segunda-feira, 13 de julho de 2015

Tipos de ricos.

Tipos de Ricos:

 O conceito de rico é relativo. Para alguém com uma renda de 15.000 reais mensais, que convive com pessoas, com renda de até 2 mil, este alguém, é rico para os demais. E para ele mesmo.
 Já alguém com renda de 30 mil, mas que convive com pessoas com renda de 80 mil reais, também mensais, este alguém vai se sentir pobre.
 Uma curiosidade, existem uns 150.000 milionários no Brasil, destes, só uns poucos 35, tem um patrimônio maior do que um bilhão de dólares. Mas não é necessariamente dinheiro, que faz uma pessoa entrar nos nossos tipos. Às vezes, a postura, a caricatura, e a atitude, vem desacompanhadas de patrimônio. Basicamente, o que faz um rico existir, é a presença de um pobre.
 Se enxergarmos o indivíduo, e não o grupo à qual ele pertence, teríamos que ser complexos na descrição de cada ser. Por isso, isto aqui é um retrato das qualidades, características mais comuns, e não pretende ser a definição final.
 Tento também, apenas colocar uma visão talvez, mais para a artística, e não cientifica, nem marxista, muito menos religiosa.     
 Agora, chega de desculpas e vamos aos tipos:


O rico simples:


 Este tipo é aquele que realmente aprecia a pobreza. Quando vê pedreiros, pintores de paredes, jardineiros, faxineiros... trabalhando, lá vai o rico-simples puxar conversa. Seus assuntos basicamente são de temática cristã. Posta-se ao lado do trabalhador, e fala, fala, fala sem parar.
 Debocham de empresários, políticos, e falam da beleza de São Francisco de Assis. Da necessidade de ricos aprenderem a servir, para respeitar os pobres. Da inutilidade do consumo. Raramente quer saber a opinião do pobre. Trata o pobre como criança, animal de estimação. Adora chamar o pobre para sentar à mesa, tomar café.
 Leva os funcionários para almoçar, e até para beber junto. O rico-simples aprecia realmente a companhia do pobre. Gosta de verdade da comida, arroz feijão, pinga e piadas infames. Geralmente este tipo não trabalha, é herdeiro.
 Podem ser encontrados em clubes, hotéis de veraneio, principalmente fora de temporada, condomínios na praia e em classe turística em viagens de avião. Se veste com camisetas, tênis, e sem cores, nem luxo. Adoram ônibus vazios, onde apresentam notas de cem para os cobradores.




O rico babaca:


 Existe em qualquer país do mundo. Mas aqui, falo dos brasileiros. Quer sempre tudo do bom e do melhor. Adora a divisão de classe social. Perde muito tempo fiscalizando pessoas de classes inferiores, fazendo, agindo fora das regras, estas regras, por sua vez, que geralmente são delírios, do próprio rico-babaca.
 Ou repreender simplesmente, quando o pobre, ou indivíduo de classe inferior, localiza-se em lugares, ditos “fora da cozinha”.  
 Da pelo menos uma carteirada por dia. Nunca anda a pé, nem de ônibus. Seu carro é sempre blindado. E vê sujeira em tudo. Tem pavor de sol, pois tem pavor de sua pele escurecer. Não assiste nem filmes, nem peças de teatro, nacionais.  Aliás, não vai a cinemas, pra que? Se pode ver series americanas em casa?
 Se veste basicamente com roupas importadas e novas. Geralmente seu trabalho é chefiar, ou ainda ser puxa saco de poderoso. No caso, alguém maior que ele na escala das classes.



O rico- Moema:


 Como o próprio nome diz, trata-se de alguém que mora num bairro como o de Moema. E não, em um bairro dito mais aristocrático, Morumbi, Jardins e Higienópolis. O rico-Moema, não dá a mínima para tradição, sobrenomes e carteiradas.
 Ele é alguém que trabalha muito, quer qualidade de vida, mora próximo ao parque, é contido, quer um bom vinho, mas não o mais caro.
 Num país desenvolvido, ele seria alguém da classe média. Mas aqui no Brasil é rico.
 É visto com desdém tanto por ricos, quanto por pobres. Os primeiros dirão que é uma pessoa com ambições pequenas de classe média. Já os pobres, os acusarão de ser um fracassado.
 Ele sempre estará fora dos livros de história. É o chamado setor médio urbano. Não possui terras, nem fábricas, nem empresas.
 Geralmente são profissionais liberais. Ou trabalham em grandes empresas.
 No vestir, tentam seguir algo chamado “estilo”. Mas sempre desanda para algo sem muita criatividade. Politicamente são os mais conservadores. Pois querem conservar o pouco que têm.






