segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Minha primeira vez

Lembro-me que na minha primeira vez não senti absolutamente nada. Meu pai havia nos levado, eu e meus irmãos, ao estádio assistir a uma partida de futebol. Fiquei fascinado com os rojões antes do jogo propriamente dito. Depois dos fogos não me recordo de nada. Nem quem eram os times, nem quanto foi o jogo.


A minha relação com futebol sempre foi a de relação alguma. É uma eterna sensação de ser um espião estrangeiro dentro do meu próprio país. Não há um dia se quer que algum outro ser humano do sexo masculino, principalmente porteiros de prédio e taxistas que não venham me perguntar:

“Viu o jogo ontem”? “Sabe quanto ta o jogo”? “E o Santos”? No que eu não posso responder a verdade: “Claro que não vi o jogo”. “Mas não me interessa mesmo o resultado do jogo”. “O Santos continua lá em Santos e eu aqui em São Paulo”.

Não, eu não dou esses tipos de respostas, aprendi uma técnica que rende até quarenta minutos de conversa sem que eles desconfiem que eu seja um E.T. Consiste em só concordar com o interlocutor. Se ele disser que o jogo foi fraco, concorde. Fraquíssimo. Se ele for palmeirense seja também. Se disser que tal jogador é melhor do que o outro, claro que é.

Nesta primeira visita ao estádio e última, me recordo de me dar um sono, uma angustia, aquilo foi uma chatice só.

Mas também por que dizer que futebol é brasileiro? Tem no mundo todo. Acontece que aqui aceitamos tudo. O homem pode até ser ateu, gay, bêbado, louco, ator, bailarino, travesti, agora se alguém disser que não gosta de futebol é considerado um traidor da pátria amada, um criminoso terrorista.

Você mesmo leitor já está com raiva de mim. Confesse, está. No Brasil futebol é a coisa mais sagrada que existe. E eu sou um inimigo público!

Mas digo que mesmo que todos virem rinocerontes eu continuo um ser humano. Podem me cercar. Podem tirar a minha vida. Mas nunca vão tirar a minha... Liberdade. Ok, “Ionesco” e “Coração valente”.

Uma amiga me levou a um clube em que só as mulheres freqüentam. Nessas reuniões elas me orientaram que não se pode falar de futebol e que devíamos relatar decepções amorosas e também falar mal de outras pessoas não presentes. No que eu pensei. “Vou acabar presidente desse clube”.

Concluindo certa vez numa festa junina eu ainda menino, entrei na barraca da cigana que lia o futuro, ela pegou minha mão e não teve dúvida: “Você vai ser jogador de futebol quando crescer”. Acho que foi aí que eu descobri o teatro. Dei uma piscadinha para a cigana-atriz e disse: “Então Deus queira, que eu não cresça nunca”.

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