sábado, 24 de maio de 2014

Rápida autobiografia de um quarentão, Leo Chacra.

Leo Chacra:

Aos 10 anos:
Eu queria ser um Jedi. Morar em outra galáxia. Meu carro preferido era uma nave espacial. O país mais maravilhoso do mundo era os EUA, mas eu tinha uma curiosidade pela União Soviética. A mulher mais linda eram as mais velhas, as de onze anos. Fazia ginástica olímpica.


Aos 15 anos:
 Eu queria ser diretor de cinema. Outra opção era ser o 007. Morar em Mônaco, desde que Mônaco ficasse na Califórnia. Meu carro preferido era um Passat ou qualquer carro que eu pudesse dirigir. Meu país preferido era o mar, um navio pirata. A mulher mais linda eram todas as mulheres. Eu gostava de Rock and Roll. Fazia Polo Aquático.


Aos 20 anos:
 Eu queria muito, muito, muito mesmo ser arquiteto. Não sabia desenhar, ainda não sei. Morar na Europa. Meu carro preferido era um carro pequeno, ainda é. Meu país preferido era o Brasil. Ouvia música clássica. Lia literatura clássica, via filmes clássicos. E era completamente apaixonado por uma menina drogadinha de 14 anos. Era ateu. E também era budista, além de marxista. Fazia circo.


Aos 25 anos:
  Eu queria ser o Moliere. Era contra televisão, carro e publicidade. Minha religião era o teatro. Lia literatura policial e muitos livros de teatro. Amava minha namorada. Queria morar onde tivesse teatro. De preferência dentro do teatro. Era um fanático. Não fazia esporte nenhum. Mesmo assim até que era bem em forma.


Aos 30 anos:
 Queria ter a minha própria casa e tinha. Queria ser escritor. Mas escrever o que? Morar numa cidadezinha bem pequena, de mil habitantes, com a natureza. Agora era marxista só uns 3 dias por semana. O resto era conservador. Bebia. Acho que era um pré-alcoólatra. Pela primeira vez fui um pouco playboy. Andava metade do tempo com playboys e a outra metade com artistas. Nunca misturados, que não dava certo. Parei com babaquice de país preferido. Carro? Sei lá, taxi, qualquer carro, desde que não fosse assaltado. Amava a ex-namorada. Tinha muita facilidade para pegar mulher. Ouvia o que estava tocando. A noite ia beber na Vila Madalena. Fim de semanas na praia. Meus amigos iam se casando.


Aos 35 anos:
 Eu era dono de restaurante e diretor de teatro. Queria ser ator. Fazia muito esporte, regime, engordava e emagrecia. Era completamente apaixonado por outra ex-namorada. Aproximei-me do cristianismo. Me interessei por história, ao mesmo tempo que nunca mais me interessei por clássicos. Comecei a me preocupar com o futuro. A me preocupar com meus pais. Na mesma intensidade que os meus pais começaram a se preocupar muito comigo. Muito. Meus amigos já eram quase todos eles, pais. Tive uma fase samba. Cogitei viver no Rio. E me achava decadente.


Aos 40 anos:

 Eu amava minha mulher. Ou melhor, amo. Quero ter uma CIA de teatro. Estou fazendo um filme. Faço esporte todo dia. Muita natação. Escuto o que a minha mulher coloca pra ouvir, e o rádio do carro também. País preferido é o país que eu ainda não conheço. Dei pra gostar de cerveja. Não só dos destilados, que, aliás, nem ando indo muito em bares. É raro. Não me arrependo dos caminhos que segui. Acho que podia ter sido mais ousado. Mas será que não fui? Me dei conta de que eu não sou alto como eu imagino que sou. Carro? Odeio todos. Com a política sou desiludido. Mas me provoca, pra ver. Me preocupo muito com o presente. E acho que sou bem feliz. Pra ser sincero eu não sabia antigamente se chegaria tão longe. Quarenta. A melhor idade. Será que me convenci? 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os sonhadores.