O rico- Ipanema:


 Este tipo, apesar do nome, pode estar em qualquer grande Capital do Brasil. Recife, Rio, Belo Horizonte, Curitiba.  Trata-se do rico descolado. O famoso culturetes. Se considera melhor que um rico, ou intelectual Americano, ou mesmo o Europeu, pois o rico- Ipanema, seria o mais completo.
 Tem a mesma educação que os gringos, geralmente fez até colégio Americano, mas alega que conhece também a maravilhosa cultura Popular Brasileira.
 Antigamente eram fanáticos pela França, hoje eles têm uma ligação, ou predileção maior por Nova Iorque.
 Não se relacionam com funcionários. Adoram diaristas, e gostam de trabalhar com pobre que faz faculdade. Incentivam o pobre a estudar, mas ironicamente o rico- Ipanema autêntico, não tem muita formação acadêmica.
 Tem sim uma boa base. Geralmente os pais o mandam estudar fora, na Suíça, na Califórnia, em Londres.
 Se vestem com roupas dos amigos estilistas, são criativos, e até muito originais.
 Não produzem nada, seu trabalho é transformar a herança em ONGs, ou editoras de arte, reformas de apartamento, festas, vernissages...




O rico de verdade.


 Este tipo, meu leitor, é o rico, que é dono do banco que você deve. Do canal de televisão que você assiste. Da cerveja que você bebe. Do ônibus que você toma.
 Ele muitas vezes acorda, e passa o dia todo sem ver uma pessoa mais rica do que ele. Ou seja, com certeza, se ele não tem uma reunião, um jantar, um evento, onde seus pares vão comparecer, o rico- de verdade, só irá conviver com pessoas mais pobres do que ele.
 O sonho do rico de verdade, é ser mais rico dos que os Chineses. Comprar mais bancos, mais cervejas, mais televisões, mais construtoras.
 Seu medo, por sua vez, é perder dinheiro e deixar de ser rico de verdade.  E de algumas semanas para cá, alguns têm também medo de serem presos, detidos.
 Certa vez ouvi que este tipo, nunca fica louco. Pois o rico de verdade fica é no máximo excêntrico.
 Inexplicavelmente este tipo, também possui uma motivação, um desejo, assim como o rico- simples, de conviver com pobres, bem mais pobres do ele.
 E também uma propensão para consumir coisas simples. Como arroz e feijão.
 Para não dizer uma vontade de fazer atividades simples, como pegar uma enxada, fazer churrascos, pintar paredes.
 Por incrível que pareça, o rico de verdade, pode ser confundido com um pobre, pelo seu portar, e vestir.
 Porque a verdade é que as pessoas mais elegantes e educadas que existem são os ricos de verdade, e os pobres. 




O rico Golfe. 


 Este tipo, é aquele rico brasileiro, que decide viver no Brasil, mas como se estivesse nos Estados Unidos. Ele surge com o desenvolvimento da indústria Aeronáutica. Faz milhagem no cartão, por isso está sempre em Orlando, ou esquiando em Aspen.
 Conhece toda a Califórnia, no Brasil, mora em condomínios de casas, com nomes Americanos, que em nada diferem dos originais.
 O interior de suas casas seriam perfeitamente cópias dos subúrbios americanos, não fossem a quantidade de câmeras de segurança, e quartinhos de empregadas.
 O Rico Golfe, odeia samba, feijoada, é um verdadeiro cameleão, não fosse algo que o trai.
 Ele é mais colorido no vestir do que um americano comum. Uma calça vermelha, as vezes uma meia amarela, um tênis roxo, de resto até seus carros são aqueles enormes, iguais aos americanos
  O Rico Golfe, gosta de fartura. Louças grandes, muita comida, casa extremamente espaçosas, em condomínios ao lado de imensos campos de golfes.
 Ele vive no Brasil, como se o Brasil fosse marte. Tudo ao seu redor é blindado, carros, casas, shoppings.
 O Rico Golfe, nunca, mais nunca mesmo, foi ao centro de São Paulo, ou andou numa calçada fora de condomínio.
 Ele anda de ônibus, só em aeroportos, mesmo assim, com uma claustrofobia imensa.
 Metrô, nunca andou. Mesmo em NY, ele alugou limusines blindadas.
 Hoje ele vai numa reunião de condomínio, para tentar colocar ar condicionado no campo de golfe, afinal o Brasil ainda é um país tropical.




