir este três minutos. A posição em que eu fiquei. Tudo o que eu pensei. Onde estava cada mão, pé. O que eu sussurrei para a namorada. Enfim tudo. Tudo o que eu vi e ouvi. As cores, as vozes... Mas como somos ensinados desde cedo para não reconhecer rostos e eu fiquei olhado para o meu prato vazio, logo não me é possível reconhecer ninguém.
 De tanto ler e ouvir sobre arrastões, não demora tanto tempo para sacar que você está fazendo parte de um. Como vítima.
 Não sei se é treinamento do Teatro. Mesmo porque até no teatro dizem que eu sou muito calmo. E acho que quanto maior o perigo mais calmo eu fico.
 Acontece que antes de entrar em cena, nos preparamos. Mesmo para um stand-up, ou show de palhaço. E se não rirem? E se não baterem palma? Bom, se não baterem palma eu não vou morrer por isso, correto?
 Andar de avião, praticar um esporte radical... Mas para tudo isso há um preparo, nada é assim de surpresa. Por maior que seja a adrenalina, já estamos aquecidos.
 O que eu quero dizer, e isto é algo muito particular. É que quando acabou o assalto e aqueles cerca de oito ou dez homens armados se foram, ficou uma sensação de quero mais.
 Já ouvi que jogadores de cassino são viciados na emoção de quando os dados ainda não pararam.
 Bombeiros, policiais, assaltante de bancos, soldados, eles têm esta emoção. Uma mistura de medo e prazer. Final de Copa do mundo, olimpíadas e resultado do vestibular são alguns exemplos.  
 Nestas horas ficamos totalmente livres. Esquecemos se estamos bem vestidos. Esquecemos nossa doença, nossa dor de amor, dívidas e até a eleição.
 Uma vez quando sofri um sequestro relâmpago, achei que iam me matar, e senti pena de mim, porque estava escrevendo uma peça de teatro e não poderia terminá-la.
 Mas dizer isso ao seu assassino:
 “Veja bem, você não pode me matar porque ainda não terminei de escrever a minha peça de teatro. Ela pode ser uma obra prima da dramaturgia nacional.”
 Acho que não é um bom argumento.
 Não acho que existam duas versões, para caracterizar um arrastão. Uma de esquerda e outra de direita. Sem maniqueísmo. Existe uma só. Quem pega em armas para realizar um ato banal dentro da democracia, é porque gosta dessa sensação.
 Acredito que seja muito mais forte que qualquer droga. Porque vem do nosso próprio corpo. Vicia. Liberta.
 Ruim é a expectativa. “Será que vão me assaltar se eu parar no sinal vermelho?”
 Durante é até um alívio. “Pronto finalmente aconteceu.”  
 Não gosto de pensar como sociólogo, porque eu não sou, nem tenho acesso a pesquisas ou a trabalhos sobre comportamentos sociais e tal.
 Mas querer substituir esporte, lazer e cultura pela violência, é uma tarefa muito árdua.
 Para não dizerem que sou um louco, digo que sexo ainda é bem melhor do que jogar entre a vida e a morte. Mas que essa adrenalina de um arrastão, é muito melhor do que um medinho controlado de parque de diversões e filminhos de terror. Ah! Isso é. 
 Não desejo que me aconteça de novo. Foi uma lição. Para eu entender que nem tudo é racional.
 Bom e para terminar, sou sim a favor de excluir um cidadão que ameaça outros com uma arma, do convívio da sociedade.
 Ainda mais quando eles são desconhecidos entre eles. Vítima e criminoso. Eu sempre estarei do lado da vítima.
O assalto acabou. Eu e minha namorada jantamos. Comida maravilhosa. No caminho para o carro, cruzamos com um grupo de Portugueses moderninhos bebendo vinho e rindo na calçada.
 Para a surpresa da minha namorada, eu contei ao grupo sobre o assalto, o arrastão, a um quarteirão dali. Eles se solidarizaram conosco e ainda nos chamaram pra ir a Mercearia São Pedro beber.
 Foi quando o Leo civilizado voltou e pediu para o Leo bárbaro sair. O curioso é que o Leo bárbaro é calmo, contido, frio, dissimulado, coordenado, rápido e feroz.
 Já o Leo civilizado é histriônico, comunicativo, afetado... Uma noite linda, luar e a tranquilidade da Vila. Nem mais sinal do pequeno exército mercenário que o destino nos colocou frente a frente.
 Era dia de São Francisco de Assis. 

sábado, 22 de setembro de 2012

Personagens de uma pequena Vila

  Crônica convidada. Texto de Livia Prestes. 

