domingo, 15 de janeiro de 2012

Tipos de mulheres em férias no sul da Bahia.


Estudante de direito:
Não sei o que move as pessoas a saírem de vários pontos do Brasil em direção ao sul da Bahia. Ela foi passar férias com os amigos. Se apaixonou por Caraíva. Pela lua, pelo Rio. Um universo calmo. Uma coca cola quente, que demorava 40 minutos para chegar até sua mesa.
 Ele um nativo negro de uns 30 anos. As amigas ficaram horrorizadas. 
 E ficaram mais ainda quando ela disse que não voltaria para Campinas. Ficaria ali, morando com o vendedor de tatuagens de rena.
 O irmão mais novo podia escolher fazer faculdade de gastronomia. Por que ela que deveria assumir o escritório de advocacia do pai?
 Dane-se tudo. Passaram-se meses e a família desesperada. Já tinham mandado o dinheiro da passagem quatro vezes e ela não voltava.
 O pai não teve dúvidas desceu ainda de terno no aeroporto de Porto Seguro, pegou um taxi e seguiu para Caraíva. O taxista direitista se comoveu com o sofrimento daquele pai.
 "Dei tudo pra ela, melhor escola de Campinas. Melhor clube, conhece o mundo. Dei carro. Festa de quinze anos. E agora se envolve com um marginal?"
 Chegaram à vila. O taxista atravessou de barco junto com o doutor advogado, o rio que separa Caraíva nova de Caraíva velha. Na velha (antiga vila) os carros não entram.
 Os vizinhos disseram que a menina estava apanhando muito do vendedor de tatuagem. Vendedor na alta temporada. Porque na baixa eles estavam é vivendo do dinheiro das passagens, que ela nunca comprava.
 Disseram pra tomar cuidado que era um homem agressivo. Por sorte ele não estava em casa. A menina estava sentada na porta. O pai a achou tão magra, tão mal tratada. Pai e filha se abraçaram e choraram, choraram, choraram.
 No aeroporto o pai lhe comprou roupas novas. Ela prometeu que iria voltar a estudar. Destrancar a matricula. Mesmo porque seria bom para o futuro do filho.
 “Filho?”
 “Sim pai, você vai ser avo.”
 Por sorte, o taxista ainda estava lá. O pai pediu que a levasse de volta.
 Quando ela chegou, viu o seu amado desolado chorando. Correu para os seus braços e até hoje vivem um grande amor.
 Ela conseguiu. O que milhares de turistas sonham todos os verões.
 Batizou a filha com o nome de Gabriela.  


Ex namorada:
 Ela estava na praia sem óculos. Por isso não reconheceu de imediato aquele gordo grisalho que saia do mar e agora ia em sua direção. Meu Deus! Era o seu ex namorado.
 Não acredito! Ele falava sem parar, mas ela mal ouvia. Milhares de destinos turísticos pelo mundo, e ele tinha que ir bem pra lá, Caraíva? Ah não!
  De repente ela se deu conta do pior. As amigas dele todas também estavam lá. E agora? O que fazer com aquele ex amante, agora decadente e ciumento? Vigiando ela a cada passo. A cada minuto. Ele ia até na sua pousada atrás dela. Mas como ele descobriu qual era a pousada? Ele sabia tudo.  
 E todas aquelas amigas e amigos dele. Todos a vigiando. Só havia um jeito. Matá-lo.
 “Vamos para o seu quarto?”
 Lá, ela pegou os remédios de coração dele. E jogou tudo fora. Não deu outra, ele morreu do coração. Mas ninguém se incomodou. Afinal era dia 31 de dezembro e todos já tinham comprado o convite da festa.






Intelectual tropicalista:
 Geralmente tem cabelo curto.  São confundidas com lésbicas, mas não são. Ou será que são? Elas têm um estilo simples no vestir. Olham torto para todos os outros turistas. Mas são só sorrisos para os nativos.
  Sentam e andam geralmente em quatro. Parecem sempre de mal humor. Uma das quatro, às vezes é bonita, se veste com mais glamour, mas também tem um mal humor. Estão rodeadas de livros.
 Se imaginam em Cuba. A Bahia pra elas é a verdadeira América Latina. Longe da cultura norte- americana.
  Mas um dia acontece. Uma delas, a bonitinha, trai as amigas. Depois de beber muito na festa de ano novo, acaba conhecendo um playboy do mercado financeiro.
 As três restantes e decepcionadas com a transformação que a luz elétrica trouxe para a vila. Abandonam a amiga com playboy e seguem para o sul. Em busca de uma terra ainda virgem. De uma nova praia, sem turistas.
 Com uma sociedade justa e igualitária. Com geradores elétricos a diesel.
 E vão. Vão com muito ódio da amiga. Porque na verdade o playboy era um gostoso.


Alcoólatra:
 Ela vai a Caraíva em busca de paz para poder beber. Não está nem ai para a lua, para praia, desde que não falte cachaça. E la é o lugar ideal. Ninguém a condena. Não tem horários. E são muitos os bares.
 Da pousada para o bar, do bar para a pousada. Grita, é grossa. E faz muito xixi.  
 Fuma maconha, cigarro e toma qualquer droga que lhe oferecerem. Se considera uma pessoa alternativa.
 Mas um dia no "Chorinho", pede fogo a um careta. O pior, se apaixona pelo careta. O cara faz aquele negocio... Aquele esporte com o paraquedazinho, ele também corre, rema. Ele a leva conhecer outras praias próximas.
 E ela se dá conta de como a Bahia tem uma natureza bonita. 
 Promete pra si mesma que vai emagrecer e mudar de vida.
 Feliz ano novo! Ela ainda aprende com o esportista que Salvador é a capital da Bahia. E depois de dez anos indo pra Caraíva ela descobre que existem ainda outros estados no Nordeste.
 E dá um grito ao conhecer pela primeira vez, um troço chamado água de coco.