O rico saudosista.


 O rico saudosista, bem da verdade nunca foi rico. Ele aquele indivíduo que tem uma enorme vocação para rico, mas não tem dinheiro. Nem sabe como ganhá-lo. Tem amigos ricos, maneiras de ricos, gestual, oratória, de ricos, conhece tradições.
 Geralmente usa algumas palavras em francês. Sabe quem são as famílias tradicionais, e não raras vezes é monarquista.
 Tem loucura por brasões, e adora os anos 50. Cria toda uma fantasia de que sua família até os anos 50, teria um grupo empresarial. Fazendas, palacetes, criados, e faziam festas enormes. Ah! Os bons tempos, suspira o rico- saudosista.
 Depois passa a viver de saudosismo, pois começa a acreditar nesta fantasia. Tem um discurso de que se acostumou com a nova vida, de menos dinheiro, e menos glamour.
 Geralmente aluga um apartamento um dormitório, bem pequeno, mas muito bem localizado. No bairro dos Jardins de preferência. Compra algumas peças, objetos em feirinhas do Bixiga, e decora seu espaço como um fiel representante da decadência.
 Os amigos ricos então, revezam-se para leva-lo a bons restaurantes e casas de praias e fazendas aos finais de semana.
 Ele acaba sendo sempre convidado para vernissages, e eventos da alta sociedade. Sai em colunas sociais. E é sempre consultado sobre arte moderna, pintores principalmente, até os anos 60. Ele sempre alega que teve uma enorme coleção. E que seu avô era o melhor amigo e conselheiro de Juscelino Kubitschek.
 Mas numa entrevista, disse que sua família, originaria da França, foi rica mesmo, rica de verdade no período de Dom Pedro II.




O novo rico.


 Este talvez seja o mais clássico, e o que mais desperta a curiosidade das pessoas. O novo rico, seria o indivíduo que até uma semana atrás ainda era classe baixa. Logo todo seu comportamento se transforma, num curto período de tempo. E nem tudo pode ser tão rapidamente assimilado.
 O novo rico, com certeza é o mais excêntrico de todos os ricos. E bem da verdade ele quer frequentar a classe alta, não por gostar de ricos antigos, mas para se exibir para os antigos amigos pobres.
 Sua frase predileta é: “Antes novo, do que nunca”.
 Ele vai agora comprar tudo bom e do melhor, ou seja, vai adquirir o que é caro. Vai comprando tudo, misturando as coisas caras. Somando-se a isso uma estética que destaque ainda mais. Suas casas são ostentosas, suas festas também.
O som é alto, a felicidade é enorme, as risadas sem limites, seus closets labirintos infinitos de cores, e fantasias.
 Sua casa possui pomar, pianos de caldas, esculturas gregas, colunas romanas, com arquitetura moderna, formas e mais formas, sem unidade.
 Chafarizes, fontes, cascatas e escorregadores nas piscinas. Música sertaneja, pagodes, e televisões de última geração em todos os 15 banheiros de sua casa.
 Botões que fazem a sala girar. O novo rico tem uma propensão ao estilo Las Vegas de ser, misturado com o Shopping Internacional de Guarulhos.
 Ou ainda, não tem estilo algum. Só coisas extremamente caras, desajustadas, confusas e sobrando.
 Outra frase, e que serviria bem para este tipo, é: “O mais é menos”.




 O Rico Avarento.



 Este é fácil, existiu muito no século XX. São geralmente migrantes ou imigrantes. O Português da padaria, que se tornou milionário. O comerciante Turco. Fizeram dinheiro trabalhando muito, e economizando mais ainda.
 Eles nunca têm mais do que precisam em casa. Na própria casa digo. Porque alguns chegam a ter tantos imóveis, que nem sabem quantos são ao todo.
 Estão sempre reclamando de que a vida está difícil. É são extremamente desconfiados. Desconfiam de todos os prestadores de serviços. Têm pesadelos constantes de que foram roubados.
 Geralmente por não terem formação, morrem de medo de serem enganados.
 Não têm timidez nenhuma em pedir desconto, e possuem uma energia sobrenatural para uma negociação, nem que seja um desconto num café expresso.
 Desconfiam que a nova privada da reforma, de um de seus imóveis foi trocada. Que a faxineira está roubando cuecas usadas.
 Andam com as chaves de toda a casa e gavetas na cintura. Tudo está sempre trancado.
 Em hotéis, dormem com um dos olhos abertos.
 Em restaurantes, que só vão, se extremamente necessário, dão um show à parte.
 Se o garçom simplesmente pronunciar a palavra couvert, é capaz do rico avarento passar mal.
 Sempre leva as sobras para viagem. A água só é boa se for da torneira. E não se enganem, o rico avarento não aceita cortesias, nem presentes. Pois é muito desconfiado.
 A não ser um presente de casamento, que quando não considera bom o suficiente, devolve o presente e cobra um melhor.
 Se você leitor, considera isso muito exagerado, saiba que eu tive e ainda tenho parentes assim. E quando você tem acesso a lógica deles, as privações e as perseguições que passaram, tudo faz sentido.
 Este tipo não admira ninguém, não inveja ninguém, não odeia ninguém. Só tem medo. Muito medo e desconfiança. Seria cômico, se não fosse trágico.
 O rico avarento, geralmente começa a trabalhar aos oito anos de idade, e só para quando morre.