 Aceitaria a sugestão dos pais. Passaria uns meses na Europa. Na Itália. Foi um livro de turismo com uma foto de uma italiana num vestido de verão com os cabelos voando ao vento. Atrás uma rua com prédios antigos, mesas nas calçadas, motocas passando.
 Aqui no Brasil com seus 19 anos ele não era nenhum sucesso. Mas na Itália ele conseguiria “pegar” um monte de gatas. Seria o lugar ideal. Passar o verão estudando italiano, na Itália.
 Todos diziam que ela era linda, uma boca carnuda sensual, seios fartos, bunda, ela estava decidida, faria um book de modelo. A noite ela se imaginava desfilando.  Conheceria o mundo, a Itália, que ela tanto sonhava.
 Ele depois decidiria que carreira seguir, pensava em ser arquiteto, talvez economista. Ela seria modelo fotográfica, foi o que recomendaram. Hoje uma menina precisa ter mais de um metro e oitenta. Pelo menos, para fazer moda. Ela tinha um e sessenta. E era quase gorda. Quase. Mas um rosto lindo, modelo fotográfica. É.
 Era um dia realmente quente e de sol. Ela tomava um sorvete numa praça em algum lugar de Roma.
 Ele viu ali uma chance. Abordou a menina num inglês amador. A garota contou que era do Texas. Nunca ouvira falar de São José do Rio Preto, muito menos de São José do Black River, a “Califórnia” Brasileira.
 Combinaram um cinema, no outro dia foram a um museu, almoçaram. E o verão acabou.
 Ele resolveu estender a temporada e se mudou para o quarto dela. Ela morava numa pensão de americanos. 
 Ele compra uma máquina fotográfica usada. Começa a tirar fotos nas tardes livres. Roma era um cenário sem fim.
 Ela começou um curso de gastronomia. Acabou num restaurante. Na cozinha, na parte de sobremesas.
 Ele foi estudar fotografia. Conheceu uma modelo magrela e alta. Uma alemã. 
 Ela fugiu com um chefe espanhol. Dez anos se passaram.
 Ele tomava um sorvete em uma praça em algum lugar de Barcelona. Ela passa com uma menina de uns três anos. Se reencontram. Saem, vão à praia, ao teatro, ao parque.
  O marido dela volta de Portugal. Eles fogem para o Marrocos. O marido vai atrás. No hotel em Casablanca ele dispara a arma e mata os dois na piscina.
 Ela suspira. Abre os olhos e continua ouvindo aquele garoto brasileiro, contando de como será seu filme. Sim ele é diretor de cinema, ainda não fez nada, mas é.
 Quem sabe ela não seria uma estrela na próxima temporada de Cannes?
 Quem sabe? Sonhos são incrivelmente superiores e mais interessantes que a realidade. Nem sempre.
 E hoje? Ele quer saber. Alugam uma moto e saem em direção ao sul. Grécia, Istambul, Beirute...
 Sonhar definitivamente é um talento. Sol, praia, vinho, história, arte, e 20 poucos anos. 
 Entram numa igreja de mil anos e fingem casar. Saem e bebem, vão até a praia e dormem na praia. Agora são casados. O sol forte, o céu azul, o Mediterrâneo verde, verde como eles. 
 O mar sorri, ele já viu tantos casais jovens. Mas também já viu tanta guerra, tanta gente morrer afogada. 
 Mas hoje é verão. E Rio Preto está longe, lá para os lados do Texas. 
 Os dois correm pela praia, sem protetor solar, sem lenço e sem documento. 

domingo, 13 de outubro de 2013

O Ivan da Tia Marta.