Estrangeira Gozadora:
e estrangeira brasilianista.
 Você está andando pela Vila e de repente vê aquela européia de 1,80 metros, cavala te olhando e sorrindo. 
 Veio de Londres e é bem culta. Chega até te pagar uma tal bebida, "busca vida". Algo parecido com pinga, água e açúcar. Ela toma umas dez doses. Rola uns beijos.
 No dia seguinte você mal acordou e vê a Gringa chegando com vários caras de uma caminhada de quilômetros.
 Começa a desconfiar que aquela gringa não dorme nunca. E se dorme, é com uma pessoa diferente a cada noite. E a gringa sempre fazendo piadas. Muitas piadas.
 Ai você começa a fingir que não a vê, a evita-la. E num dia no forró vê uma menina dançando tão maravilhosamente bem. Com um vestido mais brasileiro do que os brasileiros.
 Fica procurando a equipe de arte que fez aquele personagem. Então ela vem falar com você, ela não é brasileira. Mas ela, apesar de inglesa, fala português muito bem.
 Ela ama o Brasil. Ela realmente ama o Brasil. Talvez ela seja a única pessoa em Caraíva a amar realmente aquele lugar. De verdade.
 “Desculpe eu não sei dançar forró.”
 Ela faz uma cara de tudo bem.
 E me afasto daquele ser. Talvez a reencarnação de Santa clara.
 A mulher mais “brasileira” de Caraíva.


Dezoito anos em busca da primeira vez:
 Não adianta. Quando vamos à Bahia, mas precisamente ao sul da Bahia, com a idade dezoito anos é uma aventura.
 Lá somos livres. Adultos. Temos a vida toda para sonhar. E são essas meninas de 18, as mais imprevisíveis. Porque nem elas sabem o que vai acontecer a cada página que se vira.
 Ai elas te convidam pra sentar. Não poucas vezes são mais espertas que os “adultos”. Compram uma vodca e um saco de gelo. E tomam a garrafa rindo. Rindo de si mesmas. Rindo dos outros. E como são criativas.
 Então dizem que você tem a idade do padrasto delas. E você não sei da onde se lembra das suas primeiras vezes. E o pior começa a contar a elas a sua primeira vez.
 Que aconteceu muito antes mesmo delas terem nascido.
 E você se da conta que a primeira vez para uma mulher é o mesmo que para um homem. Por mais que elas achem que pra gente é algo como experimentar café pela primeira vez. Nós sabemos que não.
 Mas fingimos indiferença.
 E como é bom ver que o mundo não parou nos anos 90. E me dá uma vontade de pedir:
 “Me levem com vocês meninas recém saídas da escola.”
 Eu quero esta aventura. Quero muito.
 Porque eu não suporto o julgamento dos adultos. O tédio.
 E pra elas tudo é a primeira vez. E a primeira é sempre inesquecível.


Balzaca ex doidinha:
 Elas têm a minha idade. Já foram uns dez verões para Caraíva. É a primeira geração que realmente construiu aquela cultura. São as verdadeiras alternativas. Forró, cachaça, praia e histórias, muitas histórias.
 E lá estão elas de novo. Elas que há vinte anos eram as de 18 em busca da primeira vez. E elas têm de fazer um esforço sobre humano para fingir que é tudo primeira vez novamente.
 Mas o mundo mudou. A esquerda já está no poder há décadas. A luz elétrica já chegou. Nenhum gênio do forró nasceu.
 E aquela cultura se transformou. Assim como o rock and roll.
 Não há mais novidades. Tudo é previsível. Até os aeroportos.
 E a gente se entende. A gente se gosta. Porque o sul da Bahia, bem da verdade, é bem Paulistano.
 E a balzaca, ex doidinha, chega até o rio Caraíva. Dobra a sua roupa com cuidado e dá um mergulho pra se despedir.
 Quanta coisa eu já senti aqui. Quanta coisa já vivi aqui.
 Deita nas águas do Rio Caraíva e sorri.
 Dia seguinte desembarca em Guarulhos, bronzeada e bela.

5 comentários:

  1. Olha....eu sou a balzaca ex-doidinha, mas vou te dizer que já passei do décimo verão em Caraíva e hj me meto lá por 2 motivos: a)todos os meus amigos balzacos ex-doidinhos continuam por lá. b)NÃO TENHO QUE PEGAR MEU CARRO E FICAR 5 MIL ANOS NO TRANSITO. E sim, tem a lua, tem o Rio (que eu não frequento há anos "pq é muuuuuito longe") tem todos os bares, tem o sol incessante. Escuta, vc é irmão do Robert?

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  2. Maria Eugênia Léo Castilho16 de janeiro de 2012 10:32

    Sen-sa-cio-nal!

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  3. Paulinas!!! Eu sou sim irmão do Robert. rsrsrsrs beijos

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  4. hahahaha, identifiquei-o na hora. Estudei com o Robert a vida inteira no Mater Dei.....e no resto da vida, o fim de todo grande aluno, no Objetivo do Itaim. Má que ótemo hein. Adorei as definições. Eu, como genuína caraivana balzaca, sou obrigada a concordar com todas as descrições. Seguirei este brog. bjs.

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