quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Meu nome não é fazenda, é chacra.

Uma moça com amigos em comum se aproxima de mim numa festa e pergunta:

-Como está a decoração?

-Decoração?

Eu digo surpreso. Decoração de que? De que texto?

-Você está famoso decorando um monte de casa de bacanas.

A moça, aliás, bem sem charme da uma risadinha e me sai com essa:

-Tchau Leo Selteman.

Grito que meu nome é Chacra, James Chacra, quer dizer Leo Bond. Oh bebedeira. Tarde demais ela nem ouve. Uma amiga que presenciou me explica que Leo Shehtman é um famoso decorador e a moça provavelmente confunde Chacra com Shehtman.

Eis que alguns dias depois, o meu celular toca e dessa vez para a minha alegria, uma voz feminina me pergunta se eu sou o famoso dramaturgo Leo Chacra. Agora sim, nada de Da Vinci, de Leo Karma, Leo Jaime ela queria uma entrevista comigo mesmo. Eu confirmei três vezes é comigo mesmo? E ela:

-Claro com você Leo Chacra diretor de teatro. Tem outro?

Pensei por um instante e disse que tinha um Leo Chacra no facebook. Pela foto é um mal encarado, parece um personagem do Tarantino e provavelmente não fala português, pois nunca me respondeu nenhuma mensagem oculta e olha que eu já o xinguei muito.

-Estou aqui em baixo desce.

Eu não tinha a mínima idéia do que eu fosse encontrar. Ela me disse que era estudante de letras. Tentarei descrevê-la leitor. Sabe aquele tipo de pessoa que quando você a conhece, o kilo da Augusta, por exemplo, onde fomos almoçar vira um palácio renascentista com vista para o mediterrâneo? Ao som de Louis Armstrong ao vivo?

Que a presença dela transforma a livraria da Vila, com seus livros de arte no museu do Louvre? Aquela mulher a qual andando na rua deixa São Paulo mais charmosa que Veneza?

Então era uma jovem menina assim. Boca cor de um vermelho que eu nunca tinha visto, cabelos curtinhos, um pescoço de enfartar qualquer vampiro. Enfim um conjunto de deixar Michelangelo com inveja do ser que a criou.

Durante a tarde em que passamos juntos ela perguntou sobe minha carreira. Discorreu sobre os caminhos futuros da arte. Falou-me sobre seus cineastas preferidos. E fomos ver a vila modernista de Flávio de Carvalho na Lorena. Que ao lado dela é um lugar como outro qualquer. E o que aquilo pode ter de especial ao lado de um ser mais belo que a mais bela obra de arte? Mas refletido nos olhos dela aquela casa se transformava em algo mais do que o senhor Niemeyer sonhou um dia.

Não leitor. Eu não a beijei, pelo simples fato de não se poder beijar obras de arte. E também pela nossa escancarada diferença de década e meia de idade. Mas que eu tentei eu tentei.

Ofereci uma carona para a sua casa ela achou justo. Chegando à porta da casa dela ela me disse que a entrevista havia ficado ótima. Nem perguntei para onde era. E quando ela já ia entrando parou e voltou:

-Só mais uma coisa.

-Pode dizer.

E ela meio sem graça.

-Depois eu queria falar sobre o seu pai. Ficou faltando.

-Meu pai?

Ela fez uma cara de entediada com a minha reação.

-É o seu pai sim. O seu pai o Plínio Marcos. #



#nota do autor: Leo Lama é diretor e autor de teatro. É também filho do grande dramaturgo Plínio Marcos.

2 comentários:

  1. Amei!! Muito, muito boa!!! E o final, como as tantas outras escritas por ti, surpreendente!
    Parabéns!!

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