  O Ivan da Tia Marta.
 Não me lembro quando foi e nem quem me falou, a primeira vez, sobre o Ivan da tia Marta.
 Acho que foi a própria, quando nós sobrinhos a indagamos se ela não casara, e não tivera nunca um namorado.  A tia solteira teria nos contado sobre o Ivan. Uma paixão sabe-se lá de quando, talvez ainda dos anos 60, ou até antes.
 O que eu sabia era que o Ivan fora frentista num posto de gasolina, meu avô, pai da Tia Marta, não permitiu o casamento. Ficando minha Tia Marta solteira até hoje.
 Depois Ivan tornou-se taxista, vindo a falecer há uns 15 ou 20 anos atrás.
 Lembro deste episódio e de um outro, que também faz parte da minha biografia não autorizada. Fabi, uma amiga atriz, me chamara para participar de um espetáculo infantil.
 Meu papel seria o de interpretar uma versão de Tarzan. Eu deveria ficar a peça toda sem camisa, de tanguinha, coisa que não me agradou. Aliás, nada me agradava no texto, inclusive o texto se chamar Peter Pan. O Tarzan era só um coadjuvante, praticamente sem fala.
 Resolvi ser então assistente de direção. E arrumamos um rapaz bem mais sarado do que eu, na época, para fazer o rei das selvas.
 O diretor, uma Tia velha, apaixonou-se pelo novo Tarzan. E passava os ensaios todos repetindo baixinho para mim:
 “A vida deste rapaz daria um filme”.
 Tempos depois, aprendi que qualquer vida dá um filme. Inclusive a vida da Tia Marta e do Ivan. Inclusive a sua leitor.
 Conto tudo isto, porque hoje encontrei num restaurante, o diretor do qual fui assistente, há uns dez anos. Assim por acaso. Ele e Tarzan continuam casados. São reais. E são felizes, estão montando um Nelson Rodrigues.
 Já o Ivan da minha Tia Marta, nunca terei certeza se ele realmente existiu. E não sei por que, mas se eu fosse escrever a biografia da minha Tia Marta, o Ivan é um dos fatos mais interessantes. Digo, o mais.
 Talvez o Ivan seja Vânia, mulher do Moacyr, que era frentista. Talvez minha tia tenha só cruzado com este frentista, Ivan, e trocado poucas palavras. O resto seria fantasia dela. Tantas possibilidades.
 O fato é que o Ivan acabou se tornando um tio. Um parente que eu nunca conheci. O Ivan da Tia Marta.
 E toda vez que eu visito a Tia Marta, eu tenho esta vontade de saber mais sobre o Ivan. E ela sempre me sai com respostas evasivas:
 “Seu avô não me deixou casar com ele”. “Virou taxista e depois morreu”.
 “Mas tia! Nem a cor do taxi a senhora pode contar? Eu quero detalhes tia.” 

domingo, 22 de setembro de 2013

Ensaio sobre os Corleones.

 Ensaio sobre os Corleones.