  Fui ao cinema assistir Fausto de Goethe. Além de contemplar a bela fotografia , fiquei imaginando aquela época, a vida no século XIX, na Alemanha. A passagem de um século para outro. Os personagens Mefistofilis e Fausto existindo de verdade naquele contexto. Quando lemos imaginamos, o cinema mostra e você vê a história viva na tela. Passeavam pela vila, iam a padaria, a venda, ao bar, no bosque. Viviam como as pessoas de hoje, claro, nas condições daquela época, e dos personagens que eram. Um era um diabo e o outro um médico doido! Dividiam a mesma vila alemã com os outros alemães “normais”. Embora se notasse bem que eram caras diferentões, esquisitos, como tantos que vemos por São Paulo.
   Esta cidade em que vivo tem hoje quase 20 milhões de habitantes. Dentro desta mesma cidade tem incontáveis vilas, vilarejos, comunidades, favelas e até mesmo outras cidades dentro de uma Sampa só. Eu escrevo sobre a minha vila. A que eu vivo. Eu venho do Bonfa, mas circulo da zona oeste, a sul e centro. E dentro deste circuito, consigo as vezes me sentir vivendo em uma vila pequenina do século XIX. Encontro as mesmas pessoas nos teatros, bares, vernissages que freqüento. Nas avenidas, ruelas, parques, se tornam pequenas, onde todos se conhecem ou já se viram antes.
 Consegui identificar uns tipos esquisitões na minha vila. Possíveis Faustos e Mefistófilis. Eles existem de verdade. Vou descrevê-los como vejo e como se comportam aos meus olhos! Espero que eles não fiquem bravos comigo... pois os encontro sempre.

 Tem a louca histérica. Ela é catadora e mendiga, vive nas partes ricas da cidade, mais pelos jardins e a avenida Paulista. Ela lembra aquela velha dos gatos de Os Simpsons. As ruas das áreas comerciais estão cheias de gente ao meio do dia, é a hora do almoço, das doze ás duas ou três tarde. Todos indo aos restaurantes. Então ela começa a gritar. A urrar na verdade. Um urro ardido e contínuo.  Ela escolhe uma vítima, grita e gesticula olhando diretamente nos olhos desta pessoa, fazendo todos ao redor (que não a conhecem) acharem que esta pessoa fez algo muito sério a ela. Como não dar uma esmola, pisar no pé dela ou algo assim.  Nada disso, o coitado foi simplesmente o eleito. Ela nunca me elegeu, graças a Deus. Mas já a alguém muito próximo a mim. O susto que todos levam é muito grande. Mesmo depois de saber de sua existência, os urros são muito altos e indignados. E ela continua meio que tentando reclamar algo incompreensível e até hoje eu vejo gente tentando compreender o que exatamente ela está a urrar.  Sempre tem curiosos que param de longe tentando entender o que ela está fazendo. Além de novos e velhas vítimas assustadas.
  

 Ronaldo Brévis o poeta. Tem uma esquina na Oscar Freire que tem um prédio completamente abandonado. Tem um processo judicial nele, alguns mendigos tomaram o local o deixando deplorável, mal cheiroso e pixado. É uma esquina fantasma. Ali é a sede do poeta. Tem um ponto de ônibus na frente onde ele senta para escrever. Ele tem uma cartola de Tio Sam preta, ou uma de lantejoulas roxas e ainda um chapéu estilo capitão Gancho com uma pena verde. Barba branca, é negro, magro, não possue os dentes da frente e as vezes parece mendigo, pois não deve ter  muitos acessos a  banho. Está sempre bebendo alguma coisa, não sei se é álcool mesmo, mas ele fala como se estivesse sempre bêbado. É engraçado pois as vezes cheira mal e as vezes se entope de perfume! Ele põe cartazes nesta esquina, onde escreve poesias de canetinha colorida, caneta bic e grafite. São vários cartazes pequenos e grandes. O português do poeta é muito ruim, o que me impossibilita de dizer se as poesias são boas ou não. Já tentei ler algumas mas só os inteligentes podem entender, eu não consegui ainda. E mais, se você der atenção a ele, vai te pedir uma caneta, e um papel e vai te escrever uma poesia. E colocar os links dele no you-tube, no papel. Tenho a minha poesia em algum lugar aqui em casa. Lembro de tentar decifrar, ainda não o fiz. Escreva o poeta dos jardins no you-tube, ele é famoso!