O rico- Forbes.



 E finalmente o rico Forbes. Este tipo, que na minha opinião deveria comprar a revista Forbes, e assim fazer com que seu nome constasse sempre da lista, mas não. Ao invés disso, o rico- Forbes, sofre todo ano.
 Será que meu nome vai estar na lista este ano? Será que cai de posição?
 É um ilusionista. É rico claro. Mas ele faz com que pensemos que ele é dez, as vezes até cem vezes mais rico do que ele realmente é.
 Por isso tudo na sua vida, tem de ter um significado de marketing. Não basta ser bilionário, tem de parecer bilionário, é o seu lema.
 O rico Forbes, faz selfies na frente de navios, edifícios novos de 50 andares. Sempre possuem carros milionários, helicópteros, festas extravagantes milionárias, e sempre pagam para serem rodeados de celebridades.
 Vivem intensamente. Perdem cem milhões num dia, ganham 150 milhões no outro dia.
 São adrenalina pura. Mas nem sempre a frase do 007: “Eu nunca perco”. Funciona.

 Mas a verdade é que as mulheres lindas tendem a gostar dos ricos Forbes.  

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sobre verticalização.

Agora virou moda, falar que verticalização é prejudicial a cidade, a qualidade de vida, e seria um estilo de vida ultrapassado. 
E que os bairros deveriam ser, ou estritamente residenciais, ou estritamente comerciais. 
Eu que trabalho em casa onde ficaria? Tem uma balada, bar, de coxinhas, em frente de casa. Se eu gosto? Claro que não. Se tocasse um jazz, ao invés de música de academia, eu teria mais tolerância? Claro que sim. Adoraria. 
No que concluo, além de o inferno serem os outros, que numa cidade, para ser bela, interessante, não contam só as edificações, a música, o barulho e o verde (mesmo porque 99 por cento da arquitetura do mundo, não são obras de arte, pelo contrário, é ruim), contam outras variantes também. O ar por exemplo. E a cultura.
O que São Paulo tem de bom? São Paulo só é bom, quando o que tem de ruim, está um pouquinho melhor. O trânsito calmo, a balada dos coxinhas vazia, o calor mais ameno, e a oferta cultural maior.
De maneira, que não são os prédios novos a serem construídos, que me amedrontam. O que me amedronta, é estes novos prédios, serem parecidos com os antigos, que já existem.
E eles continuarem a serem habitados, por adoradores de shoppings, carros, barulho e condomínios.
Deixem os prédios em paz. Eles não são os culpados.

Ipanema, 1,6k quadrados de talento.

Acho que fui injusto com Ipanema, no meu último post. Ou ainda não tão bem compreendido. Ao compará-la a Copacabana. Eu causei conflito com alguns bairristas, e apaixonados por Ipanema. 
Tentarei concertar. Antes de mais nada, Ipanema, tem em mim, talvez, a maior de todas as influências culturais. Meus pais são da geração Ipanema. Todos os escritores, teatrólogos, divas, jornalistas, músicos, poetas, estilistas, pintores, formadores de opinião, cineastas, que eles me apresentaram, ou que eu tenha descoberto por mim mesmo, quase todos, vieram de Ipanema.
Por este motivo, acredito que temos um paradoxo, me sinto tão a vontade em Ipanema, que acabo ficando incomodado. Ainda muito criança, eu rodava as boutiques da rua Oscar Freire e Augusta com a minha mãe, e ainda muito criança minha mesma mãe me apresentou a Rua Visconde de Pirajá, dizendo que era como a Oscar Freire do Rio.
São Paulo não tem nenhum pedaço tão concentrado, onde tenham vivido tantos talentos juntos. Mas o que eu sinto hoje, é que aqueles nomes todos, aqueles anos todos, ficaram lá para trás da década de 80.
E se já em criança, comecinho dos anos 80, eu já reconhecia a similaridade, entre meu bairro Paulistano e Ipanema, agora então, constatar que onde havia o Píer, temos hoje o Fasano e o Bar Astor, é a concretização do que eu disse no post anterior.
Ipanema mudou o mundo. Ipanema foi uma explosão cultural, das mais importantes da história da humanidade. Podendo ser comparada a Firenze e a Atenas facilmente, sem exageros.
Mas o que teria acontecido, para que em tão pouco tempo, sucumbisse a discutível cultura dominadora paulistana?
Não existe lugar no mundo, em que um Paulistano de classe alta, se sinta mais em casa do que Ipanema. Só por isso, concluo que há algo de podre no reino de Ipanema.