 Meses atrás fui a uma palestra sobre a atual situação política da Síria. Mas não se preocupe leitor, isto não tem nada a ver com os dias de hoje e sim com a obra de ficção:  The Godfather de Mário Puzo, com contribuição de Francis Ford Coppola. Simples assim.
 Acontece que o palestrante daquele dia, no caso meu irmão mais novo, usou a obra como uma analogia para explicar política internacional. Interessante como cada um enxerga a trilogia cinematográfica, eu não li os livros, como quer. O que é ótimo. Aqui vou dar a minha interpretação pessoal sobre ela, a obra. Diferente, mas não melhor do que a do Guga.
 Começo falando da palestra, porque o meu irmão ter citado os Corleones me deixou com vontade rever esta trilogia. Demorei um pouco, mas este fim de semana eu mergulhei nos filmes.
 E ao contrário do que meu irmão e muitos acreditam, não acho que Michael Corleone se tornou o maior chefe da máfia norte americana por acaso. Por acidente. Não. Começo falando sobre Vito Corleone, seu pai.
 Me identifico com Vito. Ele era um artista. Improvisava, era simpático, ambicioso também. Mas qual imigrante não é pelo menos um tantinho ambicioso?
 Acho que ele sim foi longe sem querer. A máfia ainda não tinha seus postos conquistados, devidamente ocupados na América. Os mafiosos antes de Vito eram bufões amadores e exibicionistas, falastrões. Não foi difícil superá-los.
 Vito viu seu pai ser assassinado, depois seu irmão e finalmente sua mãe, esta ultima bem na sua frente, quando ele tinha apenas nove anos. Com um histórico deste não é de surpreender que ele fosse violento. Um garoto de nove anos que em 1901 atravessa o atlântico sozinho precisa sobreviver?
 Vito Corleone foi apenas um imigrante bem sucedido. Um dos muitos chefões do crime organizado de Nova York. Talvez por um pequeno período de tempo o maior deles. O primeiro do raking. Mas ele não conseguiu se segurar. A concorrência era faminta. E tudo entrou numa confusão. Seu pequeno império não demorou a desmoronar. Se não existisse o jovem Michael, tudo seria perdido logo após sua morte.
 Os irmãos de Michael, Fredo e Sony, eram fraquíssimos. Não eram líderes, aliás, não eram nada.
 Quando Vito é baleado, Michael entra em cena. Mas aí é que reside o erro. Achar que Michael não era extremamente ambicioso e focado. Ele queria um futuro maior para si. Maior até que o que seu pai Vito sonhara. Mas até então o jovem era distante e vivia como um universitário.
 Não é a toa que na terceira parte, Michael se torna além de um homem de negócios dentro da lei, com todas as atividades legalizadas, um dos homens mais ricos do planeta. Rico e influente.
 Vito... Vito coitado. Ok, ele era charmoso, e um sobrevivente. Seu charme e sorte o levaram para longe. Claro que era ousado. Mas no fundo há um certo limite para um imigrante.
 A segunda geração, a de Michael, é sempre a mais americana, ou brasileira no nosso caso. Michael precisa se agarrar a cultura americana. E aqui convenhamos é uma terra de imigrantes, nada mais nacional do que o filho do imigrante.
 Ele vai para faculdade e conhece Kay. É óbvio que Michael quer uma mulher não italiana. Ele desde cedo quer superar aquilo. Quer transcender as origens.
 É ele que faz o estado de Nevada. É um dos criadores de Las Vegas. Faz negócios com judeus, com americanos wasps (brancos protestantes). Tenta expandir seus negócios para Cuba e para o Oeste.
 Seu pai Vito, apesar de padrinho de Frank Sinatra era um provinciano perto de Michael. Provavelmente até Frank Sinatra fosse menos americano que Michael.
 É claro que ele acaba casando com uma siciliana, quando estava fugido e longe de Kay. Mas é um casamento de uma americano com uma siciliana. O sonho dele era ser grande, grande como o seu país, os EUA.
 É por isso que Michael se alista para lutar na segunda guerra. Ele ama os EUA. Ele é os EUA.
 Michael inova a máfia, ele a legaliza e está um passo na frente dos próprios políticos americanos. Isso deixava os poderosos americanos mais expostos, eles achavam que estavam lidando com um ítalo-americano, enquanto Michael era cem por cento americano.
 Ele se ofende quando recebe o título de o Ítalo-americano do ano. Ele nunca se auto refere como sendo um italiano e quando fala da Sicilia, ele diz: Este país, eles... E não, nós, e meu país.
 Eu acho que Michael não é uma continuação da Máfia, nem perpetuação das tradições milenares da Sicilia. Michael é o fim da máfia. Um fim que veio de dentro para fora.
 Ele confessa a irmã, já mais velho, que quanto ele mais sobe, quanto mais poder ele tem, quanto mais ele tenta ser honesto, mais podridão, mais miséria e corrupção ele vê.
 Michael é um herói trágico. Michael sempre odiou os mafiosos. Com exceção dos da sua família.
 “Eu preciso de advogados e não de valentões”.
 Vito e Michael não tem nada em comum. A não ser o fato de serem pai e filho. A cabeça de Michael é exata, ele nunca se confunde. Vito se esquece embaralha tudo e se salva com o seu charme pessoal.
 Michael é tão americano, quem sem se dar conta, seu filho Antony se torna um artista. Cantor de ópera. E não um italiano mafioso.
 E sua última frase no filme, ao sair da ópera de Palermo depois de uma performance de Tony, é:
 “Agora os Corleones serão lembrados por uma voz”.
 Infelizmente esta voz, é o grito de Al Pacino ao ver sua filha, Sofia Coppola cair baleada na sua frente, nas escadarias do lado de fora da Ópera. Lado de fora?

 Michael não conseguiu vencer a Sicilia. Lamentavelmente. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

C`eravamo tanto amati.

