quinta-feira, 8 de março de 2012

Um café e a Vila Madalena.

 O rapaz vê a garota entrar no cinema. Ele levanta a mão para ser visto. O lugar não está cheio, ela então vem sorrindo e lhe cumprimenta. Senta ao seu lado e tira um pedaço de bolo de chocolate da bolsa. Com um garfo de plástico começa a comer, enquanto conversam banalidades.
 Ela diz então terminado o bolo:
 “Quero dar um tempo.”
 Ele, o rapaz, pego de surpresa nem ouve as explicações. As luzes se apagam e o filme começa.
 Ontem eu fui na Vila Madalena. Fui resolver uma questão. Era de tarde. Uma linda tarde. Terminado o compromisso, eu fui me arriscar no famoso Café recentemente aberto no bairro. Com fama de ser talvez o melhor da cidade.
 Fiquei decepcionado. Muito. Não havia nada no local que dialogasse com o bairro da Vila Madalena. Famoso, para os que não conhecem, pela suas galerias, pelo povo alternativo. Novos estilistas, livrarias, músicos, pequenos teatros e pelo seu ambiente boêmio e colorido.
 O lugar era como um espelho do próprio lugar. Fechado em si mesmo. Mas o café, realmente um dos melhores que já provei.
 Terminado o café, fui andar pelo bairro. Estava uma luz de fim de tarde bárbara. As galerias fechadas. Um vento gostoso. Peguei o carro e voltei para o meu bairro.
 Passaram-se anos e o rapaz do cinema, nem lembra o filme daquele dia. Mas lembra aquele dia. Os momentos antes da sessão.
 Aquele rapaz sou eu.
 Escrevi para a minha “amiga” a que me falou do Café, que eu havia achado o local fechado em si mesmo. Mas o café maravilindo.
 Momentos antes da sessão, é a hora na qual nós vamos trocar nossas fantasias com as fantasias do filme que virá. Às vezes elas não se batem. São tão distintas que a primeira reação é a de achar que as fantasias do filme é que são ruins.
 Afinal o que é o bairro da Vila Madalena? Muros coloridos? Lançamentos imobiliários descolados? O lugar que já serviu de moradia para artistas e intelectuais, mas que hoje se aburguesou?
 Existem seguranças de terno e manobristas para todo lugar que se olhe.
 Talvez os bairros sejam complexos como as pessoas. Talvez eu nunca entenda como possa existir um samba de frente para um cemitério. O túmulo do samba?
 Mas ele existe e é ao mesmo tempo portenho e carioca.
 Acho que é isso, a Vila Madalena é o encontro de Buenos Aires com o Rio de Janeiro.
 Uns três dias depois a garota do bolo de chocolate voltou atrás.
Há sim algo de mágico na Vila Madalena. E esta mágica talvez seja destruída antes que ela seja revelada. Talvez o Café seja mais Vila madalena, do que o meu pobre esteriótipo. 
 Assim como pessoas, existem bairros, dos quais seremos eternamente apaixonados. Mesmo depois de mortos. 
 "Sem açúcar." 

Um comentário:

  1. pohan, achei lyndo.
    li o primeiro parágrafo e vou pro segundo, quando vc muda de assunto, aí vc me pega, me envolvo mais. onde ele quer chegar? gostei.
    sim, existem coisas das quais sempre gostaremos e tentaremos decifrar e despedaçar pra entender e montar de novo e vamos achar que compreendemos. mas esse gostar sempre diz mais sobre nós mesmos do que sobre a coisa em si.
    beijo,

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