  Legionaire. Tenho medo deste cara. Inclusive de ele ler isso e me processar! Mas conto aqui a verdade,  que  vi deles na rua pública. São personagens da Vila São Paulo que freqüento, vivo e moro desde sempre! E este cara é outra celebridade. Todos os bares e restaurantes do Itaim, Vila Olímpia, Pinheiros e Vila Madalena o conhecem. E o temem. Pois a princípio ele é só um excêntrico. Depois de beber garrafas de tequila, vodka e whisky, óbviamente se transforma  e dá trabalho. As primeiras são no copo, depois ele começa a circular com uma e depois com duas garrafas uma em cada mão. Ele começa a conversar, tem os olhos arregalados, parece um soldado alemão. Usa calças camufladas de exército, é careca e no início usa uma camisa, depois de muito éter circulando nas veias, ele exibe seu abdome e peito super sarado. Para todos diz a mesma conversa, exatamente igual. Ele diz que é francês de Lyon. Com alguns começa a falar em francês. Diz que é agente secreto, faz cara de “por favor não conte a ninguém”. Diz que serve as duas nações: Brasil e França. Aí ele mostra os documentos: passaporte, reservista, o documento de dupla cidadania. Depois bebe mais um pouco, sobe no balcão, se houver, se não encontra algum tabladinho e começa a dançar como um gogo boy. Por isso o medo dos donos de bares e restaurantes. Nenhum segurança consegue tirá-lo dali se ele quiser ficar. Ele vira a estrela do lugar. E dependendo da empolgação, termina de mostrar todos os seus documentos de cima de seu palanquinho.

 O Alls Star vermelho. Conhecido como Alls Star mesmo. Me esqueci do nome real do rapaz, jovem alto e bonito. Usava uma jardineira jeans e uma camiseta colorida em baixo. Ele chega e mostra que comprou um alls star. Há anos.  É a primeira coisa que diz. E o alls star realmente está sempre novo. Depois, independente de qual seja o assunto ele tem um conjunto de frases que servem para tudo! É impressionante. Suas respostas são perfeitas para quaisquer perguntas. Ele tem também um conjunto de expressões faciais igualmente universais. É como se ele tivesse decorado um texto coringa para tudo que conversávamos. Falava olhando para o céu. Eu tentava fazer perguntas difíceis, elaborava algo que ele tivesse que dar uma resposta diferente. Nunca consegui. Ele estudava num colégio do Bonfa, o mesmo que eu estudei. E as conversas eram na porta, na hora da saída ou na entrada. Ele sumiu. Dizem que morreu. Mas acredito que foi abduzido por um grupo de ETs.


 Fofão. Antigamente o Fofão (não se sabe se ele sabe que o chamam assim)  simplesmente ficava sentado nos bancos das praças do centro da cidade. Ele tinha as bochechas vermelhas inchadas bem abaixo dos olhos, como aquele palhaço dos anos oitenta que aparecia na televisão, o Fofão. Olhos delineados de lápis preto e um quilo de blush. Não fazia mal a ninguém só ficava sentado mesmo, mas todos que o olhavam saíam correndo de medo da figura. Criança chora de medo só de olhar. Dizem mil coisas: que é gay, que foi casado, que é perigoso, que era rico e ficou pobre, que aquela bochecha foi cirurgia mal sucedida . Os anos se passaram e Fofão mostrou-se inofensivo porém, mau humorado. Arrumou um emprego de entregador de panfletos no semáforo. As bochechas, que seria aplicação de silicone, que parece que também tem no quadril, desceram no rosto, o tornando mais horrendo que antes. Ele também cortou os cabelos que eram compridos. Imagine o susto que leva o motorista no farol quando ele aparece na janela para panfletar. Se a pessoa não aceita o panfleto ele fica bravo e começa a perguntar por quê? E entra na frente do carro para assustar ainda mais com sua aparência! Eu sempre aceitei seus panfletos. E tento não mostrar que tomei susto com seu look novo.