 Eram três. Inseparáveis. Carlão, Dedé e Mafalda. Conheceram-se na faculdade de sociologia. Durante mais de vinte anos foram marxistas convictos.
 Mafalda era agora professor de sociologia numa renomada universidade. Tipo USP. Estava fazendo pós-doutorado. Casara-se com Denise, uma quarentona, farmacêutica, que tinha um filho do primeiro ou segundo casamento. Marcelinho, de dez anos. 
 Dedé era músico, casado com Fátima, praticamente quarentona. Fátima era esteticista. Tanto Fátima quanto Denise não eram politizadas. Tinham aquele sonho de classe média. Apartamento próprio, carro zero, viagem para Miami e churrascaria rodízio nos finais de semana.
 Dedé ainda não tinha filho. Fátima queria muito um, mas ele achava que não valia a pena ter um filho antes da revolução.
 Sim leitor, você ouviu bem. Revolução. Os três amigos tinham também o sonho de conhecer a Coreia do Norte e libertá-la da tirania capitalista da Coreia do Sul. Ou ainda libertar a Coréia do Sul dos tiranos capitalistas. Estava tudo um tanto confuso. Mas sonhavam.
 Eram marxistas convictos. Por isso tomaram um susto naquela sexta-feira fim de tarde, quando tomavam uma cerveja num boteco de Perdizes.
 “Estou pensando em mudar de religião.”
 Carlão criou coragem, achava que depois do FHC, do Lula e Dilma, nada mais fazia sentido. Acreditou que os amigos entenderiam e até fariam o mesmo. É como se ele estivesse saindo do armário. E os amigos sairiam em seguida.
 “E para que religião você vai mudar?” O desafiou Mafalda. Aquilo não poderia ser sério. Era mais uma piada do Carlão. Largar o Marxismo? Nunca.  
 “Estou pensando em seguir o Cristianismo.” Os amigos caíram na risada e Mafalda pediu mais uma cerveja e uma porção de amendoim.  
 “Li um livro e me dei conta, que é uma tradição que conheço desde criança.”
 “Cristianismo?” Gritou Dedé.
 “Sim. Cristianismo.”
 Os outros dois pararam de rir e perceberam que a coisa era séria mesmo.
 “Eu conheci esta garota, Ana Paula. Ela é budista. Me levou para ver os templos, fazer meditação, parei de comer carne e tal, mas me dei conta de que, se eu não for mais marxista, eu vou ser é católico mesmo.”
 Mafalda o questionou se ele não acreditava mais no Marxismo. Carlão, disse que nada mais fazia sentido.
 “E depois... Eu gostei deste novo Papa. Ele me tocou o coração.”
 “O Papa? Eu nem sei que é o Papa!” Exclamou Dedé.
 Aquilo era demais. Carlão, se tornar menos radical, tudo bem. Carlão começar acreditar no livre mercado, na livre iniciativa, propriedade privada, seria triste, tudo bem também. Mesmo porque hoje que diferença na prática existia para eles? Fosse aquela cerveja de multinacional, ou uma cachaça estatal, eram uns perdedores mesmo.
 Casados com mulheres burras e feias. Viviam duros e nem tinham mais um discurso que fizesse sentido. Eles nem sabiam qual era direito a capital da Coréia do Norte, algo como Ping Pong, sei lá.
 Se Carlão se transformasse em Budista, e estivesse com uma menina de vinte anos, curtindo uma praia, natureza vá lá, eles entenderiam. Mas a igreja católica? Aquilo era demais. Deus nem existe.
 E Carlão nem fazia o estilo Hippie. Era o oposto de Hippie, andava de carro. Fazia a barba, era o único que fazia a barba na escola de sociologia. Louco!
 “Mas Antonio Carlos nós fizemos faculdade de sociologia. Como você pode acreditar em Deus?” Questionou Mafalda.
 “Sei disso. Me arrependo. Se eu tivesse dezoito anos hoje, teria escolhido o seminário, mas naquela época, anos oitenta... Eu nunca me identifiquei com o João Paulo II.”
 “Você não pode mudar sua fé, sua história por conta de um Papa!” Gritava Mafalda. Mas Carlão não se importou. Deu de ombros. E eles mudaram o assunto para futebol.  
 Na semana seguinte, Carlão parecia o mesmo. Mas foi Dedé quem disse que estava se separando da Fátima. Depois de chorar muito ele confessou. Fátima estava tendo um caso.
 “E você conheceu o cara?” Perguntou Carlão.
 “Cara?” Dedé disfarçou, mas logo em seguida disse: “É a professora de inglês dela”.
 Os amigos não riram.
 “E olha que é feia pra danado. Eu mesmo não a pegaria.” E desatou a chorar. Os amigos seguraram sua mão e o consolaram. Também Fátima era um canhão. Canhão e chata, agora Dedé arranjaria uma gatinha linda de vinte anos. Eles diziam. Uma amiga budista de Ana Paula quem sabe.
 “Quem sabe.” Ele suspirou com uma esperança.
 “Claro! Que mulher não gosta de um músico?” Perguntava Carlão.
 Pediram mais duas cervejas e começaram a falar de futebol.
 Na semana seguinte foi à vez de Mafalda soltar a bomba. Dedé estava deprimido, Carlão pensativo, distante. Mafalda muito ansioso quebrou o silencio:
 “Matei um homem”.
 Carlão olhou para Dedé. Ambos deram de ombros. E pediram mais duas cervejas. Minutos depois, Dedé quis saber.
 “Quando foi isso Mafalda? Esta sua história.”
 Mafalda, pensou, pensou, pensou e por fim disse curto e grosso. “Há já faz muitos anos.” Como alguém que não quisesse dar continuidade ao assunto.
 E começaram a falar de futebol. Mafalda ficou aliviado de não terem perguntado detalhes. No fundo os amigos sabiam que era mentira. Mas estavam satisfeitos pelo equilíbrio ter retornado a mesa.
 Na semana seguinte, puderam voltar a falar da Coréia do Norte. Sobre o antigo plano de adequar a nova realidade deles.
 Uma das mudanças foi decidir que a Coréia do Norte seria evangelizada. E receberia a visita do Papa. Riam. Tudo fazia sentido de novo.