Copacabana de novo.

Sem querer passar por elitista, mas aos 40 anos, conheço algumas grandes cidades. Buenos Aires, Lima, São Paulo, Cidade do México, Los Angeles, Nova Iorque, Londres, Paris, Roma (grande na idade), Tóquio, Cairo, Seul...
Por isso sei que cidades deste porte, são muito heterogêneas nas suas regiões, bairros, zonas, distritos. 
Sexta feira, tomo um avião em Congonhas, as 12h e desço no Santos Dumont, as 12:45h. De um bairro central de São Paulo para exatamente o Centro do Rio. É quase como pegar um metrô.
Mas o que eu quero dizer aqui, é de como as praias de Copacabana e Ipanema- Leblon são culturalmente tão distintas.
Seja na arquitetura, comportamento ou ainda etnias.
Como um Paulistano da gema, sinto que Ipanema tenha se tornado uma filial dos Jardins. As mesmas boutiques, restaurantes, hotéis, celebridades, bares, caras e nomes. A mesma comida inclusive e até o mesmo partido político.
Aquela brincadeira de dizer a Tijuca é a Mooca, a Lapa e Santa Tereza, são a Vila Madalena, Botafogo e Flamengo, equivalem a Higienópolis, Barra é Moema. São Conrado é Vila Nova Conceição. Urca é Pacaembu. Lagoa, Gávea e Jardim botânico, são Ibirapuera e Itaim.
Mas e Copacabana? Seria o Bixiga? A Avenida São Luis? Não.
Copacabana, no meu entender, é um caso único. É uma cidade dentro de uma cidade.
Há uma magia dentro de Copacabana. É um paradoxo. É, ao mesmo tempo, o que há de mais cosmopolita no Brasil, e mesmo assim, é, ao mesmo tempo, o que há de mais carioca, regional.
Alguns autores, dizem que Ipanema, foi uma maternidade cultural, um celeiro, berço nos anos 60, 70 e 80. Mas me desculpem, com o metro quadrado mais caro do Brasil, o natural foi o que aconteceu, o establishment Paulistano e os caboclos do “Cantri” Club, tomaram Ipanema.
Já em Copacabana, me sinto as vezes em Paris, as vezes em Havana, outras caminhando por Buenos Aires e principalmente em Nova Iorque. Onde se não em Copacabana, ou NY, se veem Negros e Judeus convivendo pacificamente, lado a lado? E ambas etnias serem tão cariocas, ou tão nova-iorquinas?
Eu que nasci em 74, e nunca cheguei a ver o Asdrúbal, o Píer, o Circo Voador, a Bossa, me apaixonei por Copacabana. Sua decadência, seu Glamour, grandeza, elegância, cultura e cosmopolitismo. Aquilo sim, foi Capital do Brasil. Não Ipanema, me desculpem.

A melhor mentira já contada.