 Por último , tem o dono da Ferrari vermelha. Ma que bella máquina! Ele tem também um corvette amarelo sensacional. É muito simples: ele fica na av. Paulista em dias de muito sol. Feriado ou domingo. Estaciona na calçada de modo que o carro fique exposto como se estivesse no salão do automóvel. Ele joga o peso dom corpo para um lado, está com jaqueta da marca de carro e fica rodando a chave no dedo indicador. Os amantes de carro pedem pra tirar foto, ele deixa e adora. Alguns tiram foto com ele. É uma celebridade desconhecida. Talvez os policiais façam vista grossa por ele estar estacionado na calçada, afinal é quase uma atração turística. Fica pertinho do Masp.
   

 Se eu não vir mais essas pessoas, darei falta delas. Tem vários outros, que em meio a 20 milhões se destacam, ou pela esquisitice ou pelo que for. Tem o vendedor de pão de mel, o amolador de facas.  Como é difícil desligar de São Paulo! Sempre tem tanto a se fazer, a se ver por aqui ... Cada vez mais cresce e ao mesmo tempo fica pequeno esse nosso mundão.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Minha relação com o Rio de Janeiro.


Ontem conversando com uma paulistana de 21 anos, classe média alta, fiquei surpreso ao ouvi-la dizer que ela nunca esteve no Rio. Só no aeroporto, uma única vez a caminho de um resort. Tive pena dela. Porque acredito que nunca ninguém irá entender São Paulo, sem conhecer o Rio.
Já eu, do alto dos meus 37 anos de vida, visito o Rio pelo menos uma vez por ano. Verdade é que fiquei muito tempo sem ir. O motivo desta crônica é porque comecei a refletir. Se eu fosse morar no Rio e pudesse escolher qualquer bairro, qual eu escolheria? Vamos lá:
 Quem me apresentou o Rio foram os meus pais. Eu era bem pequeno. Numa das viagens peguei um mapa turístico. Observando os comentários e o mapa, deduzi que naquele começo da década de 80, a Barra da Tijuca era o futuro do Rio. Logo São Conrado, a bela praia a caminho da Barra e a própria Barra foram a minha primeira paixão. Hoje? Bem hoje, confesso que não. 
 A Barra, tem aquela avenida larga. O shopping gigante, a Barra sempre foi um enorme playground. 
 Esta paixão só foi trocada, quando eu mesmo me apresentei o Centro do Rio. Do bairro do Flamengo para o norte. Explorei sozinho a história da cidade nos séculos XVII, do XVIII e XIX. As construções históricas, igrejas, livrarias, confeitarias, teatros e o calor.
 Até o ano passado ainda era para mim o pedaço mais interessante. Mas claro que também visitei e frequentei o histórico da moda, Lapa e Santa Tereza.
 Mas a verdade é que me cansei de tudo isso. Dizem que a Lapa foi recuperada. Imagino então o que aquele bairro sujo, uma pequena Havana, era antes da recuperação. Tá certo que se me deixarem, largarem num daqueles bares "pé sujo" com fome, eu fico ali uns dois dias ouvindo samba e saboreando cachaça e cozinha de boteco.
 Já Santa Tereza é bom de visitar, mas morar naquelas ladeiras sinistras à noite e melancólicas de dia, não é pra qualquer um. Coisa realmente pra gringo.
 O leitor deve estar pensando e a famosa Ipanema, a Gávea e o Jardim Botânico? Adoro. Mas não me sinto bem. Acreditem ou não, me sinto em São Paulo quando ando pelo Leblon. É uma riqueza com culpa. E tudo parece querer ser internacional e cosmopolita.
 Porém na praia, há um monte de mauricinhos com bermudas pretas, sem graça. Grupinhos que ficam jogando fumaça de maconha na minha cara. Em Ipanema tudo é IN demais. Tudo é esplendorosamente cool. Conheço bem esta gente. Dizem que o meu Bairro em São Paulo é o equivalente a Ipanema. E não é que encontramos os conhecidos paulistanos por lá? E os Bares tem os mesmos nomes dos daqui. Nunca me apaixonei por Ipanema. 
 Sobra o que? Botafogo? Zona Norte?
 Não!
 E aqui vai o motivo da minha crônica. Eu ando apaixonado pelo bairro de Copacabana. Com o distanciamento paulista que eu tenho, eu afirmo que nenhum bairro do Rio faria sentido se não existisse Copacabana. É ela quem dá sentido e equilibra o Rio. Se eu sou urbanista? Teoria estapafúrdia?  
 O mundo é feito por bairros. Eu gosto de alguns bairros de São Paulo. Não todos. A pergunta certa é sempre perguntar, qual bairro do Brasil você mais gostaria de morar?
 Não entendo o porquê e como Copacabana começou a decair? Pra mim é um bairro que tem o movimento de Nova York, com seus taxis amarelos, prédios sem recuo, pessoas de todas as partes do globo. Muitas pessoas. 
 E de repente parece Paris, com pequenos cafés, floriculturas e confeitarias.
 Há um mistério em Copacabana. Algo mágico. É de longe o bairro mais romântico do Rio.
 Numa das tragédias cariocas de Nelson Rodrigues, um personagem diz a uma moça:
 ”Vou te levar para um apartamento em Copacabana!”
 Eram os anos 50. A moça, da idade da minha avó, se derrete toda. 
 Depois Viriam o atentado da Rua Toneleiros. A capital se mudaria para Brasília. E São Paulo passaria a dianteira do Brasil.
 Mas pra mim... Pra mim Copacabana ainda é aquela praia que meus pais me levaram quando criança. Mágica. Não preciso dizer porque, ela simplesmente é. 
 Copacabana é Hollywood. É Roma. Copacabana é a Riviera Francesa. É Veneza. É Beirute. É o Rock de Londres. É um lugar impossível de não suspirar e pensar:
 “Caramba! Os Deuses do Turismo realmente acertaram aqui!”
 Copacabana é eterna. Não existiria Brasil sem Copacabana. 
 Feliz ano novo! 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O esportista saudável