 Nós que nos amávamos tanto, é o título de um filme de Ettore Scola.





quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Cada um na sua cama.

 Era uma festa de umas duzentas pessoas. Uma casa cinematográfica. Só os Vips haviam sido convidados. Ela sentiu alguma coisa estranha na mordida. Será que a capinha do dente tinha caído? Colocou o salgado numa mesa, passou a língua pelo dente e correu para o banheiro.
 Ele começou a sentir calor. Estava muito quente na festa. Tentou tirar o blazer. Não conseguiu. Ficou com a impressão de que a roupa estava presa e não saía.
 Ela se olhava no espelho e pensava: “Fodeu”. Na verdade era só uma parte pequena do dente, o finalzinho do dente da frente. Aquilo, o buraquinho, ficava até sensual. Mas para ela era o fim. Melhor ir para casa.
 Ele estava agora com mais calor e suando. Ficou preocupado com as manchas debaixo do braço. Foi para o terraço enquanto a esperava de volta do banheiro.  Aquele redondo de suor que chamam de pizza. Melhor ir para casa. Mesmo porque ele não tivera tempo de tomar banho. Mas ele tinha que se despedir dela. “Ah! Lá está ela”.
 Ela voltara do banheiro, séria. Muito séria. Ele falava sem gesticular os braços. O que o deixava com uma impressão de pessoa dura, sem ginga. Desajeitada. Ela dançava com cara de brava. E ele ficava parado para não mexer os braços.
 Ela permanecia com uma expressão antipática, de boca fechada. O que o deixou mais desconcertado ainda. “Será que ela viu as minhas pizzas debaixo do braço?”
 Ela queria rir e não podia. Sentia-se uma idiota com a cara de neutralidade que estava fazendo. Mas não queria arriscar dele ver seu dente faltando, ou melhor, um pedaço dele que estava lá minutos antes.
 Ele não mexia os braços. Não arriscava nem beber mais, para não ter de levantar o copo e mostrar o suor. “Mas também para quer vir com roupas tão justas?” Ele pensava. “Agora é tarde”.
 Na hora de se despedirem, ela deu um sorriso. “Será que ele viu o dente faltando?”
 Ele ficou tão contente de ter conseguido chegar em casa. Ninguém vira seu suor.
 Ela ria tanto de ter escapado sem revelar seu dente quebrado.
 Ele tomou um banho. Ela viu um pouco de televisão.

 E os dois dormiram felizes naquele sábado à noite. Cada um na sua casa. Cada um no sua cama. Um pensando no outro. Mas com a imagem de ambos, preservada. Que é o que mais vale nesta vida afinal de contas. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Deus existe?