Eram seis na mesa. O ideal são cinco, mas eram seis. Com cinco pessoas a conversa flui. Com seis já não flui. Dispersa em duas, ou até três diferentes papos. Assim diz a regra. 
Mas três deles eram fumantes, que passam mais tempo fora do bar fumando, do que dentro. Daí a conversa também flui. Quanta matemática.
Uma turma hyppe de 40 anos. O que hoje se chama de hyppe. Sendo atendida por uma garçonete de 20 anos. Uma garçonete também hyppe. Já notaram como as pessoas de vinte anos se vestem iguais as pessoas de 40?
Foi assim que se conheceram. Num domingo a tarde. Ele solteiro, grisalho, desquitado. Ela, universitária, engajada, politizada, alternativa, e porque não, aberta a novas experiências. 
No caso a nova experiência era pegar a estrada com o quarentão hyppe, para fotografar o interior do Brasil. 
Ele fora do mercado financeiro. Mas nunca se entendeu, ou se achou nesta profissão. Seu pai era da área, seu tio, irmão, por isso ele tinha relativa familiaridade com alguns termos, mas nunca teve um caso de amor com bolsa de valores, nem identificação. 
Casou-se com uma colega de faculdade. Faculdade de economia. Sua esposa abriu com duas sócias, nada hyppes, nada alternativas, um buffet de festa infantil. 
Um dia o fotografo faltou. No desespero, a mulher o chamou as pressas, para ocupar o lugar do fotografo e retratar a festa infantil, da menina que fazia 4 anos de idade. 
Ele adorou aquilo. As fotos ficaram melhor do que as do fotografo de costume, que havia adoecido. 
Gostou tanto, que fez um curso no MAM de fotografia. Passou a fotografar agora todas as festas infantis. 
Em pouco tempo se demitiu do mercado financeiro, e também se separou da mulher. Virou um fotografo de vez. Conheceu outros fotógrafos, conheceu galerias, se encontrou. 
Mudou de bairro, aprendeu a cozinhar, passou a frequentar todos os eventos culturais da cidade de São Paulo. Estava feliz e realizado. 
Nunca mais ouviu falar da ex-mulher. Sua turma mudou, seus interesses também. 
Como pôde viver tantos anos convivendo com a fotografia, sem nunca ter se dado conta, de que ela era sua vocação, sua paixão?
A universitária fazia cerâmicas. Ou melhor estudava artes. 
Foi uma viagem incrível. Era o final dos anos 80. O Brasil se democratizava. A menina tinha longos cabelos ruivos. Branca, ela contrastava com sertão do Brasil, ou melhor, o completava. 
Leila, puxou a mãe. Tem lindos cabelos ruivos. Coisa rara, pois os ruivos estão em extinção. Mas diferente dos pais, fez direito. Nada de artes visuais. 
Leila, entrou no escritório de Rita, uma senhora de uns 60 anos. Era Rita quem organizava e decidia todo o evento. No final ao se despedirem, Rita disse algo que pegou Leila de surpresa:
“Às vezes, a paixão de uma pessoa, está bem debaixo do nariz dela. Mas se você não mostra, não aponta, para esta pessoa, talvez ela passe uma vida inteira sem perceber. Sem se encontrar.”
Leila sem entender nada, perguntou de quem Rita falava. E a senhora respondeu, que era de Celso, pai de Leila. 
“A senhora conheceu meu pai?”
“Não só conheci, como contei pra ele uma mentira, que foi talvez a melhor coisa que aconteceu na vida dele. Uma mentira, sem a qual você menina, nem seu filho tão pouco, existiriam.”
“E posso saber qual é esta mentira?” Perguntou Leila. 
Rita riu, deu de ombros. 
“Claro que pode”.
“E qual é?”
“O fotografo adoeceu. Você Celso, precisa ficar hoje no lugar dele"

O que há em comum entre Galileu e Macbeth? Subtítulo: Ou aos “iniciados”.