Texto de Livia Prestes: 


  Ele fez educação física, gente. É super atencioso, adora crianças e elas o adoram também, o chamam por outro nome, tio alguma coisa. Ele dá aula de natação num clube, é personal trainer de madames, participa de corridas, triatlos, tem um grupo de amigos homens lindos como ele, onde saem juntos para fazer mais esporte, desta vez, por lazer, ufa!  É do tipo que te olha de longe no parque Ibirapuera, muda a rota dele e “sem querer” tromba com você na pista de corrida. Logo depois, te encontra na barraquinha de água de coco e começa a conversar. É muito simpático risonho, adepto da seratonina gratuita. Vocês irão muito para praia de moto, cabelos ao vento, curtir a natureza. Ele vai te ensinar a correr e a alongar direito. Sabe tudo sobre uma alimentação correta. Tem um labrador. Na cozinha da casa dele tem aquelas barrinhas diet e aqueles potes de suplemento alimentar que é químico pra caramba, mas ele vai dizer que é natural. Que é proteína pura, que faz bem sim. Ele tem bike e um carro com rec para levar a bike. Um dia você descobre que na adolescência ele foi gordo e cheio de espinhas no rosto. Ele vê que você achou a foto e fica muito bravo. Desconcertado, como se você fosse mudar com ele depois desta revelação! Aos domingos ele curte um pagodão com feijoada light sem culpa. Ufa! Ele toma uma cervejinha! Uma.

Porém

Talvez você largue o cigarro um pouco e vai diminuir o sal na comida automaticamente.

Todavia

Você não vai parar de comer chocolate e vai se irritar quando ele disser pela milésima vez que sorvete nada mais é que gordura hidrogenada com açúcar.