 Deus existe?

Outro dia eu descobri que está acontecendo uma revolução no jornalismo. Sim. Agora graças à nova tecnologia, qualquer um pode ser um repórter. Logo eu que sou um bombeiro, agora posso ser um jornalista também.
 Não que eu vá deixar de ser Bombeiro. Nem ator de novelas. Eu estou fazendo a novela das três da manhã.
 Escolhi fazer uma matéria sobre Deus. A vida dele, e todas as polemicas que envolvem seu nome.
 Tipo sua vida financeira, amores e a paternidade de Jesus. Este inclusive que eu já tive o prazer de conhecer. Lá num clube de campo que às vezes minha mãe me leva. Tem lá uma comida sofrível, mas a piscina é boa. Fico meses sem sair de lá.
 Jesus é um dos habitues. Quando me vê por lá grita: “Ator! Oh ator!”. O que me deixa até um pouco irritado porque não gosto de fãs histéricos.
 Mas seria muito difícil entrevistar Jesus sobre seu pai. A cada avião que passa, ele grita: “Isso aí, este barulho, não é avião não! É meu pai! Papai!” Para não contrariá-lo eu concordo. Mas como passa muito avião por este clube de campo, e ele gosta mais de falar de um acidente de carro que ele teve, do que de Deus, nossas conversas são sempre interrompidas. Mesmo porque o tal acidente aconteceu nos anos 70, quando Jesus disse que ganhou na loteria. Acho que naquela época a loteria era mais fácil.
 Bom voltando. Lembrei-me de um vizinho. Um cara que eu sempre visito umas duas, três vezes por semana. Ele conhece, sabe tudo sobre remédios. Não os remédios que o Jesus usava nos anos setenta. Outros. Uns para me deixar com, quer dizer, digo sem os delírios.
 Eu tomo todos. Não porque eu tenha delírios, mas para não desapontar este meu vizinho. Aliás, um vizinho de cidade, não de prédio. Meu vizinho me vê na novela das 3 da manhã, disse que estou melhor que o Marlon Brando. Grande coisa.   
 Cheguei ontem na casa dele. Sentei naquele sofá dele. Foi quando eu vi um quadro com uma montanha coberta de neve. Ele me disse que era o Canadá.
 Foi aí que eu adorei esta coisa da nova mídia, pós-industrial. Eu posso mudar de reportagem a hora que eu quiser. E convenhamos, gnomos no Canadá, é bem mais interessante do que Deus, Jesus... No Canadá existe até ursos. Sim, ursos e neve. E alces.
 O que eu não entendo é porque gnomos não acreditam em E.T.s? Meu vizinho disse que ele não era a pessoa mais indicada para falar sobre Deus. Eu deveria procurar um padre.
 O que me faz pensar. Toda vez que eu quero falar sobre Deus, as pessoas sempre ficam constrangidas, esquisitas e desviam a conversa. Será? Será...
 Será que eu sou Deus? Agora tudo faz sentido. Este mundo aí fora não existe. Tudo só acontece quando eu vou aos lugares e vejo as pessoas. Fora isso, as pessoas ficam descansando. Sim. Agora em Londres, por exemplo, está tudo vazio porque eu estou aqui em São Paulo.
 Mas e no Canadá? E no Canadá?
 “Jesus você acha que está acontecendo alguma coisa neste exato momento no Canadá?”
 “Não é avião não! É meu pai!” Ele grita. Depois de passar o avião ele vira-se para mim:
 “Aqui é o Canadá.”
 Afinal concluo que assim como o Canadá, Deus é tão grande, que não precisa existir.
 Eles existem nos quadros do meu psiquiatra, digo meu vizinho. Na cabeça dos padres da igreja. Nos atlas escolares...
 E nos milagres. E os milagres acontecem todos os dias. Por isso eu tenho fé. Tenho fé que um dia eu vou me curar. E vou, numa dessas máquinas que voam que o Jesus chama de pai, conhecer o Canadá.
 Vá com Deus. Sempre. Porque acreditar em Deus, não tem nada a ver com saúde mental. Uma coisa, uma coisa, outra coisa, outra coisa. Eu não preciso abandonar minha fé para ser saudável.

 Pronto, vou publicar.