A primeira coisa, que ambos têm em comum, os personagens de ficção, não o Galileu, personagem histórico, que realmente existiu, é que dão título a duas peças de teatro, das quais gosto muito. 
O texto: “A vida de Galileu Galilei”, de Bertold Brecht me foi apresentado pela primeira vez, por um professor de física, quando eu estava na quinta série ginasial, (não sei como chama hoje).
O que eu conto aqui, não estraga em absoluto, a trama, ou a surpresa do espetáculo, já que tanto Galileu, quanto sua vida são fatos conhecidos de todos. Vou fazer um breve resumo:
A partir da descoberta, ou melhor, da invenção do telescópio, Galileu provou que as luas de Júpiter eram satélites do planeta. Provou, por observação e métodos científicos, que os planetas giram em torno do sol, e não o sol e os astros e estrelas giram em torno da terra. 
Logo provou que a terra não é o centro do universo. Claro que depois os Americanos mostraram, que sim, a Terra é o centro do universo. Já que o mesmo universo não tem centro, logo, tanto faz qual é o centro. É geralmente onde você está. Ou não. Você escolhe. Mesmo porque o sol também se move. Enfim... 
Vou confessar uma coisa, as duas peças teatrais, não têm, talvez, nada a ver. Mas como eu assisti ao espetáculo, Galileu sexta e passei sábado e domingo estudando Macbeth, resolvi escrever de ambos no mesmo ensaio. Quem sabe não descubro algo. 
Galileu, é considerado por alguns, a peça mais importante do século XX. Coloca a ciência e suas responsabilidades no palco. Mas é ela a mais bonita? 
Não me identifico com Galileu. Sorry Brecht, não me provoca assim tanta polêmica. Mas a ideia de fazer um covarde um herói, ou ainda um herói em covarde, ou ainda um cientista em apenas um cara normal e cagão... É genial. Não acho Galileu mais humano por ter se acovardado perante a inquisição. Giovani Bruno, não se acovardou. Sei lá. 
O ponto, não ee se Galileu teve um grande amor, o ponto ee que Brecht me fez chorar numa única cena. Ok me fez refletir, e pensar e questionar em muitas cenas. Mas chorar?
É quando Galileu traz toda humanidade com ele. A Europa toda querendo que ele não renegasse sua fé na razão, e ele fraqueja. 
Neste dia, neste momento, eu, Leo Chacra, estou lá em Roma. Eu, você leitor, todos nós humanidade. Pedindo que ele encare a inquisição e diga a verdade. 
Eu sei o que aquelas igrejas são belas, e o que a mensagem de Cristo é, e continua a ser linda, contituiam uma situaçao bem diferente da de hoje. Outro contexto. Ainda mais naquele século XVII. 
Mas ele calou-se. Pior, Galileu voltou atrás. Em dois ou três minutos de fala, Galileu regrediu milênios.
Brecht acertou aí. Se este dia fatídico não foi o mais triste da humanidade, com certeza foi um dos mais, junto com o inverso da bomba atômica. 
Por isso eu entendo Galileu. Mas não o perdoo. E reverencio Brecht por pegar uma emoção tão grande, que ninguém via, pois Galileu não foi um general, não foi herói, não foi um revolucionário, foi simplesmente um dos maiores cientistas que a história já teve. 
Pegar esta foto, e fazer um espetáculo tão lindo. 
Já Macbeth, um homem comum, não muito inteligente, não se acovardou. Macbeth, sem ideologia nenhuma, de um egoísmo total, quis ser rei. Ou ainda, viu a possibilidade de mudar tudo, e mudou. Macbeth nunca se acovardou. Claro que durante o processo, Galileu deve ter cogitado falar a verdade, e Macbeth teve medo e quase desistiu. Mas Macbeth não desistiu. E para ser rei, matou o rei e todos que se opuseram contra ele. 
Macbeth amou muito. E aí, é que entramos num jogo maluco. Macbeth só fez é matar e cometer o mal. Neste sentido, todos admiram Macbeth, porque bem da verdade, o outro Rei, o que ele matou, não era lá muito diferente dele. 
Já Galileu... Um homem brilhante. E nos desapontou. 
Vá ver Galileu no teatro Tuca. E observe que você quererá no momento da inquisição, se levantar da cadeira, ir até o palco fazer Galileu dizer a verdade, e depois matar todos aqueles cardeais “filhas da puta”. 
Mas você não vai. Não vai, porque você leitor, também é um cagão assim como Galileu. 
E neste momento, você vai invejar a coragem de Macbeth. Deste escocês que nunca fez nada, absolutamente nada, pela humanidade. 
E vai desprezar Galileu. Este italiano, que talvez se não tivesse existido, ainda não teríamos nem pisado na lua, quanto menos construido bombas nucleares.

Atores, diretoras e gastronomia.

Era só um teste de publicidade. Mas a minha mente já ia longe. Sempre que me chamam para trabalhar como ator, me vem James Dean na cabeça. 
Por que James Dean? Acho que quando criança, ou entrando na vida adulta, quando temos de escolher o que fazer da vida, eu ora queria ser arquiteto, ora cineasta. Mas antes disso, de ambas ocupações, eu queria ser ator. 
Queria ser James Dean. 
Meus pais é que me falaram de James Dean pela primeira vez. Disseram-me que ele, o James Dean, tinha algo de sobre natural. Um mito. A geração dos meus pais tem outros mitos também. Che Guevara, Beatles... 
Mas Leo! Você já tem 40 anos de idade, James Dean morreu com 24. James Dean fazia filmes grandiosos. Você está indo fazer um simples teste publicitário. Não tem nada a ver. 
James Dean, não ficava pensando numa crônica antes de filmar. Ele provavelmente pensava no texto, no personagem, na cena, ele era um ator, não um escritor. 
Acho que o negócio do James Dean comigo, era, ou ainda é, algo só pra agradar meus pais. 
Nesta mesma época, em que eles compraram um video cassete, e colocaram “Casablanca” e “Rebelde sem causa” para vermos, eu era fã mesmo do Eddie Murphy, Clint Eastwood e principalmente do Errol Flynn. 
Depois conheci Al Pacino, Jeremy Irons e Peter Sellers. Ai quando entrei na escola de teatro, queria ser Jardel Filho e Sergio Cardoso. 
Então veio uma fase de Diogo Vilella, Pedro Cardoso. E hoje minha cabeça confunde tudo, penso no James Dean, mas é uma mistura de Leonardo de Caprio com Marlon Brando que me vem na cabeça. 
Enfim. Decorei todo o texto. Mas ao chegar ao teste, o produtor de casting, me diz que o meu texto é outro. Que eu não aparento o perfil do texto que eu tinha decorado. Que haviam me mandado. Registro mais jovem no video, ele diz. 
Ao mesmo instante uma menina sai do estúdio e diz pra entrar mais dois atores. Ela passa por todos e vai na rua fumar. É muito jovem. Descubro que é a diretora. Me pareceu simpática. Empolgada. Nunca fui de querer agradar diretores. Sempre quis é agradar a mim mesmo. 
Tento argumentar com a diretora que eu decorei o outro texto, e se por um acaso, eu não poderia fazer os dois textos. O que eu tinha decorado antes, e o novo, que eu tivera só 5 minutos durante a maquiagem pra decorar. 
Claro que eu sabia, que absolutamente, ela não iria perder tempo comigo, fazendo um texto que não é o meu perfil. 
Mas o que queria mesmo era me desculpar, justificar, por não saber tão bem o texto. As vezes atores passam por ingênuos, mas são bem ligeiros. 
“O que você é do Guga Chacra? ”
Ela me perguntou isso depois de olhar para a minha claquete com o meu nome: Leo Chacra. 
“Você conhece o meu irmão? ”
Perguntei por perguntar. É claro que conhece, ele é da TV. 
A verdade é que eu não sabia o texto. A pior coisa que pode acontecer a um ator, é não saber o texto. Fica parecendo que ele é ruim. É como um cantor tentar cantar, sem saber a letra da música. 
Mas há coisas que ninguém explica. Pouco antes de começar a cena, nosso cérebro se divide em dois. Duas metades bem definidas. 
Uma metade busca o texto desesperadamente, busca as marcas, a indicação da diretora, fica pensando na crônica que vai escrever, fica imaginando se a diretora está de regime, por isso sai tanto pra fumar. Se a diretora gosta de meninos, ou de meninas. Se o corpo está solto, na maldita camisa que a figurinista escolheu apertada pra caralho, que me deixa gordo. Na dicção, na contenção dos gestos... 
Já a outra metade da cabeça, sabe-se la de onde, começa a dar entonações, sabe o texto, tem um domínio total do que está acontecendo. Se joga e começa a fazer coisas que nada tem a ver com Leo, ou com James Dean, começa a querer mais. Fazer mais. Não quer mais sair dali. Esta segunda metade, quer fazer a cena, de mais dez maneiras diferentes. 
Enquanto a outra metade, a mais moderada, tímida, racional, só pensa em ir embora, pegar o cache teste. Sair dali o mais rápido possível. Ela sente que eu estou duro. Que as frases saem tremidas. 
No final a diretora bate palmas. 
“Você conseguiu. Deu o texto inteirinho sem errar”.
Convivendo com atores há 23 anos, dirigindo atores, namorando atrizes, e ainda fazendo pontas aqui e lá como ator, chego cada vez mais a conclusão, que ser ator, é a capacidade, de deixar o cérebro funcionando com duas partes independentes que se dão muito bem. 
Mas também sou obrigado a concordar, que a simples química com o diretor, pode fazer um ator render ou ser um total desastre. 
Porque a cena nunca é só do ator. É do diretor também. Pelo menos quando eu estou dirigindo. Como disse o Boal uma vez:
“O diretor, quando dirige, está assim como o pintor quando faz uma tela, criando arte, fazendo arte”.
Deixar de dirigir, quando o ator está sublime, também é uma arte. 
Mas nesta vida já vi de tudo. Já vi diretor dizer que o ator não sabe, e é ruim. Humilhar o ator. E mesmo assim, o ator ir pra casa feliz. 
Como eu disse. Cada um com a sua química. 
O fato é que assim como um grande chef sabe:
“Que um prato, nunca será melhor do que os ingredientes”. 
Um diretor deveria saber, que uma cena, nunca será melhor que o texto e os atores.